SEGUNDO ATO Cena 1 – Reabertura
Cena 6 Do Amor, do Receio e de outras Coisas II
RIBEIRO – O que é que você acha? MARIA – Do quê?
RIBEIRO – Como do quê? Do que eu te falei. MARIA – Não sei.
RIBEIRO (Censurando) – Maria!
RIBEIRO – Às vezes é difícil de te entender. MARIA – Você é pau, Ribeiro! Que implicância!
RIBEIRO – Eu só queria que você dissesse sim ou não.
MARIA – Não dá pra falar sim ou não... Tem muita coisa que... CARMELA (Fora) – Maria!
MARIA – Minha mãe tá me chamando. Outro dia a gente conversa
melhor. (Grita). Já vou, mamma! Ciao, Ribeiro.
RIBEIRO – Não. Já faz muito tempo que você está nessa lenga-lenga.
Eu tenho amor por você, você sabe.
MARIA – Sei. Eu também tenho.
RIBEIRO – Então por que fica nesse “nem ata nem desata”? O que
impede de a gente ir falar com o seu pai, noivar?
MARIA – É melhor esperar.
CARMELA (Fora) – Maria: vem logo. O sereno non é bom pra seus
pulmões.
MARIA – Tá mamma! Eu preciso entrar.
RIBEIRO – Posso falar com seu pai que a gente fica noivo?
MARIA (Depois de pequena pausa) – Não. Por favor, não fica irritado
comigo.
RIBEIRO (Sério) – Olha pra mim. O que está acontecendo? MARIA – Eu preciso entrar.
RIBEIRO – Está bem. A gente se encontra quando puder conversar
como adulto.
CARMELA (Fora, já irritada) – Maria: vem! MARIA – Já vou! Estou só me despedindo!
CARMELA – De quantas pessoas pra demorar todo esse tempo?
MARIA – Espera! Eu gosto de você, mas está acontecendo comigo...
Vem amanhã.
RIBEIRO – Não.
MARIA – Não me força. Eu não sei o que está acontecendo. Até ontem
eu era uma menina e você era o meu amigo mais velho que ia comigo ao baile. E gente começou a se gostar muito. Você me abraça e me beija. É bom... Estoura uma coisa boa aqui dentro... Vem amanhã, Ribeiro. As coisas estão indo depressa demais. Eu só tenho vinte e um anos... (Giovanni surge e vê os
dois abraçados. Leva um choque e volta atrás).
Está frio... Me abraça... Vem amanhã...
GIOVANNI (Fazendo barulho de pés e chamando antes de entrar) –
Maria! (Os dois namorados se separam, mas
continuam se olhando). É tarde. Scusi, Ribeiro, ma é
tarde.
RIBEIRO (Que continua a olhar Maria como se não houvesse sido interrompido por Giovanni) – Eu venho amanhã. GIOVANNI – Ecco! Ele vem amanhã. (Maria sai. Giovanni inicia a
conversa, desconcertado). Bene... Io gosto de você,
Ribeiro... Se fosse outra pessoa... Non é bom esse agarramento com Maria na frente de casa. Se a Carmela vê... Io non falo nada porque já tive a sua idade. (Desconfiado). Io confio em você, eh?
GIOVANNI – Si, é claro. Como eston vocês? RIBEIRO – Bem.
GIOVANNI – É claro que eston bem! Ma que decidem? Faz anos que
vocês... Ou pega logo ou tira a mão, eh? (Ri).
RIBEIRO (Rindo) – Estamos pensando.
GIOVANNI – Vocês de hoje non entendem muito de mulheres. Se você
fosse anarquista io te ensinaria algumas coisas, ma como non é, vai ter que aprender sozinho. Io non posso ajudar o inimigo, eh? (Ri). Boa noite, caro! Força e coragem, eh?
RIBEIRO – Boa noite. (Sai. Luz cai ao mesmo tempo em que o foco ilumina o Ponto no outro lado do palco. Ponto bate palmas).
GIOVANNI (Entrando no foco) – Ciao. Espero que não esteja cansada
de me ouvir.
PONTO – Não. O que é isso?
GIOVANNI – Quanto tempo faz que eu estou falando como uma besta
pra você ouvir? Três dias?
PONTO – Quatro.
GIOVANNI – É bom recordar. Pesar a vida que a gente teve. Eu gosto
de falar. Por isso tenha paciência comigo. Eu tinha parado onde?
PONTO – O senhor estava falando de 1928.
GIOVANNI – Ecco! Em 29, a crise foi terrível. Você sabe: a crise do
café. (Entram Ribeiro e Maria de braços dados ao
fundo. Montam alguns quadros mudos: namoro, briga, aborrecimento, paixão, etc.). Um desemprego
muito grande. Ma teve uma grande greve dos gráficos. Os operários voltavam de novo às ruas. Ma o que me fica na cabeça é que foi um ano muito triste pra Maria.
(Mudando de tom. Irritado). Que aconteceu, Maria?
Explica! (Luz cai sobre Giovanni e Ponto. Sobe em
Maria e Ribeiro). RIBEIRO – Você está quieta.
MARIA – Tá fazendo frio.
RIBEIRO – Você está quieta há muito tempo. MARIA – Está fazendo frio há muito tempo. RIBEIRO – Ih, diacho! Fala direito comigo. MARIA – Você forçou.
RIBEIRO – Forcei o quê?
MARIA – Eu te falei que as coisas estavam indo depressa demais. RIBEIRO – Não estou entendendo.
MARIA – Você não devia ter falado com meu pai.
RIBEIRO – Sobre o noivado? Você tinha concordado, não tinha? MARIA (Confusa) – Tinha Ribeiro, tinha!
RIBEIRO – Então! (Pausa. Maria não responde). Diacho! O que é que
você esconde que nunca dá pra saber?
MARIA – Eu falei que você tinha que ter paciência comigo. RIBEIRO – Mais do que eu tive?
MARIA (Desesperada) – É. Um pouco mais. RIBEIRO – Chega um dia e a paciência acaba.
MARIA – Eu acho que ainda não estou preparada. RIBEIRO – Pra casar comigo?
MARIA – Pra casar, pra viver...
RIBEIRO – Mas... De onde você tirou essa ideia, criatura? MARIA – As coisas são muito difíceis pra mim.
RIBEIRO – O que é difícil?
MARIA – Pra você, pra o meu pai, meu irmão, até pra minha mãe as
coisas são fáceis.
RIBEIRO (Confuso) – Pronto! Não entendo mais porcaria nenhuma!
Você gosta de mim?
MARIA – Gosto, Ribeiro: gosto!
RIBEIRO – Então? Quando duas pessoas se gostam querem ficar junto.
Quando querem ficar junto, vão morar numa mesma casa e dormir na mesma cama.
MARIA – Não.
RIBEIRO – Não o quê? Não gosta, não quer morar junto ou não quer
dormir na mesma cama?
MARIA – Não é isso. O que eu quero dizer... (Pausa). Está fazendo
frio... É essa garoa.
RIBEIRO – Você está gostando de outra pessoa. (Luz cai sobre Maria e Ribeiro. Sobe sobre Giovanni. Entra Carmela). GIOVANNI – Gennarino já chegou?
CARMELA – Não.
GOVANNI – Quando eu vim, ele já tinha saído do Sindicato. Essa greve
CARMELA – Você tem falado com Maria?
GIOVANNI – Falei com Gennarino. A gente se une no Sindicato. Pra
eleiçon do Parlamento, non. Nós nos unimos no Sindicato: a greve está quase ganha!
CARMELA – Estou falando de Maria. GIOVANNI – O que é que tem?
CARMELA – Non sei. Ma ela está muito esquisita. Faz uma semana que
chega do trabalho e nem conversa, nem nada.
GIOVANNI – Maria é grande. Sabe o que faz. (Entra Gennarino). Ah,
Gennarino, eu estive...
GENNARINO – Onde está Maria? Maria!
CARMELA – Está lá dentro. Que cosa aconteceu? GENNARINO – Ela vai ter que explicar direitinho! Maria!
GIOVANNI – Ma, que demônio, que entra berrando come louco? Que
fez ela?
GENNARINO – Desmanchou o noivado. Faz mais de uma semana! CARMELA – E por quê? (Surge Maria).
GENNARINO – Entra. Entra e explica o que aconteceu: cretina! MARIA – Não fala assim comigo!
GENNARINO – Falo! E você...
GIOVANNI (Cortando) – Calem a boca! Quem grita nesta casa sono io!
Senta Maria. (Pergunta com falsa calma). Enton você desmanchou o noivado? (Maria assente,
segura). Faz mais de uma semana e ninguém ficou
sabendo... (Irritando-se). Ma é claro, nós aqui somos todos idiotas, ninguém precisa saber de nada, non?
CARMELA – Por que fez isso, inconsciente? Se non gostava dele por
que ficou esse tempo todo...
GENNARINO – Com quem é que você está namorando agora? MARIA – Ribeiro foi contar, não é?
GENNARINO – Não. Ribeiro é decente. Eu é que tive que insistir... GIOVANNI – Basta Gennarino!
MARIA (Para Gennarino) – Não me fale assim. GIOVANNI – E basta você também, Maria!
GENNARINO – Sabe o que o Ribeiro disse papá? Que Maria tinha outro
homem.
CARMELA – Maria?
GIOVANNI – Sai Carmela! Sai Gennarino! (Gennarino olha com raiva para Maria e sai, seguido por Carmela. Giovanni ainda tentando conter a tensão). Tem outro
homem?
MARIA (Firme) – Não, pai.
GIOVANNI – Tu non mentiria pra mim, non é? MARIA – O senhor sabe que não.
GIOVANNI – Bene. Agora me explica que cazzo aconteceu, cáspita! MARIA – Eu falei pra ele que gostava de outra pessoa. Pra desmanchar
o noivado.
GIOVANNI – Ou o mundo mudou ou io estou velho demais pra
entender. Explica!
GIOVANNI – E esperou todo esse tempo pra dizer? Que homem você
quer? Um almofadinha, um artista de cinema?
MARIA – Eu não quero um homem que sai de manhã e volta pra casa
dois anos depois porque estava preso.
GIOVANNI – Cane! Ele é preso porque é decente e non porque é
criminoso!
MARIA – Come o senhor! Eu não quero levar a vida que a mamma
levou!
GIOVANNI – Que tem a vida que a tua mamma levou, cretina?
MARIA – Não tem nada papá. Só que eu não posso levar a mesma
vida.
GIOVANNI – E por quê? Por acaso a vida da gente non é boa suficiente
pra você?
MARIA (Desesperada) – Porque tenho medo, papá. Sempre tive medo!
Quando o senhor ia preso eu tinha medo, quando os soldados entravam aqui em casa eu tinha medo. Quando veio a revolução eu tinha medo!
GIOVANNI (Vai responder, mas não tem como argumentar. Para na metade do gesto. Pausa) – Dio merda! A vida da
gente nunca foi diversão! Medo! A gente foi vivendo, atropelando tudo na frente! Cazzo de Santa Madonna! A vida é dura! Medo! Medo!
MARIA – Eu não quero viver cheia de sustos.
GIOVANNI – Ninguém quer! Nem eu, nem tua mamma! Ma noi siamo
carcamano, calcanhar de frigideira, e nos defendemos, filha! Io, Gennarino, Ribeiro temos a cabeça metida em política e tua mamma às vezes sofreu por causa disso. Porque nossa vida non tem
glória. Tem trabalho, risco e às vezes, medo. Nós só nos defendemo entende?
MARIA – Eu entendo papá, mas...
GIOVANNI (Cortando) – Entendo nada! Nós non vamo pra rua pra
buscar aventura. Non é engraçado enfrentar sabre de polícia de mão vazia. Se a polícia prende, bate e invade nossa casa non é nossa culpa!
MARIA – Eu não estou culpando ninguém!
GIOVANNI – Diabo! Io non tenho a cabeça grande suficiente para
entender o que se passa nessa casa e no mundo. Io non tenho o que te dizer, nem entendo muito que está acontecendo. Ma non gosto do que está se passando, é claro? Você non quer mesmo casar com Ribeiro?
MARIA – Eu já expliquei por que, papá.
GIOVANNI – Io non gosto da tua explicação! (Pausa). Está bem! (Chama). Carmela! Gennarino! (Os dois entram. Maria chora). Io non entendo o que se passa na
cabeça dela porque non é a minha, ma ela precisa de paz. (Carmela vai em direção de Giovanni). Ninguém mais toca no assunto do noivado de Maria nesta casa! (Gennarino olha duramente pra irmã e
sai. Sons de bandas e marchas militares. Burburinho de povo. Discurso de Getúlio Vargas, enquanto a luz cai).