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Figura 6

“(...)Todas as partes do corpo foram minuciosamente examinadas, medidas e pesadas de forma a se estabelecer

uma ciência da anatomia comparada das diferentes raças.”

Trecho do hino de louvor à medição do antropólogo americano D.G. Brinton publicada em 1890 In: Gould (1991)

Durante aproximadamente um século, houve na Inglaterra uma escola ou uma série de autores que escreveram sobre diferenças individuais de capacidade – e entre eles devem ser incluídos Galton, Spearman, Burt, Thompson, Vermon e Wiseman. Nos Estados Unidos realizou- se trabalho semelhante e, de maneira geral, foram obtidas conclusões semelhantes por Terman, Thorndike, Hull, Kely, Thurstone, Cattell, McNemar e Humphreys. Discutiremos alguns destes autores ao longo da revisão bibliográfica.

Em busca de desvendar a inteligência humana, os pesquisadores partidários do determinismo biológico11 dedicaram-se à craniometria durante o século XIX. A justificativa biológica fortalecia, ainda mais, o fardo da inferioridade, ampliando o preconceito e a hierarquização racial. A crença socialmente compartilhada mantinha os negros, as mulheres e todos aqueles que não fossem brancos e caucasianos num patamar distinto.

Os líderes e intelectuais não duvidavam desta pertinência e isso influenciou, sobremaneira, várias decisões político-ideológicas. Gould (1991) citou algumas declarações de cientistas dos séculos XVIII e XIX, confirmando que os líderes brancos das nações ocidentais não questionavam a validade da hierarquização racial, já que havia duas possibilidades de origem: o monogenismo e o poligenismo.

No primeiro caso, a unidade dos povos estava garantida pela descendência de um único casal: Adão e Eva. A distinção racial era decorrente das influências do clima. Os defensores do

11 O determinismo biológico era uma proposta semeada pelas interpretações das idéias sobre a crença de que as classes economicamente mais baixas seriam intrinsecamente inferiores, registradas em Platão na obra A República.

poligenismo eram partidários da hipótese de espécies separadas: havia mais de um Adão e os negros eram “outra” forma de vida humana.

Obcecados pelas comprovações e pelos dados numéricos, estudiosos como o anatomista francês Etienne Serres, o cirurgião inglês Charles White, o naturalista suíço e porta-voz da poligenia americana, Louis Agassiz, dedicaram-se a demonstrar que:

Os homens estão unidos por uma estrutura comum e um vínculo de afinidade, ainda que as raças tenham sido criadas como espécies em separado. A Bíblia não fala de partes do mundo desconhecidas pelos antigos; o relato de Adão refere-se apenas à origem dos caucásicos (GOULD,1991, p.33).

Esta crença era tão forte quanto a intenção de prová-la cientificamente que o “empírico da poligenia”, o médico e cientista da Filadélfia, Samuel George Morton, quem juntou mais de mil crânios durante sua vida e que se esforçou para comprovar a hipótese de que o tamanho médio do cérebro validaria a existência de uma hierarquia entre as raças.

Morton valeu-se, para tanto, do volume da cavidade craniana, utilizando primeiramente como medida comparativa o número de sementes de mostarda, e posteriormente esferas de chumbo – que lhe pareceram a opção mais fidedigna, como relatou Gould (1991).

Figura 7 Apesar dos dados obtidos serem aclamados como “sólidos e irrefutáveis”, os procedimentos para medição dos ossos e a soma dos dados foram direcionados pelos preconceitos. A forte crença dos pesquisadores de que, medindo-se o cérebro, estava-se medindo a diferença inata de inteligência, levou à manipulação dos dados e à adequação “forçada” dos critérios de estudo.

A craniometria e a poligenia nortearam os estudos sobre a inteligência humana até Charles Darwin apresentar suas idéias sobre o evolucionismo. Ainda assim, o estandarte da ciência pregava em favor da escravidão, do colonialismo, das diferenças raciais, das estruturas de classes e da discriminação sexual. A ciência reafirmava a crença de que os negros, as mulheres e os pobres eram mesmo inferiores aos homens brancos.

Na segunda metade do século XIX, as ciências humanas foram “contaminadas” por uma fascinação pelos números, pela crença nas medições rigorosas e pela possibilidade da precisão newtoniana irrefutável.

O “apóstolo da quantificação”, Francis Galton (1822-1911), pioneiro da estatística moderna, apoiou-se nas idiossincrasias e na engenhosidade de seus métodos para dedicar-se com afinco à medição da beleza, do aborrecimento, da eficácia da prece, pois estava convicto de que tudo que era passível de medição era hereditário. Em 1883, inventou o termo “eugenia” e defendeu o matrimônio e a definição do tamanho das famílias de acordo com o patrimônio hereditário dos pais.

A obra de Galton sobre caráter hereditário da inteligência atingiu seu auge com a instalação de um laboratório, em 1884, durante um evento internacional. Em poucos minutos e com poucas moedas, as pessoas faziam testes e medições do crânio e partes do corpo. Nas medidas quantificava-se a inteligência.

Gould (1991) relata que, em 1906, o médico Robert Bennett Bean comparava os dados relativos ao corpo caloso (conjunto de fibras que conectam os hemisférios cerebrais), enfatizando a diferença entre negros e brancos. Bean analisou as duas partes do corpo caloso, a anterior (chamada de joelho) e a posterior (esplênio). Apoiou-se no dogma fundamental de que as funções mentais superiores localizavam-se na parte anterior do cérebro e as sensório-motoras (movimento involuntário, sensação e emoção), na posterior. Seus resultados comprovavam que as mulheres e os negros tinham a função posterior maior e conseqüentemente funções superiores reduzidas, e comprovavam anatomicamente que o cérebro do negro é tão incapaz de compreender informações mais complexas quanto um cavalo de entender uma “regra de três” 12 (que é um procedimento matemático primário).

Mas seu mentor, Franklin P. Mall, suspeitou da manipulação dos dados; utilizou então o mesmo método de Bean e mediu novamente os cérebros, ignorando anteriormente se eram de negros ou brancos. Confirmou sua hipótese de que não havia discrepâncias que justificassem os discursos preconceituosos.

12 Regra de três é um processo de resolução de problemas de quatro valores, dos quais três são conhecidos e devemos determinar o quarto valor.

Gould (1991), analisando esses dados, reforçou sua premissa de que o fanatismo manteve o rótulo de inferioridade do grupo social relegado; os racistas e sexistas científicos baseavam-se ainda na filosofia do determinismo biológico; a estratificação social era reflexo da biologia.

A crença apriorística de inferioridade dos negros, valendo-se das medidas manipuladas dos cérebros e a aceitação crescente da craniometria reforçaram a suposta “estupidez inata” que deveria impedir, por exemplo, os negros de votarem.

Em relação à fragilidade da documentação desses dados, Bean mereceu mais críticas, porque cometeu fraude deliberada. Já outros pesquisadores, como Paul Broca e seus discípulos, foram cuidadosos e sólidos, favorecendo alguns avanços e, ao mesmo tempo, dificultando a queda do paradigma das visões que estavam sujeitas ao determinismo (GOULD, 1991).

Entre os mestres da craniometria, Paul Broca (1824-1880), professor de cirurgia clínica na Faculdade de Medicina e fundador da Sociedade Antropológica de Paris, defendeu largamente a idéia de que há uma notável relação entre o desenvolvimento da inteligência e o volume do cérebro, e que a hierarquia tradicional era resultado da precisão das medições, feitas cuidadosamente com base em procedimentos passíveis de repetição.

Gould (1991) dedicou-se mais de um mês a analisar as obras de Broca para identificar se os procedimentos estatísticos eram coerentes e se os resultados fidedignos. Descobriu então que estes foram “contaminados” pelas crenças compartilhadas pela maioria dos indivíduos brancos do sexo masculino, de que mulheres, negros e pobres eram inferiores. Para o mesmo autor, o preconceito fundamental de Paul Broca baseava-se na crença de que as raças humanas poderiam ser hierarquizadas numa escala linear de valor intelectual.

Entre as tentativas encontradas para provar sua teoria, Broca utilizou-se da proporção entre o tamanho do rádio (um dos ossos do antebraço) e o do úmero (osso do braço). Mas abandonou essa idéia como todas as outras que colocaram em cheque a superioridade do homem branco. Jamais os resultados encontrados poderiam contradizer as premissas.

A busca de comprovar a correlação entre a pequenez do cérebro e a inferioridade mental conduziu os cientistas dessa época a valerem-se tanto das medidas da cabeça quanto das do corpo. Além do tamanho do cérebro, outras duas medidas foram utilizadas: o ângulo facial (a projeção anterior do rosto e da mandíbula) e o índice craniano (proporção entre a largura e o comprimento máximos).

Figura 8

interpretados de maneira que justificavam as conclusões desejadas. O tamanho do cérebro foi utilizado tanto pelos evolucionistas como Broca e Galton quanto pelos criacionistas Agassiz e Morton para “estabelecer distinções falsas e ofensivas entre os grupos humanos” (GOULD, 1991, p.111).

Gradativamente, os estudiosos mudaram o foco das pesquisas do tamanho do crânio para o peso do cérebro, verificado logo após a autopsia. O anatomista americano Spitzka instou homens eminentes a doarem seus cérebros para a ciência quando morressem.

Como muitos desses homens considerados inteligentes tinham cérebros pequenos, anunciou-se uma nova etapa de estudos. Em vez de focarem-se no tamanho e no volume do cérebro, os pesquisadores passaram a investigar as circunvoluções cerebrais, que são as reentrâncias e saliências deste.

Figura 9

Os estudos de Broca, relatou Gould (1991), centraram-se ora na medição do tamanho global do cérebro (craniometria), ora em partes específicas do cérebro (frenologia).

Para os deterministas biológicos, os grupos inferiores eram permutáveis; as mulheres tornaram-se alvo de diferenciação nas pesquisas de alguns membros da escola de Broca. Em 1879, Gustave Lebom, um dos fundadores da psicologia social, anunciava sua preocupação de que fosse oferecida às mulheres a mesma formação superior que tinham os homens.

As relações entre o tamanho do corpo e o tamanho do cérebro continuaram causando controvérsias. Parecia lógico que as mulheres menores podem ter cérebros menores, mas como comparar homens e mulheres de mesma estatura? O enigma da superioridade antropológica continuava, ressaltou Gould (1991).

O antropólogo sul-africano Tobias escreveu um artigo denunciando o mito de que as diferenças do tamanho do cérebro entre os grupos raciais teria relação com a inteligência, e enumerou uma lista com 14 critérios que poderiam provocar distorções (incluindo o fator tempo pós-morte para pesar o cérebro, alimentação, a profissão e a causa da morte).

As diferenças de tamanho do cérebro e a hierarquização dos grupos humanos direcionaram convicções apriorísticas e fortaleceram as crenças que distorceram os dados investigados e mantiveram o branco do sexo masculino no topo da escala da “falsa medida do homem”, destaca Gould (1991).

Os argumentos quantitativos e a busca por sinais morfológicos siameses entre os grupos considerados indesejáveis foram cada vez mais fortalecidos e deram origem a dois argumentos: a

recapitulação, isto é, de que a ontogenia recapitula a filogenia13, o que significa que cada ser

vivo revive o seu passado evolucionário durante o seu desenvolvimento; e a antropologia

criminal14 de Lombroso. Gould (1991) metaforizou estes argumentos, respectivamente, nas

seguintes expressões: “o macaco em todos nós” e “o macaco em alguns de nós”.

O primeiro deles, a recapitulação, foi resultado dos esforços dos naturalistas do século XIX em reconstruir a árvore da vida e buscar nos fósseis indícios dos traços dos antecessores. Entendia-se que todo indivíduo passava por uma série de estágios que correspondiam seqüencialmente às diferentes formas adultas dos antepassados. De acordo com Dubois (1994), Haeckel anunciou em 1866 a lei da recapitulação, na qual “um indivíduo passa rapidamente pelas etapas dos seus ancestrais no decurso do desenvolvimento do seu embrião” (p.109). Esta concepção direcionou as investigações de diferentes campos científicos, como: embriologia, morfologia, paleontologia e psicologia.

A utilização da recapitulação pelos inúmeros cientistas interessados em estabelecer e justificar as diferenças hierárquicas entre os grupos humanos deu luz à teoria anatômica baseada em todo o corpo (não mais apenas na cabeça), servindo como uma teoria geral do determinismo biológico. Todos os grupos “inferiores” – raças, sexos e classes – foram comparados com as

crianças brancas de sexo masculino. Já o paleontólogo americano E. D. Cope identificou quatro

grupos inferiores: raças não-brancas, os brancos do sul da Europa, todas a mulheres e as classes inferiores dentro das superiores.

13 Lei Biogenética de Haeckel

14 Cesare Lombroso (1835-1909), em seus estudos de craniologia e frenologia, defendeu a tese dos criminosos natos, os quais traziam inscritos no crânio a tendência para o crime; o sujeito já traria em si as marcas da transgressão.

A doutrina da superioridade nórdica andou de mãos dadas com a propaganda contra a imigração dos judeus ou de pessoas provenientes da Europa meridional. Os argumentos antropométricos foram cada vez mais aclamados e considerados provas irrefutáveis das diferenças humanas. A recapitulação ganhou chancela de seriedade e credibilidade. Foi somente em torno de 1920 que esta teoria caiu em descrédito, quando o anatomista holandês Louis Bolk propôs exatamente o contrário: é superior ou mais desenvolvido aquele que mantém traços infantis, nascia assim a neotenia.

Os cientistas já haviam coletado inúmeros dados que proclamavam que negros, mulheres e brancos de classes inferiores teriam no máximo a inteligência como as crianças brancas consideradas superiores. A partir da neotenia, acreditava-se que os brancos adultos, de classes sociais inferiores, eram tão inteligentes quanto as crianças negras. Alguns cientistas até reconheceram a superioridade das mulheres, mas se esquivaram em relação aos negros. A inferioridade destes continuava uma certeza para a qual eram procurados dados comprovadores. Além da relação anatômica do corpo com a inteligência, outros pesquisadores valeram-se de medidas corpóreas para provar a criminalidade nata.

O segundo argumento, o da antropologia criminal, foi amplamente estudado pelo médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909). Mandíbulas, palmas das mãos, orelhas pálidas e pontiagudas, sobrancelhas espessas, agudeza da visão, maior espessura do crânio, rugas precoces, braços relativamente longos, testa baixa e estreita, pela mais escura, baixa sensibilidade à dor, cérebro menor, isto é, de maneira geral os sinais físicos (formas e tamanhos) denunciavam o criminoso nato e deixavam evidentes sua mancha hereditária. O crime era um fenômeno natural às pessoas com tais características. Segundo Gould (1991):

a maior parte dos estigmas anatômicos apontados por Lombroso não eram patologias ou variações descontínuas, mas valores extremos dentro de uma curva normal, que se aproximavam das medidas médias encontradas nos símios superiores (p.127).

A antropologia criminal reforçou ainda o argumento do determinismo biológico para limitar-se à análise no campo da biologia e da patologia, ausentando as influências do meio ambiente e do contexto cultural.

Entre as conseqüências desta visão, afirmou Gould (1991), alguns réus foram condenados tendo como prova maior os traços anatômicos. O sistema de reclusão foi questionado a partir da premissa da impossibilidade de mudar a “natureza” e reabilitar essas pessoas. Seus partidários

sugeriram a seleção prévia e o isolamento dos indivíduos com tais características para evitar que cometessem delitos. Apoiou-se ainda a idéia de se fazer uma seleção prévia entre as crianças para que os professores pudessem saber o que esperar dos alunos portadores de tais estigmas.

A teoria de Lombroso, sendo cada vez mais criticada, aos poucos perdeu força. Mas o vínculo entre a degeneração e o ordenamento hierárquico deixava suas marcas, como, por exemplo, a denominação “idiotia mongólica” ou “mongolismo”, designação proposta em 1866 pelo Dr. John Langdon Down que identificou a síndrome de Down, isto é, pessoas que, mesmo filhos de pais europeus, tinham características físicas similares às do povo da Mongólia, considerado na época pertencentes a raças inferiores e com indivíduos degenerados.

A medida das partes do corpo, principalmente do tamanho do cérebro, foi utilizada por muito tempo como parâmetro para a inteligência. A cor escura da pele e o fato de nascer nas classes sociais inferiores já representavam a incapacidade intelectual. As marcas foram fixadas e a educação não fazia “milagres”. Conseguiam aprender aqueles que tinham nascido brancos e com poder econômico respeitável para a época.

A ciência moderna fortaleceu-se com o discurso da rigorosidade e a verificabilidade dos dados. A “insensatez preconceituosa” manteve a força dos resultados craniométricos até o início da utilização dos testes de inteligência.