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Do Amor, do Receio e de outras Coisas II

No documento Bella Ciao. Texto de Alberto de Abreu (páginas 70-79)

SEGUNDO ATO Cena 1 – Reabertura

Cena 6 Do Amor, do Receio e de outras Coisas II

RIBEIRO – O que é que você acha? MARIA – Do quê?

RIBEIRO – Como do quê? Do que eu te falei. MARIA – Não sei.

RIBEIRO (Censurando) – Maria!

RIBEIRO – Às vezes é difícil de te entender. MARIA – Você é pau, Ribeiro! Que implicância!

RIBEIRO – Eu só queria que você dissesse sim ou não.

MARIA – Não dá pra falar sim ou não... Tem muita coisa que... CARMELA (Fora) – Maria!

MARIA – Minha mãe tá me chamando. Outro dia a gente conversa

melhor. (Grita). Já vou, mamma! Ciao, Ribeiro.

RIBEIRO – Não. Já faz muito tempo que você está nessa lenga-lenga.

Eu tenho amor por você, você sabe.

MARIA – Sei. Eu também tenho.

RIBEIRO – Então por que fica nesse “nem ata nem desata”? O que

impede de a gente ir falar com o seu pai, noivar?

MARIA – É melhor esperar.

CARMELA (Fora) – Maria: vem logo. O sereno non é bom pra seus

pulmões.

MARIA – Tá mamma! Eu preciso entrar.

RIBEIRO – Posso falar com seu pai que a gente fica noivo?

MARIA (Depois de pequena pausa) – Não. Por favor, não fica irritado

comigo.

RIBEIRO (Sério) – Olha pra mim. O que está acontecendo? MARIA – Eu preciso entrar.

RIBEIRO – Está bem. A gente se encontra quando puder conversar

como adulto.

CARMELA (Fora, já irritada) – Maria: vem! MARIA – Já vou! Estou só me despedindo!

CARMELA – De quantas pessoas pra demorar todo esse tempo?

MARIA – Espera! Eu gosto de você, mas está acontecendo comigo...

Vem amanhã.

RIBEIRO – Não.

MARIA – Não me força. Eu não sei o que está acontecendo. Até ontem

eu era uma menina e você era o meu amigo mais velho que ia comigo ao baile. E gente começou a se gostar muito. Você me abraça e me beija. É bom... Estoura uma coisa boa aqui dentro... Vem amanhã, Ribeiro. As coisas estão indo depressa demais. Eu só tenho vinte e um anos... (Giovanni surge e vê os

dois abraçados. Leva um choque e volta atrás).

Está frio... Me abraça... Vem amanhã...

GIOVANNI (Fazendo barulho de pés e chamando antes de entrar) –

Maria! (Os dois namorados se separam, mas

continuam se olhando). É tarde. Scusi, Ribeiro, ma é

tarde.

RIBEIRO (Que continua a olhar Maria como se não houvesse sido interrompido por Giovanni) – Eu venho amanhã. GIOVANNI – Ecco! Ele vem amanhã. (Maria sai. Giovanni inicia a

conversa, desconcertado). Bene... Io gosto de você,

Ribeiro... Se fosse outra pessoa... Non é bom esse agarramento com Maria na frente de casa. Se a Carmela vê... Io non falo nada porque já tive a sua idade. (Desconfiado). Io confio em você, eh?

GIOVANNI – Si, é claro. Como eston vocês? RIBEIRO – Bem.

GIOVANNI – É claro que eston bem! Ma que decidem? Faz anos que

vocês... Ou pega logo ou tira a mão, eh? (Ri).

RIBEIRO (Rindo) – Estamos pensando.

GIOVANNI – Vocês de hoje non entendem muito de mulheres. Se você

fosse anarquista io te ensinaria algumas coisas, ma como non é, vai ter que aprender sozinho. Io non posso ajudar o inimigo, eh? (Ri). Boa noite, caro! Força e coragem, eh?

RIBEIRO – Boa noite. (Sai. Luz cai ao mesmo tempo em que o foco ilumina o Ponto no outro lado do palco. Ponto bate palmas).

GIOVANNI (Entrando no foco) – Ciao. Espero que não esteja cansada

de me ouvir.

PONTO – Não. O que é isso?

GIOVANNI – Quanto tempo faz que eu estou falando como uma besta

pra você ouvir? Três dias?

PONTO – Quatro.

GIOVANNI – É bom recordar. Pesar a vida que a gente teve. Eu gosto

de falar. Por isso tenha paciência comigo. Eu tinha parado onde?

PONTO – O senhor estava falando de 1928.

GIOVANNI – Ecco! Em 29, a crise foi terrível. Você sabe: a crise do

café. (Entram Ribeiro e Maria de braços dados ao

fundo. Montam alguns quadros mudos: namoro, briga, aborrecimento, paixão, etc.). Um desemprego

muito grande. Ma teve uma grande greve dos gráficos. Os operários voltavam de novo às ruas. Ma o que me fica na cabeça é que foi um ano muito triste pra Maria.

(Mudando de tom. Irritado). Que aconteceu, Maria?

Explica! (Luz cai sobre Giovanni e Ponto. Sobe em

Maria e Ribeiro). RIBEIRO – Você está quieta.

MARIA – Tá fazendo frio.

RIBEIRO – Você está quieta há muito tempo. MARIA – Está fazendo frio há muito tempo. RIBEIRO – Ih, diacho! Fala direito comigo. MARIA – Você forçou.

RIBEIRO – Forcei o quê?

MARIA – Eu te falei que as coisas estavam indo depressa demais. RIBEIRO – Não estou entendendo.

MARIA – Você não devia ter falado com meu pai.

RIBEIRO – Sobre o noivado? Você tinha concordado, não tinha? MARIA (Confusa) – Tinha Ribeiro, tinha!

RIBEIRO – Então! (Pausa. Maria não responde). Diacho! O que é que

você esconde que nunca dá pra saber?

MARIA – Eu falei que você tinha que ter paciência comigo. RIBEIRO – Mais do que eu tive?

MARIA (Desesperada) – É. Um pouco mais. RIBEIRO – Chega um dia e a paciência acaba.

MARIA – Eu acho que ainda não estou preparada. RIBEIRO – Pra casar comigo?

MARIA – Pra casar, pra viver...

RIBEIRO – Mas... De onde você tirou essa ideia, criatura? MARIA – As coisas são muito difíceis pra mim.

RIBEIRO – O que é difícil?

MARIA – Pra você, pra o meu pai, meu irmão, até pra minha mãe as

coisas são fáceis.

RIBEIRO (Confuso) – Pronto! Não entendo mais porcaria nenhuma!

Você gosta de mim?

MARIA – Gosto, Ribeiro: gosto!

RIBEIRO – Então? Quando duas pessoas se gostam querem ficar junto.

Quando querem ficar junto, vão morar numa mesma casa e dormir na mesma cama.

MARIA – Não.

RIBEIRO – Não o quê? Não gosta, não quer morar junto ou não quer

dormir na mesma cama?

MARIA – Não é isso. O que eu quero dizer... (Pausa). Está fazendo

frio... É essa garoa.

RIBEIRO – Você está gostando de outra pessoa. (Luz cai sobre Maria e Ribeiro. Sobe sobre Giovanni. Entra Carmela). GIOVANNI – Gennarino já chegou?

CARMELA – Não.

GOVANNI – Quando eu vim, ele já tinha saído do Sindicato. Essa greve

CARMELA – Você tem falado com Maria?

GIOVANNI – Falei com Gennarino. A gente se une no Sindicato. Pra

eleiçon do Parlamento, non. Nós nos unimos no Sindicato: a greve está quase ganha!

CARMELA – Estou falando de Maria. GIOVANNI – O que é que tem?

CARMELA – Non sei. Ma ela está muito esquisita. Faz uma semana que

chega do trabalho e nem conversa, nem nada.

GIOVANNI – Maria é grande. Sabe o que faz. (Entra Gennarino). Ah,

Gennarino, eu estive...

GENNARINO – Onde está Maria? Maria!

CARMELA – Está lá dentro. Que cosa aconteceu? GENNARINO – Ela vai ter que explicar direitinho! Maria!

GIOVANNI – Ma, que demônio, que entra berrando come louco? Que

fez ela?

GENNARINO – Desmanchou o noivado. Faz mais de uma semana! CARMELA – E por quê? (Surge Maria).

GENNARINO – Entra. Entra e explica o que aconteceu: cretina! MARIA – Não fala assim comigo!

GENNARINO – Falo! E você...

GIOVANNI (Cortando) – Calem a boca! Quem grita nesta casa sono io!

Senta Maria. (Pergunta com falsa calma). Enton você desmanchou o noivado? (Maria assente,

segura). Faz mais de uma semana e ninguém ficou

sabendo... (Irritando-se). Ma é claro, nós aqui somos todos idiotas, ninguém precisa saber de nada, non?

CARMELA – Por que fez isso, inconsciente? Se non gostava dele por

que ficou esse tempo todo...

GENNARINO – Com quem é que você está namorando agora? MARIA – Ribeiro foi contar, não é?

GENNARINO – Não. Ribeiro é decente. Eu é que tive que insistir... GIOVANNI – Basta Gennarino!

MARIA (Para Gennarino) – Não me fale assim. GIOVANNI – E basta você também, Maria!

GENNARINO – Sabe o que o Ribeiro disse papá? Que Maria tinha outro

homem.

CARMELA – Maria?

GIOVANNI – Sai Carmela! Sai Gennarino! (Gennarino olha com raiva para Maria e sai, seguido por Carmela. Giovanni ainda tentando conter a tensão). Tem outro

homem?

MARIA (Firme) – Não, pai.

GIOVANNI – Tu non mentiria pra mim, non é? MARIA – O senhor sabe que não.

GIOVANNI – Bene. Agora me explica que cazzo aconteceu, cáspita! MARIA – Eu falei pra ele que gostava de outra pessoa. Pra desmanchar

o noivado.

GIOVANNI – Ou o mundo mudou ou io estou velho demais pra

entender. Explica!

GIOVANNI – E esperou todo esse tempo pra dizer? Que homem você

quer? Um almofadinha, um artista de cinema?

MARIA – Eu não quero um homem que sai de manhã e volta pra casa

dois anos depois porque estava preso.

GIOVANNI – Cane! Ele é preso porque é decente e non porque é

criminoso!

MARIA – Come o senhor! Eu não quero levar a vida que a mamma

levou!

GIOVANNI – Que tem a vida que a tua mamma levou, cretina?

MARIA – Não tem nada papá. Só que eu não posso levar a mesma

vida.

GIOVANNI – E por quê? Por acaso a vida da gente non é boa suficiente

pra você?

MARIA (Desesperada) – Porque tenho medo, papá. Sempre tive medo!

Quando o senhor ia preso eu tinha medo, quando os soldados entravam aqui em casa eu tinha medo. Quando veio a revolução eu tinha medo!

GIOVANNI (Vai responder, mas não tem como argumentar. Para na metade do gesto. Pausa) – Dio merda! A vida da

gente nunca foi diversão! Medo! A gente foi vivendo, atropelando tudo na frente! Cazzo de Santa Madonna! A vida é dura! Medo! Medo!

MARIA – Eu não quero viver cheia de sustos.

GIOVANNI – Ninguém quer! Nem eu, nem tua mamma! Ma noi siamo

carcamano, calcanhar de frigideira, e nos defendemos, filha! Io, Gennarino, Ribeiro temos a cabeça metida em política e tua mamma às vezes sofreu por causa disso. Porque nossa vida non tem

glória. Tem trabalho, risco e às vezes, medo. Nós só nos defendemo entende?

MARIA – Eu entendo papá, mas...

GIOVANNI (Cortando) – Entendo nada! Nós non vamo pra rua pra

buscar aventura. Non é engraçado enfrentar sabre de polícia de mão vazia. Se a polícia prende, bate e invade nossa casa non é nossa culpa!

MARIA – Eu não estou culpando ninguém!

GIOVANNI – Diabo! Io non tenho a cabeça grande suficiente para

entender o que se passa nessa casa e no mundo. Io non tenho o que te dizer, nem entendo muito que está acontecendo. Ma non gosto do que está se passando, é claro? Você non quer mesmo casar com Ribeiro?

MARIA – Eu já expliquei por que, papá.

GIOVANNI – Io non gosto da tua explicação! (Pausa). Está bem! (Chama). Carmela! Gennarino! (Os dois entram. Maria chora). Io non entendo o que se passa na

cabeça dela porque non é a minha, ma ela precisa de paz. (Carmela vai em direção de Giovanni). Ninguém mais toca no assunto do noivado de Maria nesta casa! (Gennarino olha duramente pra irmã e

sai. Sons de bandas e marchas militares. Burburinho de povo. Discurso de Getúlio Vargas, enquanto a luz cai).

No documento Bella Ciao. Texto de Alberto de Abreu (páginas 70-79)

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