2. A PSICOLOGIA E A ESPIRITUALIDADE NA CONCEPÇÃO DE PARGAMENT 8
2.3. A Psicoterapia Espiritualmente Integrada 26
2.3.1. A dimensão espiritual no contexto dos clientes 29
Clientes chegam para a psicoterapia trazendo uma maneira própria de enxergar o mundo, que é em parte o produto de um contexto maior: gênero, etnia, idade, família, amigos, comunidade, cultura. Também há o âmbito da espiritualidade, embora atualmente enfatize-se o seu caráter particular, interno e subjetivo.
É preciso lembrar, repetidamente, que as pessoas podem viver sua espiritualidade sem serem religiosas. Mas, embora as pessoas possam rejeitar uma identificação religiosa tradicional, elas não podem desconectar sua espiritualidade de um contexto maior. Para Pargament a busca pelo sagrado sempre se desdobra dentro de um campo de forças maiores, mesmo que os clientes as desconheçam ou reajam contra elas. O contexto pode ser rejeitado por um cliente, mas ele continua tendo um papel crítico na sua espiritualidade. Por essa razão a identificação da vida religiosa do cliente, ou de sua falta, é uma parte fundamental do contexto maior que ele traz para a psicoterapia.
Ao considerar este contexto, há o perigo de se criar estereótipos ligados a diferentes grupos religiosos. Nem todos os fundamentalistas têm cabeça fechada, nem todos os católicos estão se recuperando de suas experiências na
igreja, nem todos os judeus sofrem de angústia existencial. Portanto, por mais importante que seja o entendimento das denominações religiosas, ele não substitui a necessidade de uma atenção mais próxima e cuidadosa para a maneira como cada cliente vive a sua tradição.
Pargament lembra:
(...) a psicoterapia envolve um encontro de dois mundos. Conforme eu observo pela primeira vez meu cliente sentado na sala de espera, eu começo a entrar no mundo dele. E conforme eu me apresento e trago o cliente de volta para o meu consultório, ele começa a entrar no meu (...). Há uma dimensão espiritual para este novo relacionamento, mesmo o cliente e o terapeuta estando ou não atentos para isso. Conhecemos, compartilhamos e mudamos não somente como seres psicológicos, sociais e físicos, mas como seres espirituais também. (PARGAMENT, 2007, p.194)
A PEI torna explícita a dimensão espiritual do encontro do terapeuta com o cliente. Este encontro pode ocorrer em qualquer modalidade terapêutica ou abordagem e deve ser respeitoso para com a espiritualidade dos clientes. Neste sentido a PEI não é uma forma independente de terapia, é uma abordagem que enriquece as várias formas de terapia por dar uma atenção explícita à dimensão espiritual das pessoas em seus problemas, em seus recursos e no processo de mudança. A principal maneira com que a PEI pode colaborar com outros modos de tratamento é fornecer uma perspectiva espiritual ampla para os problemas psicológicos e mostrar que as fontes espirituais podem colaborar para o processo de mudança em psicoterapia.
A PEI é multimodal. Ela integra um vasto leque de terapias, não somente a cognitiva-comportamental, mas também a psicodinâmica, a existencial, a de casal e de família, a interpessoal, a humanista, a experiencial, a racional-emocional, a de aceitação e também as de compromisso (SHAFRANSKE, 1996).
É importante enfatizar aqui que a Psicoterapia Espiritualmente Integrada não é simplesmente um conjunto de técnicas que podem ser transportadas para outras terapias. Ela desenvolve uma maneira diferente de pensar sobre problemas, soluções e a natureza humana. É provável, no entanto, que o processo de lidar mais inteiramente com a dimensão espiritual influa no processo de qualquer terapia.
Pargament relata que Mahoney comentou que seu estilo mudou para “uma autenticidade mais profunda, um testemunho misericordioso e um cuidado desenvolvido, ao invés de planejamento esperto e soluções técnicas” (MAHONEY, 2000, pp. 53-54 apud PARGAMENT, 2007, p. 200), conforme sua terapia se tornou mais espiritualmente orientada. É provável que os próprios clientes também experienciem a Psicoterapia Espiritualmente Integrada de maneiras diferentes.
Para Pargament (2007), a Psicoterapia Espiritualmente Integrada (PEI) deve:
1. Ser explícita. O terapeuta e o cliente falam abertamente sobre a espiritualidade como uma dimensão significativa, algo que não pode ser reduzido a um processo psicológico. No processo de tornar explicito o que está implícito, ambos podem fazer melhor da espiritualidade como elemento em potencial para o sucesso da psicoterapia. (PARGAMENT, 2007).
2. Ser psicoespiritual. A PEI é tanto espiritual quanto psicológica, e a espiritualidade é o fenômeno central de interesse nessa abordagem de tratamento. No entanto, a PEI é predominantemente uma terapia psicológica. Ela não é validada por nenhuma autoridade religiosa nem legitimada por uma base teológica, diferentemente, por exemplo, do aconselhamento pastoral. O terapeuta não lida com questões ontológicas. No atendimento terapêutico o importante é trabalhar com as verdades espirituais dos pacientes, e não com as do terapeuta. Além disso, a PEI lança mão de dois recursos, a construção teórica e a pesquisa científica, e repousa em uma forma sistematizada de pensar a espiritualidade, pois “ser capaz de pensar claramente sobre espiritualidade é um pré-requisito para trabalhar com essa dimensão em terapia” (PARGAMENT, 2007, p.19). 3. Ser pluralística. A PEI necessita ser espiritualmente multilíngue. Mesmo
trabalhando com clientes de uma tradição religiosa familiar, o terapeuta irá se deparar com clientes que criam sua próprias forma de viver a religião. (BIBBNY, 1977, apud PARGAMENT, 2007, p. 20).
4. Ser integrativa. A espiritualidade não está divorciada das dimensões psicológica, social e física da vida. Por isso não faz sentido menosprezar a dimensão espiritual. Por outro lado, não faz sentido focar somente a
espiritualidade na psicoterapia, pois ela não pode ser encontrada isolada do resto da vida do paciente. (PARGAMENT, 2007, p. 21). O vocábulo
integrada permite aplicar a PEI a diversas linhas psicológicas e trabalhar
com diversas tradições religiosas. Neste sentido, torna-se integrada (PARGAMENT, 2007, p. 21).
5. Reconhecer a existência de um conjunto de valores. Pargament argumenta que a Psicologia e a psicoterapia não são neutras como se supõe: todas as abordagens teóricas em Psicologia têm um conjunto de valores e o risco está em procurar impô-los ao cliente. Pargament argumenta que é melhor ter esse conjunto de valores explicitado para melhor trabalhar com eles. (PARGAMENT, 2007, p. 22).