Parte II – Do mercantilismo ao período clássico 97
10. Pobreza e população: a obra de Malthus 168
Desde a Antiguidade Clássica que o tema da população cruza com o da pobreza numa perspectiva económica. Em Aristóteles vimos como havia a preocupação de garantir que a população não crescesse excessivamente para que a unidade política permanecesse gerível. Efectivamente, uma população em excesso diminuiria a parcela de terreno afecta a cada família, e a resultante pressão sobre os recursos seria fonte de fome, pobreza e, potencialmente, de revolta também.
Mais tarde o enfoque passa para o mercado de trabalho. Com Boisguilbert, o tema da população surge porque duas das mais chocantes manifestações da pobreza são de natureza demográfica, em particular, o aumento da mortalidade infantil e uma redução da esperança média de vida. A participação do homem no mercado de trabalho não é senão a forma que encontra para se segurar contra a miséria e aquelas suas duas manifestações. Ao mesmo tempo, é já esboçada a função que a pobreza desempenha no alívio da pressão sobre a população, mas não é por ora evidente que o crescimento populacional seja entendido como um problema de dimensões nacionais.
Na mesma linha, o mercado de trabalho é em Cantillon o foco para se compreenderem as relações entre população e pobreza, e considerando que aqueles mercados têm dimensão regional, também as relações entre pobreza e as variáveis demográficas o são, implicando que também aqui não se coloquem questões de população a uma escala mais lata. Como vimos, variações na procura no mercado de bens e de serviços tanto geram episódios de desemprego como momentos de sobreocupação dos trabalhadores. Perante a perspectiva de fome, as migrações contribuem para aliviar a pressão populacional sobre os recursos. Também o adiamento da decisão de constituir família age neste sentido, pelo que já em Cantillon se estabelece o controlo populacional preventivo como estratégia para melhor gerir a falta de emprego e de rendimento, e para se prevenir contra a descendência social. Cantillon não ignora que exista uma tensão recursos-população, o que o levará a criticar as barreiras institucionais que impedem que mais terra seja afecta a gerar subsistências; mas no cômputo geral, as tensões serão essencialmente locais e largamente temporárias, não parecendo que o crescimento populacional total seja em si um problema: pelo contrário, Cantillon parece mesmo assumir que um tal crescimento será desejável.
Como Cantillon, Smith concebe o mercado de trabalho em estratos, e perante uma redução da massa salarial e consequente excesso de oferta de trabalho, indivíduos originários das classes intermédias ir-se-ão adicionando à classe mais baixa, aumentando a concorrência e o desemprego, e exercendo pressões descendentes dos salários e provocando miséria, necessidade, fome e mortalidade. Este processo estender-se-ia eventualmente às classes superiores, acabando por determinar uma redução da população de forma que não parece preventiva, a um nível que se permite ser suportado pela massa salarial remanescente.
The lowest class being not only overstocked with its own workmen, but with the overflowings of all the other classes, the competition for employment would be so great in it, as to reduce the wages of labour to the most miserable and scanty subsistence of the labourer. Many would not be able to find employment even
upon these hard terms, but would either starve, or be driven to seek a subsistence either by begging, or by the perpetration perhaps of the greatest enormities. Want, famine, and mortality would immediately prevail in that class, and from thence extend themselves to all the superior classes, till the number of inhabitants in the country was reduced to what could easily be maintained by the revenue and stock which remained in it, and which had escaped either the tyranny or calamity which had destroyed the rest. This perhaps is nearly the present state of Bengal, and of some other of the English settlements in the East Indies. (Smith, 1776,
Livro I, Cap.VIII, Par.24)
Patente nesta descrição está, como em Boisguilbert e Cantillon, o comportamento cíclico da pobreza do conjunto da população; mas patente está também a premissa da sua capacidade de se auto-equilibrar – mesmo que tal não dispense ajustamentos com impactos sociais e económicos fortíssimos. Smith não explica em detalhe o que poderá estar na origem de tamanhas oscilações que classifica como inequivocamente indesejáveis, mas deixa antever que na sua origem poderão estar factores de natureza político-institucional. Infere-se que um enquadramento institucional menos apropriado poderá determinar um congelamento da massa salarial como a causa imediata de curto prazo por detrás dos ciclos de desemprego e de miséria, algo que já Cantillon havia alvitrado e que Smith recupera:
In a fertile country which had before been much depopulated, where subsistence, consequently, should not be very difficult, and where, notwithstanding, three or four hundred thousand people die of hunger in one year, we may be assured that the funds destined for the maintenance of the labouring poor are fast decaying. The difference between the genius of the British constitution which protects and governs North America, and that of the mercantile company which oppresses and domineers in the East Indies, cannot perhaps be better illustrated than by the different state of those countries. (Smith, 1776, Livro I, Cap.VIII, Par.24)
Entretanto, é a partir da comparação internacional de situações individuais de pobreza que Smith aborda a questão do crescimento populacional juntamente com a do casamento, e as respectivas relações com o fenómeno da pobreza. Como sugeria no início de “Riqueza das Nações”, Smith demonstra – com base numa descrição dos hábitos de consumo, habitação e vivência familiar – como situações de pobreza extrema na China não têm comparação com aquelas que caracterizam “as nações mais pedintes da Europa”. A precariedade habitacional, a sobrevivência a muito custo no meio da imundície, a fome e a opção pelo casamento nem sequer como via para poder procriar e fazer a economia familiar basear-se no trabalho infantil, mas pela “liberdade de destruir (as crianças)”, aponta para uma internalização, pela população, do problema do excesso populacional que assim procura geri-lo.
The poverty of the lower ranks of people in China far surpasses that of the most beggarly nations in Europe. In the neighbourhood of Canton many hundred, it is commonly said, many thousand families have no habitation on the land, but live constantly in little fishing boats upon the rivers and canals. The subsistence which they find there is so scanty that they are eager to fish up the nastiest garbage thrown overboard from any European ship. Any carrion, the carcase of a dead dog or cat, for example, though half putrid and stinking, is as welcome to them as the most wholesome food to the people of other countries. Marriage is
encouraged in China, not by the profitableness of children, but by the liberty of destroying them. In all great towns several are every night exposed in the street, or drowned like puppies in the water. The performance of this horrid office is even said to be the avowed business by which some people earn their subsistence.
(Smith, 1776, Livro I, Cap.VIII, Par.23)
Resulta daqui um retrato de miséria extrema no seio de uma população trabalhadora nos países menos desenvolvidos, aqui contraposta com uma certa população mendicante e vagabunda da Europa. Smith enuncia que, nestas economias, haverá em todo o caso um incentivo a acrescentar maiores números à massa populacional, dado que a massa salarial estará em progressão; argumenta então – no contexto de uma aparente comparação directa com qualquer outra economia não necessariamente apresentando similar nível de desenvolvimento – que o resultado seria bastante distinto num caso onde aquele “fundo salarial” apresentasse um decréscimo substancial. Nesse contexto, a massa de mão-de- obra é definida como estando em excesso por causa da redução que aquele fundo salarial regista. Dito de outro modo, a análise de Smith parece revelar uma perspectiva da questão populacional que não é excedentária em si, mas que poderá sê-lo em função da massa salarial total. Assim, nas economias em vias de desenvolvimento, haverá uma perspectiva de redução da pobreza no longo-prazo, por via da expansão da massa salarial.
The lowest class of labourers, therefore, notwithstanding their scanty subsistence, must some way or another make shift to continue their race so far as to keep up their usual numbers. But it would be otherwise in a country where the funds destined for the maintenance of labour were sensibly decaying. Every year the demand for servants and labourers would, in all the different classes of employments, be less than it had been the year before. Many who had been bred in the superior classes, not being able to find employment in their own business, would be glad to seek it in the lowest. (Smith, 1776, Livro I, Cap.VIII, Par.24)
Idêntica fé nas possibilidades de crescimento da população enquadra a análise das Poor
Laws de North, possivelmente sensibilizado para a discussão que começa a emergir sobre
os limites ao crescimento. North entende que o nível populacional nunca é excessivo face às subsistências, nem põe em causa ordem social.
There is Great Fallacy in this Speech, common as it is; for is it all one to have Work done cheap or dear? If a few be enough, those few are Asters, and set what Value upon themselves they please; (North, 1753, p. 77)
Assim será, porque se prevê que um excesso total de trabalho provoque uma pressão descendente sobre os salários e um aumento no rendimento da exploração agrícola, o que assim não impede a população pobre de subsistir, tornando-a, pelo contrário, mais industriosa e empreendedora:
(…) Labour will be cheaper, which is so much added to the Profit of Land; and the Poor live as well, or better, being so much more industrious. (North, 1753, p.
78)
No que à paz social diz respeito – uma temática cara a Aristóteles – North rejeita também as opiniões segundo as quais será difícil manter a ordem social com uma população em progressão, desvalorizando receios de revolta:
They say, If we were very populous, Men would be driven to such hard Shifts for a Livelihood, that they would grow turbulent, and apt to plunder or steal, and it would be hard to keep them in Order. (…) there is no Reason to fear the People, who, by their Constitution of Laws and Parliaments, are satisfied they do not live under despotic Power(…) will be of this Mind. (North, 1753, p. 79)
North também não vê inconveniente numa expansão do consumo (das famílias pobres, portanto), que é sinal de riqueza nacional, e a ela acresce.
It is a strange blindness to esteem Numbers of People a Burthen, when so much Good comes from them; their very Eating and Drinking is a profitable Consumption of our Country’s Product, and their Labour is sowing Riches for the Public to reap; (North, 1753, p. 78)
O optimismo de North ancora na sua fé na racionalidade do indivíduo e na relação entre criação de emprego e crescimento económico: sem população não há riqueza, e quando há (aumento da) riqueza a população tende a aumentar; nessa circunstância, e enquanto agente livre que é, o Homem terá de descobrir por si como subsistir; e quando prosperar, multiplicar-se-á:
I wonder what Gentlemen expect to make of their Estates, if they can have neither Tenants nor Labourers. (…) They are free Agents, and industrious as Bees, to find out infinite meandrous Ways by themselves, every one according to his Mother Wit, for the obtaining the Materials of his own Subsistance and Convenience. And where they prosper, or (which is all one) believe they shall prosper and be safe, they will encrease and multiply; (North, 1753, p. 47)
Pelo contrário, entende que a principal consequência de uma redução da população seria o aumento do encargo que recai sobre cada família em termos de assistir os pobres. Note- se que este entendimento poderá ser válido se se assumir que a proporção de pobres não se reduziria à mesma cadência do resto da população – uma condição que North não estipula, mas que, se implícita no seu raciocínio, poderá aproximá-lo da ideia da redução do fundo salarial presente em Smith, e, consequentemente, das respectivas consequências.
(T)he Charge of the Poor, on a small Number of Inhabitants, is heavy, almost to Oppression, in some Places, which, if the Inhabitants were more, would be lighter. (North, 1753, p. 50)
Diríamos, então, que até finais do século XVIII domina uma avaliação de relativa normalidade da evolução das principais variáveis demográficas. Mas o aumento sem precedentes da população nas décadas mais recentes e o crescimento da miséria nos centros urbanos, mais visível do que nas zonas rurais, vem chamar a atenção para uma tensão que Malthus considerará até aí fortemente subavaliada, e estima o seu agravamento futuro.
Thomas Robert Malthus nasceu em Surrey, no sul da Inglaterra em 1766, e morreu em 1834, em Bath39. Tornou-se reverendo anglicano em 1798 e professor de história e
política económica no colégio da Companhia da Índia Oriental em 1804, companhia que também integrou John Stuart Mill e Jeremy Bentham.
Malthus foi autor de diversas obras de economia política, algumas das quais são dedicadas ao estudo da renda, vista enquanto excedente, ou à defesa de certas medidas de política, como os direitos sobre as importações de milho. Mas foram as seis edições de “Um Ensaio sobre o Princípio da População”, publicadas entre 1798 e 1826, onde prevê largamente a impotência das políticas em contrariar a escassez secular de sustento, que fizeram de Malthus um dos autores mais debatidos, mais criticados (e acusado de ser o profeta da desgraça) mas também com maior influência, tanto durante a sua vida como postumamente, em áreas e linhas de pensamento tão diversas como a demografia e a ecologia, o evolucionismo e o eugenismo, e a tomada de decisão política – aquando, por exemplo, do debate em torno da extensão ou revisão das leis para os pobres.
“Um Ensaio sobre o Princípio da População”, é uma obra inteiramente dedicada ao problema do excesso populacional e em que medida obrigará a manter a população ao nível de subsistência. É também uma obra onde encontramos Malthus a acrescentar novos elementos conceptuais à compreensão da pobreza, e onde o autor dedica substancial espaço ao confronto com perspectivas que não coincidem com a sua – em termos de avaliação da gravidade e urgência da situação, mas também em termos da avaliação da eficácia das medidas susceptíveis de diminuir o impacto do fenómeno.
Checks
Aquando do confronto das ideias de outros autores com as suas, Malthus salienta que a investigação de Smith sobre os factores que estão na origem da riqueza das nações é limitada, porquanto poderá haver situações onde a riqueza progrida sem que se registe concomitantemente um aumento do conforto da classe trabalhadora, a ser medido em termos do estado de saúde e da capacidade de ter acesso a bens de primeira necessidade e outras comodidades – escolhendo ignorar que Smith havia assinalado excepções à regra do progresso secular e generalizado de bem-estar.
But perhaps Dr Adam Smith (…) has not stopped to take notice of those instances where the wealth of a society may increase (…) without having any tendency to increase the comforts of the labouring part of it. I (…) shall merely consider two universally acknowledged ingredients, health, and the command of the necessaries and conveniences of life. (Malthus, 1798, Cap 16, Par.1)40
O entendimento de Malthus é o de que, em termos históricos, o aumento do emprego no sector manufactureiro em detrimento do sector agrícola, não só não permite verificar uma melhoria do estado de saúde do trabalhador, como estará mais sujeito a incertezas – no que diz respeito a assegurar o seu posto de trabalho, presume-se. Colateralmente, encontramos Malthus a sugerir elementos que poderão ser tomados enquanto indicadores de bem-estar da classe laboriosa, ainda que, nas secções-chave de “Princípios da
39 Sobre a vida e a obra de Malthus vide, v.g. Hollander (1997) e Wood (1986).
40 Para Malthus (1798) indicamos o capítulo, bem como o parágrafo (originalmente não numerado) de
População”, o encontremos a defender a necessidade de manter o nível de vida dos indivíduos ao nível de subsistência.
A greater proportion of them would be employed in manufactures, and fewer, consequently, in agriculture. And this exchange of professions will be allowed, I think, by all, to be very unfavourable in respect of health, one essential ingredient of happiness, besides the greater uncertainty of manufacturing labour, arising from the capricious taste of man, the accidents of war, and other causes.
(Malthus, 1798, Cap 16, Par.4)
O ponto de partida para a construção do modelo de Malthus é a identificação de checks41
à progressão da população e do bem-estar humanos, começando por aquela que intitula a “Lei das necessidades”. Esta lei determina que a população só pode apresentar um crescimento compaginável com o ritmo a que aumentam os meios de subsistência.
Necessity, that imperious all pervading law of nature, restrains them within the prescribed bounds. (Malthus, 1798, Cap 1, Par.22) By that law of our nature which makes food necessary to the life of man, the effects of these two unequal powers must be kept equal. (Malthus, 1798, Cap 1, Par.20) (T)he increase of the human species can only be kept commensurate to the increase of the means of subsistence by the constant operation of the strong law of necessity acting as a check upon the greater power. (Malthus, 1798, Cap 2, Par.15)
Na medida em que prevê que, na ausência de quaisquer limitações, a população cresceria segundo uma progressão geométrica e os meios de subsistência oriundos da actividade agrícola segundo uma progressão aritmética, a lei das necessidades far-se-ia sentir de forma particularmente premente:
(…)I say, that the power of population is indefinitely greater than the power in the earth to produce subsistence for man. (Malthus, 1798, Cap 1, Par.19) Taking the population of the world at any number, a thousand millions, for instance, the human species would increase in the ratio of -- 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, etc. and subsistence as -- 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, etc. In two centuries and a quarter, the population would be to the means of subsistence as 512 to 10: in three centuries as 4096 to 13, and in two thousand years the difference would be almost incalculable, though the produce in that time would have increased to an immense extent. (Malthus, 1798, Cap 2, Par.14)
Malthus compreende que a forma mais brutal como se manifesta esta desproporção será o aumento da mortalidade infantil – um “check” que configura a manifestação da lei das necessidades, e que vai caracterizar em primeira instância as franjas populacionais mais pobres, que não conseguem dar a apropriada atenção e nutrição aos descendentes. Este cenário será, assim, o cenário extremo – Malthus compreenderá que nem sempre se chegará ao ponto onde aquela desproporção se manifeste desta forma. Mais regularmente, as condições de trabalho e de alojamento são a sua expressão mais visível.
41 Procurámos encontrar uma tradução para este termo, tendo optado por utilizar o original. O check
será um controlo ou constrangimento, neste caso, ao crescimento populacional. Todavia, não encontrámos um termo que na língua portuguesa sugerisse uma variável que procedesse ao controlo activo e eficaz da população, a uma “verificação” ou confirmação de que a mesma se mantém limitada,
The positive check to population, by which I mean the check that represses an increase which is already begun, is confined chiefly, though not perhaps solely, to the lowest orders of society. (Malthus, 1798, Cap 5, Par.1) This check is not so obvious to common view as the other I have mentioned, and, to prove distinctly the force and extent of its operation would require, perhaps, more data than we are in possession of. But I believe it has been very generally remarked by those who have attended to bills of mortality that of the number of children who die annually, much too great a proportion belongs to those who may be supposed