• Nenhum resultado encontrado

3.1 Dimensões da propriedade

3.1.1 A dimensão objetivo-institucional da propriedade privada

A propriedade privada, como instituição jurídica, não mais deve ser identificada exclusivamente como um direito subjetivo, um poder ou pretensão jurídica unidimensional ou unidirecional, pois a ela podem ser referenciados diversos efeitos jurídicos (funções e conteúdos normativos).

Santana sintetiza com precisão o espírito da dimensão objetivo-institucional da propriedade privada:

De logo, impende anotar que a vertente objetivo-institucional da propriedade privada decorre da consideração desta como uma instituição jurídica acessível a todas as pessoas e cujo conteúdo deve ser determinado pela função social que cada categoria de bens objeto do domínio é chamada a cumprir em cada caso. É esta uma concepção da propriedade privada consentânea com aquela doutrina dos direitos fundamentais que versa que estes, para além de encerrarem posições jurídicas subjetivas, possuem uma perspectiva objetiva que se identifica com conteúdos normativos diversos. (SANTANA, 2012, p. 25)

Daí porque não se deve conceber a propriedade privada sob a perspectiva única e exclusiva de seu titular, tendo em vista que a situação proprietária encerra consequências jurídicas que afetam outros interesses igualmente protegidos pelo ordenamento jurídico. Portanto, pode-se dizer que a dimensão objetivo-institucional comporta três subdimensões: a democrático-funcional, a prestacional e a processual.

A dimensão democrático-funcional da propriedade privada está atrelada ao conceito de liberdade, pois esta pressupõe, em sua concreta atuação, “a possibilidade de o indivíduo possuir os meios necessários para a sua (sub)existência livre, isto é, sem depender contínua e especificamente de outros autores sociais para tanto”. (SANTANA, 2012, p. 29)

Em outros termos, essa dimensão abarca a ideia de difusão da propriedade privada para que o indivíduo possa se realizar como pessoa e não se encontre sob o controle exclusivo de outro agente social, pois somente dispondo de determinados bens materiais é que o homem pode desenvolver livremente a sua personalidade e, nessa medida, realizar-se enquanto ser humano.

É preciso, entretanto, deixar claro que a propriedade privada, entendida como instrumento necessário para a salvaguarda de interesses individuais, não implica dizer que ela deva garantir estes somente se coincidirem com os interesses da coletividade. Em verdade o que interessa é que ela se constitua em um “elemento garantidor da manutenção de estruturas

econômicas necessárias para que sejam perseguidos interesses merecedores de tutela jurídica” (SANTANA, 2012, p. 28), como o são, de forma igual, os interesses individuais e coletivos.

A dimensão prestacional da propriedade privada engloba a penetração do interesse social em seu conteúdo, segundo a qual deve existir, para a propriedade privada, um conjunto normativo que permita a todos usufruir das benesses que aquela acarreta ao seu titular, o que se denomina cláusula de acessibilidade à propriedade privada (SANTANA, 2012, p. 30).

Assim, deve o Estado promover um conjunto de ações que possibilitem a todos possuir o essencial ao desenvolvimento de sua dignidade humana. Daí porque a dimensão prestacional da propriedade privada funciona como mandado de otimização, isto é, “como princípio fundamental reitor da política social e econômica que se impõe aos poderes públicos, notadamente ao legislador” (SANTANA, 2012, p. 31).

Em outras palavras, essa dimensão se refere à obrigação do Estado em dotar os indivíduos de condições para incorporar-se ao processo produtivo através da aquisição de bens para tal fim, cuja exclusão se deve a limitações econômicas e sociais. Nesse sentido, eis a observação de Zeledón (2010, p. 280):

La función objetiva se va a referir básicamente a lo social, e implica la obligación del Estado, y por ende garantía social, y no sólo individualmente de dotar a todos aquellos individuos con capacidad y conocimiento para incorporarse al proceso productivo a recibir bienes para cumplir tal fin, ya fuese porque carecen totalmente de ellos o bien por tenerlos en forma insuficiente. La distribución en la función objetiva tiende a la incorporación al proceso productivo de sujetos cuya exclusión de éste se debe a sus limitaciones económicas y sociales para contar con bienes debidamente aptos y organizados para la producción agrícola.

Cabe, contudo, uma ressalva, visto que o reconhecimento da dimensão prestacional da propriedade privada, segundo Lucas da Silva Santana (2012, p. 32) não confere ao cidadão uma condição de vantagem judicialmente exigível. Constitui, assim, um direito insuscetível de aplicação imediata que depende da emissão de uma normatividade futura pelo legislador, a fim de tornar possível a postulação judicial da propriedade de certos bens.

Lucas da Silva Santana sintetiza os aspectos mais relevantes que englobam a dimensão prestacional da propriedade privada. São eles a vinculação legislativa e a consideração da propriedade privada como meio para a consecução de objetivos consagrados na Constituição Federal de 1988, a saber:

Neste diapasão, afirma-se aqui que o conjunto normativo que compõe a dimensão prestacional da propriedade privada, apesar de não gerar uma situação jurídica subjetiva de vantagem judicialmente exigível pelo cidadão, determina que o legislador crie condições de acesso à propriedade relativamente àqueles que dela não dispõem e justifica o apoio estadual à aquisição de certos bens, como, por exemplo, da habitação própria ou da terra por parte de quem nela trabalha. Aqui, a propriedade privada é encarada, notadamente, como um meio de cumprir o objetivo fundamental da República Federativa do Brasil de erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, constante do artigo 3º, inciso III, da Constituição de 1988. O artigo 10 da Lei nº 10.257/01, que consagra o usucapião coletivo, e o parágrafo quarto do artigo 1.228 do Código Civil de 2002, que cria uma nova modalidade de expropriação, são exemplos da realização (legislativa) da dimensão prestacional da propriedade privada. (SANTANA, 2012, p. 32)

Portanto, pode-se dizer que a dimensão prestacional da propriedade privada, como mandado de otimização, condiciona a atividade do Poder Público no sentido de promover uma justiça distributiva, facilitando a aquisição de certos bens necessários ao desenvolvimento da personalidade e da dignidade humanas. E, embora dependam de providências institucionais para sua realização, as normas que compõem a dimensão prestacional são dotadas de força jurídica pelo simples fato de integrarem o Texto Constitucional28.

A dimensão processual da propriedade privada importa na exigência da máxima proteção estatal possível, de acordo com as condições fáticas e jurídicas que a circundam, consistindo esse direito fundamental em um mandado de otimização, de acordo com a concepção trazida por Robert Alexy (2011). Segundo Lucas da Silva Santana (2012, p. 34), a dimensão processual “exige que o Poder Judiciário e a Administração Pública em geral realizem uma interpretação e aplicação das normas integrantes daquela instituição jurídica que tenha em consideração o princípio da interpretação e processo favoráveis àquela”, seja no âmbito do processo judicial ou do administrativo.

Essa dimensão se coaduna com a eficácia dos direitos fundamentais, na medida em que os valores consagrados por estes condicionam a interpretação das normas legais pelo Poder Público. Por esse motivo, pode-se dizer também que a dimensão processual da propriedade privada guarda relação com o princípio da máxima efetividade, no sentido de que a qualquer norma constitucional a ela (propriedade) referente deve ser atribuído o sentido que maior eficácia lhe confira.

28 Nesse sentido, podem ser citadas as normas constitucionais previstas nos artigos 170, incisos II (garantia da propriedade privada) e III (garantia da função social da propriedade), da Constituição Federal de 1988, as quais consagram princípios da ordem econômica.