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A Dificuldade de se Manter Neutra e Meio ao Conflito

No documento Bella Ciao. Texto de Alberto de Abreu (páginas 84-91)

SEGUNDO ATO Cena 1 – Reabertura

Cena 8 A Dificuldade de se Manter Neutra e Meio ao Conflito

Em casa, José. Entra Maria vinda da rua.

MARIA – Já? (Senta-se). Meus pés estão em brasa.

JOSÉ – Cansei de ficar no serviço até mais tarde. Me deixaram sair.

Você vem de onde?

MARIA – Da casa do papá. Quer jantar agora? Apronto logo. JOSÉ – Como vai seu pai? Maldizendo o mundo?

MARIA – Vai indo. Você devia aparecer lá.

JOSÉ – Pra ele destemperar a língua em cima de mim? MARIA – Tem paciência com ele. O papá é assim...

MARIA – Está bem. Não vamos discutir.

JOSÉ – Pra ele a pessoa só presta se fizer as mesmas coisas que ele

faz.

MARIA – Você sabe que não é isso.

JOSÉ – Todo mundo tem que gostar do que ele gosta.

MARIA (Tentando mudar de assunto) – A mamma perguntou por

você.

JOSÉ – Taí! Tua mãe é diferente.

MARIA – Ele sofreu muito na vida, você tem que ver isso.

JOSÉ – E por isso não somos obrigados a levar a mesma vida que ele.

Você mesma disse isto. Ou já esqueceu?

MARIA – Está bem. Não vamos discutir mais. Você quer continuar com

birra, continua.

JOSÉ – Birra? Quem é implicante e tem birra é ele.

MARIA – Ai, meu Santo Cristo! Estamos parecendo seu Giovanni e

dona Carmela discutindo. Chega. Não quero falar mais. (Pausa).

JOSÉ (Depois de um tempo) – O Ribeiro tem ido lá? MARIA (Com naturalidade) – A-han! Ele estava lá hoje.

JOSÉ (Contrariado) – O Ribeiro é melhor tratado do que eu que sou

genro!

MARIA – Vamos deixar meu pai de lado, vai.

JOSÉ – Então não reclama que eu não vou na casa do seu pai. e

depois, se eu fosse lá, eu não gostaria de encontrar esse tal de Ribeiro.

MARIA – Ele é uma pessoa decente.

JOSÉ – E quem disse que ele é indecente? Eu só não simpatizo. E digo

uma coisa: esse tal de Ribeiro e principalmente seu irmão ficam brincando com o fogo.

MARIA – Eles fazem o que acham justo.

JOSÉ – Eu não tenho nada contra ninguém. Agora: tem muita gente que

tem. E quem cutuca onça com vara curta acaba perdendo o braço!

MARIA – Ô coisa agourenta! (Luz começa a cair sobre José. Ponto pergunta a Maria).

PONTO – Isso foi em...

MARIA – Logo que me casei com José. Em trinta e dois...

PONTO – Gennarino ainda não tinha... É que seu pai me contou até

quando seu irmão saiu de casa.

MARIA – Não, eu estou te contando um pouco antes. PONTO – E José? Como era?

GIOVANNI (Entrando) – Era um perfeito imbecille completo. MARIA – Papá!

GIOVANNI – E não era?

MARIA – Era uma pessoa simples.

GIOVANNI – Uma simplicidade bastante parecida com a estupidez! MARIA – Papá: me deixa falar?

GIOVANNI – É claro que deixo. Cada um fala o que quer, mas cada um

MARIA (Para Ponto) – Assim não dá! (Para Giovanni). Foi o senhor

que casou com ele? Então quem pode falar melhor sobre ele sou eu.

GIOVANNI – Está bem! Eu não falo mais nada! (Giovanni anda pela casa).

MARIA – Ele era um homem simples. Mas isso não desculpa algumas

coisas.

PONTO – Quanto tempo você esteve casada? GIOVANNI (Irritado) – Tempo demais!

MARIA – Papá!

GIOVANNI (Irritado) – Está bem! Está bem!

MARIA – No começo, principalmente, a gente viveu bem. O problema

maior era ele e meu pai, que não se davam.

GIOVANNI (Não se contendo) – Dá licença? Uma coisinha só.

MARIA (Irritada) – Está bem. O senhor quer falar, senta aqui e fala. Eu

não digo mais coisa nenhuma! (Levanta-se).

PONTO – Espera! (Para Giovanni). Deixa Maria falar, depois a gente

conversa.

GIOVANNI – A senhora fica quieta. A senhora veio pra ouvir, non? Io

quero falar. (Para Maria). Eu só vou falar uma coisinha. Depois você fala o que quiser.

MARIA – Quando é que o senhor vai entender que eu não sou mais

uma criança?

CARMELA – Que confuson é esta? Da rua dá pra ouvir vocês gritarem! (Percebendo o Ponto. Simpática). Bom dia,

MARIA (Falando juntamente com Giovanni) – É o papá! GIOVANNI – É essa sua filha cabeça-dura!

MARIA – Eu estive casada sete anos com ele. Eu conheço ele melhor

que o senhor! José era um homem simples, honesto.

GIOVANNI (Interrompendo, explosivo, dando uma “banana” para Maria) – Aqui ó! Ele era um home simples! Era um

getulista.

MARIA – E é crime?

GIOVANNI – É certo que não. Mas tu sabe muito bem o que ele fez no

Sindicato. E quando eu e tua mamma estávamos desesperados, com a prisão de Gennarino ele não ajudou nada. E podia! Aí está o seu “homem simples”!

(Um clima de amargura domina o ambiente). PONTO – O que aconteceu nessa época? (Pausa).

CARMELA – Por favor, senhora. Por favor, Giovanni, não vamos

relembrar essas coisas.

GIOVANNI – Em trinta e quatro...

MARIA – Eu já estava casada com José fazia três anos...

GIOVANNI (Para Ponto) – Você se lembra de quando Gennarino saiu

de casa, não é?

CARMELA (Para Giovanni) – Você me disse que ele ia trabalhar numa

grande tipografia. Eu nunca acreditei.

GIOVANNI (Para Ponto) – Você sabe... Em trinta e cinco os comunistas

tentaram derrubar Getúlio.

GIOVANNI – Gennarino sumiu. (Carmela sai). Não tivemos notícias.

Apareceu em casa dois anos depois.

CARMELA (Entrando) – Filho! (Surge Gennarino). Filho! (Corre a abraçá-lo). Está magro. Giovanni, Gennarino voltou! (Giovanni vai em direção a eles).

GENNARINO – Cala a boca, mamma!

CARMELA (Espantada) – Como manda tua mamma calar a boca? (Gennarino e Giovanni se abraçam). Giovanni,

Gennarino me mandou calar a boca!

GIOVANNI – Stai ferma, Carmela! Cala-te! CARMELA – Ma...

GIOVANNI – Os vizinhos podem escutar. Ninguém deve saber. Como

está filho?

GENNARINO – Bem.

GIOVANNI – Ah, Gennarino! (Abraçam-se novamente).

CARMELA – Andiamo, Gennarino, vem comer. E non diga mais a tua

mamma pra calar a boca.

GENNARINO – Não, mamma, eu não vou comer. CARMELA – Como?

GENNARINO – Eu tenho que ir. Vim buscar alguma roupa.

CARMELA – Non entendo. Onde vai? Giovanni: o que acontece?

GIOVANNI – Súbito, Carmela, arranja alguma roupa pra ele. Gennarino

vai viajar. (Carmela fica parada). Súbito, Carmela.

GENNARINO – Por favor, mamma, rápido! Depois o papá te explica. (Carmela sai atônita. Os dois homens se olham).

GIOVANNI (Deprimido) – É, filho... (Quebrando o clima). Como está?

Se sente bem de saúde? Sim? E as mulheres? Não se esqueça delas, eh?

GENNARINO – Sim, papá.

GIOVANNI – Ah! (Mete a mão no bolso e retira dinheiro). Tome. GENNARINO – Não, papá.

GIOVANNI – Fique. Você vai precisar mais que a gente.

GENNARINO (Recebendo) – Obrigado. (Carmela volta. Gennarino pega suas roupas). Bem, tenho que ir. (Carmela soluça). Ciao, papá. (Abraça-o).

CARMELA – Está fazendo frio. GIOVANNI – Força, filho. E cuidado.

GENNARINO – Fica tranquilo. Mamma... (Abraçam-se). Eu volto assim

que puder. (Separa-se da mãe).

CARMELA (Tira um cachecol do pescoço e entrega a Gennarino) –

Leva filho. Está fazendo muito frio. Cubra bem o pescoço.

GENNARINO – Grazie, mamma. (Pega o cachecol e sai).

CARMELA – Por que a gente não tem paz? O mundo vai arrombando a

porta e entrando dentro de nossa casa. Io ho paura. ...

Cena 9 – Múltiplos Acontecimentos para Desnudar as

No documento Bella Ciao. Texto de Alberto de Abreu (páginas 84-91)

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