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1.2 Sistema Eleitoral

1.2.1 Voto e regras eleitorais

O voto no Brasil é obrigatório e o sistema eleitoral brasileiro é centralizado e unificado para todo o país, ou seja, os estados da federação não podem ter regras próprias para escolha de seus representantes, seja no executivo ou no legislativo, seguindo o modelo proposto pela legislação federal.

As eleições para o executivo e para o legislativo ocorrem ao mesmo tempo no Brasil, com uma frequência bienal (de dois em dois anos), alterando apenas as esferas envolvidas. Num pleito, ocorre na esfera municipal, para os cargos de prefeito e vereador. Dois anos depois, ocorre nas esferas federal (presidente, senador e deputado federal) e estadual (governador e deputado estadual). É importante atentar a essa coincidência de legislativo e executivo, pois isso afeta as táticas dos partidos para o pleito, influenciando suas coligações para cada cargo e estratégias de campanha.

No país, o cargo executivo em qualquer um dos níveis (federal, estadual ou municipal) é ocupado por apenas uma pessoa, embora haja duas regras vigentes para essa disputa eleitoral. Em cidades com menos de 200 mil eleitores, o prefeito é

escolhido por maioria simples. Não importa a porcentagem dos votos, aquele que receber mais é eleito, mesmo que a distribuição seja, por exemplo, 36,7% dos votos para o primeiro, 36,2% para o segundo e 20% para o terceiro colocado. Já para cidades com mais de 200 mil eleitores, a escolha se dá em dois turnos, por maioria absoluta: ou seja, o candidato tem que atingir mais de 50% da preferência do eleitorado. Caso isso não ocorra no primeiro turno, os dois mais votados irão ao segundo turno disputar essa preferência, fazendo com que essa maioria absoluta seja atingida. Esse sistema de dois turnos de maioria absoluta (acima de 50%) também é utilizado para as disputas pelos cargos de presidente e governador.

Para as eleições legislativas, também há duas regras vigentes: uma para senadores e outra para deputados (federal e estadual) e vereadores. "À Câmara dos Deputados cabe a representação da população em geral. [...] O Senado Federal representa paritariamente as unidades da federação" (BEZERRA, 1999), cabendo aos deputados e vereadores representar o povo.

O Brasil, assim como os EUA, é uma república federativa, ou seja, “o governo central convive com unidades federativas independentes” (ARRETCHE, 2006, p. 123). Esta autora comenta que não há um consenso na ciência política sobre a definição de um estado federativo, tanto que a federação brasileira é bem diferente da estadunidense. Cada estado no Brasil tem um nível de independência, porém a centralidade da União é forte, unificando, por exemplo, o sistema eleitoral em todo o território.

Cada unidade da federação brasileira (os estados mais o Distrito Federal) tem o mesmo número de senadores (três), o que iguala os estados na esfera de poder federal. Barry Ames critica essa construção do senado brasileiro, em especial por causa da gigantesca desproporcionalidade representativa nessa Casa legislativa. A diferenciação no peso do voto de um estado para outro é, para o autor, um entrave, pois aumenta o número do que ele chama de veto-players.

Contanto com 3 senadores por estado, o Senado brasileiro dá a Roraima, com uma população que não chega a 250 mil pessoas, uma representação igual a São Paulo, que tem mais de 30 milhões de habitantes. Um voto em Roraima tem um peso 144 vezes maior do que um voto em São Paulo, de modo que os senadores que representam 13% da população brasileira podem bloquear uma legislação que 87% apoiam. (AMES, 2003, p. 36- 37).17

17Esses dados correspondem a quando o autor escreveu sua tese, levando em consideração dados do censo de 2000. Em dados atualizados com o senso de 2010, Roraima conta com 450 mil habitantes (com estimativa de 488 mil em 2013) e São Paulo tem mais de 41 milhões de

Essa diferenciação do peso dos votos dos senadores por estado se deve muito mais à grande desproporcionalidade populacional do país do que a um defeito do sistema eleitoral em si, mas mesmo assim não pode ser ignorada. De qualquer forma, como o senado representa o estado dentro da união federativa, e não necessariamente o povo, esse é um custo com o qual se deve arcar, sendo a única alternativa reformar essa Casa ou até mesmo eliminá-la.

Os senadores tem um mandato de oito anos, podendo se reeleger indiscriminadamente. Devido a esse tempo de mandato, a eleição para o Senado ocorre de forma diferenciada: num pleito vota-se para dois terços da Casa (dois senadores por estado), no certame seguinte (4 anos depois), para o outro terço (um senador por estado). A eleição do senador é majoritária, se dando por maioria simples, sem segundo turno, ou seja, o candidato (ou os dois primeiros, a depender do pleito) com mais votos ganha o cargo. Dessa forma, a lógica para se eleger é idêntica à dos cargos executivos: conseguir o maior número de votos possível.

O Brasil conta com 513 deputados federais, número que não se altera desde as eleições de 1994, mesmo com a população tendo crescido em mais de 40 milhões de 1991 a 2010. O distrito para se escolher os deputados equivale à unidade federativa (estados mais Distrito Federal). Cada estado escolhe um número de representantes de acordo com a sua população, baseado na fórmula D'Hont, mas com uma peculiaridade: nenhum estado pode ter menos que 8 (oito) nem mais do que 70 (setenta) deputados. Segundo vários autores (AMES, 2003; DESPOSATO, 2007; NICOLAU, 2012; SAMUELS, 2006), esse é o principal ponto de desproporcionalidade em termos de representação no Brasil. Por essa limitação, vários estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste se encontram sobre- representados, pois deveriam ter menos de 8 representantes, enquanto o estado de São Paulo está sub-representado, já que deveria ter 114 cadeiras, segundo a conta de Ames (2003, p. 75).

No Brasil, um país com cerca de 202 milhões de habitantes (estimativa para 2014), um deputado representa 394.598 habitantes. Nos EUA, que tem uma população de 313 milhões de pessoas (estimativa para 2014) e um Congresso Nacional de 435 deputados, um deputado representa 730.770 habitantes. A

habitantes (com estimativa de 43 milhões para 2013). Dessa forma, a diferenciação proporcional entro os estados diminui de 144 vezes para 91 vezes. Mesmo assim, é uma grande diferença. (Dados adquiridos no site: <www.ibge.com.br>. Acesso em: 15 abr. 2014).

Alemanha possui cerca de 82 milhões de habitantes e uma Assembleia Nacional com 631 deputados, cada um deles representando 129.668 habitantes18. Na Rússia,

onde há cerca de 141 milhões de habitantes e uma Câmara Federal com 450 deputados, a proporção é de 1 representante para cada 313.333 habitantes. Na França, com cerca de 63 milhões de habitantes e uma Assembleia Nacional de 577 deputados, essa taxa cai a 1 para cada 113.426. Na Argentina, com uma população de 41,09 milhões e uma Câmara de Deputados de 257, a proporção é de 1 para cada 160.628. No Japão, que conta com 127,6 milhões de habitantes e uma Câmara dos Deputados de 480 representantes, a taxa é de 1 para cada 265.000 habitantes. Como pode ser observado, há um grande contingente populacional para cada deputado em questão. Porém, isso é de se esperar num país com enorme número de habitantes como o Brasil. De todos os exemplos apresentados, apenas os EUA tem uma população maior que a brasileira19. O país que mais se aproxima dos

números brasileiros é a Rússia.