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4 ESTABELECENDO UMA NOVA ORDEM: O INSTITUTO DE PRESERVAÇÃO E REFORMA

4.3 CONTINUÍSMOS E PROCESSOS PEDAGÓGICOS NO REFORMATÒRIO

Sobre a distinção do tratamento pedagógico oferecido a cada grupo de menores, a divisão em seções aparentemente distintas continuava a organizar cada pavilhão sob a ordem de rotinas militarizantes, isto é, o discurso oficial previa a divisão “[...] em pequenas comunidades no sistema de vida e de trabalho em comum que [levasse] o educando a compreender e desejar a disciplina” (BAHIA, 1938). A lei frisava a especificidade do regime disciplinar para cada grupo de menores e vedava “castigos corporais e processos de intimidação que [pudessem] humilhar o internado abatendo-lhe o moral” (BAHIA, 1938).

Na concepção dos legisladores do decreto estadual, os estabelecimentos para o amparo de menores abandonados e delinquentes visavam reeducar o internado e ampará-lo com uma profissão. Portanto, a “nova” proposta pedagógica manteve a estrutura anterior oferecendo ao educando educação física, moral e cívica no ensino primário, profissional, técnico-industrial e

obrigava o menor a comparecer em juízo nos dias e horas que fossem designados pela autoridade judiciária. Em caso de morte, mudança de residência ou ausência não autorizada do menor, os pais, ou autor, ou guarda, eram obrigados a informar ao juiz.

agrícola elementar “pelos métodos e processos modernos” (BAHIA, 1938), mas que continuavam a afirmar a inépcia do educando nos processos educativos. Neste sentido, afirmava Albuquerque (1942, p. 30) que “O ensino primário deve ser isento de disciplinas e noções que não sejam indispensáveis à condição modesta dos recolhidos”.

Um regime chamado de “pontos pedagógicos” destinados à recompensa, prêmios e estímulo fora criado a fim de destacar aqueles educandos que se sobressaíssem nas atividades pedagógicas cotidianas. De acordo com o artigo 21, os educandos seriam submetidos a “classificações do prisma ético, intelectual e econômico” (ALBUQUERQUE, 1942, p. 30), o que ressaltava as divisões internas de classe social. O regime de pontos já vinha sendo utilizado na EPM desde a gestão de Nivaldo Alionni, entretanto a regulamentação deste artifício pedagógico em lei viria a oficializar o método disciplinar muito comum nos internatos de menores do Brasil.

Sobre o aspecto da profissionalização, a lei instituiu que pelo trabalho desenvolvido no IPR o menor receberia “um pequeno salário que a titulo de pecúlio [seria] depositado na Caixa Econômica” (BAHIA, 1938), devendo ser entregue ao educando quando da sua saída do internato. Previa-se também que neste momento recebessem diploma de ofício ou arte em que fossem julgados aptos “do seu procedimento moral e procedimento de trabalho os quais [serveriam] de título para preferência nas oficinas do Estado” (BAHIA, 1938).

Quanto à criação de novas instituições de caráter correcional, aventava-se, através do artigo 25, a criação de uma “Escola Correcional”, instituição voltada para os menores pervertidos do sexo masculino encontrados na Capital ou no interior do estado. Apesar de não ter sido concretizada, a escola se instalaria como modelo estrutural técnico de Colônia Agrícola e deveria funcionar “Em logar apropriado a juizo do governo, e destinada a dar aos educandos educação física, moral e cívica, visando, porém, principalmente, a preparação de agricultores e criadores” (BAHIA, 1938).

As ideias iniciais, o formato e talvez a própria sistematização do projeto de transformação da Escola Profissional de Menores podem ser atribuídas ao esforço pessoal de Edson Tenório de Albuquerque. Vários documentos oficiais redigidos e assinados pelo diretor deixam claras as suas posições ideológicas sobre como deveria funcionar a nova política de atendimento à infância menorizada da Bahia.

Segundo Albuquerque (1942), o IPR seria chamado inicialmente de Instituto Bahiano de Reeducação para Menores, nome escolhido dentre outras sugestões previamente aventadas,

tais como Instituto Disciplinar, Escola de Reforma, Reformatório Bahiano, Instituto Educativo Bahiano, Reformatório Modelo, Escola Profissional para Menores Abandonados e Delinquentes. No entanto, a designação de Instituto de Preservação e Reforma parece ter sido mais adequada aos pressupostos da “Segurança Nacional” que cercava toda a ideologia do Estado Novo.

Não apenas em sua primeira denominação, mas nas demais, o caráter reeducativo enfatizado deixava claro que o Instituto já nasceria com um propósito: reeducar, disciplinar e reformar o menor, um dos muitos segmentos que desestruturava a sociedade. Na opinião de Albuquerque (1942, p. 21), evidenciada em alguns ofícios institucionais, “a denominação não [era] de grande importância porquanto a consciência pública encara mais a realidade das coisas que o seu nome”. No entanto, aconselhava o diretor que o nome da instituição a ser criada não deveria recordar “ou dar a entender ao menor que ele está cumprindo pena ou é um abandonado, que o desmoralize aos seus próprios olhos e ao público” (ALBUQUERQUE, 1942, p. 21).

Nessa perspectiva, a pedagogia emendativa, que parecia ser um antídoto capaz de moldá-los e modificar os refratários, aparecia na sugestão de decreto lei como base teórica para o implemento de uma proposta educativa que incluísse a educação moral e cívica, o ensino primário e profissional, técnico e agrícola elementar. Na proposta de Albuquerque que é apresentada no seu livro, o Instituto se organizaria em pequenas comunidades, no que ele chamou de “regime de auto-governo de vida e trabalho em comum” (ALBUQUERQUE, 1942, p. 11), que consistia num processo de reeducação capaz de levar os menores a “compreender e desejar a disciplina de grupo, sendo adaptadas como processos de reeducação, todas as medidas que, aumentando o índice de solidariedade, contribuam para a sua integração na sociedade” ( ALBUQUERQUE, 1942, p. 11).

De acordo com Albuquerque (1942), a necessidade de criação de um “serviço antropológico” de pesquisas psicológicas juvenis não apareceu de forma explicita no projeto inicial de criação do IPR por questões orçamentárias, mas a ideia foi veemente defendida nas justificativas e considerações gerais como essencial para se “organizar cientificamente e dirigir o trabalho de Assistência a Menores da Justiça” (ALBUQUERQUE, 1942, p. 28). Para o diretor, era necessário “[...] organizar cientificamente e dirigir o trabalho de assistência em seus aspectos social, médico e pedagógico [...]” (ALBUQUERQUE, 1947, p. 3), isto é, criar um Serviço Social completo de assistência a menores.

A tentativa de tornar o IPR numa instituição de caráter protetivo e correcional demandou alguns esforços conjuntos das autoridades competentes. Por força da vigência do decreto de criação do Instituto, o Juiz de Menores da Capital, e também de Órfãos e Ausentes, Edgard Joaquim de Souza Carneiro, publicou um edital no Diário Oficial convocando os pais dos menores recolhidos na extinta Escola Profissional de Menores a retirarem os seus filhos ali internados em razão de aquela instituição passar a ser destinada apenas aos menores em situação de abandono e que houvessem praticado delitos. Esta ação traduzia-se em mais uma tentativa de definição da política de assistência institucional, haja vista que durante a sua existência a EPM mesclou o público atendido de modo a atender não apenas aos abandonados e delinquentes, mas, principalmente, aos carentes, categoria que superlotava as suas instalações.

A compreensão do Juiz, conhecido como “E. J. Carneiro”, era de que a transformação institucional lavrada em decreto buscava “enquadrar o atendimento a legislação de menores quanto a sua finalidade” e, assim, definir o seu público. Em entrevista publicada no jornal A Tarde, o magistrado enfaticamente afirmou que o IPR era destinado a abandonados e delinquentes: “os menores que nessa dolorosa situação se não encontrarem, não podem lá continuar”. Ainda assim, a alternativa viável negociada entre o Juízo de Menores e a Secretaria de Interior e Justiça constituiu-se num acordo de manutenção do internamento daqueles menores que se não pudessem retirar por motivo de pobreza até que se construísse um “Patronato” para onde pudessem ser encaminhados. De acordo com E. J. Carneiro, os menores que permanecessem no Instituto sob essa condição sofreriam a perda do pátrio poder, estando assim sob tutela do Estado.

Avaliando a situação da assistência aos menores prestada na Bahia, o Curador de Menores Dantas Júnior apresentou, em 1939, após a vigência da Lei nº 10.715 de 1938, um relatório destinado à Procuradoria Geral do Estado no qual descreve os tipos penais que integram os processos da Curadoria.

Quadro 9 – Processos em andamento na curadoria de menores

TIPO QUANTIDADE DE PROCESSOS

Furtos 16 Lesão Corporal 13 Defloramento 01 Homicídio 01 Processo de Abandono 54 TOTAL 85 Fonte: Carneiro (1939, p. 2).

Observa-se que o abandono continuava a figurar o maior volume entre os tipos de processo que se constituíam na Curadoria de Menores. Ainda que houvesse os critérios de internação, todos os menores envolvidos nos processos ilustrados no Quadro 9 foram prontamente encaminhados ao IPR, haja vista que não havia instituições mais adequadas para o internamento.

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