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A dinâmica da oficina de textos em saúde: desafios e reflexões em curso

Conforme destacado, essas reflexões sobre os usos da linguagem e a produção (dialógica) de sentidos no cotidiano, bem como sobre os posicionamentos

a oficina de textos acadêmicos e técnicos em saúde: reflexões e desafios para o bacharelado...

concretos (sócio-históricos) dos/as produtores/as e intérpretes de discur- sos e textos foram e são importantes para pensar as possibilidades do com- ponente curricular Oficina de Textos Acadêmicos e Técnicos em Saúde, que passou a ser ministrado em agosto de 2010. Em linhas gerais, a proposta tem se desenvolvido de modo a apresentar à/ao estudante do BI em Saúde dife- rentes modalidades/gêneros textuais, especificamente os que mais utiliza- mos no campo da saúde, bem como acompanhar a produção de textos, nos diferentes gêneros, orientando-o/a quanto aos objetivos, técnicas e formas possíveis de construí-los.

No início de cada semestre, os/as estudantes ressaltam as dificuldades para escrever e realizar trabalhos acadêmicos. Queixam-se da disponibili- dade de tempo para estudar, particularmente para os/as que trabalham, e das dificuldades para organizar os estudos. Mais ainda, o produto resultante nem sempre é satisfatório para estudantes e docentes. Relatam as experiências de sala de aula, na maioria das vezes difíceis, dolorosas e com desdobramentos que carregam ao longo da formação. É com esse cenário que damos início ao componente curricular a cada semestre e é sobre essa experiência que passa- mos a focalizar, nesta seção.

Na tentativa de romper com tantas queixas e dificuldades apresentadas no início, fruto das frustrações e de experiências nem sempre agradáveis trazidas pelos/as estudantes ao longo de seu processo de ensino-aprendi- zagem, é que nos propusemos a utilizar diferentes recursos, inclusive au- diovisuais, tais como: pinturas, músicas, filmes, fotografias, vídeos, artigos de revistas e de jornais locais, no intuito de provocar a reflexão e estimular a escrita. A ideia de trazer experiências de escritores/as e letristas, através de depoimentos que versam sobre o processo de escrever e de como surgiu a possibilidade de ser autor/a de um texto, é bastante positiva. Os/as estu- dantes vão percebendo que cada autor/a, a depender do “lugar” e das rela- ções que estabelece com o mundo, dá vida a personagens, histórias, mobi- liza sentidos que, até então, muitas vezes, desconheciam. Passam a consi- derar que é o exercício da escrita, as leituras que desenvolvem e a reflexão sobre o que fazem cotidianamente que vão, pouco a pouco, contribuindo para o seu processo de criação. Desse modo, adentram o mundo da pro- dução textual: “No início da disciplina relatei minhas limitações em escre-

o processo é muitas vezes doloroso, mas a possibilidade de escrever bem o

torna excitante.” (Estudante Turma 4, 2011.1)5

Os/as estudantes que cursaram outros componentes do Eixo Linguagens, como Língua Portuguesa, Poder e Diversidade Cultural e Leitura e Produção de Textos em Língua Portuguesa, ministrados pelo Instituto de Letras, já tra- zem consigo parte de um processo de desconstrução sobre a língua, agora com um olhar mais crítico em relação ao seu uso. Esse processo abre portas e favorece seu trânsito para a OTS de outro modo. É um momento de descons- trução, mas também de construção de novas perspectivas sobre ler e escre- ver, sobre “nossa língua portuguesa” e os contextos de uso e aprendizagem no cotidiano dos/as estudantes.

A partir daí, é possível iniciarmos uma discussão sobre por que escre- ver e sobre o que escrever. O que desejamos comunicar e a quem desejamos fazer essa comunicação. É um momento que antecede a apresentação das modalidades/gêneros textuais propriamente ditos. Passamos, então, a traba- lhar com os objetivos de um texto e, para tanto, é necessário refletir sobre as questões que nos remetem a escrever. Esse é um momento importante e difí- cil para o/a estudante. É um momento que passamos a descortinar os textos, e aí reside a dificuldade, que é “ler” um texto não apenas sob a perspectiva de seu “conteúdo exploratório”, mas como “tecnicamente” ele foi escrito: as partes que o integram, seus objetivos e as questões que apresenta, sua coe- rência argumentativa, seu desfecho, entre outros aspectos a serem identifica- dos e trabalhados na leitura e escrita de textos técnicos e acadêmicos.

Um primeiro exercício é a leitura, interpretação e escrita sobre um texto do campo da saúde. A escolha do texto é feita com o/a estudante, sobre a te- mática de interesse que o/a irá acompanhar ao longo do semestre, de prefe- rência aproveitando as atividades em que está inserido no BI, tais como gru- pos de pesquisa, atividades curriculares em comunidade, extensões, entre outras. Ou seja, toda a produção textual de cada aluno/a, no decorrer do se- mestre, como fichamentos, resumos, resenhas, ensaios, entre outros gêneros, comporão um texto coletivo sobre um tópico ou temática específica de inte- resse do grupo, como resultado final do componente.

5 Esse e outros relatos reproduzidos ao longo deste capítulo foram retirados da avaliação do componente “Oficina de textos acadêmicos e técnicos em saúde”, realizada pelos/as estudantes no final do semestre.

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Nesse processo, os/as estudantes são apresentados/as aos diferentes gê- neros, aos objetivos de cada um deles e à estrutura que os define. Começamos com fichamentos ou fichas de leitura de textos acadêmicos. O fichamento é um instrumento que possibilita organizar a leitura e compreensão do texto. É um tipo de exercício, de trabalho acadêmico, muito solicitado pelos/as profes- sores/as para o acompanhamento e avaliação dos/as estudantes ao longo de um curso. Porém, vários/as estudantes do BI em Saúde queixam-se da quan- tidade de fichamentos que realizam ao longo da sua formação, das dificulda- des para realizá-los e, especialmente, da ausência de avaliação por parte do/a professor/a sobre o material produzido. Isso não é válido apenas para ficha- mentos, mas para vários outros trabalhos acadêmicos que são solicitados por alguns professores, sem orientação prévia sobre sua execução ou conheci- mento sobre os critérios de avaliação. Essa é uma discussão longa, e não po- derá ocorrer neste momento, mas que necessita de reflexão entre os/as do- centes. Entretanto, no que concerne à Oficina de textos em saúde, um de seus pressupostos é a avaliação/aprendizagem processual dos/as estudantes com base nas devolutivas dos trabalhos desenvolvidos:

[...] As formas de avaliação acompanhadas com devolutivas esclarece-

doras fizeram com que percebesse o que são os meus ‘erros’, fazendo com que melhorasse cada vez mais. Toda a metodologia ensinada fará um grande diferencial, bom e oportuno, quando eu escrever. (Estudan-

te Turma 6, 2011.1)

Não é fácil desconstruir concepções e práticas sobre metodologias, formas de avaliação e produção acadêmica, e mais difícil ainda quando velhos mode- los e mal entendidos se reproduzem cotidianamente na universidade. Nessa direção, tentamos desfazer alguns “nós” e propor algo que faça sentido para a prática do/a estudante. O fichamento em OTS, por exemplo, tem como ob- jetivo: organizar uma leitura; clarear os objetivos ou tese defendida no texto; evidenciar os argumentos utilizados pelo/a autor/a para defender suas ideias; ser coerente com o texto lido e ter clareza do que o texto traz e do que o/a leitor/a pode compreender a respeito da obra; tecer comentários sobre o texto e propor novas questões/perguntas surgidas com a leitura. Desse modo, o fi- chamento poderá ser um registro que tanto contribuirá para a revisão de lite- ratura, ou estado da arte para a realização de pesquisas futuras, quanto como exercício de leitura, interpretação e escrita sobre uma obra qualquer.

Dessa aproximação com os gêneros, tanto no que se refere a conhecê-los quanto de produzi-los, os/as estudantes passam à construção de um artigo de revisão. Esse será construído coletivamente. Devem reunir as ideias, as leitu- ras que cada um/a realizou sobre o tema, os textos produzidos (resumos, re- senhas, ensaios e outros textos opinativos) e compor, agora, um texto único. Assim, textos opinativos, artigos originais, relatos de experiência, resenhas, entre outros, lidos e analisados, farão parte de um novo texto, a ser desen- volvido pelo grupo, sobre assuntos que mobilizam os/as estudantes durante a formação específica, como, por exemplo: humanização, drogas, alimenta- ção saudável, saúde do trabalhador, família, entre tantos outros temas de in- teresse. Essa etapa deve seguir-se de orientações, agora, sobre o que tratará o texto coletivo. Que tese ou pontos de vista serão defendidos? Quais os objeti- vos do texto? Como construir os argumentos? Como fazer uso da bibliografia de referência? Que fontes de informação existem e como utilizá-las? Como fa- zer uso das normas de referência? Que elementos integram cada parte de um texto acadêmico? Como construir a justificativa de um trabalho? Enfim, há muitos elementos necessários que precisam ser conhecidos e decifrados no processo de construção de um texto.

A riqueza do material a ser produzido será fruto da quantidade e qua- lidade das leituras e reflexões realizadas pelo/a estudante; do acompanha- mento criterioso que o/a professor/a dará ao texto submetido; das discus- sões e reflexões que o grupo desenvolverá durante a elaboração do trabalho; do uso que o/a estudante fará da construção deste processo. A riqueza não deverá estar apenas no artigo ou texto final, mas no quanto essa experiência poderá ser reproduzida para além da OTS. Ou seja, que o/a estudante incor- pore orientações, técnicas e possibilidades de produção de um texto em to- dos os momentos que se seguirem à sua formação.

O acompanhamento desse processo tem permitido aos docentes e estudantes refletirem sobre as dificuldades e desafios que temos no BI em Saúde. Uma das dificuldades reside no fato de pensar e incorporar, de fato, uma prática de en- sino interdisciplinar em que nossos objetivos, estratégias e produtos esperados nos componentes curriculares ministrados resultem de um diálogo institucional mais profícuo. Ou seja, é preciso que haja interação e diálogo entre docentes, metodologias adotadas e conteúdos ministrados, particularmente entre compo- nentes da formação específica e a OTS. Esse é um ponto importante e bastante ressaltado na avaliação da OTS pelos/as estudantes.

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Finalmente, algo que também precisa ser recuperado nessa discussão diz respeito ao significado do termo Oficina. Muitos/as de nós, docentes, não de- senvolvemos estratégias e metodologias de ensino que venham ao encontro de uma proposta condizente com o que se pretende em Oficina de textos. Para além de uma aula expositiva, que também tem seu lugar, uma oficina deve promover um espaço para troca de experiências, de enfrentamento das dificuldades e de uma produção compartilhada.

Deve-se levar em conta a experiência dos/as estudantes e tornar esse es- paço um lugar para fazer com o outro. É fundamental que esse fazer – com possibilite transformações das práticas, tanto para estudantes, quanto para docentes. Implica, portanto, um processo de saber-fazer com o outro: “uma

boa ‘disciplina’ para colocar em prática os conhecimentos adquiridos nos Ba- charelados Interdisciplinares.” (Estudante Turma 6, 2011.1)

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