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A dimensão discursiva do processo de mapeamento

CAPÍTULO IV A ANALOGIA COMO PROCESSO SOCIAL, COGNITIVO,

4.2 A analogia no discurso e a negociação do significado

4.2.3 A dimensão discursiva do processo de mapeamento

Assim como o processo de recuperação, o processo de mapeamento também tem uma função discursiva que se revela central para o processamento de uma analogia com papel argumentativo.

O pareamento dos termos de uma analogia é condição para que ocorra a transferência de significados da base para o alvo que é fulcral no estabelecimento do raciocínio analógico. Ocorre que o pareamento resultante do processo de recuperação não implica a designação do que há para ser transferido da base para o alvo: pode acontecer, por exemplo, que se identifiquem características a serem transferidas a posteriori com relação ao momento em que se enuncia a analogia.

A teoria de Gentner (1983) procura estabelecer critérios não relacionados à interação que expliquem a seleção de determinados traços e o preterimento de outros quando ocorre o mapeamento analógico. Holyoak (1985), por sua vez, ao defender a existência de um critério pragmático que explique a seleção das características a serem transferidas da base para o alvo, aponta para a centralidade da interação para o estabelecimento de limites para esse processo. Neste trabalho, o que se propõe é que a seleção de características para o mapeamento analógico não seja vista como um processo que se baseia apenas na situação em que ocorre a interação, mas também em seu contexto social, histórico e social. Advoga-se, portanto, em favor de uma visão do mapeamento que privilegie a dimensão discursiva da analogia, a fim de que a intricada relação entre a língua e a sociedade, da qual os Estudos de Discurso e os Estudos de Argumentação procuram dar conta, seja contemplada.

Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996 [1958]) reconhecem nas analogias um instrumento instável de argumentação justamente em função dos prolongamentos que elas favorecem. Isso é observável no excerto que segue, em que o filósofo Luiz Felipe Pondé reage à comparação entre Lula e a jararaca a que se fez referência na seção anterior:

[...] Há dez dias, após a condução coercitiva para o depoimento no aeroporto de Congonhas, o ex-presidente Lula fez um discurso raivoso contra todo este processo que reúne procedimentos jurídicos (Lava Jato como grande exemplo) e o nojo que seu partido parece causar na maior parte da população. Lula referiu-se a si mesmo como uma jararaca. Acho que deveríamos levar a sério sua metáfora.

O PT hoje continua sendo uma seita, mas não mais a seita da estrela da esperança (que enganou muitos e continua enganando alguns), mas a seita da jararaca. E seu veneno ainda pode ser mortal, justamente porque ele não está nem aí para a população. A essência do veneno da seita da jararaca (o PT) é justamente sua indiferença para com o Brasil e sua população comum, contrariamente ao discurso populista com o qual enfeitiçou o país por décadas. [...] (PONDÉ, Luiz Felipe. A seita da jararaca. In: Folha de S. Paulo, 14/03/2016).

A analogia entre Lula e a jararaca é endossada por Pondé, que a torna uma maneira de criar uma imagem desfavorável para o ex-presidente, em um movimento contrário àquele anteriormente efetuado por Lula. Pondé mantém os termos da analogia, mas, dentre as características passíveis de serem mapeadas, seleciona o veneno da jararaca, que encontra, segundo ele, em Lula, uma

correspondência: se o veneno de uma serpente tem por consequência a destruição de criaturas que lhe ameaçam ou prejudicam, o veneno de Lula teria por consequência a destruição do Brasil. Pondé endossa o uso da analogia para negar a interpretação dela que Lula parece haver proposto.

Constata-se, assim, que uma mesma analogia pode servir a dois propósitos inconciliáveis, quais sejam, a construção de uma imagem positiva para Lula — missão assumida por ele próprio durante a entrevista coletiva — e a construção de uma imagem negativa — projeto que Pondé tenta levar a cabo na coluna que assina. Coloca-se, pois, em xeque, uma ideia de ontologia possível de um ser-no-mundo do ex-presidente Lula (e, na verdade, de qualquer objeto de discurso).

Dada a instabilidade das analogias, não é obra do acaso que seu uso ocorra em combinação com estratégias discursivas que possibilitem maior estabilização do significado, cujo objetivo é delimitar o mapeamento e, assim, impedir que a analogia se expanda para além dos limites que seriam desejáveis por aqueles que a utilizam. O controle sobre a analogia tem por finalidade impedir que esta se distenda a ponto de se tornar inservível para o atendimento aos objetivos comunicativos dos interlocutores.

Na interpretação de Lula para a analogia que ele constrói entre si mesmo e uma jararaca, há características desta que lhe interessam para a construção de sua autoimagem; outras características, por outro lado, podem mostrar-se desinteressantes ou podem não ter uma correspondência com relação às características de Lula.

Com efeito, parece infrequente que o significado da analogia tenha, para usar a expressão proustiana empregada em uma das epígrafes deste capítulo, “irresistível evidência”. Assim, faz-se necessário, por vezes, que os participantes da interação esclareçam seu significado, sob pena de enfraquecê-la ou inutilizá-la. Como um balão, a analogia tem um limite de expansão que não deve ser ultrapassado se não se deseja que sua estrutura se rompa. A explosão da estrutura, no caso das analogias, significa conduzir a comparação de modo a considerar informações que se tenha a respeito de alvo e base, a ponto de evidenciar dessemelhanças e fazer que

elas pareçam numerosas e significativas, prejudicando seu potencial cognitivo e argumentativo.

O esforço de identificação das características da base a serem transferidas para o alvo é bastante evidente na coluna de Pondé: o autor seleciona o veneno da jararaca — substância com potencial destrutivo — para descrever seu alvo (Lula) e seu potencial destrutivo com relação ao Brasil, que passa a ser concebido como a vítima de um bote de serpente.

De maneira bastante similar, também no segmento a seguir, extraído de uma obra literária, é possível observar o esforço para esclarecer em que medida a analogia é válida, o qual se materializa discursivamente na seleção de características das ostras que devam ser mapeadas para que se crie uma representação da mente humana como produtora de ideias preciosas.

No entanto, não há nada tão fundamental ao futuro humano quanto os acidentes mentais. O acidente mental é a poeira que entra por acaso na ostra do cérebro, a despeito das conchas fechadas da caixa craniana. De chofre, a matéria delicada que vive no interior do crânio é perturbada, incomodada, ameaçada pelo corpo estranho que lá entrou; a ostra que vegetava em paz dispara o alarme e procura defender-se. Ela inventa uma substância maravilhosa, o nácar, e nela envolve a partícula intrusa para incorporá-la e cria assim a pérola.71 (NOTHOMB, 2001, p. 19)

A narradora do livro de Amélie Nothomb, como se observa, assume a tarefa de guiar a interpretação do leitor no processo de interpretação da analogia entre a mente humana (alvo) e a uma ostra (base) que propõe, baseando-se, para tanto, no estabelecimento de algumas correspondências: a partícula intrusa é como uma ideia que, causando incômodo, inesperadamente invade a mente de um indivíduo; o nácar corresponde à reflexão humana, capaz de dar acabamento refinado à ideia, despojando-a de seu caráter bruto inicial; a pérola corresponde à reflexão concluída, conseguida por meio do esforço da reflexão, que tem por mérito conseguir que o pensamento, considerado um corpo estranho à mente do indivíduo em seu estado inicial, seja incorporado a ela e já não lhe cause desconforto.

71 Tradução livre de: “Or, il n’y a rien d’aussi fondamental dans le devenir humain que les accidents mentaux.

L’accident mental est une poussière entrée par hasard dans l’huître du cerveau, malgré la protection des coquilles closes de la boîte crânienne. Soudain, la matière tendre qui vit au coeur du crâne est perturbée, affolée, menacée par cette chose étrangère qui s’y est glissée ; l’huître qui végétait en paix déclenche l’alarme et cherche une parade. Elle invente une substance marveilleuse, la nacre, en enrobe l’intruse particule pour s’incorporer et crée ainsi la perle.”

A indicação de quais são as correspondências que subsidiam o estabelecimento da analogia visa impor limites à interpretação, em uma tentativa de delimitação de quais serão as características da base que deverão ser transferidas para o alvo, a fim de que a interpretação da analogia possa ser construída conforme os desígnios do sujeito que a propôs, limitando-lhe os prolongamentos.

Nesse sentido, evidencia-se uma faceta estratégica da identificação das correspondências entre alvo e base: se por um lado ela parece ter caráter revelador de uma interpretação obscura, ela embute em si a busca pela adesão a uma determinada concepção de base e alvo. No caso da analogia construída pela narradora do livro de Amélie Nothomb, por exemplo, revela-se uma visão de mundo segundo a qual as ideias podem ser inicialmente incômodas para a mente humana, que, entretanto, após a reflexão, podem resultar em algo precioso ― como as pérolas ― já não mais causador de sofrimento.

O ato de identificar as características a serem mapeadas da base para o alvo poderia, portanto, ser concebido como um procedimento de controle do discurso, de guia para a interpretação de uma analogia, limitando-lhe os sentidos possíveis.

Em sua reflexão sobre os procedimentos de controle do discurso, Foucault (1999) descreve o comentário, que é um dos diversos princípios de “rarefação” (p. 26) do discurso. O comentário costuma ocorrer em associação a conjuntos de discursos nos quais se costuma identificar uma riqueza de significação ou um segredo que se deseja revelar. É o caso, por exemplo, dos textos dos livros sagrados ou das leis.

O filósofo e historiador francês identifica, entre o texto original e o comentário, um desnível que cumpre duas finalidades solidárias: de um lado, os comentários de um texto permitem a criação de novos discursos, que o atualizam e funcionam como uma espécie de ratificação de sua riqueza; por outro, têm por função expressar o que enfim significa um determinado texto, dizendo, de forma paradoxal, pela primeira vez aquilo que (pretensamente) já havia sido dito.

Em se tratando de analogias, conforme se depreende da análise dos excertos de Nothomb, Pondé e Lula, o comentário com relação ao que diz uma analogia funciona como um mecanismo de estabilização de significado, como uma

maneira de procurar garantir que a analogia atenderá aos objetivos comunicativos daquele que a enuncia. Assim, ao construir a analogia a mente é como uma concha, a narradora de Nothomb percebe ser necessário esclarecer como julga que sua interpretação deve ocorrer. De forma similar e tendo por base a instabilidade da analogia, Lula e Pondé constroem conclusões muito distintas com base na analogia Lula é como uma jararaca.

Os discursos de Nothomb, Pondé e Lula têm em comum o fato de os comentários sobre as analogias procurarem indicar as características a serem transferidas da base para o alvo. Ao apontar similaridades, esses comentários funcionam não apenas de modo a procurar estabilizar o significado das analogias, mas também como uma forma de procurar afirmar a validade delas, visto que elas se fortalecem conforme sejam mais numerosas (e identificáveis) as similaridades entre alvo e base (GENTNER, 1983). Além disso, o comentário procura estabelecer os limites da analogia, de modo a deixar claro quais são as características passíveis de serem mapeadas, para que não se espere, de uma dada analogia, extensão maior do que aquela que ela efetivamente tem. Dessa forma, pode-se dizer que o comentário tem função argumentativa importante no processo de negociação de significados que é tributário do uso de analogias em situações de comunicação.