5. Consumidor final
2.2.1 A dimensão social do PNPB
O PNPB faz interface com uma gama heterogênea de atores sociais, técnicos e governamentais, como produtores rurais - latifundiários, num extremo do setor primário e agricultores familiares do Pronaf, agricultores não organizados, Sindicatos dos Trabalhadores Rurais - STR‟s, movimentos sociais e cooperativas no outro extremo -, além de produtores de óleo (extração e refino), detentores de tecnologia, empresas de petróleo (produção e distribuição, como a Petrobras), indústria automotiva, postos de abastecimentos, consumidores, governos federais e estaduais (KHALIL, 2006). Essa heterogeneidade abriga atores com distintos poderes e, conseqüentemente, visões, possibilidades, interesses e demandas contraditórias entre si.
Em um programa que gera inúmeras demandas e envolve atores com interesses tão divergentes, um dos maiores desafios tem sido consolidar o componente social do Programa, que se sustenta na participação da agricultura familiar na oferta de matéria-prima. Supostamente, a dimensão social é garantida a partir, principalmente, da instituição do Selo Combustível Social, conferido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, que visa integrar agricultores enquadrados nos critérios do Pronaf via renúncia fiscal (redução das alíquotas) de Pis/Pasep e Cofins das empresas produtoras de óleo vegetal e biodiesel que adquirirem parte da matéria-prima deles (TABELA 1). Como contrapartida, as empresas devem prover assistência técnica aos agricultores. Uma vez portadoras do Selo, as empresas (hoje somando 30 empresas) acessam condições favoráveis de
financiamento nas instituições financeiras (BNDES, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste e Banco do Brasil, dentre outras). O Selo é válido por cinco anos, validado por auditoria anual. A proposta, segundo o MDA, é que o Selo sirva como um identificador dos “produtores de biodiesel que promovam a inclusão social e o desenvolvimento regional por meio da geração de emprego e de renda para os agricultores familiares enquadrados nos critérios do Pronaf” (MDA, sem data, p. 1) Tabela 1 - Alíquotas de PIS/PASEP e de Cofins aplicadas ao biodiesel
R$/Litro de biodiesel
Sem Selo combustível social
Com Selo combustível social Regiões Norte, Nordeste e semi-árido
Mamona e palma 0,15 0,00
Outras matérias-primas 0,218 0,07
Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul Qualquer matéria-prima,
inclusive mamona e palma 0,218 0,07
Fonte: Tabela reproduzida da Proposta de Cartilha para o Selo Combustível Social, MDA. Disponível em < http://www.mda.gov.br/saf/arquivos/0705910308.pdf>, acessado em 23 de Julho de 2009.
As alíquotas de PIS/PASEP e de Cofins, descritas na tabela 1, incidem sobre o preço do litro do biodiesel, conforme a posse ou não do selo Combustível Social. A tabela 1 demonstra, ainda, as diferenças estabelecidas pelo MDA que incentivam, principalmente, a produção de mamona e palma na região Norte, Nordeste e Semi-Árido.
Os percentuais definidos nessa legislação foram alvo de grande pressão por parte das empresas, o que levou à revisão dos percentuais de contribuição de matéria-prima fixados para cada região do país. A Instrução Normativa nº 1, de 25 de fevereiro de 2009, diminui de 50 para 30% no Nordeste o percentual mínimo de aquisição da safra produzida pela agricultura familiar para estar habilitado ao Selo Combustível Social (ANEXO D). Os percentuais das demais regiões do país não foram alterados (ver Tabela 2):
Tabela 2 - Percentuais regionais de aquisição de matéria-prima para obtenção do Selo Combustível Social
2005 2009 Norte 10% 10%* Nordeste 50% 30% Sul 30% 30% Sudeste 30% 30% Centro Oeste 10% 10%*
Fonte: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Instrução Normativa nº 1, de 19 de fevereiro de 2009. *Safra 2009/2010; 15% para Safra 2010/2011
Os leilões públicos para comercialização do biodiesel que vêm ocorrendo desde 2005 são outro dispositivo na estrutura do Programa para garantir que a utilização da matéria-prima seja proveniente da agricultura familiar. São disponibilizadas 80% das quotas do leilão para as empresas detentoras do Selo Social e 20% para as demais empresas autorizadas pela Agência Nacional de Petróleo – ANP (TIRYAKI et al., 2009).
Essa estrutura e incentivos, porém, vêm se mostrando insuficientes, pois a produção de biodiesel em 2008 contou com uma contribuição insignificante da agricultura familiar. Tiryaki et al. (2009) constatam que a necessidade de acompanhamento técnico a ser dado à agricultura familiar, de modo a possibilitar melhor resposta à política, com maior produtividade e, sobretudo, tornando viável economicamente a sua inserção no mercado de biodiesel, foi subestimada pelo Programa. Outro obstáculo enfrentado é a concorrência que a indústria de biodiesel sofre frente a outros setores que utilizam óleo vegetal em mercados de maior valor agregado em conseqüência da valorização das oleaginosas e para as quais foi prevista concessão fiscal.
Figura 2 - Mecanismos para inserção da agricultura familiar na cadeia do biodiesel (MDA)
Fonte: Produção da autora
Como ilustrado na figura 2, foram estabelecidos, além do Selo e dos leilões, Pólos de Produção de Biodiesel pelo MDA com o objetivo de organizar a base produtiva de oleaginosas nos Estados18. Esses Pólos estão entre os pilares do recente processo de criação de um mercado de biodiesel. A estratégia consiste na articulação dos diversos atores (necessariamente: governo estadual, indústrias, organizações sindicais, agentes financeiros, empresas de assistência técnica, instituições de pesquisa, cooperativas de produtores e operações envolvidos; eventualmente: prefeituras, universidades e outros), estimulando a cooperação entre esses (ABRAMOVAY, 2007).
18
Distribuição dos Pólos de Biodiesel no país: São Paulo e Santa Catarina: 1 Pólo cada estado; Pará, Piauí, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Norte: 2 Pólos cada; Ceará, Pernambuco, Goiás e Rio Grande do Sul: 4; Bahia: 8. Fonte: TERRA, Roberto. Biodiesel, combustível social: A agricultura familiar participa. <www.mda.gov.br>, acesso em 12 de março de 2009.
Figura 3 - Organização dos Pólos de Biodiesel nos Estados
Fonte: Descrição do projeto Pólos de Biodiesel. Disponível no site <www.mda.gov.br>, acessada em 12 de Março de 2009. Sistematizada pela autora.
Os Pólos foram organizados nos Estados através de um convênio com a organização não-governamental Obras Kolping do Brasil, sediada em Fortaleza (CE) e a empresa de consultoria Plural. O convênio teve vigência de julho de 2008 a dezembro de 2009. Cada Estado deveria contar com: 1. uma Câmara Técnica que reuniria a coordenação estadual de biodiesel, consultor estadual MDA, secretarias e órgãos públicos estaduais e federais, organizações, empresas; 2. Grupo de Trabalho Territorial, com um articulador MDA/Kolping ou Plural, representantes do programa estadual, consultor territorial, assistência técnica rural oficial, municípios, bancos, organizações, produtores de biodiesel, representantes de núcleos de produção; 3. Núcleo de Produção, contando com, pelo menos, 40 produtores rurais por núcleo, organizados ou não em associações ou cooperativas.
Um último mecanismo institucional relevante do ponto de vista da inclusão dos agricultores em questão é o controle social. O MDA parte da premissa de que para viabilizar a inclusão social e a eficácia do processo, além do Selo Social, deve haver um mecanismo de controle social, isto é, de ativação de uma rede de instituições (organizações, movimentos sociais, universidades) que monitorem os resultados e os caminhos percorridos pela agricultura familiar no Programa.
Observa-se que esse mecanismo aparece em cor esmaecida na figura 2 para ilustrar a baixa visibilidade ou alcance de iniciativas dessa natureza nos Estados da Federação.
Nesse capítulo, apresentou-se o cenário nacional atual da produção de biocombustíveis, chamando a atenção para alguns paradoxos e limites acerca da implementação do PNPB e para os principais problemas vivenciados pelos agentes em questão:
1. Problemas estruturais: acesso à terra e crédito, ausência de direitos fundamentais e sociais, insuficiência de políticas públicas agrárias voltadas para a agricultura familiar, perda de confiança nos programas governamentais.
2. Problemas conjunturais: falta de confiança nas empresas compradoras de grãos oleaginosos por parte dos agricultores familiares.
Apresentou-se, ainda, como o PNPB foi estruturado para promover a inclusão social, que consta como uma de suas principais justificativas, e os principais entraves identificados, em um modelo que busca superar os erros do Pró-álcool promovendo benefícios ecológicos, sociais e econômicos (PARENTE, 2006).
No capítulo a seguir, buscar-se-á caracterizar as condições da agricultura familiar no Brasil e na Bahia, aprofundando o problema colocado para esta dissertação, analisando como as propostas de agregação de valor ao trabalho agrícola se relacionam com as transformações no espaço rural nas últimas décadas.