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CAPÍTULO V – ANÁLISES ANALOGIAS, NICHOS ANALÓGICOS E AMÁLGAMAS

5.1 A população LGBT como grupo estigmatizado

5.1.1 Ser LGBT é como ser negro

5.1.1.1 Analogia e dissenso: a questão do arbítrio

Enfatizamos anteriormente que a avaliação consiste um importante processo no que respeita à construção de analogias. Na interação, a avaliação desfavorável de uma analogia costuma ocorrer na forma de expressão de dissenso. De um ponto de vista sociocognitivo, inspirando-nos na teoria de Van Dijk (2014), poderíamos dizer que as expressões de dissenso que ocorrem ao longo do corpus são sintomáticas da existência de modelos mentais diferentes (possivelmente inconciliáveis) a respeito dos temas debatidos.

Considerando-se que os domínios da analogia são modelos mentais e, portanto, são concebidos de maneiras semelhantes ― nunca idênticas ― por indivíduos diferentes, chega-se à conclusão de que eles podem consistir em base para que se estabeleça o dissenso, o qual é expresso por meio de diversos expedientes linguístico-discursivos, entre os quais está a analogia.

O dissenso, sobretudo em uma situação de deliberação, que é marcada por intenso exercício da argumentação, além de indicar uma variação significativa no que respeita aos modelos mentais que os debatedores criam sobre as coisas do mundo, sugere também o desejo de modificar os modelos mentais dos interlocutores e de fazer que estes integrem, juntamente com os debatedores, uma

comunidade epistêmica. É o que ocorre quando Magno Malta, logo após Marta Suplicy, toma a palavra para fazer considerações a respeito da aceitabilidade do PLC 122/2006:

(18)

gostaria de esclarecer ainda que índio... não pediu para nascer índio... negro que é tão... chamado todas as horas para fazer comparação para justificar esse projeto... e não deveria fazê-lo porque negro não pediu/não fez opção para ser negro... negro nasceu negro... eu nasci negro minha mãe nasceu negra...eu não fiz opção para ser negro... japonês não fez opção para ser japonês... nem deficiente... portador de deficiência fez opção para ser portador de deficiência... não pode comparar... eh raça... não se pode comparar com quem fez a opção por ser homossexual... há que se respeitar porque o homem... pode fazer ( ) seu desígnio e sua decisão... o indivíduo pode fazer a opção para ser o que ele quiser... e pode requerer direitos... a única coisa que o homem não pode... ((aplausos))74

(linhas 229 a 240) No contexto do debate, o excerto (18) corresponde a um segmento da fala de Magno Malta, a qual pode ser tomada como uma resposta ao parecer de Marta Suplicy, que, sendo a relatora da matéria, foi a primeira senadora a se posicionar com relação ao PLC 122/2006. Malta foi o segundo membro do senado a se pronunciar a respeito da questão no debate sob análise. No segmento, o senador salienta as dessemelhanças que ele julga existir entre ser LGBT e ser negro, indígena ou japonês, construindo, portanto, uma desanalogia. Neste processo, ocorre o alinhamento de base e alvo para que, ao invés das semelhanças estruturais entre eles, sejam mapeadas diferenças. Em outras palavras, negam-se as semelhanças para as quais a analogia criada anteriormente aponta.

Como se depreende de (18), a etnia corresponde, para o senador, a um aspecto da identidade humana que independe do arbítrio, ao passo que a orientação sexual corresponderia a um fruto dos designíos humanos. Trata-se de modelos mentais diferentes do que seja orientação sexual. É o próprio senador Magno Malta que afirma, à linha 290, que “o homem é aquilo que ele decide ser...”, enunciado que parece corresponder, grosso modo, a uma síntese dos argumentos expostos no sentido de viabilizar a compreensão pertença à população LGBT como uma condição ligada à possibilidade de escolha. Dessa forma, a desanalogia utilizada por Malta

74 Magno Malta seleciona, neste trecho, três grupos para compor um domínio-base de analogias em que ser LGBT

ocupará posição de domínio-alvo, a saber, os negros, os japoneses e as pessoas com deficiência. Nesta seção, tratamos especificamente do domínio-base ser negro, visto que ele consiste em objeto de dissenso entre os senadores, e tratamos das analogias que envolvem outros grupos nas seções seguintes. Acreditamos propiciar, dessa forma, uma análise mais pormenorizada e favorecer sua compreensão.

funciona como uma avaliação negativa com relação à analogia de que Marta Suplicy lançou mão para construir sua argumentação, a qual se marca linguisticamente por meio na frase “não se pode comparar com quem fez a opção por ser homossexual”, sublinhada em (18).

Importa observar que Marta Suplicy não havia, até então, selecionado o traço opção para ser mapeado do domínio-fonte ser negro para o domínio-alvo ser LGBT. A refutação da analogia utilizada por Marta Suplicy levada a cabo por Magno Malta baseia-se, assim, em uma extensão. Malta parece, nesse sentido, utilizar-se estrategicamente da instabilidade da analogia, da qual tratam Perelman e Olbrechts- Tyteca (1996 [1958]), para proceder a uma extensão dela que ele pudesse utilizar para construir sua refutação. Isso significa que o caráter não opcional da pertença à população LGBT, que até então havia sido deixado no domínio do implícito por Marta Suplicy, foi identificado por Malta, que o enunciou explicitamente. Coube, assim, a Magno Malta identificar essa inferência potencial, propiciada pela analogia de Marta Suplicy, e transformá-la em um ponto de dissenso que embasou grande parte de sua argumentação contrária à aprovação do PLC 122/2006, da qual o excerto (18) é amostra.

Foi somente ao final do debate que Marta Suplicy expressou de modo explícito sua crença na ideia de que ser LGBT não constitui uma opção: “[...] tendo profundamente estudado a questão... realmente a homossexualidade... no meu entender não é uma opção” (linhas 1185 a 1187). Pessoas LGBT têm, pois, de acordo com a senadora, suas orientações sexuais e identidades de gênero determinadas por fatores que não estão ligados ao arbítrio.

A análise dos procedimentos analógicos utilizados por Marta Suplicy e Magno Malta revela, assim, que os modelos mentais de pessoa LGBT dos senadores são bastante distintos: enquanto a senadora propõe, por meio da sua argumentação por analogia, a categorização da pertença à população LGBT no grupo das características não optativas e socialmente desprestigiadas, o senador defende, por meio de mecanismos analógicos, que a pertença ao grupo LGBT seja considerada uma opção ― em oposição a uma característica sobredeterminada ― que causa a discriminação.

A etnia e a discriminação dela decorrente seriam, nesse sentido, para Malta, inescapáveis, ao passo que a pertença à população LGBT e, consequentemente, a discriminação que dela decorre seriam evitáveis. Ao apontar para esta pretensa dessemelhança, Malta sugere que, embora a discriminação seja um problema, ela poderia ser evitada pela adesão a condutas heterossexuais. É corolário dessa comparação o compartilhamento da culpa entre vítimas de discriminação e aqueles que as discriminam, visto que aquelas poderiam, segundo o ponto de vista do senador, evitar o sofrimento a que são expostas por estes se adotassem a heterossexualidade como padrão de comportamento. Ao agir dessa maneira, o senador não questiona a noção corrente de que a heterossexualidade é o padrão que deve ser seguido pelos membros da sociedade, mas, pelo contrário, referenda-a, assumindo uma posição heteronormativa.

Além disso, é possível observar, nos segmentos de fala dos senadores, a materialização de um embate ideológico. O senador, ao salientar as dessemelhanças que acredita haver entre a homossexualidade e a pertença a etnias, procura neutralizar os argumentos que têm por base as semelhanças entre essas duas condições, os quais, segundo ele, são bastante comuns. Assim, de acordo com Malta, a analogia entre ser negro e ser LGBT, utilizada por Marta Suplicy para defender que a LGBTfobia seja criminalizada, assim como ocorreu com o racismo, é falaciosa e não deveria, portanto, ser levada em conta para que as decisões acerca do PLC 122/2006 fossem tomadas.

Ressalte-se, além disso, que o senador se coloca, em seu discurso, como membro da etnia negra, sugerindo que ele é vítima de estigma e que, por conhece- lo bem, está habilitado para falar sobre discriminação. Deste modo, evidencia-se o valor argumentativo da seleção da etnia negra para compor a base da analogia. Malta parece, assim, atuar estrategicamente ao selecionar a etnia negra para compor a base do raciocínio analógico.

Em seu discurso, a senadora Lídice da Mata, assim como Marta Suplicy, recorre à analogia ser LGBT é como ser negro; diferentemente desta, no entanto, aquela o faz para refutar o argumento de que a homossexualidade corresponde a uma manifestação dos desígnios humanos, conforme se observa a seguir:

(19)

quando há uma afirmação... de que:: a homexe/a homexe/a homosse/a homossexualidade é uma escolha... ela também não é uma unanimidade... há na ciência... claramente... correntes que defendem... que não uma esCOlha o homossexualismo... que o homossexu/que o homossexual NAsce homossexual... como o negro nasce negro... há portanto uma ((aplausos)) diverGÊNcia...

(linhas 742 a 747) A senadora parece referir-se, nesse excerto, especificamente a Magno Malta, ainda que não o nomeie, quando faz referência à afirmação de que a ser uma pessoa LGBT é uma escolha, visto que este senador havia sido o único, até este momento do debate, que havia apresentado tal tese. Lídice da Mata, afirma apenas que não há consenso quanto ao fato de que ser LGBT consiste em uma opção e, retomando a analogia utilizada anteriormente por Marta Suplicy (ser LGBT é como ser negro), a qual é marcada em (19) pelo uso de “como”, redireciona a argumentação. Observe-se o segmento (20), também extraído da fala de Lídice da Mata:

(20)

a PRÓpria lei no Brasil determina... que quem é negro é aquele que se aFIRma negro... EU me afirmo NEgra... EU... o senador Magno Malta... o senador eh... Paulo Paim... mas há gente com pele mais escura do que a minha... que pode dizer que não é negro... ou gente que tem o mesmo sangue que eu tenho [...] e que não se afirmam negros... se dizem e preferem se dizer brancos... ora há toda uma discussão em torno dessa questão... mas ela não esconde uma coisa... HÁ raCISmo no Brasil

(linhas 755 a 764) Diferentemente do que fora feito por Marta Suplicy, que não havia, até então, dito claramente se considerava que o traço não ser opcional fosse compartilhado pelos domínios ser negro e ser LGBT, Lídice da Mata encaminha sua argumentação no sentido de defender que a reflexão sobre o arbítrio não é relevante para a análise do PLC 122/2006.

Para tanto, a senadora procede à identificação de duas semelhanças para chancelar sua analogia, quais sejam, a discriminação e a possibilidade de se autodeclarar membro de um grupo estigmatizado. Dessa forma, a senadora sugere que pessoas LGBT, assim como negros, podem se autodeclarar membros desses grupos, que são estigmatizados.

Observe-se, além disso, que, assim como Magno Malta fizera anteriormente, Lídice da Mata se coloca como membro da comunidade negra, o que

pode causar a impressão (mais ou menos fundamentada), junto aos interlocutores, de que ela tem conhecimento sobre a discriminação que vitima negros no Brasil e que, portanto, tem autoridade para debatê-lo no âmbito da CDH.

Em suas últimas considerações a respeito da necessidade e importância da aprovação do PLC 122/2006, Marta Suplicy volta a utilizar a analogia ser LGBT é como ser negro, conforme se depreende dos segmentos (21) e (22) a seguir, proferidos pela relatora já ao fim do debate:

(21)

porque... se a pessoa não pode hoje dizer para alguém... olha... eu não te emprego porque você é negro... ela também não vai poder dizer para o homossexual... e assim como hoje se ela não quiser aquela pessoa ela vai dar o motivo que ela quiser... e se a outra não se sentir satisfeita VAI entrar na justiça... e o juiz vai decidir... a MESma coisa vai ser... e a mesma coisa vai ser provada ou não provada... essa proteção o homossexual tem que ter sim senador... ((aplausos))

(linhas 1279 a 1275)

(22)

e o que nós temos agora... é que a lei existente não está dando conta... não vai acabar com a homofobia como a lei do racismo não acabou com o racismo... inibe... e nós precisamos disso... para nós termos uma sociedade... mais civiliZAda...

(linhas 1319 a 1323) As expressões sublinhadas “assim como”, “mesma coisa vai ser” e “como”, de modo similar ao que aconteceu nos trechos (15), (16) e (17), que também eram segmentos da fala da fala da relatora, sugerem um desejo, da parte de Marta Suplicy, de marcar as semelhanças entre o domínio-base ser negro e o domínio-alvo ser LGBT, em uma reiteração clara de desacordo com relação à defesa de que ser LGBT corresponde a uma opção levada a cabo por Magno Malta ainda no início do debate sobre o projeto de lei.

Averígua-se, dessa forma, que os senadores, em suas argumentações, utilizam os procedimentos analógicos de modo estratégico, procurando selecionar, para a transferência da base para o alvo, as semelhanças que colaboram para a defesa de seus pontos de vista, a fim de argumentar favorável ou contrariamente à aprovação do PLC 122/2006.

Ratifica-se, nesse sentido, o caráter deformante das analogias com relação aos alvos, que passam a ser compreendidos em função das semelhanças com a base. Concebido dessa forma, o uso argumentativo de analogias corresponde, na prática, a uma tentativa de manipulação dos modelos mentais que os participantes do debate e o auditório têm a respeito do que significa ser LGBT, ser negro e de quais são as implicações da aprovação da lei. O dissenso pode ser descrito, nesse sentido, como uma busca pela categorização do domínio ser LGBT e pelo desejo de que essa categorização seja aceita pelos interlocutores dos debatedores.