CAP II – VIOLÊNCIA E INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR – SUPERVISÃO DO PROFESSOR
2. Definição de Conceitos
2.1. A “Descoberta” da Violência e Indisciplina na Escola
A desordem existente nas escolas, que não está imune a este tipo de problemas, parece, aparentemente, incompatível com os valores e os princípios em que assenta a educação. Desde há muito que tem sido objecto de diversas publicações científicas e alvo de uma atenção considerável por parte da comunicação social.
No nosso país, a profunda mudança política que se viveu por volta dos anos setenta teve efeitos positivos, mas simultaneamente gerou responsabilidades na percepção do aumento de comportamentos de transgressão escolar. O modo como se processaram essas alterações foi susceptível de provocar problemas de reajustamento individual, colectivo ou/e institucional, gerando-se dissenso na leitura e interpretação do que se passava na escola, (Ferreira & Silva, 1999). Com a generalização da Educação Básica e a obrigatoriedade de nove anos de escolaridade, os professores foram confrontados com grupos sociais de jovens pertencentes a culturas diversas, que nem sempre eram
Violência e Indisciplina no Contexto Escolar coincidentes com a cultura padrão das escolas. Deste modo, parece ter-se criado um fosso entre a cultura do professor e a dos próprios alunos. (Amado, 1999).
A descoberta mediática da violência na escola não é algo específico ao nosso país, antes pelo contrário, diversas conferências mundiais organizadas por alguns estudiosos, entre os quais podemos citar Debardieux & Blaya (2001), mostram-nos que a violência em contexto escolar é um tema que preocupa muitos autores nos mais diversos países como Suécia, Holanda, Espanha, Alemanha, Inglaterra e outros; assim, foram implementados programas com o propósito de a prevenir ou até mesmo de a irradicar.
As diferentes histórias pessoais dos jovens, as trajectórias individuais, as vivências escolares, vão influenciar os modos de adaptação aos níveis de escolaridade subsequentes, actualmente frequentado por um número mais vasto de jovens.
Mas se por um lado, em termos educacionais é importante uma formação favorável a um aprofundamento dos valores dos alunos, também é necessário que os currículos respondam à heterogeneidade daqueles que pretendemos educar (Ibidem). Tem de haver motivação nos alunos, para que a educação alcance os objectivos a que se propõe. Se não estiverem motivados para o que pretendem aprender, então é mais difícil atingir os objectivos que se deseja. Podemos, pois, referir, que são diversos os países industrializados que se confrontam com este problema; importa salientar que, os jovens em idades de escolaridade, correm mais riscos de ser agredidos no exterior da escola do que no seu seio, pois para muitos a escola ainda continua a ser um lugar seguro e onde se sentem protegidos de diversos males.
Seria necessário encontrar uma “receita mágica” como refere Royer (2003), numa série de programas e politicas públicas de prevenção e intervenção eficazes na luta contra este fenómeno. Mas como refere o autor, só mesmo uma receita mágica que funcionasse em pleno, colocaria fim a esta problemática que vem proliferando sem encontrar barreiras.
Se nos interrogarmos sobre qual o maior factor de indisciplina escolar ou violência juvenil, as respostas serão diversas: para uns é a falta de perspectivas quanto ao futuro, para outros a falta de valores sociais, escolares
Violência e Indisciplina no Contexto Escolar e familiares, para outros ainda um sintoma de rupturas. Mas em primeiro lugar, acreditamos que a prevenção compete à família, que infelizmente, em alguns países onde a miséria impera, maltratam e abandonam os filhos com frequência. Segundo um relatório da UNESCO de 1998, só nos países latino- americanos 57 milhões de crianças moram na rua, originando uma subcultura de jovens vagabundos adolescentes, com a sua própria organização social e a sua maneira de operar. São jovens que praticamente desconhecem o que é viver em família, que nunca tiveram o aconchego de um lar ou o afago de uma mão carinhosa. Esta situação mantém-se até aos nossos dias, e embora tenham sido desenvolvidas medidas diversificadas, a realidade é que pouco ou nada se alterou, continuando a existir este estado de coisas que envergonham a humanidade.
E reiteramos a importância da educação, uma educação que requer condições materiais que a tornem realidade, que necessita de um suporte sólido para poder funcionar, que precisa da garantia do Estado quanto ao acesso material para a escola, que apoie a instituição e que possibilite prescindir do trabalho infantil (Todorov, 1999).
Só através da educação poderemos vislumbrar uma esperança para solucionar este problema, mas uma educação baseada na aprendizagem de conteúdos adequados às capacidades dos nossos alunos e às necessidades laborais e sociais.
Mas a evolução da educação no nosso país ainda é precária, pois a alteração dos conceitos e dos métodos ainda não traduz valores de fraternidade onde a ordem se associa à liberdade (Veiga, 1999).
Com o aumento dos direitos dos alunos, os métodos tradicionais de disciplina ficaram abalados (Ibidem). No entanto, ainda há pais que continuam acorrentados às punições corporais, aos métodos autoritários do passado, esquecendo que este tipo de punição não facilita a troca de argumentos e a própria educação (Veiga, 1997). Não é de admirar que a escola ainda se encontre num período de transição para uma educação com base na responsabilidade e na compreensão, embora o tempo de comunicação seja ainda escasso, necessitando ser alongado.
Violência e Indisciplina no Contexto Escolar Uma vez mais referimos a importância da supervisão na criação de uma escola reflexiva, onde existam currículos flexíveis, educação para a cidadania e estudo acompanhado, tão necessários para atrairmos os alunos à instituição, se contribuírem para a humanização da educação e criação de iguais oportunidades.
Deste modo e em todo este processo, o papel do professor dota-se de vital importância na formação dos jovens para uma boa inserção na sociedade onde vivem. E enquanto sinal exterior de perturbação de todo o percurso socializador (Abramovay, 2003), a indisciplina e a violência dos jovens são uma preocupação constante de todos os educadores.