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3 REVISÃO DA LITERATURA

3.2 O AMBIENTE OPERACIONAL URBANO

3.2.3 A dimensão informacional do ambiente urbano

Além dos aspectos físico e humano, o ambiente operacional contemporâneo também se caracteriza pela importância do domínio da informação. Ela cresce de importância na medida em que permite aos comandantes manter sua consciência

situacional, levantar informações relevantes e decidir com propriedade, mais rapidamente que seu inimigo (EUA, 2011, p. 1-21).

Com isso, a capacidade de possuir mais informações que o inimigo é primordial.

A superioridade de informações é traduzida por uma vantagem operativa derivada da habilidade de coletar, processar, disseminar, explorar e proteger um fluxo ininterrupto de informações aos comandantes em todos os níveis, ao mesmo tempo em que se busca tirar proveito das informações do oponente e/ou negar-lhe essas habilidades. (BRASIL, 2014c, p. 7-2).

Por meio dessa superioridade, o comandante poderá obter o domínio da dimensão informacional do combate, ou seja, será capaz de agir com a informação, coletando e processando as que lhe forem úteis e disseminando as que lhe convierem (BRASIL, 2014c, parte II).

Ao se pensar em adquirir e processar informações para decidir, sabe-se que o assunto terá afinidade direta com a função de combate inteligência. Ora, essa é a função de combate que naturalmente propicia aos decisores “compreender como agem as forças presentes, o terreno onde provavelmente irão conduzir as operações e os efeitos que as condições meteorológicas e outros fatores exercerão sobre elas” (BRASIL, 2015e, p. 1-1).

No caso peculiar do combate urbano, o estudo de inteligência é complexo e detalhado (EUA, 2011, p. xxvi), conforme ressalta Andrade (2004, p. 46):

várias derrotas nos últimos combates em áreas urbanas foram ocasionadas devido à ausência de informações sobre o inimigo e sobre a localidade a ser atacada. Há sempre a necessidade de informações claras e objetivas para que se obtenha sucesso no combate. A análise de inteligência tem que ser específica para o ambiente e extremamente detalhada sobre a localidade.

Dessa forma, para operar com sucesso, é necessário explorar os dados sobre o inimigo, principalmente antes do desenrolar das operações, utilizando diversos tipos de sensores e meios para obtenção das informações sobre o oponente (ANDRADE, 2004, p. 46). No combate urbano essa necessidade é antecipada, visto que as capacidades de reconhecimento, assim como da utilização de sensores, é prejudicada. Cresce de importância a inteligência de fontes humanas, incluindo informações obtidas junto a civis locais. (EUA, 2011, p. xxvi)

complicado, porém são importantes em tempo real para antecipar-se às ações. A respeito disso, “os esforços devem ser dirigidos para a obtenção de detalhes do dispositivo inimigo e dos obstáculos na localidade, pois esses fatores nortearão o emprego de nossas forças” (ANDRADE, 2004, p. 46).

Cabe salientar que as redes de comando e controle, responsáveis por gerenciar o conhecimento e as informações, possibilitando sua utilização, também serão afetadas. O volume aumentado de informações, a dificuldade de troca de dados e a dinâmica de apoio à decisão dificultam o estabelecimento do comando e controle (EUA, 2011, p. xxvi). Cuidados devem ser tomados para as informações não extrapolarem a capacidade de processamento do comando e dos canais de informação (EUA, 2011, p. 1-21).

O estudo de inteligência no combate urbano difere do seu emprego convencional no foco de seu trabalho, principalmente pela análise detalhada a ser realizada sobre o terreno urbano, desde a configuração e dimensões da localidade, o material de construção das estruturas e a organização das infraestruturas, afora as características naturais do terreno, da população e a situação do inimigo (EUA, 2011, p. 1-10).

A análise do terreno será realizada para interpretar os efeitos das características naturais e artificiais da área, assim como a influência das condições meteorológicas sobre ela. O nível de detalhamento desse estudo dependerá da própria missão (EUA, 2011, p. 1-10). O emprego desse estudo influi diretamente no emprego da tropa, como se pode observar na descrição:

No momento em que o 5º Exército Norte-Americano entrou no coração de Bagdá em 5 de abril, todos os principais sistemas da cidade haviam sido analisados, estudados e foram definidos objetivos. Cada edifício e seção da cidade havia sido mapeado e numerado. Todos os que atuaram na cidade e ao redor da cidade, no solo ou no ar, usaram os gráficos e os dados comuns para levantamento de alvos, maximizando assim a letalidade enquanto era minimizado o dano colateral e o fratricídio. O que começou como um conceito interno de planejamento do 5º Exército para a guerra urbana permeou entre os campos conjuntos, de coalizão e interagências para tornar a força total mais eficiente e letal. (FONTENOT, DEGEN e TOHN, 2004, p. 335, tradução nossa)

Quanto ao estudo do inimigo, deve-se entender que “nem todo inimigo é militar por natureza”. Indivíduos isolados ou grupos entremeados à população podem ser inimigos, adversários, neutros ou mesmo apoiar as ações da força. Como esses elementos se misturam, não é fácil distingui-los. A identificação das

capacidades das forças oponentes e de suas atividades é importante, visto o grande número de “subpopulações” na área urbana (EUA, 2011, p. 1-11). Gott (2006, p. 98,

tradução nossa) relata a importância do estudo do inimigo em Faluja:

Ao longo dos meses anteriores, os esforços de inteligência reuniram uma grande quantidade de informações sobre as forças insurgentes em Faluja. Usando todos os ativos concebíveis, incluindo forças especiais, inteligência humana, veículos aéreos não tripulados (UAVs) e satélites, uma imagem clara da situação tornou-se conhecida. Casas-forte, caches de armas e as rotinas de líderes-chave foram identificadas, bem como um número aproximado de insurgentes ativos na cidade. Esta informação, mapas detalhados e imagens aéreas foram disseminadas para os comandantes até os menores escalões. Os comandantes e as tropas em todos os níveis se sentiam confiantes de que sabiam onde estava o inimigo e podiam planejar sua operação em detalhes. Durante a operação, esses ativos de inteligência mudaram rapidamente para a aquisição de alvos e foram fundamentais para conduzir fogos de apoio efetivos sobre o alvo.

O estudo do inimigo terá influência direta na organização para o combate da própria força, muitas vezes até mais que o terreno. Mesquita (2008a, p. 24) explica que em Bagdá “não foi feita nenhuma consideração a respeito da proporção entre quantidade de quarteirões a serem conquistados e pelotões disponíveis, mas sim, qual o valor do inimigo, suas características possibilidades e limitações”, e isso permitiu, nesse caso, determinar o valor e a natureza da tropa que seria empregada na localidade.

Além disso, é de extrema importância determinar a interferência da população e como apoiá-la. O foco principal dos esforços de inteligência será sobre as considerações civis, que se juntarão às considerações sobre o ambiente para que se possa entender corretamente a área. Nessa avaliação, faz-se imperativo analisar a influência dos atos das forças amigas e inimigas sobre o ambiente urbano, desde as consequências esperadas até as não esperadas. (EUA, 2011, p. 1-10).

A apreciação correta das considerações civis vai impactar em “vários aspectos das operações, como a seleção de objetivos, local, movimentos e controle das forças, uso do armamento e medidas de proteção” (EUA, 2011, p. 1-10, tradução nossa). Por esse motivo, “a atitude e a influência da população nas operações devem ser analisadas profundamente” (ANDRADE, 2004, p. 46).

Cabe salientar que esse estudo também é função da missão, já que o contato com a população poderá ser menor ou maior conforme o tipo de operação. Sabendo disso, deve-se buscar minimizar a interferência dos civis nas operações, talvez até

evacuando-os do local do combate, concentrando-os em um único local ou realocando-os para instalações temporárias. Deve-se ainda respeitar as obrigações legais e morais no trato com os civis (EUA, 2017c, p. 1-17).

Como o aumento da facilidade de circulação da informação, aumenta o potencial da população civil em tomar parte de um dos lados do conflito. Isso deve ser considerado, executando ações para influenciar os indivíduos a externarem um comportamento desejado e tornando o ambiente favorável (EUA, 2017c, p. 1-3).

Com isso, fica mais fácil entender que o suporte da população às operações, ou sua falta, pode ser determinante para os resultados do conflito. Por mais que o apoio popular às operações seja desejado, isso pode significar um alto custo, em nível estratégico, inclusive demandando ações humanitárias e de segurança. A despeito de um comportamento neutro ser mais fácil de ser conquistado, e preferível ao comportamento hostil, a população neutra não fornece informações e apoio às tropas operativas (EUA, 2017c, p. 1-17).

Nos conflitos em Bagdá, ocorridos em 2003, pode-se observar a importância desse fator:

o Exército dos EUA identificou que era importante se entender o componente humano, a sociedade iraquiana, de modo a atuar em suas fraquezas para que a ação militar fosse um sucesso. Uma dessas vulnerabilidades era o fato de que nem todos apoiavam Sadam Hussein e dessa forma contribuíram para a ofensiva da coalizão. Poucos foram aqueles que apoiaram os soldados iraquianos e muitos informaram sobre locais de homizio das forças e lideranças. (MESQUITA, 2008a, p. 22)

Percebe-se claramente nesse relato a importância de outros atores, além da tropa amiga e inimiga, que participam de forma mais ou menos ativa do conflito, com destaque para “a mídia, os civis não combatentes, os grupos e organizações presentes em áreas conflagradas, o público de massa – nacional e internacional – e os dirigentes e líderes em todos os níveis” (BRASIL, 2014b, p. 2-2).

A presença e a atitude da população, e seu relacionamento com a mídia, podem afetar a condução dos combates, e o entendimento desses fatores sociais é crítico para o sucesso da operação (EUA, 2017c, p. 1-13).

Como consequência dessa necessidade de angariar o apreço e moldar a vontade da população, a força deve ter em mente:

toda ação, atividade, tarefa e/ou operação militar terrestre pode ser potencialmente “capturada” em imagens digitais, as quais, em alguns casos, podem ser manipuladas por atores com interesses contrários, cada qual buscando controlar a “narrativa”. A visibilidade imposta pelas mídias sociais e tradicionais torna-se, portanto, uma consideração fundamental para o emprego de elementos da F Ter. (BRASIL, 2014b, p. 2-7)

Da mesma forma, a presença da mídia leva os combatentes a realizar ações sabendo que elas podem ser difundidas ao público, local ou global, instantaneamente (BRASIL, 2014b, p. 2-6). A relevância da tecnologia, principalmente da internet, faz crescer o papel dos meios de comunicação, modificando o campo de batalha. Não só a população diretamente envolvida com o conflito, mas também o público nacional tomará ciência das ações que estão sendo realizadas no campo de batalha. (JAMES, 2010, p. 9)

A mídia tem muito mais acesso ao combate no ambiente urbano que em outros ambientes, sendo um componente central na infraestrutura de informações e preocupação constante nos planejamentos operacionais (EUA, 2017c, p. 1-22), porque o permanente acompanhamento da imprensa diminui a liberdade de ação das forças em conflito (RIGOTTI, 2007, p.41),

O acompanhamento midiático deve ser levado em conta juntamente com a valorização das questões humanitárias, principalmente porque a opinião pública está menos propensa a aceitar os conflitos armados (BRASIL, 2017, p. 2-3). De certa forma, a opinião pública assume protagonismo na solução de conflitos. (BRASIL, 2014b, p. 2-1).

Não só as questões humanitárias serão colocadas em pauta, mas também questões de legitimidade, que serão a soma dos fundamentos legais, que darão sustentação ao conflito, e dos fundamentos morais, para que as ações militares sejam aceitas pelo público observador. (BRASIL, 2014b, p. 2-1). Quanto às questões morais, o exemplo de Bagdá fez observar que a “relativa afeição [entre a população e a tropa norte-americana] também foi fruto da preocupação com a redução de danos durante o início dos combates e do bombardeio da capital” (MESQUITA, 2008a, p. 22).

Deverão ser então conduzidas ações para informar e influenciar grupos e indivíduos, por meio de ações de Comunicação Social, Operações de Apoio à Informação, Guerra Eletrônica, Guerra Cibernética, dentre outras, tudo com o objetivo de obter a superioridade de informações (BRASIL, 2014c, p. 7-3).

Os comandantes devem repensar os planejamentos e as ações para evitar danos colaterais e evitar as baixas civis, assim como considerar a importância da mídia e da atitude das tropas perante os cidadãos (RIGOTTI, 2007, p. 105). A narrativa dominante, ou seja, a “percepção estabelecida como válida nas mentes de um ou mais públicos-alvo”, deve ser encarada como ponto decisivo nas operações. Essa narrativa é determinada pela comunicação com a sociedade nacional e global, tornando a opinião pública um dos centros de gravidade de qualquer operação (BRASIL, 2014b, p. 2-6).

Em equivalência, o inimigo também será conhecedor dessas possibilidades, buscando obter vantagens na dimensão informacional. O emprego de cenas de guerra e emprego de armamento consistirá em uma arma para atacar um centro de gravidade da força amiga, a aprovação de seu próprio povo (JAMES, 2010, p. 9). O manual norte-americano ATP 3-06 (EUA, 2017c, p. 1-22, tradução nossa) apresenta com excelência o modo como o inimigo pode utilizar a informação a seu favor:

O inimigo realiza operações de propaganda e desinformação para moldar a percepção e a opinião pública local e internacional contra os Estados Unidos, a nação anfitriã ou as forças da coalizão. O inimigo mina os esforços de estabilização em curso, marginalizando os sucessos, explorando casos de erros da força amiga e fabrica ou exagera falhas culturais das forças amigas. As organizações inimigas tentam manipular as mídias sociais e as notícias locais, regionais e mundiais para alcançar seus fins e angariar novos recrutas para sua causa. Por exemplo, os telefones celulares podem ativar dispositivos explosivos improvisados, tendo seus resultados captados em câmeras digitais, transmitidos por telefones via satélite e postados em salas de bate-papo na internet para um público mundial. Além disso, o inimigo que opera dentro do terreno urbano usa táticas que aumentam o potencial de vítimas civis e danos colaterais para minar a determinação dos Estados Unidos e da população local.

Com isso, essa dimensão tornou-se “um campo de batalha virtual”, sendo mais uma ameaça ao emprego da Força Terrestre, ou “um elemento multiplicador do poder de combate, quando aproveitada de maneira eficaz” (BRASIL, 2014b, p. 2-7). A vitória muitas vezes não corresponde apenas ao plano militar, mas também ao plano político, devendo ser consideradas as implicações da opinião pública. “Durante o planejamento do emprego da Força devem ser analisadas as consequências e repercussões da manobra a executar perante a opinião pública local, nacional e internacional” (BRASIL, 2009, p 4-8).

Em consequência, até nos menores escalões a força deve saber que, em suas ações, muitas das suas atividades estarão sendo observadas, e devem tomar

atitudes para lidar com essa realidade. “O seu desafio é balancear a transparência com operações de segurança” (EUA, 2017c, p. 1-22, tradução nossa).

Percebe-se, com as necessidades elencadas, que o combate urbano exige um nível mais alto de detalhes durante o estudo de inteligência, com um estudo pormenorizado da população, do terreno e da infraestrutura (EUA, 2011, p. 1-10). “A capacidade do comandante [...] de ver fisicamente a área de operações, a sua interação com o componente humano, com o meio ambiente e sua flexibilidade intelectual diante da mudança, tudo impacta nas operações urbanas” (EUA, 2011, p. xxvi, tradução nossa).

A leitura de Andrade (2004, p. 33) permite entender alguns dos aspectos relacionados ao emprego de tropas nesse cenário:

O dimensionamento do campo de batalha também será afetado durante o combate pela movimentação das tropas amigas, das tropas inimigas e dos civis, como também pelas condições meteorológicas. Os Cmt poderão reagir face essas mudanças através do deslocamento oportuno de suas frações, elementos de apoio de fogo e reserva, sincronizando sempre todas as ações. Evacuação de feridos, ressuprimento, prisioneiros de guerra, civis não combatentes, regras de engajamento, obscurecimento do campo de batalha, guerra eletrônica, movimento de veículos também influenciarão o campo de batalha urbano.