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2. A PSICOLOGIA E A ESPIRITUALIDADE NA CONCEPÇÃO DE PARGAMENT 8

2.3. A Psicoterapia Espiritualmente Integrada 26

2.3.3. Desenvolvendo e fortalecendo os recursos espirituais 36

Pargament diz que em tempos de estresse emocional é comum as pessoas perderem contato com os recursos que normalmente sustentam suas vidas. Por isso, ajudar os clientes a identificarem e aproveitarem seus recursos é um dos serviços mais importantes que os terapeutas podem oferecer. Ele considera algumas poucas regras práticas:

• É importante adaptar os recursos espirituais ao caso e ao problema particular. • É preciso tempo e prática para colher os benefícios dos recursos espirituais.

Muitos clientes esperam resultados imediatos quando se trata de terapia e de espiritualidade.

• Deve-se manusear os recursos com cuidado. Os recursos espirituais não devem ser tomados apenas como uma técnica a mais. Eles têm uma finalidade espiritual: facilitar a relação com o sagrado.

• É preciso trabalhar dentro dos próprios limites pessoais e profissionais. Eles podem ajudar seus clientes a alcançar os seus recursos religiosos formais, mas não devem confundir seus papéis com o das figuras clericais.

• Os terapeutas precisam estar alertas aos problemas que constituem barreiras ao desenvolvimento espiritual. A falta de amplitude espiritual e de profundidade é uma barreira comum. Frequentemente as pessoas não têm consciência dos recursos espirituais que estão disponíveis para elas.

Ajudar os clientes a identificarem seus anseios espirituais é o maior desafio no trabalho com pessoas que parecem estar espiritualmente perdidas. Para alcançar este fim os terapeutas devem manter três pontos em mente:

1. É difícil para as pessoas pensarem espiritualmente quando estão envolvidas no seu cotidiano. Para identificar seus anseios mais profundos os clientes devem dar um passo atrás e analisar as suas vidas a partir de uma perspectiva mais abrangente. O terapeuta pode facilitar este processo atribuindo aos clientes diversos tipos de tarefas.

2. Os clientes frequentemente precisam de ajuda para distinguir o verdadeiro anseio do falso. É parte do trabalho terapêutico separar o que os outros

querem para os clientes daquilo que eles querem para si mesmos e discernir as motivações subjacentes às várias escolhas.

3. Este processo é mais do que intelectual, já que as percepções do sagrado frequentemente eliciam poderosas emoções espirituais. Prestar atenção àquilo em que os clientes colocam sua energia e sua paixão pode ser a chave para discernir seus anseios espirituais. Poderosas emoções de uma espécie ou de outra frequentemente fornecem importantes pistas a respeito das mais profundas esperanças e sonhos do indivíduo.

Ajudar os clientes a identificarem e acessarem seus anseios espirituais não garante que eles terão sucesso em realizá-los. Muitos obstáculos podem aparecer no caminho, mas é um bom começo.

Partilhar o conhecimento é um ingrediente fundamental da psicoterapia. Os terapeutas compartilham informações com seus clientes sobre as várias

dimensões do comportamento humano, como emoções, relações,

desenvolvimento, stress, comunicação e assim por diante. Do mesmo modo, o conhecimento sobre a espiritualidade pode ser compartilhado.

Pargament (2007) comenta Griffith e Griffith, que ilustram como fazer uso de textos religiosos para encorajar os clientes a pensarem sobre si mesmos e sobre os seus problemas de um modo diferente. Isto mostra que o conhecimento espiritual e a sabedoria podem ser adquiridos a partir tanto de fontes modernas quanto de tradicionais. Assim os clientes podem ser incentivados a encontrar modelos espirituais modernos para si, não só entre os mais famosos (como Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela e o Dalai Lama), mas também entre os membros de inspiração da sua própria família e de seu círculo de amigos.

A experiência espiritual é mais um recurso potencialmente poderoso. A oração e a meditação começaram a receber atenção especial, como recursos que facilitam a experiência espiritual. As orações são projetadas para manter e reforçar a ligação do indivíduo com Deus. Ao mesmo tempo, elas oferecem uma resposta às muitas necessidades e aspirações humanas. A meditação, em contraste com a oração, tem recebido grande atenção de profissionais e de investigadores. Apesar dos diferentes tipos de meditação existentes, todas elas

foram projetadas para ajudar as pessoas a experimentarem um nível diferente de consciência.

Para Pargament a mudança a um nível diferente de consciência promovida pela meditação pode ser valiosa para quem sofrem de duas classes de problemas psicológicos: a dificuldade de separar-se dos desejos (de álcool, drogas, comida e sexo, por exemplo), e a dificuldade em pôr fim a emoções e experiências dolorosas, como ansiedade, raiva, dor física e histórias de vida difíceis. Pargament comenta que a meditação tem sido aplicada a uma variedade de problemas psicológicos por profissionais de diversas orientações terapêuticas. No entanto, ao tentar explicar a eficácia da meditação, muitos pesquisadores e praticantes têm negligenciado a natureza espiritual desta técnica ou tentam separar o método de suas ligações com o sagrado. Na tentativa de afastar as conotações sagradas da meditação os terapeutas podem estar removendo um de seus ingredientes essenciais.

A espiritualidade incorpora um conjunto rico e diversificado de recursos que podem ser aplicados à variedade de problemas que as pessoas trazem para a psicoterapia. De todas as práticas espirituais, os rituais têm recebido maior atenção na psicoterapia, embora adesritualizaçãoseja um problema na cultura atual. Desconectadas de rituais, as pessoas não podem participar de atos de transformação que as impulsionariam a limiares sagrados mais elevados. Ao invés disso, ficam presas em emoções específicas (raiva, vergonha, tristeza), modos particulares de vida (trabalho constante, isolamento social) ou condições de vida em particular (viuvez, desemprego). Traçar rituais na terapia é uma forma de abordagem que pode servir a muitos propósitos, como estimular a catarse emocional, definir a identidade e ajudar as pessoas a elaborarem mudanças.Eles reinstigam um senso de sacralização nas pessoas colocando as condições de suas vidas dentro do contexto do grande drama humano.Os rituais têm uma natureza dual uma vez que promovem tanto a

continuidade quanto a mudança (PARGAMENT, 1997). Eles são

transformadores, ao empurrarem as pessoas de uma fase da vida para outra, de uma emoção para a outra e de um nível de experiência para outro e, ao mesmo tempo, proporcionam um alicerce seguro,lembrando que,apesar das mudanças algumas coisas permanecem constantes.

Apesar da sua diversidade, os rituais eficazes têm vários pontos em comum. Primeiro, eles são simples. Segundo, eles são honestos. Encorajamas pessoas a enfrentarem tanto as realidades da dor e da perda quanto as da esperança e dos sonhos. Terceiro, são públicos. E, finalmente, eles são sagrados. Tratam dadimensão final da existência humana e tocam nos níveis mais profundos de emoção e de significação. (PARGAMENT, 2007).

Outro recurso pode encontrar-se nos relacionamentos familiares e afetivos. E o relacionamento do cliente com o terapeuta também pode ser visto como um recurso sagrado.

Pode parecer estranho pensar na relação terapêutica como um recurso espiritual. Afinal, os terapeutas têm evitado a vida espiritual do cliente por completo, para não mencionar as características espirituais do relacionamento terapêutico. No entanto, as qualidades sagradas da conexão entre clientes e terapeutas podem estar entre os mais importantes ingredientes da terapia. (PARGAMENT, 2007, p. 269).

Dois outros recursos de enfrentamento merecem uma atenção clínica para Pargament: o apoio espiritual e a ressignificação espiritual. Ambos podem ajudar o cliente a sustentar-se psicologica, social e espiritualmente. O apoio espiritual dado pela congregação e pelo clero pode ser uma importante fonte de conforto, força e encorajamento. No esforço para dar sentido à experiências de vida difíceis, muitos clientes veem-se diante de uma crise de sentido. A resignificação espiritual pode ajudar o cliente a colocar os eventos negativos da vida em um contexto maior, muitas vezes, mais esperançoso e benevolente.

Em suma, Pargament considera que a espiritualidade oferece um grande número de recursos para a terapia. No entanto, há momentos em que a espiritualidade é mais parte do problema do que parte da solução. Nesses casos a tarefa do terapeuta desloca-se para ajudar o cliente a solucionar seus problemas espirituais e avançar para uma integração maior.