TRABALHOS REALIZADOS
3.5 A DISCIPLINA MILITAR E A INFLUÊNCIA DO CAPITÃO FACÓ
A criação do estabelecimento foi, desde o início, atribuída ao empenho do capitão João Facó, que, de acordo com a ênfase dada pela imprensa, procurou pessoalmente, com esforço “incansável e tenaz” (O ENSINO..., 1933, p. 2) buscar meios nos limites do orçamento público para efetivar a sua inauguração. Apesar de mencionar em seu discurso que o empreendimento sofrera a intervenção de outros atores, Facó ressaltou a importância da sua contribuição ao surgimento da Escola para Menores: “Quis o destino que concebesse a mim a glória de realizar a última etapa dessa jornada grandiosa, de fazer o ultimo lance para a conquista desse objective magnífico – a tanto tempo almejado – a fundação de uma escola para menores na Bahia” (O ENSINO..., 1933, p. 2).
A identificação de João Facó com a EPM é mencionada inclusive nos documentos oficiais, que por vezes informam as suas visitas quase que diárias ao empreendimento. Não pode ser considerada como despretensiosa a ativa participação de um militar em exercício de comando, atuante na Revolução, numa escola de natureza reformatória. A estratégia de controle da educação pelo Estado observada na trajetória da historiografia da educação brasileira na era getulista (SAVIANI, 2008; HORTA, 1994) revela que as intervenções militares faziam parte das táticas em prol da segurança nacional, para a garantia da ordem e do controle ideológico da população.
Ainda que Facó tenha se tornado conhecido como “o Corta Orelhas”, por seu temperamento rígido, é ressaltada em alguns documentos a sua sensibilidade para com a causa da infância abandonada (O CORTA..., 1933). As “expectativas patrióticas do capitão Facó” (FACÓ, 1934, p. 3) parecem ter interferido diretamente na dinâmica institucional posto que as rotinas observadas no cotidiano escolar possuem feições disciplinares bastante rígidas,
que vigorou na gestão de Allioni. Um exemplo contundente é a norma que nominava os educandos por números ou, ainda, a utilização de sons de apito para o estabelecimento da ordem e da atenção, como, por exemplo: um silvo longo e forte, chegada de pessoas; um silvo longo e grave, seguido de outro curto e forte, chegada do censor.
Em suas pesquisas, Horta (1994) ressalta que desde o início da República os militares ligados a Olavo Bilac, imbuídos na campanha do serviço militar obrigatório, e, consequentemente, de tramarem o ideal de cidadão-soldado, buscaram atribuir uma função educativa ao Exército brasileiro, difundindo valores oriundos da instrução militar, como o desenvolvimento do civismo e o culto ao heroísmo. Essa concepção que entendia o Exército como um elemento “educador do povo”, como “aparelho ideológico encarregado de difundir os princípios da ordem e da disciplina” (HORTA, 1994, p. 15), e que podia substituir a escola na tarefa da inculcação de valores militares, prosseguiu até a Revolução de 1930, quando se definiu dentro do Exército o que o autor chamou de “nova concepção entre política militar e política educacional”.
A política militar inaugurada na década de 1930 era de mobilização nacional, ou seja, era de intervenção das forças armadas nos diversos setores da vida social brasileira, inclusive na educação. De acordo com Horta (1994, p. 25), “Propunha-se agora uma intervenção direta na política educativa, visando conformá-la à ‘política militar do país’ para que também em relação à educação do povo fosse feita a ‘política do Exército’”. Portanto, os esforços eram de controle político-social, o que demandava o fortalecimento da polícia e do Exército, aparelhos repressivos do Estado que poderiam regular as massas através de valores disciplinares e ordeiros.
Tal intervencionismo militar já corrente no cotidiano da sociedade era muito mais naturalizado e aceito em instituições de caráter totalitário como a EPM por serem entendidas como para a prevenção e regeneração, onde se protegia futuras gerações que poderiam ser salvas e tornadas úteis para o Brasil em seu desenvolvimento, e que também protegiam a sociedade produtiva em movimento. Docilizar os menores e torná-los mais adestrados (FOUCAULT, 2005) e susceptíveis aos ditames institucionais e, consequentemente, sociais era a função desejável e confiada a uma instituição de caráter disciplinar. Os mecanismos de punição e vigilância deveriam ser assegurados para que fosse garantida a harmonia social dentro do ambiente institucional e assim se alcançasse a ordem e o desenvolvimento fora dela. Neste aspecto o poder disciplinar era legitimamente consagrado como eficaz.
Nesse sentido, os aspectos da disciplina militar que apareciam fortemente arraigados na cultura institucional eram transcritos nas rotinas diárias, que vão desde o uniforme adotado, inspirado em fardamentos militares, ao regime de caserna, que impunha a rigidez nos horários previstos para o levantar e o deitar, e, naturalmente, para a realização das tarefas diárias, que estavam sistematizadas. De acordo com o Quadro 6.
Quadro 6 – Rotinas diárias da EPM
ATIVIDADE HORÁRIO
DESPERTAR 05h (Durante o toque da alvorada) ARRUMAÇÃO DOS LEITOS ASSEIO PESSOAL 05h30min REVISTA CAFÉ DA MANHÂ 06h GINÁSTICA 07h OFICINAS 08h às 10h
ESCOLA FORMAL Turno vespertino Fonte: Allioni (1934b, p. 9).
A apresentação das rotinas institucionais da Escola de Menores, longe de serem comparadas a uma proposta de educação politécnica (MARX, 1983), ainda que reunissem elementos pedagógicos que priorizariam a educação corporal, a educação formal e profissional que cabiam perfeitamente no âmbito da ideologia nacionalista vigente, eram similares àquelas previstas nos espaços militares destinados à formação de soldados. Como nos quartéis, a rigidez dos horários e a precisão dos usos e dos costumes tornavam os sujeitos controlados formalmente, tendo administradas as suas vontades e necessidades fisiológicas, sociais e psicológicas.
O hasteamento da bandeira era uma tarefa obrigatória e deveria contar rigorosamente com a participação de todos os educandos, conforme assinala o regulamento interno. O hasteamento era um símbolo patriótico que impunha o amor à nação, o respeito à ordem e cultivava o civismo. O momento reverente de saudar a bandeira nacional e do Estado era
depois do café da manhã, a primeira atividade, que abriria o dia conforme as rotinas previstas no regulamento da Escola Profissional Para Menores. Segundo afirmou Allioni (1934a, p. 47), o regulamento da escola
obedeceu paciente estudo existente sobre o assumpto no extrangeiro e da experiência colhida em cerca de um quarto de século de Brasil com o funcionamento dos patronatos, escolas de artífices etc., [...] Não é portanto empírico o regulamento e sim o reflexo dos methodos educacionais mais aconselhaveis ao ambiente bahiano e brasileiro.
A menção à observação dos métodos institucionais já experimentados no Brasil ressalta o caráter de continuidade das práticas internamente empregadas na EPM. Neste aspecto, a Escola Profissional de Menores provavelmente assimilou as técnicas que permearam muitos modelos de internatos historicamente constituídos que implicavam não apenas no uso do arbítrio da disciplina militar, mas a valorização de códigos morais, da prevalência da ordem, da hierarquia.
A imposição da disciplina como forma de “poder disciplinar” já foi amplamente discutida na obra foucaltiana, sempre analisada histórica e filosoficamente como mecanismo de vigilância e controle, e, consequentemente, de sujeição dos indivíduos a estratégias de punição, de adestramento, da docilização dos corpos, ou do panotismo. O poder disciplinar sofreu evoluções nos modelos de sociedades e se consolidou no seio de suas instituições criadas para a regulação dos desajustes sociais.
Para Foucault (2005, p. 155):
O poder disciplinar é, com efeito, um poder que em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior adestrar; ou sem dúvida, adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-la; procura ligá-las para multiplicá-las e utiliza-las num todo.
Materializadas como normas, técnicas e saberes especializados, as instituições de controle, historicamente, exercem o poder disciplinar sobre os grupos marginalizados e vulnerabilizados de modo a submeter os indivíduos sob o seu domínio a uma “multiplicidade de processos” que Foucault (2005, p. 119) classifica como de rápida circulação e disseminados muitas vezes de maneira lenta e discreta. Os mecanismos de disseminação das práticas disciplinares das instituições estão muitas vezes sistematizados em instrumentos ideológicos que são pensados para assegurar a unidade dos discursos, práticas e técnicas de
controle e administração do tempo, dos meios de vigilância e das formas de punição aceitáveis.
Com esse caráter disciplinador, integrava o regimento interno da EPM o “Código de Recompensa e Penalidades”, criado pela direção da EPM e aprovado pela Secretaria de Segurança Pública, que estabelecia que todo o comportamento dos educandos estava relacionado à aquisição ou a perda de pontos. Este código instituía um sistema interno hierárquico de patentes que distinguia os educandos de melhor comportamento através da premiação por títulos (militares), que com distinção ou não poderiam variar de “cabo” a “sargento”, podendo chegar ao posto de censor. O sistema disciplinar pressupunha também o rebaixamento das patentes, caso o educando promovido retrocedesse o comportamento. No mês de dezembro de 1933, 10 educandos foram promovidos a cabo, 07 a cabo com distinção, 13 foram elevados à condição de 3° sargento, 10 a segundo sargento e 03 a 3° sargento (ALLIONI, 1934b).
Outro aspecto relacionado à disciplina dos educandos eram as chamadas “Notas Médias”, que atribuídas individualmente visavam personalizar a conduta dos educandos, isto é, cada menor possuía dentro do “Boletim do Movimento das Disciplinas a Cargo da Seção de Vigilância” notas que eram conferidas sob os quesitos “aplicação”, “comportamento” e “faltas graves”. Classificados pela ordem numérica interna, os menores recebiam nestes quesitos notas que variavam de A a C. É interessante notar que nos boletins publicados no ano de 1933, dos 238 matriculados, nenhum educando alcançou a média “A”.
Ainda que tenha defendido a eficácia do regulamento interno, em outra ocasião, o diretor Allioni se opôs a sugestões que teriam sido acrescentadas pelo então chefe de culturas:
Permita-me, porém V.Exa. que eu não me conforme com as sugestões ou emendas ao regulamento confessadamente de autoria do chefe de culturas que, provavelmente não tem capacidade nem competência para fazê-las. O regulamento de um estabelecimento como a Escola Profissional de Menores deve, e precisa ser, o resultado de um estudo especial e paciente feito por quem se tenha dedicado ao assumpto. (ALLIONI, 1934b, p. 25).
Mesmo que não tenha sido consensual a normatização dos procedimentos disciplinares internos, esta guardava em si os elementos conservadores do militarismo e da sua ordem. A identificação dos educandos por números e o sistema hierárquico de patentes evidenciam a rigidez regimentar que em muitas características distinguiam essa de outras escolas públicas da época.
Outra característica marcante da ordem militarizada é a atribuição de notas ao comportamento individual dos alunos. A “aplicação” e o “comportamento” eram quesitos sujeitos a pontuação do mesmo modo que as disciplinas integrantes do currículo, quais sejam: Português, História, Geografia, Ciências, Aritmética, Geometria, Instruções Moraes, Trabalhos Manuais.
3.6 ESCÂNDALOS E MUDANÇA DE GESTÃO: O INÍCIO DA ERA EDSON TENÓRIO