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A Tabela 35 demonstra o financiamento total das três eleições analisadas nesta tese, separadas por fonte de financiamento. É importante ressaltar que essa tabela demonstra a soma do financiamento recebido diretamente pelos candidatos a deputado federal vitoriosos em cada pleito, além de permitir visualizar o peso de cada fonte de financiamento em separado e em conjunto e também a evolução dessas fontes através dos pleitos.

Tabela 35 – Evolução no Financiamento de Campanha para Deputado Federal no RN (2002-2010)

Fonte 2002 2006 2010 Soma das 3 eleições

Recursos Próprios R$ 217.872,92 R$ 364.950,00 R$ 1.002.014,84 R$ 1.584.837,76 Pessoa Física R$ 533.199,73 R$ 459.027,80 R$ 730.260,32 R$ 1.722.487,85 Pessoa Jurídica R$ 662.429,81 R$ 1.427.684,36 R$ 2.697.660,00 R$ 4.787.774,17 Partido e Comitê Financeiro ─ R$ 1.149.573,34 R$ 4.972.926,20 R$ 6.122.499,54

Outros Partidos R$ 30.000,00 ─ ─ R$ 30.000,00

Outros Candidatos/Comitês R$ 15.000,00 R$ 50.000,00 R$ 113.747,55 R$ 178.747,55

Outros R$ 96.650,00 R$ 81.550,00 R$ 10.411,66 R$ 188.611,66

Total R$ 1.555.152,46 R$ 3.532.785,50 R$ 9.527.020,57 R$ 14.614.958,53

Ao observar os dados da tabela, pode-se notar que os valores advindos da fonte “Pessoa Jurídica” diretamente para os candidatos eleitos equivalem a 32,76% do financiamento total dos três pleitos, perdendo apenas para “Partido e Comitê Financeiro”, que equivale a 41,89% do total. Levando em consideração, como foi demonstrado nos tópicos acima, que muito do financiamento de comitês, e até de partidos, tem como fonte pessoas jurídicas, pode-se notar o peso desse tipo de financiamento nas campanhas eleitorais para deputado federal no Rio Grande do norte, uma realidade que pode ser extrapolada para outros estados brasileiros.

Outro ponto que não pode ser ignorado é o crescente montante de financiamento de “Pessoa Jurídica” nos três anos, sendo a maior fonte do financiamento, com exceção do financiamento de “Partidos e Comitê Financeiro” em 2010. Esse financiamento mais que dobrou de 2002 para 2006, e deste ano para 2010 quase dobrou, crescendo 94,48%.

A fonte “Partido e Comitê Financeiro”, inexistente em 2002, foi expressiva em 2006, representando quase um terço (32,54%) do financiamento total. Em 2010,

cresceu ainda mais, chegando a representar 52,20% do total de financiamento. Esses dados estão em consonância com o que foi discutido por Speck (2016) acerca da tendência das empresas a financiarem partidos e comitês ao invés dos candidatos diretamente. Assim, o crescimento dessa fonte de 2006 a 2010 foi de 4,32 vezes.

O peso que “Partido e Comitê Financeiro” teve em 2010 foi tão grande que jogou essa fonte para a primeira colocação no financiamento total dos candidatos nas três eleições. Como visto no tópico anterior, só o financiamento de Henrique Alves em 2010 correspondeu a 50,78% desta fonte. Isso quer dizer que apenas um candidato foi responsável por alavancar os recursos, fazendo assim essa fonte ocupar a primeira posição. Se somarmos o montante de Henrique ao de Felipe Maia, correspondente a outros 20,11%, chega-se 70,89%, quase três quartos do total.

Em suma, os dados de “Partido e Comitê Financeiro” não denotam um padrão entre os candidatos, pois essa fonte foi elevada à primeira posição por basicamente dois candidatos. Já a fonte “Pessoa Jurídica”, presente nas três eleições, encontra- se melhor distribuída entre os candidatos, apesar de alguns possuírem montantes maiores que os outros. Assim, pode-se dizer que “Pessoa Jurídica” teve um impacto maior e mais pluralizado do que “Partido e Comitê Financeiro”.

É importante também visualizar quais setores mais investiram nas campanhas dos deputados, pois isso será essencial quando da análise dos projetos de lei apresentados por eles. Dessa forma, a Tabela 36 demonstra o valor e o peso relativo dos investimentos de cada setor no financiamento total dos candidatos, o que possibilita uma visualização dos maiores investidores.

Como pode ser observado nessa tabela, o setor de construção foi o que mais investiu na campanha dos candidatos. Isso já foi visto em outros trabalhos51. O setor

de construção está entre os maiores investidores em campanhas eleitorais no Brasil, seja para cargos no executivo ou legislativo. A segunda posição coube ao setor salineiro.

51 Para uma melhor discussão acerca desse tema: Borges (2013, 2013b) Speck e Mancuso (2014), Speck e Marciano (2015), Gonçalves (2011), Rocha (2011), Lemos et al. (2010) e Santos (2012).

Tabela 36 – Investimento Relativo por Setor no Financiamento Total dos Candidatos

Setor Valor Absoluto Porcentagem

Combustível/Energia R$ 318.926,36 6,68% Terceirização R$ 74.000,00 1,55% Serviço R$ 12.790,00 0,27% Comércio R$ 467.840,00 9,81% Salineiro R$ 726.500,00 15,23% Imobiliária R$ 206.000,00 4,32% Transporte R$ 298.400,00 6,25% Construção R$ 1.014.900,00 21,27% Turismo R$ 500,00 0,01% Alimento R$ 346.935,00 7,27% Financeiro R$ 267.700,00 5,61% Conglomerado R$ 165.000,00 3,46% Têxtil R$ 41.000,00 0,86% Mídia R$ 91.758,00 1,92% Gráfica R$ 1.185,00 0,02% Metalúrgico R$ 229.000,00 4,80% Biocombustível/Bioenergia R$ 40.000,00 0,84% Produtora R$ 200,00 0,00% Farmacêutico R$ 15.500,00 0,32% Consultoria Empresarial R$ 50.000,00 1,05% Editora R$ 21.224,00 0,44% Tabaco R$ 100.000,00 2,10% Saúde R$ 28.000,00 0,59% Publicidade R$ 11.160,00 0,23% Papel R$ 72.418,81 1,52% Ticket R$ 40.000,00 0,84% Advocacia R$ 30.000,00 0,63% Mineração R$ 100.000,00 2,10% Embalagens e Descartáveis R$ 250,00 0,01% Total R$ 4.771.187,17 100,00%

O setor salineiro é muito presente nos financiamento dos candidatos, algo que não se repete para os comitês, aparecendo como investidor nas três eleições, especialmente nas duas últimas, sempre investindo em candidatos diferentes. O setor extrativista de sal é de grande importância para a economia do estado. Segundo a Simorsal (Sindicato da Indústria de Moagem e Refino de Sal do RN), o Rio Grande do Norte é responsável por 97% da produção do sal brasileiro. “O estado tem mais de 100 empresas de salinas segmentadas entre micro, pequenas, médias e grandes. Somente a Salinor, porém, responde por 45% da produção

nacional de sal. A Salinas do Nordeste SA produz 2,5 milhões de toneladas por ano”52.

Em terceiro lugar está Comércio, seguido de Alimento e Combustível/Energia, fechando os 5 setores com os maiores investimentos no financiamento. Os setores que investiram nas 3 eleições foram: Construção, Salineira, Combustível/Energia, Alimento, Financeiro, Têxtil e de Saúde.

Em relação aos comitês, os dados são de análise mais fácil. A Tabela 37 mostra o financiamento total feito aos comitês financeiros eleitorais em cada um dos anos e a soma total. Importante lembrar que não há dados para o financiamento de 2002 pois não houve entradas nessa fonte no financiamento dos candidatos nesse pleito.

Tabela 37 – Evolução no Financiamento de Campanha para Comitê Financeiro no RN (2006-2010)

Fonte 2006 2010 Total Pessoa Física R$ 4.000,00 R$ 422.302,53 R$ 426.302,53 Pessoa Jurídica R$ 2.335.000,00 R$ 13.580.626,00 R$ 15.915.626,00 Candidatos R$ 104.000,00 R$ 1.135.485,00 R$ 1.239.485,00 Diretório Nacional/ Estadual R$ 212.000,00 R$ 6.641.249,00 R$ 6.853.249,00 Outros Candidatos/ Comitês R$ 150.000,00 R$ 400.000,00 R$ 550.000,00 Outros R$ 50,60 R$ 50,60 Total R$ 2.805.000,00 R$ 22.179.713,13 R$ 24.984.713,13

Pessoa Jurídica foi a maior fonte nesse tipo de financiamento, correspondendo a 63,70% do total, estando presente todos os anos e em todos os comitês analisados. “Diretório Nacional/Estadual” aparece em segundo, com 27,43%, quase 3 vezes a menos que a maior fonte.

O investimento empresarial no comitê financeiro é maior que no dos candidatos, mesmo porque o comitê acaba por financiar vários candidatos de vários cargos diferentes, embora não crie uma relação de vínculo direto com os candidatos e também, como disse Speck (2016), não impacta diretamente no resultado da eleição, apesar de teoricamente criar um vínculo com os partidos, que são beneficiados com o investimento, e com as lideranças destes.

52 Como visto em http://novojornal.jor.br/economia/exportacao-da-industria-salineira-do-rn-cresceu-943-no-mes-

Para poder aprofundar a análise, a Tabela 38 mostra o peso relativo de cada setor dentro do financiamento geral dos comitês financeiros.

Tabela 38 – Investimento Relativo por Setor no Financiamento Total dos Comitês Financeiros

Setor Valor Absoluto Porcentagem

Combustível/Energia R$ 1.025.000,00 6,44% Biocombustível/Bioenergia R$ 210.000,00 1,32% Construção R$ 8.720.000,00 54,79% Financeiro R$ 1.350.000,00 8,48% Conglomerado R$ 855.000,00 5,37% Tratamento de Resíduos R$ 200.000,00 1,26% Agronegócio R$ 25.000,00 0,16% Alimento R$ 385.000,00 2,42% Consultoria R$ 100.000,00 0,63% Advocacia R$ 150.000,00 0,94% Comércio R$ 805.626,00 5,06% Têxtil R$ 400.000,00 2,51% Terceirização R$ 300.000,00 1,88% Metalúrgico R$ 640.000,00 4,02% Segurança R$ 545.000,00 3,42% Transporte R$ 125.000,00 0,79% Tabaco R$ 40.000,00 0,25% Salineiro R$ 30.000,00 0,19% Saúde R$ 10.000,00 0,06% Total R$ 15.915.626,00 100,00%

O setor de construção também lidera entre os comitês financeiros. Na verdade, corresponde a mais da metade dos investimentos empresariais. Em segundo lugar vem o setor Financeiro e em terceiro o de Combustível/energia, um setor que tem um impacto significativo na economia do estado. O setor salineiro é um dos que menos investem aqui, priorizando os candidatos, como já visto.

De posse desses dados, pode-se enfim prosseguir para a classificação e análise dos projetos de lei ordinária, o que se dará no próximo capítulo. Será comparada a classificação dos projetos e os setores beneficiados com os dados de financiamento obtidos neste Capítulo 2.

3 PROJETOS DE LEI DOS DEPUTADOS FEDERAIS DO RIO GRANDE DO NORTE ENTRE 2003 E 2014

A proposição e votação de projetos de lei é apenas um dos trabalhos de um deputado federal, embora, na opinião de algumas pessoas, esta possa ser considerada uma das principais atribuições do cargo, já que o poder legislativo é o responsável por criar leis num país.

Para observar o trabalho legislativo, optou-se por analisar os projetos de lei propostos pelos deputados federais eleitos pelo Rio Grande do Norte em três legislaturas consecutivas: 2003-2006, 2007-2010 e 2011-2014. Esses períodos foram escolhidos por conta da análise dos financiamentos dos candidatos eleitos nos pleitos de 2002, 2006 e 2010, realizada no Capítulo 2. Dessa forma, será possível examinar também a dinâmica de proposição dos projetos de lei nas eleições pré e pós-legislatura no que concerne ao aumento de dinheiro empresarial nas campanhas dos deputados que foram reeleitos.