5 INSTITUTO FEDERAL NO ASSENTAMENTO JOSÉ MARIA: UMA
5.3 A DISPUTA PELO PROJETO EDUCATIVO NO/DO CAMPO
Não é só nas ações de rua, que apresentam mais visibilidade e mais volumes de ações práticas, que se dão as disputas no campo da Educação. E todo o conjunto de disputa se soma uma à outra e gera um arcabouço no campo das contradições.
Dessa forma, as políticas públicas fazem parte deste campo.
Nesse movimento de contrassensos conquistaram-se as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, ainda em 2001. No seu Artigo 6º, o documento é bem claro quando diz que
O Poder Público, no cumprimento de suas responsabilidades com o atendimento escolar e à luz da diretriz legal do regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, proporcionará Educação Infantil e Ensino Fundamental nas comunidades rurais, inclusive para aqueles que não concluíram na idade prevista, cabendo em espacial aos Estados garantir as condições necessárias para o acesso ao Ensino Médio e à Educação Profissional de Nível Técnico. (BRASIL, 2002, p. 1).
Este campo de visão da época ainda pleiteava nas suas reivindicações a Educação Básica, enfatizando a responsabilidade do poder público com a sua realização. Já era um grande avanço no campo das políticas públicas, da garantia de diretrizes que proporcionavam condições legais para fazer com que as pressões sobre os governos pudessem angariar em efeitos práticos nas comunidades rurais.
Essa mesma diretriz, no seu art. 3º, diz que “considerando a magnitude da importância da educação escolar para o desenvolvimento de um país cujo paradigma tenha como referência a justiça social, a solidariedade entre todos [...]” (BRASIL, 2002, p. 1), assim, deverá garantir a universalização do acesso da população do campo à Educação.
Ora, relacionando este artigo com o que se passou e se passa nas escolas dos assentamentos e com o IFC no Assentamento José Maria, a lei está muito distante do que nela está enfatizado. Ironizando a situação, os governos pensam muito fora da realidade que não conseguem a realização do que estabelecem, ou cedem às pressões quando não conseguem mais barrar e depois agem para ir barrando aos poucos aquilo que disseram ser possível anteriormente.
Como podemos perceber no art. 3º, “considerando a magnitude da importância da educação escolar para o desenvolvimento de um país” (BRASIL, 2002, p. 1), mas que no decorrer do tempo, inclusive com seus órgãos de controle, busca
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impedir a educação escolar que em tese, disse que era de suma importância para o desenvolvimento de um país. A exemplo desses momentos impeditivos com a ação do Ministério Público, sugerindo a transferência do IFC para a área urbana se os governos não fizessem melhorias na infraestrutura, negando, assim, a possibilidade de acesso e permanência dos povos do campo à Educação.
Estas diretrizes garantem as lutas dos povos do campo por Educação do Campo. Silva (2011) reforça que tendo a lei sancionada, isto não significa que a conquista está garantida, ao contrário, é preciso seguir em luta permanente.
O fato de existir a lei para uma determinada situação problemática, não quer dizer que esta situação será regularizada, a lei por si só não garante muita mudança. No entanto é preciso lutar para fazer valer os direitos previstos nela, por meio de organizações conscientes e constantes batalhas. Nesse sentido também se encontram as Diretrizes, para garantir a concretização dos direitos, deve-se continuar com a persistência semelhante às dos Movimentos, pois a luta pela escola do campo não se resume em apenas uma conquista, mas sim em conquistas diárias. (SILVA, 2011, p. 19-20).
É o que mostra a realidade de Abelardo Luz com o campus do IFC, mas não só por esta experiência, todas as conquistas obtidas pelos trabalhadores seguem a mesma toada, é luta diária para a garantia dos direitos conquistados.
A LDB, Lei 9394/96, no seu artigo 28, mostra claramente questões relacionadas à Escola no/do Campo, quando diz que:
Art. 28. Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II – organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III – adequação à natureza do trabalho na zona rural. Parágrafo único. O fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas será precedido de manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, que considerará a justificativa apresentada pela Secretaria de Educação, a análise do diagnóstico do impacto da ação e a manifestação da comunidade escolar. (BRASIL, 1996).
Um grupo significativo de profissionais que trabalham nas Escolas do Campo ainda está muito aquém de uma formação que lhes garanta conhecimentos sobre a legislação brasileira, que lhes garanta seus processos pedagógicos e as adaptações necessárias e possíveis nas mais diferentes realidades camponesas. O frio intenso da região sul na estação do inverno pode ser uma questão de adequação do calendário escolar, mas praticamente não se faz. A valorização dos profissionais das
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Escolas do Campo poderia ser uma pauta nos municípios e nos estados, mas tudo é comum em todos os espaços. As especificidades de cada local passam sem ser percebidas, principalmente nos municípios onde as direções são indicações que atendem projetos políticos específicos de um candidato eleito para prefeituras, que não raras vezes não teve uma história assídua na escola.
O artigo 28, acima citado, deixa uma fenda aberta para que as questões ali abordadas não aconteçam por falta de formação e luta constante por sua efetivação por parte da comunidade, muito próxima ao que propõe a atual BNCC (2017), que trata das questões comuns a todas as escolas do país, com sessenta por cento da base comum e quarenta por cento específica a cada realidade. Embora cada escola possa contemplar de acordo com suas especificidades, as avaliações nacionais não envolvem as questões especificas de cada realidade.
O movimento da Educação do Campo sempre guiou-se por um caminho muito claro, com princípios que orientam a caminhada pedagógica e de construção de processos coletivos, opostos ao corriqueiro do que se tem do pensamento neoliberal em Educação. A partir de 1998, quando as organizações começam a discutir Educação do Campo, em contraponto à Educação Rural, toda esta caminhada pedagógica que posteriormente passa a ser disputada, inclusive a formação de professores, se pauta por princípios identitários muito claros, registrados no Caderno nº 4 da Coleção da Articulação Nacional Por uma Educação do Campo (KOLLING;
CERIOLI; CALDART, 2002).
1- A Educação do Campo identifica uma luta pelo direito de todos à educação.
2- Os sujeitos da Educação do Campo são os sujeitos do campo. 3- A Educação do Campo se faz vinculada às lutas sociais do Campo. 4- A educação do campo se faz no diálogo entre seus diferentes sujeitos. 5- A Educação do Campo identifica a construção de um projeto educativo. 6- As educadoras e os educadores são sujeitos da Educação do Campo.
(KOLLING; CERIOLI; CALDART, 2002, p. 26-35).
Pelo exposto em todo o trabalho, obviamente identificam-se os protagonistas da Educação do Campo. Evidencia-se também porque é mais um campo de lutas, de defesa de projeto dos camponeses e camponesas. Não resta dúvidas também de que não é somente a escola estar no campo para ser uma Escola de Educação do Campo.
Ela precisa dialogar com esta realidade profundamente, organizada com estas comunidades e construindo seus processos coletivos como referencio a seguir:
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Nesta discussão da Educação do Campo, necessariamente estuda-se e compreende-se por que essas pessoas vivem nesse lugar, por que acampam? Por que moram em barracos de lona? Por que ocupam a terra?
Por que existem milhões de pessoas sem a terra e poucas que se dizem donas de imensidão de terras? Esses questionamentos são só alguns pontos a serem abordados quando se trata de Educação do Campo. (CAMARGO;
FRABRIS; VEIGA, 2019, p. 152).
Eis que o que se disputa necessariamente é um projeto de Educação, um pensamento de sociedade, por isso é tão perigoso para o sistema capitalista que os trabalhadores, que sempre serviram a este sistema para sua perpetuação, agora passem a questionar aquele que outrora, pela precária condição de conhecimento, não conseguiam questionar; e mais que questionar, agora propõem outros caminhos, com força, modificando as estruturas.
A força hegemônica da sociedade sempre soube dessa correlação de forças e das disputas por projetos, por pensamentos e ações na sociedade, mas jamais admitiu perder sequer qualquer privilégio, mais uma vez se vê pressionada a ceder frações, o que lhes deixa em alerta de como combater estas frações de organizações que se mobilizam em lutas.
Ter a universidade no Campo é uma afronta aos que sempre defenderam a ignorância do povo como uma condição para a sua submissão. Isto dá mostras de porque o IFC Campus Abelardo Luz é tão promissor em relação às forças atuando para a sua aniquilação. Estas forças atuam desde sempre e, atualmente, com vantagens para si, até que se retome a ascensão das lutas dos trabalhadores por seus direitos.
Para Batista (2014) a Educação do Campo tem claro os seus caminhos, seus princípios, o que remete a um processo de construção a partir dos seus sujeitos que pensam esta realidade, portanto, mais uma vez, estes princípios caminham na contramão do que é hegemônico em Educação. A autora,
Dentre os princípios teóricos e metodológicos da educação do campo que devem orientar as ações das escolas do campo destacam-se: a formação humana em todas as suas dimensões como primazia do ato educativo; o compromisso com um projeto de sociedade, de campo e de agricultura familiar; promover uma leitura crítica e engajada da realidade social que contribua para a organização dos setores oprimidos e aponte para a transformação da realidade; valorização da terra como instrumento de vida, de cultura, de produção. (BATISTA, 2014, p. 3).
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Percebe-se que a disputa por projeto educativo no Campo é uma luta de classes, uma vez que um projeto pensado pelos camponeses busca atender das suas necessidades locais, do entorno, até os grandes processos existentes na sociedade, de conhecer esta realidade e conhecendo-a, buscando intervir para mudanças que possam ser significativas na vida das pessoas, conforme seus projetos coletivos produzidos desde a realidade das famílias. Estas disputas por projetos educativos perpassam a realidade dos assentamentos, desde a escola de Educação Infantil até a universidade, como muito vivenciamos na realidade em que analisamos e pesquisamos para esta elaboração.
As constatações da pesquisa evidenciam a participação da comunidade no processo de construção do campus no assentamento. Tanto foi assim que a professora Camila Munarini (2020) faz essa referência quando ela diz que:
Sempre quando é chamada a participar do Instituto Federal, diferentemente às vezes dos outros Institutos, que às vezes têm dificuldades com a participação da comunidade, aqui não se tem, né. Então mais ou menos assim na trajetória, foram feitas várias reuniões, várias lutas, várias reivindicações. (Informação verbal)60.
Nesta sequência de análise observa-se que o próprio IFC nos seus documentos se projeta como uma Instituição de viés progressista, principalmente considerando a conjuntura social e política brasileira, considerada como um tempo de retrocessos das conquistas do povo, assim, o seu Estatuto no:
Art. 3º O IFC observa os seguintes princípios norteadores: I – compromisso com a justiça social, a equidade, a cidadania, a ética, o meio ambiente, a transparência e a gestão democrática; Art. 4º O IFC elenca as finalidades: [...]
IV – orientar sua oferta formativa em benefício da consolidação e do fortalecimento dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados com base no mapeamento das potencialidades de desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito de atuação do IFC. (INSTITUTO FEDERAL CATARINENSE, 2018, p. 08).
Diante dos estudos e análises realizadas, percebemos que este campo de disputas continua a ser movimentado. De um lado, os trabalhadores buscando garantir suas conquistas e um projeto de vida vinculado ao direito à Educação e, de outro, a classe burguesa, que há séculos busca manter a estrutura social, o acesso ao
60 MUNARINI. Entrevista. Abelardo Luz, 2020. Informação verbal – Entrevista.
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conhecimento, segundo seu jeito de pensar e, com isso, manter seus privilégios. Isso é perceptível no âmbito local, nacional ou global.
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