Esquema 1 Pressupostos para a sustentabilidade da agricultura familiar em relação à proposta governamental de produção de biodiesel
5. Verificar o estágio atual da comunidade em termos de organização para a produção Parâmetro: Organização coletiva e auto-gestão
5.4 ASPECTOS MAIS RELEVANTES DA PESQUISA DE CAMPO
O capítulo desenvolveu uma análise das entrevistas realizadas em Mutuípe, com os agricultores envolvidos no PNPB, na contratação para o fornecimento de grãos ou capacitados para, mas que não celebraram contrato com a Petrobras. Comparando os dois grupos (contratados e não-contratados), a primeira constatação refere-se à diferença dos perfis traçados: tamanho e capacidade de trabalho da família, terra disponível e, especialmente, realidade sócio-econômica configurada com desempenho de atividades não-agrárias como fonte de renda. O grupo contratado apresentou maior poder de decisão e maior disponibilidade para o experimento, ao contrário do grupo não contratado que, na maioria dos casos, depende da renda oriunda de programas governamentais e de diárias de trabalhos realizados em lavouras de terceiros. Além disso, o tamanho de suas unidades produtivas é impróprio para produção para outros mercados que não o de horti-fruti- granjeiro para comercialização, quando a produção excede a capacidade de consumo da família.
A seleção, porém, não foi arbitrada pela força de nenhum marco regulatório do PNPB. Todos os não-contratados entrevistados afirmaram não terem tido acesso às sementes de oleaginosas, mesmo aqueles que declaram na entrevista não terem interesse no plantio. A informação não chegou a esse grupo, o que evidencia que, embora tenha sido qualificado, esse não foi o critério de distribuição das sementes. Concomitante a isso, segundo os diretores e a pessoa do
sindicato responsável pelo programa, a mudança de oleaginosa (de amendoim para girassol) foi o fator crucial de desmobilização dos agricultores no município, por contrariar as expectativas e planejamentos supostamente realizados quando da capacitação. Ao contrário do que se supunha no início da investigação, esse fato revela que o plantio do girassol não foi uma estratégia formulada coletivamente de se conhecer uma oleaginosa dotada de múltiplas propriedades e capaz de se integrar à produção da agricultura familiar (alimento para animais, apicultura, adubo, extração do óleo para cozinhar, etc), ampliando suas possibilidades de autonomia do mercado. Contudo, os critérios aferidos de adesão às oleaginosas foram segurança alimentar e domínio técnico (experiência dos agricultores).
Constatou-se que há percepções e entendimentos bastante distintos entre aqueles que integraram a capacitação realizada pelo Elo/MTE e os demais, visto que às suas avaliações foram incorporados parâmetros cuja matriz foi construída no seio das organizações sociais e constituem uma base multi-dimensional (que inclui as dimensões Tecnológica e Institucional) mais ampla que o tripé de sustentabilidade Econômico-Social-Ambiental, supostamente almejado pelo PNPB. Novamente, portanto, a adesão ao PNPB parece ter ocorrido em função da associação do programa ao modelo Inclusivo-Sustentável, que o vincula a uma proposta de desenvolvimento territorial.
Pelo que pôde ser aferido, em 2007 e 2008 ainda não havia um acordo sobre os papéis do governo baiano e empresas para a operacionalização do programa no que tange à participação da agricultura familiar (insumos e assistência técnica). Ao que tudo indica, essa situação comprometeu a safra 2008/2009 no município tanto pelo atraso do fornecimento, quanto pela qualidade das sementes.
Do ponto de vista estritamente da implementação do Programa de Biodiesel, aferiu-se que as falhas na gestão do programa, a falta de incentivos concretos e substanciais que ajudassem a minimizar os riscos do agricultor e a idealização de uma contraproposta de participação da cadeia produtiva do biodiesel foram as principais causas que levaram a uma baixa adesão ao PNPB em Mutuípe. Salienta-se que os contratos foram realizados individualmente para fornecimento de grãos, apesar de a Petrobras ter anunciado que em 2008 adotaria a modalidade de contratos coletivos para a compra de óleo vegetal (PETROBRAS, 2007, p.15), o que
não ocorreu. De fato, a participação da agricultura familiar em âmbito nacional foi praticamente nula, conforme explicitado ao longo da dissertação.
No plano local, observou-se um contexto muito rico e dinâmico de organização desses agricultores, com a implantação do DRS e outras tantas iniciativas das associações, do Sindicato, da Prefeitura, mas carece, no entanto, de uma reflexão mais aprofundada sobre as possibilidades geradas pelo PNPB junto a essas instituições. Verificou-se que o Poder Público poderia estar mais munido de informações sobre o programa.
Esse dinamismo pôde ser verificado também pela sobrecarregada agenda dos agricultores, pois são realizados encontros periódicos de discussão de prioridades para o orçamento municipal, planejamento e cursos de capacitação tanto nas comunidades rurais quanto na sede do município. A localização do município em área de Mata Atlântica favorece condições de produção de múltiplas lavouras, diversificando as possibilidades de segurança alimentar e comercialização, muito embora a crítica feita não só por grande parte dos entrevistados, mas por vários atores sociais aos quais a pesquisadora teve acesso, a produção local está fortemente baseada nas lavouras do cacau e da banana.
Como contribuição para essa reflexão, seguem dois cenários vislumbrados: no primeiro, verifica-se que a comunidade está motivada e envolvida com os processos de aprendizagem, de beneficiamento, de incremento à economia local e que a adesão ao PNPB, nesse momento, não representa novas oportunidades de vida e trabalho. Presume-se que os agricultores mais ativos se disporiam a atuar na linha de frente de uma estratégia de beneficiamento de oleaginosas, contudo, estão altamente envolvidos em diversas iniciativas locais, que lhe são mais familiares, como é o caso da transformação de produtos regionais.
Por outro lado, constituindo um segundo cenário, essa mesma motivação, organização e capacidade existentes são favoráveis para que essa inserção ocorra de modo bem estruturado e capaz de verticalizar a produção, isto é, não apenas produzir grãos para o biodiesel, mas comercializar o óleo bruto a partir do processo de esmagamento realizado na própria região. O projeto possível de ser implementado não consistiria apenas em proporcionar cultivares alternativos e geração de renda complementar, mas em agregar maior valor ao produto e,
sobretudo, caminhar rumo à autonomia energética (pois, existem recursos para adaptação de motores para utilização do óleo in natura).
Esses cenários, embora pareçam excludentes, podem cumprir papéis complementares em uma estratégia de integração à cadeia produtiva do biodiesel, mas isso só será possível com maior envolvimento das instituições públicas locais e com a realização de um estudo de viabilidade de uma unidade de esmagamento na região. Afora, obviamente, os ajustes necessários à operacionalização e condições de contrato no Estado.