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A descoberta do mercado: Boisguilbert e Cantillon 97

Parte II – Do mercantilismo ao período clássico 97

6. A descoberta do mercado: Boisguilbert e Cantillon 97

Nos séculos XVI e XVII, o crescimento económico que resulta do esfarelar da estrutura económica e social medieval, o crescimento populacional que daí resulta e a reacção à acumulação de um elevado número de mendigos que o lento crescimento durante a Idade Média gerou a reforma da Igreja que é acusada de ser conivente – e mesmo estimuladora – do crescimento do número de pobres dependentes da caridade cristã propicia um progressivo mas profundo corte na visão da pobreza. Esta é, segundo Geremek (1995), a mais significativa mudança na atitude face ao pobre operada na história da humanidade: a abordagem ao pobre implícita no pensamento medieval concentrada, como vimos, na necessidade de prever esquemas privados ou colectivos de transferências monetárias ou em espécie para os mais desfavorecidos que permitam aos indivíduos mais abonados concretizar o acto caritativo, começará nos séculos XVI e XVII a ser progressivamente substituída por uma abordagem mais “económica” ao homem pobre; trata-se de uma abordagem que o reconhece como factor de produção, mais do que enquanto objecto do acto de caridade, justificada pela crescente consciência do comércio enquanto propulsor da produção, e da produção como expressão do crescimento económico. Essa mudança de paradigma dá-se com a popularização de uma doutrina mercantilista nas nações mais desenvolvidas da Europa do século XVII.

Se bem que seja apontada alguma falta de coesão ao pensamento e às políticas mercantilistas (vide, por exemplo, Ekelund e Hébert (Ibidem: 43), parece poder-se identificar uma tendência para se defender uma população trabalhadora abundante, a qual deve ser mantida a um nível de conforto convenientemente baixo. Esta é a ideia da utilidade da pobreza popularizada por Edgar Furniss em The Position of the Labourer in

a System of Nationalism (Ekelund e Hébert (Ibidem: 51)). Se em Aristóteles ou São

Tomás se entende que o excesso de riqueza impede o indivíduo de proceder a um cálculo racional, a razão pela qual a doutrina mercantilista considera que o conforto pode tornar- se prejudicial tem mais a ver com o facto de o excesso de rendimento nas mãos do trabalhador pobre, ao empurrarem-no para o vício – a luxúria, o álcool – tornarem-no menos produtivo. Pelo contrário, a manutenção do salário a um nível próximo do da subsistência permite combater a natural indolência do trabalhador e forçam-no a ser industrioso, aumentando a sua produtividade.

Contrariamente à economia da pobreza contemporânea onde aquele reforço de produtividade gera um maior bem-estar do pobre trabalhador por via de maiores rendimentos, aqui a variável “rendimento” não surge enquanto moderadora da relação causal entre indústria e bem-estar – que, aliás, não é em primeiro lugar o do indivíduo, mas o da nação. Por isso a transição da Idade Média para o mercantilismo opera-se sem um ganho de soberania do pobre, talvez pelo facto de a “desejabilidade” de manter o trabalhador pobre é subordinada a um objectivo de política antes de ser verdadeiramente compreendido o respectivo enquadramento na ordem económica. Em todo o caso, o que acontece nesta fase é que o pobre medieval dá agora lugar ao pobre trabalhador. A

participação no mercado de trabalho, e já não o excedente transferido por via da caridade exercida por quem o possui em primeiro lugar, é a via para a “salvação” do pobre.

Os pensadores da fisiocracia e respectivos precursores, ao questionarem os princípios doutrinários do mercantilismo, vão também questionar esta atitude face ao homem pobre. Boisguilbert e Cantillon apresentam perspectivas que, embora com nuances, mostram alguma convergência para um novo entendimento do homem pobre e do seu enquadramento no sistema económico, que pela primeira vez abre a porta para uma compreensão da pobreza como realidade algo autónoma.

Pierre Le Pesant de Boisguilbert nasceu em 1646 no seio de uma família aristocrática da Normandia, e morreu em 1714, em Rouen24. Tendo inicialmente recebido educação

jesuíta, mudou-se para Paris para estudar direito, vindo em 1676 a tornar-se juiz e em 1690 encarregado da aplicação da justiça e do controlo administrativo na sua terra natal. Tendo dedicado os seus escritos primeiramente à literatura, a partir de 1676 reorienta-os para a economia política, sendo frequentemente guiado pelo objectivo de demonstrar o quão ruinosas eram as políticas económicas à sua época, defendendo o livre comércio e medidas tendentes a assegurar a justiça redistributiva. A sua postura crítica levou à condenação da sua obra, facto ao qual não foram alheias tentativas menos felizes de implementação de algumas das suas propostas no plano da tributação – ainda que o insucesso das mesmas se tenha ficado a dever à inexacta interpretação das suas ideias, o facto marcou a reputação do autor e da sua obra.

A sua obra pauta-se por uma atenta crítica às políticas mercantilistas que violam a lei natural, com destaque para aquelas que tendem a “endeusar” a moeda, que mais não deverá ser, para Boisguilbert, que uma denominação do valor dos bens e serviços e que está ao serviço destes. No quadro desta crítica acaba por identificar um conjunto abrangente de variáveis económicas e de conceitos operatórios modernos, numa análise que tanto cobre o curto prazo como o longo prazo. Um desses conceitos é o de equilíbrio, o qual se aplica, entre outros, ao mercado de trabalho.

Richard Cantillon terá nascido na década de 1680, na Irlanda, e morreu em 1734, em Londres. Após ter adquirido nacionalidade francesa na primeira década do século XVIII, viria a tornar-se num mercador e banqueiro de sucesso, com actividade concentrada essencialmente em Paris e Londres, e a dinamizar operações de especulação financeira e imobiliária.

Tendo privado tanto com mercantilistas como com outros precursores da fisiocracia, a sua obra é citada e fonte de referência sobretudo para Jevons (1881), que reconhece Essai

sur la Nature du Commerce en Général como o berço da economia política, mas também

para Hume e Smith: note-se que Cantillon reconhece uma sociedade dividida numa classe de pessoas com rendimento fixo e noutra com rendimentos incertos, uma subdivisão que reaparece na teoria salarial de Smith. Sem ser considerado um fisiocrata, Cantillon é visto como o pai da fisiocracia, sendo também considerado o economista pré-clássico que mais contribuiu para as ideias da escola clássica. Com efeito, Essai é tido como o primeiro tratado abrangente de economia e a síntese mais completa à data das reflexões sobre aquele “cosmos”, onde as várias partes do todo – a produção, a população, os preços – se ajustam mutuamente. Aqui encontramos explicitamente presente o conceito de mercado

e, em particular, uma ideia de equilíbrio entre as forças da oferta e da procura movidas pelo auto-interesse. Encontram-se aqui igualmente presentes, na sua forma embrionária, elementos de teoria intrínseca e subjectiva do valor, distinguindo-os mas prevendo uma aproximação entre ambos (Thornton (2006): 52). Essai inclui uma teoria monetária incorporando o conceito de velocidade de circulação da moeda, abordada de forma integrada com uma compreensão moderna dos mecanismos de funcionamento de preços (Cantillon analisou em particular o aumento desproporcionado de preços de alguns bens face a outros, o chamado “efeito Cantillon”) e da produção (vide Rothbard (1995): 349- 350). Presente está também o personagem do empreendedor enquanto figura tomadora de risco que, tal como os restantes actores envolvidos numa rede de relações de reciprocidade, influencia e é influenciado por outros factores e comportamentos, contribuindo como aqueles para que a economia no seu conjunto tenda a se equilibrar.

O equilíbrio instável de Boisguilbert

Em “Dissertation de la nature des richesses, de l'argent et des tributs, où l'on découvre

la fausse idée qui règne dans le monde à l'égard de ces trois articles“, de 1707,

Boisguilbert reconhece que todos os profissionais trabalham uns para os outros e suportam-se mutuamente através do fornecimento dos bens essenciais à existência de cada um. Tal como veremos também em Cantillon, essa interacção assume a forma de uma convenção que é essencialmente tácita. Porém, o equilíbrio que Boisguilbert reconhece explicitamente existir, afigura-se pouco harmonioso, cada agente económico a digladiar-se com o seu próximo pelo excedente:

Cependant, par un aveuglement effroyable, il n'y a point de négociant quel qu'il soit, qui ne travaille de tout son pouvoir à déconcerter cette harmonie; ce n'est qu'à la pointe de l'épée, soit en vendant, soit en achetant, qu'elle se maintient; et l'opulence publique, qui fournit la pâture à tous les sujets, ne subsiste que par une Providence supérieure, qui la soutient comme elle fait fructifier les productions de la terre, n'y ayant pas un moment ni un seul marché où il ne faille qu'elle agisse, puisqu'il n'y a pas une seule rencontre où on ne lui fasse la guerre. Tant que les choses demeurent dans cet équilibre, il n'y a point d'autre ressource pour s'enrichir, en quelque état que l'on soit, que de forcer de travail et d'habileté sur son voisin, non pour le tromper en tâchant d'avoir sa denrée à vil prix, mais pour le devancer en adresse. (Boisguilbert, 1707, Cap. 4, par. 10-11)25

Boisguilbert retrata assim um mercado cujas forças da compra e da venda se encontram em equilíbrio, sendo que essa harmonia é frágil porque os interesses dos participantes são, à partida, conflituantes. Este conflito latente não dispensará em última instância a existência de um supervisor que assegure que os operadores económicos, na busca do seu interesse particular, cumpram as leis da justiça, contrariando a sua aspiração de destruir os ganhos do seu concorrente; mas aparte este caso extremo, a tendência será a de os indivíduos, na prossecução do seu interesse estritamente individual, contribuírem para o bem comum sem o esperar: é a normal concorrência entre indivíduos que permite manter aquele frágil equilíbrio.

Tous l'entretiennent nuit et jour par leur intérêt particulier, et forment en même temps, quoique ce soit à quoi ils songent le moins, le bien général de qui, malgré

25 As referências a Boisguilbert (1707) mencionam o capítulo e a ordem pela qual surge, nesse capítulo, o

qu'ils en aient, ils doivent toujours attendre leur utilité singulière. Il faut une police pour faire observer la concorde et les lois de la justice parmi un si grand nombre d'hommes, qui ne cherchent qu'à la détruire et qu'à se tromper et à se surprendre depuis le matin jusqu'au soir, et qui aspirent continuellement à se procurer de l'opulence sur la destruction de leur voisin. (Boisguilbert, 1707, Cap.

5, par. 6-7)

Estar-se-á perante um equilíbrio altamente instável, posto em questão pelas medidas de política que desconcertam a habitual interacção entre variáveis e entre agentes económicos. Com efeito, as potencialidades deste conflito (latente, também, na própria obra do autor) parecem ser por vezes tais que, não só as acções no sentido de maximização do proveito individual se revelam contraproducentes, como a sua indevida ampliação pelas instituições contagia a nação como um todo; dito de outro modo, se por vezes Boisguilbert enfatiza o bem comum que resulta naturalmente do comportamento auto-interessado dos agentes económicos, a falta de solidariedade que resulta da exacerbada prossecução do interesse individual perturba a ordem e cria ressonâncias no conjunto do sistema económico – pois, enquanto sistema, todas as suas partes se encontram (solidariamente) ligadas como um organismo vivo:

Et il suffit que cette destinée arrive à une partie pour empoisonner tout le reste, parce que cette parcelle de déconcertement [est comme] un levain contagieux qui corrompt toute la masse d'un État, par la solidité d'intérêt que toutes choses ont les unes avec les autres, ainsi que l'on a montré. (Boisguilbert, 1707, Cap. 5, par.

23)

É neste contexto que Boisguilbert aborda o tema da miséria – fenómeno que generaliza a todos quanto trabalham. A jornada intensa de trabalho de cada um é, afinal, reacção individual de protecção face ao risco de cair numa situação de miséria: todos os indivíduos saberão o que é a pobreza, e por isso participam no mercado de trabalho para prevenir essa situação ou como meio de dela sair. Trabalhar para evitar a miséria é, em Boisguilbert, mais a constatação de um comportamento reactivo do trabalhador pobre do que uma recomendação de política:

Tout le monde sait ce que c'est que d'être misérable, puisque chacun travaille depuis le matin jusqu'au soir pour ne [le] point devenir, à moins que les passions ne l'aveuglent, ou pour cesser de l'être s'il est assez malheureux pour se trouver dans cette situation. (Boisguilbert, 1707, Cap. 5, par. 1)

Aliás, será praticamente inevitável que cada indivíduo caia numa situação de pobreza, dado que só temporariamente se pode ser rico: Boisguilbert sugere a existência de ciclos de pobreza, dado que o usufruto de bens supérfluos ou mesmo de primeira necessidade – pão, vinho, carne, etc. – não pode durar senão por curtos períodos. Tal mostra que, segundo Boisbuilbert, o nível das variáveis económicas (e, em particular, da riqueza), tal como a ideia de um equilíbrio na relação de forças entre agentes económicos, é fortemente instável. Resulta daqui também que a pobreza não é a excepção mas a regra: em termos temporais, é a situação mais permanente (ou, pelo menos, a mais regular), e em termos populacionais, afectará a maioria da população em determinado momento, e provavelmente toda a população em pelo menos um momento da sua vida. A abordagem que à pobreza é feita por Boisguilbert assume, assim, contornos macroeconómicos.

Tous donc ont cette disposition en particulier, mais pas un n'a jamais étendu ses vues jusqu'au général, bien qu'on ne puisse nullement être riche d'une façon permanente, et le prince plus que les autres, que par l'opulence publique, et jamais qui que ce soit ne jouira aisément et longtemps de pain, de vin, de viande, d'habits, et même de [la] magnificence la plus superflue tant qu'il n'y en aura pas dans le pays, et même avec abondance, autrement les fonds deviendront à rien, et son argent s'en ira sans pouvoir retourner. (Boisguilbert, 1707, Cap. 5, par. 2)

O autor compõe uma sintomatologia do pobre quando explica que aqueles episódios de falta de alimento, mesmo não afectando todos os indivíduos em simultâneo, estão na origem de esperanças médias de vida seriamente encurtadas e em elevados níveis de mortalidade infantil. À descrição de uma certa pobreza que tem natureza cíclica e contra a qual o indivíduo se esforça por se proteger, acresce outra pobreza que ganha dimensões estruturais que compromete a possibilidade de fuga da geração seguinte:

Or des hommes à qui il faut une peine continuelle, et suer sang et eau pour subsister, sans autre aliment que du pain et de l'eau, au milieu d'un pays d'abondance, peuvent-ils espérer une longue vie, ou plutôt ne périssent-ils pas tous à la moitié de leur course, sans compter ceux que la misère de leurs parents empêche de sortir de l'enfance, étant comme étouffés au berceau, ce dieu ou ce vautour, l'argent, les dévorant à tout âge et en toutes sortes d'états? (Boisguilbert,

1707, Cap. 5, par. 66)

E, de novo, sublinha-se que a abundância de uns, capazes de se segurarem, é contemporânea da total incapacidade de outros de aforrar, e que não têm alternativa senão trabalhar “para não desaparecer”. Implícitas poderão estar considerações sobre a desigualdade entre esses dois grupos populacionais, mas a análise de Boisguilbert aponta sobretudo para a inadequabilidade de se viver à beira da subsistência, nível de vida esse que não garante a devida margem de segurança face à eminente destruição do homem para a qual a pobreza extrema o empurra:

Quelques-uns, et même plusieurs, trouvent dans le passé des ressources qui aident au présent, et même à l'avenir; mais il n'en va pas de même, à beaucoup près, d'une infinité d'autres, c'est-à-dire des malheureux à qui la misère tenant continuellement le couteau à la gorge, c'est tout ce qu'ils peuvent faire, en travaillant nuit et jour, que de s'empêcher de périr: il n'y a continuellement qu'un filet de distance entre leur subsistance, même assez frugale, et leur destruction entière. (Boisguilbert, 1707, Cap. 5, par. 47)

Estas passagens suscitam duas reflexões: primeiro, o facto de a pobreza ou, pelo menos, os episódios de pobreza serem vistos como inevitáveis parece não confortar ou conformar Bosiguilbert: ao invés, encontramos aqui o radical que vai desencadear algum tipo de acção política que é reacção àquela inadequação, como veremos. Em segundo lugar, como veremos também, Boisguilbert distancia-se dos mercantilistas não apenas na recusa da validade das políticas bulionistas e das respectivas consequências em termos do bem- estar geral e da miséria que as mesmas são susceptíveis de provocar, mas igualmente no distanciamento em relação àquela doutrina no que respeita à abordagem ao mercado de trabalho e à recomendação de manter o trabalhador ao nível de subsistência como condição necessária a que seja empreendedor.

O questionar daqueles dois elementos da doutrina mercantilista – o bulionismo e a desejabilidade da pobreza – surge na obra do autor de forma totalmente integrada, no âmbito da crítica a uma determinada política macroeconómica. Com efeito, se ao mercantilismo corresponde o primeiro grande momento de uma certa doutrina macro, começa com os pré-fisiocratas (como Boisguilbert) uma fase de frontal oposição às opções de política e às instituições criadas pelo Homem que contrariam uma certa ordem natural das coisas, inclusive aquela que preside às relações económicas estabelecidas entre os indivíduos no contexto dos mercados. A moeda é aí vista como sendo uma dessas instituições: um elemento não natural a que a doutrina mercantilista atribuiu excessiva importância e que, investida de “funções” em excesso, amplia as ressonâncias desestabilizadoras que vimos, causando pobreza. O que está na origem da miséria generalizada é, assim, uma derrogação à lei natural, já que Boisguilbert declara que a natureza, por ela, nunca deixou de assegurar a subsistência necessária à vida humana:

Il marque en termes formels que jamais la nature, de son temps, quoiqu'il fût fort âgé, ni dans l'antiquité, dont il avait une parfaite connaissance, n'avait refusé, même dans sa plus grande colère, le nécessaire aux hommes pour leur subsistance: s'il avait vécu dans ces derniers temps, il n'aurait pas assurément parlé de la sorte. (Boisguilbert, 1707, Cap. 5, par. 32) On s'est étendu sur cet article parce que la dérogeance à cette loi, qui devrait être sacrée, est la première et la principale cause de la misère publique, attendu que l'observation en est plus ignorée. (Boisguilbert, 1707, Cap. 5, par. 35)

E é, em última instância, o facto de à moeda ter sido permitido desempenhar um excessivo número de funções o que perturba o equilíbrio do sistema económico: promovendo comportamentos económicos artificiais, propiciando consequentemente um distanciamento face à economia real (e um desfasamento temporal entre as variações do rendimento real e do rendimento nominal) e ampliando os ciclos económicos (e, deduz- se, a amplitude dos ciclos de pobreza). Boisguilbert volta a assumir que em condições naturais o equilíbrio caracterizaria (ou, pelo menos, presidiria) as relações económicas nos mercados dos bens e do factor trabalho – naquilo que parece ser uma consciência, ainda essencialmente intuitiva, da existência de um equilíbrio geral que a moeda vem inquietar, perturbar.

C'est de cette disposition que l'argent a pris son premier degré de dérogeance à son usage naturel: l'équivalence où il doit être avec toutes les autres denrées, pour être prêt d'en former l'échange à tous moments, a aussitôt reçu une grande atteinte. Un homme voluptueux, qui a à peine assez de temps de toute sa vie pour satisfaire à ses plaisirs, s'est moqué de tenir sa maison et ses magasins remplis de grains et d'autres fruits de la terre, pour être vendus au prix courant en temps et saison; ce soin, cette attente et cette inquiétude ne se sont pas accommodés avec son genre de vie; la moitié moins d'argent comptant, même le quart, font mieux son affaire, et ses voluptés en sont servies avec plus de secret et plus de diligence.

(Boisguilbert, 1707, Cap. 3, par. 3) Ainsi cette main basse que l'on fait, dans ces

occasions, de toutes sortes de denrées, dérange d'une terrible façon l'équilibre