O conteúdo programático do componente curricular foi trabalhado mediante o uso das seguintes estratégias pedagógicas: exposições seguidas de debate em plenária com a presença dos docentes da disciplina e docentes convida- dos; leitura e discussão de material bibliográfico selecionado; fichamento de textos e trabalhos de grupo. As aulas expositivas foram concentradas no iní- cio do curso e utilizadas para introduzir os conteúdos básicos do compo- nente curricular aos alunos.
Além disso, foram definidos grupos de trabalho responsáveis pela rea- lização de seminários sobre temas específicos escolhidos a partir do debate acerca da Política Nacional de Práticas Integrativas no SUS, sugerindo-se que os estudantes fossem além da leitura de textos e documentos institucionais, buscando pesquisar as características de cada uma das práticas complemen- tares e como está se dando sua difusão, incorporação e legitimação no sis- tema de saúde brasileiro. Após a apresentação dos Seminários, o resultado do trabalho em meio digital foi entregue aos docentes como parte do processo de avaliação formativa dos alunos.
De acordo com a proposta pedagógica adotada, os alunos desenvolve- ram, na primeira etapa do curso, um conjunto de leituras dirigidas de tex- tos selecionados, produzindo resenhas e relatórios dos trabalhos feitos, indi- vidualmente ou em grupo. Os temas abordados nas leituras dirigidas incluí- ram uma dupla perspectiva. Primeiro, tratou-se de analisar a emergência e o desenvolvimento dos movimentos de reforma médica, com base nas seguin- tes referências: Foucault (1977), Almeida Filho (1997), Almeida Filho e Paim (2000), Teixeira (2002), Arouca (2003). Em seguida, trabalhou-se com a revi- são do conceito de racionalidades médicas e de sistemas terapêuticos, a par- tir dos trabalhos de Luz (1988, 2000, 2001, 2005).
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Na segunda etapa, foram organizados Seminários Temáticos a partir da apresentação e discussão da Política Nacional de Práticas Integrativas e Com- plementares no SUS (PNPIC-SUS). Os alunos foram então distribuídos em 11 grupos de trabalho de acordo com as diversas “práticas integrativas” con- templadas na Política. Desse modo, os grupos foram constituídos em torno de temas específicos, tais como: Medicina Tradicional Chinesa (MTC)/Acupun- tura, Homeopatia, Plantas Medicinais e Fitoterapia, Termalismo/Crenoterapia e Medicina Antroposófica.
Os alunos foram orientados a desenvolver a pesquisa numa perspectiva interdisciplinar, com base em distintas fontes complementares: mídia (jor- nais, revistas, programas de televisão), publicações científicas (bases de da- dos bibliográficos: Scielo, Bireme, Google acadêmico etc.) e produtos artís- ticos (cinema, teatro, música e literatura), buscando sempre que possível articular os três grandes campos do conhecimento elaborado, utilizando con- teúdos dos campos artístico, científico e humanístico.
A avaliação dos relatórios produzidos acerca das distintas temáticas le- vou em conta os seguintes critérios: a) Domínio do conteúdo; b) Reflexão crí- tica acerca do tema abordado; c) Enriquecimento do conteúdo através de ati- vidade de pesquisa na mídia, em revistas científicas e produções artísticas.
Cada grupo, portanto, organizou um Seminário Temático específico e apresentou, ao final do curso, um relatório escrito elaborado a partir do tra- balho realizado. Vale ressaltar que cada grupo foi orientado a desenvolver seu respectivo tema buscando contemplar, ao menos, uma revisão histórica e teórico-conceitual com explicitação dos fundamentos que orientam as dis- tintas práticas integrativas, a análise da situação atual de cada uma delas no contexto do Brasil e da Bahia em particular, bem como suas principais indi- cações e contra-indicações em termos terapêuticos.
Os trabalhos que trataram do tema Plantas Medicinais e Fitoterapia apre- sentaram, de início, uma diferenciação conceitual, buscando distinguir as no- ções correlatas de fitoterápico, droga vegetal, planta medicinal e princípio ativo. (BARRETO et al., 2010; GUIMARÃES et al., 2010; LIMA et al., 2010) Em seguida, analisaram os principais métodos utilizados no processo de extração e preparo das ervas, com destaque para as principais indicações em termos de enfermidades e possibilidades de tratamento com base em distintas perspec- tivas culturais, tais como: a cultura contemporânea (urbana e rural), a cul- tura indígena e a cultura das religiões de matriz africana. Foram observados,
ainda, os principais riscos da utilização indevida das plantas medicinais e dos fitoterápicos, bem como as principais precauções a se adotar em caso de aci- dente. Com esse propósito, foram expostas amostras de plantas medicinais em suas diversas formas de utilização, como chás, cremes e emplastros. Ou- tro aspecto relevante, de iniciativa dos alunos, foi a introdução da temática da patente dos medicamentos e, consequentemente, da biopirataria, assuntos cada vez mais importantes em se considerando a variada biodiversidade bra- sileira e seu enorme potencial terapêutico. (GUIMARÃES et al., 2010) Em to- dos os trabalhos, foram utilizadas como referência as normas da Agência Na- cional de Vigilância Sanitária, em especial a resolução ANVISA nº 10, de 09 de março de 2010.
A Homeopatia, por sua vez, foi estudada a partir de uma perspectiva his- tórica e filosófica com foco nos princípios de explicação do fenômeno saúde- -doença, analisando-se suas propostas de intervenção, bem como seus limites e possibilidades atuais. Procedeu-se uma ampla revisão acerca da sua regu- lamentação em diversos países e continentes, como a Índia na Ásia; Alema- nha, Espanha, França, Reino Unido, Bélgica, Países Baixos, Portugal e Suíça na Europa; Estados Unidos, Canadá e México na América do Norte; Cuba na América Central, além de Chile e Brasil na América do Sul. No caso brasileiro, foram também analisadas as principais motivações que levam um indivíduo a buscar tratamento homeopático, as respectivas representações sociais acerca do tratamento, a visão dos gestores com relação à oferta de serviços de home- opatia na rede pública, além do relato de experiências efetivas de implantação dessas práticas integrativas no SUS. (SILVA et al., 2010) O estudo contemplou ainda as possibilidades de utilização das práticas homeopáticas pelas diversas profissões da área de saúde, a exemplo da medicina, odontologia e medicina veterinária. (BARBOSA et al., 2010)
Os seminários acerca da MTC/Acupuntura destacaram os princípios doutrinários fundamentais deste conjunto de práticas milenares originado na China. Em comum, essas práticas compartilham uma mesma base filo- sófica assentada tanto na teoria do Yin-Yang, que representa a divisão do mundo em duas forças ou princípios fundamentais, interpretando todos os fenômenos como opostos complementares, quanto na teoria dos cinco mo- vimentos, que atribui uma das cinco energias (madeira, fogo, terra, metal, água) a todas as coisas e fenômenos da natureza, inclusive ao corpo hu- mano. Foram descritos os principais elementos considerados na avaliação do
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paciente, como a anamnese, palpação do pulso, observação da face e língua, além de suas várias modalidades de tratamento: Terapia Alimentar Chinesa; Fitoterapia Chinesa; Práticas Físicas; Moxabustão; Ventosa terapia; Tui Na; Acupuntura. (FRAGA et al., 2010; SANTOS et al., 2010)
Os grupos que se debruçaram sobre a Medicina Antroposófica trataram, inicialmente, de apresentar sua origem e evolução numa perspectiva histó- rica, analisando seus conceitos fundamentais, de base vitalista, que reme- tem a uma concepção do homem como formado por quatro estruturas es- senciais: o corpo físico, o corpo vital, o corpo anímico e a organização para o eu. A compreensão acerca do complexo saúde-doença interpreta os esta- dos de não saúde, ou seja, de doença como resultado de alterações na rela- ção entre os sistemas (sistemas neuro-sensorial, rítmico, metabólico e das extremidades) que compõem a estrutura funcional e anatômica dos indiví- duos e, simultaneamente, como parte de mudanças biológicas, psicológicas e espirituais. (COELHO et al., 2010; SERRA et al., 2010) As principais expe- riências em curso no Brasil indicam que essa proposta de intervenção tem sido implantada de forma complementar a medicina clínica, possibilitando a construção de modelos de atenção organizados de maneira transdiscipli- nar, buscando a integralidade do cuidado em saúde, em diversos municípios do país, como: Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Campinas, Sorocaba, São Paulo e Grande São Paulo, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio de Janeiro, Nova Friburgo e Cuiabá. (COELHO et al., 2010)
Os Seminários de Termalismo e a Crenoterapia, assim como os demais, trataram de apresentar uma revisão histórica e teórico-conceitual do desen- volvimento dessas práticas no mundo e no Brasil. No plano histórico, bus- cou-se elucidar a origem e os princípios fundamentais dessas práticas, bem como descrever o processo de geogênese das águas termais. (FRANCO et al., 2010) A revisão foi acompanhada de uma discussão sobre os limites e pos- sibilidades das distintas racionalidades (biomédicas e integrativas), na pers- pectiva da integralidade do cuidado em saúde. (BARBOZA et al., 2010) Na sequência, a partir da revisão de literatura, buscou-se complementar a apre- sentação com a análise da situação atual dessas práticas em outros países, como França, Portugal, Luxemburgo, Grécia, Espanha, República Checa, Li- tuânia, Hungria, Letônia, Sérvia e Alemanha, além de Estados Unidos, Ja- pão e Islândia. No Brasil, a busca por experiências de utilização das práti- cas integrativas no âmbito do SUS levou um dos grupos a realizar uma visita
à estância hidromineral de Caldas do Jorro, no município de Tucano – BA, com coleta de amostra e realização de análise físico-química da água. (FRANCO et al., 2010) Finalmente, foram descritos os principais aspectos le- gais, científicos e culturais relacionados à indicação e uso de águas minerais com finalidade terapêutica.
Conforme orientação prévia, além de realizarem revisão documental com consulta à produção científica em livros, artigos em periódicos e banco de te- ses e dissertações, todos os grupos buscaram incorporar informações obtidas de outras fontes de produção de conhecimento, como jornais, revistas, fil- mes, vídeos disponíveis na internet, blogs etc. Merece destaque a excelente qualidade dos vídeos produzidos pelos grupos, o que pode estar relacionado com o próprio desenho curricular dos BI, que possibilita a construção de iti- nerários formativos que reúnem elementos das três culturas, incluindo com- ponentes de cultura artística.
Comentários finais
A análise dos resultados aferidos na avaliação do trabalho dos alunos indica que o componente HACA50 – Racionalidades em Saúde: Sistemas médicos e práticas alternativas pode efetivamente contribuir para a construção de uma visão mais ampla acerca das distintas racionalidades que “atravessam” o campo da Saúde no Brasil.
Cumpre destacar que, nas versões preliminares do projeto pedagógico, elaboradas ao longo de 2009, propunha-se que esse componente integrasse o elenco dos componentes curriculares obrigatórios do eixo de formação es- pecífica em saúde. Entretanto, com os ajustes efetuados após a elaboração do Parecer Técnico da Câmara de Ensino de Graduação vinculada ao Con- selho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFBA (TEIXEIRA; COELHO, 2013), este componente passou a ser considerado optativo e, como tal, não chegou a ser oferecido em 2011.
A experiência desenvolvida no ano de 2010 revelou a pertinência da pro- posta e a importância de se continuar oferecendo regularmente esse com- ponente curricular, ainda que como componente optativo, inclusive am- pliando-se a oferta de modo a contemplar os demais cursos da área de saúde.
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