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3 VIDA E PERSONIFICAÇÃO JURÍDICA DO SER HUMANO

3.4 O CONCEITO DE PESSOA

3.4.3 A dignidade da pessoa humana

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CASTRO, Ariadne Mansu de. Antropocentrismo, Biocentrismo e Direito dos Animais. Disponível em: <http://www.cenedcursos.com.br/antropocentrismo-biocentrismo-direito-animais.html>. Acesso em: 20 nov. 2008, p.2.

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A análise da importância da dignidade, como um valor jurídico, neste trabalho, tem como ponto de partida o fato de que, na atualidade, vive-se uma corrida tecnocientífica, resistente, a

priori, de controles sociais, cujo fundamento está arraigado no ideal de benefício à espécie

humana. O panorama da investigação do sentido de dignidade, então, parte da constatação de uma realidade biotecnológica, que propiciou, inclusive, o surgimento de uma pretensa, ou possível, categoria de sujeito de direito, que é o embrião em estado de pré-implantação uterina.

O movimento biotecnológico ou tecnocientífico esbarra no ideal jurídico de dignidade humana. Conforme o artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal, a dignidade da pessoa humana foi considerada, expressamente, fundamento da República. É necessário compreender porque tal propósito constitucional mantém estreita relação com a discussão em torno do conceito de sujeito de direito.

Antes de ser um princípio que fundamenta o Estado democrático de Direito, a dignidade é, em verdade, o reconhecimento de uma dimensão inerente a toda pessoa humana que antecede o próprio Ordenamento jurídico278. É, pois, uma condição pré-jurídica pressuposto do próprio Direito.

De fato, como uma qualidade intrínseca do ser humano, a dignidade é o elemento que o qualifica e o reconhece e dele não pode ser apartado. Não se pode cogitar a possibilidade de que alguém titularize uma pretensão cujo pleito seja a concessão da dignidade, uma vez que ela é, naturalmente, própria do ser humano. Logo, como qualidade integrante do ser humano, “pode (e deve) ser reconhecida, respeitada, promovida e protegida, não podendo, contudo [...] ser criada, concedida ou retirada [...], já que existe – ou é reconhecida como tal – em cada ser humano como algo que lhe é inerente”279. Essa condição de inerência à existência humana é parte da dimensão ontológica da dignidade, posto que é incondicionada e independente de qualquer outro atributo.

Ingo Wolfgang Sarlet afirma, ainda, que mesmo de que a dignidade seja condição inerente a cada indivíduo, não se pode desconsiderar a dimensão comunitária desta mesma dignidade,

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FACHIN, Luiz Edson; PIANOVSKI, Carlos Eduardo. A dignidade da pessoa humana no direito contemporâneo: uma contribuição à crítica da raiz dogmática do neopositivismo constitucionalista. Revista

Trimestral de Direito Civil, Rio de Janeiro: Padma, v.35, jul./set. 2008, p.101.

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SARLET, Ingo Wolfgang. As dimensões da Dignidade da pessoa humana: uma compreensão jurídico- constitucional aberta compatível com os desafios da biotecnologia. In: SARMENTO, Daniel; PIOVESAN, Flávia (Coords.). Nos limites da vida: Aborto, clonagem humana e eutanásia sob a perspectiva dos direitos humanos. Rio de Janeiro: Lumen Iuris, 2007, p.216. Sobre o tema, a partir de uma visão mais aprofundada, ver também: SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa Humana e direito fundamentais na Constituição

considerando o reconhecimento da igualdade entre os homens por meio dos direitos. Assim, “a própria dimensão ontológica da dignidade assume seu pleno significado em função no contexto de intersubjetividade que marca todas as relações humanas e, portanto, também o reconhecimento dos valores [...] socialmente consagrados pela e para a comunidade de pessoas humanas”280.

A agregação da perspectiva relacional e intersubjetiva da dignidade contribui para a superação eminentemente especista ou biológica, manifesta na sua dimensão ontológica, para permitir uma ampliação e melhor compreensão do seu conceito. A dimensão ontológica da dignidade, dessa maneira, não deve ser aferida exclusivamente pela sua natural condição inerente ao homem, mas também pelo caráter relacional do ser humano, inserido em comunidade e destinatário de direitos e garantias.

A inserção do referido fundamento no texto constitucional assenta na necessidade de admitir que o homem é a razão e o fim para o Direito, não podendo ser encarado como meio ou objeto para consecução de quaisquer objetivos. A fidelidade a essa perspectiva culmina na constatação de que o Estado está a serviço do homem, sendo aquele um meio, uma forma de garantir e preservar a existência da vida. Se o Estado está a serviço do homem, o homem, e toda a sua significação ontológica é fundamento para a existência desse Estado. O reconhecimento dessa significação ontológica se dá pela elevação do princípio da dignidade da pessoa humana a fundamento do Estado Democrático.

É notória que a determinação da extensão e do conteúdo do princípio da dignidade é uma tarefa delicada, impregnada de pormenores que podem ser identificados na prática, quando há choques entre direitos fundamentais, ou mesmo, entre princípios constitucionais. As incursões a respeito da delimitação conceitual da dignidade são inúmeras, não sendo objeto do presente trabalho. Busca-se, no entanto, identificar a medida da ligação desse princípio com fundamentação da construção teórica dos sujeitos de direitos pela legislação, mais significativamente, pela legislação civil.

Roberto Andorno entende que a dignidade da pessoa deve ser compreendida no sentido ontológico, como uma qualidade inseparável do homem e uniforme para todos os que pertencem a essa espécie. Para ele, a idéia de dignidade deve ser associada à incomunicabilidade, unicidade e impossibilidade de reduzir o homem a um simples número.

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Ela é, sobretudo, um valor inerente à simples existência humana281.

A colocação do referido princípio na Constituição não é um mero exercício retórico do legislador, sendo uma norma constitucional, e, como tal, é vinculante. Se é, antes de tudo, um valor que antecede o direito, além de ser fundamento da República, constitui-se como um valor supremo dentro do sistema jurídico. Sendo assim, o princípio detém um componente ético-jurídico inafastável que subordina todo o Direito, inclusive, o Direito Civil. Tal valor impõe a releitura de institutos com vistas a manter essa perspectiva: as relações entre particulares devem subordinar-se à premissa do respeito à pessoa do outro282.

O sentido da dignidade, como fundamento de uma ordem jurídica, está na diferenciação entre o homem, sujeitos de direitos, e as coisas, objetos de direitos. Esse pilar fundamental qualifica o ser humano, colocando-o no centro do Estado e do Direito. A análise da legislação propiciará identificar a exata medida da proteção do ser humano em face das diferentes fases da vida em desenvolvimento.