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1. DESIGUALDADE, SEGREGAÇÃO E MOBILIDADE URBANA

1.1. A DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL E NO MUNDO

A desigualdade na distribuição da renda e da riqueza em escala global vem crescendo muito nas últimas décadas. Em 2015 atingiu uma marca histórica: a riqueza detida pelo 1% mais rico da população global superou aquela acumulada pelos 99% restantes (CREDIT SUISSE, 2015, p. 4). Para alguns teóricos, o mundo está atravessando uma crise global da desigualdade. Atualmente, apenas oito indivíduos detêm uma riqueza líquida equivalente à da metade mais pobre da humanidade (OXFAM, 2017).

Segundo o economista sérvio Branko Milanovic, a globalização acelerou o processo de concentração da riqueza nas mãos de poucos, fazendo com que os níveis da desigualdade global (considerando a economia do planeta como um todo) superassem os índices internos de qualquer país (MILANOVIC, 2016). A concentração da riqueza seguiu aumentando apesar da crise que afeta a economia mundial desde 2008. Estudos do economista francês Thomas Piketty (2014), mostram que os indivíduos mais ricos do mundo vêm

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aumentando sua riqueza numa taxa de 6 a 7% ao ano, um ritmo três vezes maior que o crescimento da economia global.

Os altos índices de desigualdade podem representar riscos até mesmo para quem, supostamente, é favorecido pela concentração da riqueza. Pesquisas do Fundo Monetário Internacional (FMI, 2014) comprovam que a desigualdade esteve na raiz de diferentes crises financeiras, e que a equidade social é fundamental para a sustentabilidade do crescimento econômico. Neste sentido, o ex-presidente norte- americano Barack Obama afirmou em 2016, em assembleia da ONU, que "um mundo onde 1% da humanidade controla o mesmo volume de riqueza que os demais 99% nunca será estável" (ONU, 2016).

Mas se a desigualdade prejudica o crescimento econômico e até mesmo as perspectivas de acumulação, o seu fardo pesa principalmente – e gravemente – sobre as camadas mais desfavorecidas da população, que se veem desprovidas dos recursos e direitos básicos. Na chamada era dos super-ricos (OXFAM5, 2017), a fome atinge aproximadamente um bilhão de pessoas no mundo e cerca de metade da

população mundial sobrevive com menos de dois dólares por dia, conforme estimam a Food and Agriculture Organization (FAO, 2010) e a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1999).

A realidade brasileira, no que diz respeito à desigualdade, não difere muito do cenário global. Governos progressistas promoveram, nos últimos 15 anos, reconhecidas políticas inclusivas, fazendo que o país alcançasse em 2011 o “menor nível de desigualdade de renda desde os [primeiros] registros nacionais, de 1960” (IPEA, 2012, p. 8). Mas, apesar do esforço, a desigualdade no Brasil ainda permanece entre as 12 mais altas do mundo. Economistas do IPEA6 realizaram estudo análogo ao do francês Piketty no qual analisam

dados da tributação da renda e do lucro no Brasil7. Concluíram que “a concentração de renda brasileira

supera qualquer outro país com informações disponíveis” (GOBETTI; ORAIR, 2016). Conforme o estudo, o décimo mais rico da população concentra mais da metade da renda (52%). O centésimo mais rico acumula 23,2% do total. Segundo os autores, “os índices que ultrapassam os limites considerados toleráveis para as sociedades democráticas”. O número que mais preocupou os economistas é que 0,05% da população, (as 71.440 pessoas mais ricas do país), concentram 8,5% da renda, “um patamar que dificilmente encontrará

5 A OXFAM (Oxford Committee for Famine Relief, ou Comitê de Oxford de Combate à Fome) é uma confederação internacional

baseada em Oxford, que atua na busca de soluções para o problema da pobreza e da injustiça social.

6 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

7 O Brasil não foi contemplado na pesquisa de Piketty – que analisou dados de vinte países relativos à renda e riqueza – porque os

dados sobre a tributação da renda no país não eram públicos na época. A Receita Federal publicou finalmente os dados em 2013, o que motivou o estudo de Gobetti e Orair (2016).

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outros paralelos no mundo” (GOBETTI; ORAIR, 2016b, p. 25). O nível de concentração de renda no topo da pirâmide social brasileira supera o da Colômbia, é quase três vezes maior do que no Uruguai (3,3%), e cinco vezes maior do que na Noruega (1,7%), como mostra o Gráfico 2:

Gráfico 2: Participação do centésimo mais rico no total da renda (em %).

Fonte: GOBETTI; ORAIR, 2016b p. 25, com base em The World Top Incomes Database [http://www.wid.world/]. Obs.: Amostra referente aos países com informações disponíveis da concentração da renda no 0,05% mais ricos.

Se os números da acumulação no topo da pirâmide social impressionam, na base, a realidade é de grave carência e precariedade. O Brasil é um país “com grande número de pobres, extremo grau de desigualdade e níveis de exclusão social inaceitáveis” (GOMIDE, 2003, p. 7). Conforme pesquisa do IBGE (2016), 21% dos brasileiros possuía renda mensal inferior à um salário mínimo (SM)8 em 2015; 58,6% possuía

renda inferior à 2 SMs; e 81% ganhava menos de 3 SMs por mês. No outro extremo, as pessoas com renda superior a 10 SMs mensais representavam apenas 2,4% da população.

A desigualdade brasileira tem raízes históricas que remontam aos primeiros anos do período colonial, marcado pela exploração indiscriminada da mão de obra escravizada e dos recursos naturais. O processo de desenvolvimento político, institucional, econômico e social deixou ao país “uma herança de injustiça social, que excluiu parte significativa de sua população do acesso a condições mínimas de dignidade e cidadania” (BARROS; HENRIQUES; MENDONÇA, 2001, p. 1). Por isso, Flávio Villaça (2015, p. 13) defende que “nenhum

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aspecto da sociedade brasileira poderá ser jamais explicado e compreendido se não forem consideradas as enormes desigualdades econômicas e de poder político que ocorrem em nossa sociedade”.

A pobreza no Brasil está mais relacionada a problemas de distribuição do que à escassez de recursos, como apontam estudos de Barros, Henriques e Mendonça (2001), publicados pelo IPEA. Os autores compararam indicadores brasileiros com os de países com renda per capita similar. Concluíram que o grau de pobreza e desigualdade no Brasil é significativamente superior à média, o que mostra a relevância da má distribuição dos recursos. O estudo aponta que o Brasil não é um país pobre, “mas um país extremamente injusto e desigual, com muitos pobres” (p. 23), e que o principal determinante desta situação seria a “perversa desigualdade na distribuição da renda e das oportunidades” (p. 1).

No item a seguir será tratada a maneira como a desigualdade se expressa no território, em especial nos grandes centros urbanos, na forma da segregação socioespacial.