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A ditadura da solidariedade

Capítulo IV – A Morte. Final do Caminho?

6. A ditadura da solidariedade

entre nações significa assumir o risco de que esta pode acabar com o próprio sistema. Quem pode garantir que a energia contida do terceiro mundo, muito mais povoado que o primeiro, não explodirá um dia, libertando uma violência que desestabilizará o que recentemente se denominou a “ordem mundial”? Quem não pensou já na revanche das culturas excluídas?

expatriados, deslocados, emigrados, deportados, exilados, refugiados, desapareceriam logo que a sua própria terra lhes oferecesse sustento e liberdade para desenvolverem uma vida digna.

Quem duvidaria, então, da possibilidade certa de uma cidadania mundial? Direitos e deveres seriam, por suposição, universais, os direi‑

tos humanos e os direitos do planeta terra, compartilhados com o reino animal e o reino vegetal. O respeito pelo outro, pela sua cultura e sua lín‑

gua, pelas suas crenças religiosas, não seria também incompatível com uma globalização da economia cujo centro fosse o homem. Marx falava de uma ditadura do proletariado como fase inicial para a consecução da sociedade comunista. Agora teria que pensar‑se numa ditadura da solidaridade, da generosidade e dos fundos de compensação que inicial‑

mente seria necessário habilitar para a consecução da sociedade humana universal. Não nego que a direção desta globalização não segue as orien‑

tações da atual, mas não é irrealizável. Hoje sonhamos o que amanhã pode acontecer. Existe uma segunda via, uma alternativa quanto aos meios mas coincidente no que respeita aos fins, que se constroí apelando a uma ética negativa. Para falar dela terá que se ir alternando duas for‑

mas verbais: o infinitivo e o imperativo.

Lembremos que a globalização é uma nave cuja direção se perdeu e quanto mais navega mais se distancia de seu porto final e seguro. Con‑

sertar o rumo da globalização supõe apelar a qualquer das propostas éticas que mostrem as consequências fatais que o homem enfrentará se persistir nas suas ações. José Antonio Zamora, professor e coordenador de Fórum “Ignacio Elacuría”, sintetiza algumas destas propostas no seu intento de responder ao questionamento de como enfrentar a morali‑

dade, a justiça e a solidaridade à escala mundial.

1) Apelar ao egoísmo razoavel. Pelo próprio interesse, a única resposta adequada para as ameaças globais que pairam sobre nós é a soli‑

daridade universal. Mesmo sem questionar a sua efetividade, o valor moral desta proposta é mais do que duvidoso.

2) Apelar ao temor responsável. Hans Jonas, num livro clássico do ano de 1979, “O princípio da responsabilidade – Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, faz‑nos reparar nas novas dimensões da ação humana e na necessidade de reformular o imperativo categórico de Kant, obsoleto diante das novas modalidades da ação humana:

“«Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanencia de uma vida humana autêntica na Terra»; ou expressada negativamente: «Age de tal modo que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a futura possibilidade dessa vida»”45. O princípio de responsabilidade proposto por H. Jonas é decretado por uma heu‑

rística do medo e do respeito, diante dos perigos para a vida do homem e do seu meio que se presumem oriundos da civilização tecnológica. É sempre considerada de maneira realista a reflexão de Hans Jonas, mas é bastante dececionante a forma de ter que apelar ao medo para reconduzir os destinos do homem.

3) Apelar à justiça, isto é, situar‑se no plano de exigibilidade e não do voluntariado ou aconselhamento. A missão, de acordo com esta nova orientação, varia notavelmente «Age de tal modo que todos os afetados pela tua ação estejam dispostos a assumir as consequências da mesma, depois de um diálogo celebrado em condições de simetria».

4) Apelar à solidariedade compassiva. O clamor dos que sofrem comove o coração dos acomodados. As suas consciências levam‑nos a atuar solidariamente para deter o mal. A máxima aplicável a esta proposta ética tem muito a ver com a história da nossa reflexão fronteiriça:

“Só é universalizavel uma ação quando beneficia o que está pior situado e mostra, deste modo, a sua força potencial para ampliar o ‘nós’ e romper as fron-teiras”46. O sofrimento é, por assim dizer, o detonador que leva ao com‑

45 JonaS, H.: Das Prinzip Verantwortung, p. 36.

46 Cf. ZaMora, J. A.: “Globalización y cooperación al desarrollo: desafíos éticos”, em GE, pp. 208‑217.

portamento moral sem que haja uma mediação na reflexão prévia sobre os fundamentos do bem ou da vida saudável. Trata‑se de uma moral para casos desesperados e urgentes, o que me faz recordar o cigarro e o fósforo que numa ocasião contemplei guardados numa cápsula de vidro na que se podía ler: “Only in emergency case”.

Haverá um caminho intermediário, uma terceira via para a moral que reconduza o individualismo exacerbado dos novos tempos? Charles Taylor tem um ensaio no seu livro Ética da Autenticidade, que reconstrói os sintomas que explicam o mal estar da modernidade, apelando depois à autenticidade, tanto no plano individual como no comunitário, com a necessária contrapartida ética. Os traços da nossa cultura experimen‑

tados no declínio ou prejuízo são citados por Taylor em três aspectos fundamentais: o individualismo, o desencantamento do mundo e os desencantamentos que surgem no plano da política47.

O individualismo, que numa aceção positiva pode ser visto como a conquista mais admirável da civilização moderna, um direito defendido pelos nossos sistemas legais, supõe também a perda da dimensão heróica da vida. Não existe nenhum fim elevado pelo qual valha a pena morrer.

Este individualismo coincidiria com a radicalização da intimidade, descrita por Hannah Arendt, como uma das descobertas do homem moderno. “A descoberta moderna da intimidade – escreve esta autora – apa-rece como uma evasão do mundo exterior, um refúgio encontrado na subjeti-vidade do individuo protegido noutro tempo, abrigado no dominio público”48. Claro que na sua descrição da condição do homem moderno o plano do íntimo ocorria simultaneamente com o plano do público e do social.

Agora, dada a mudança, o lado obscuro do individualismo parece centrar‑se no eu, aplainando e estreitando a vida do homem, empobre‑

cida no sentido de perder todo interesse pelos demais e pela sociedade.

47 Cf. taYlor Ch.: The Ethics of Authenticity, Harvard University Press, Cambridge 1991, p. 2 ss.

48 arendt, H.: Condition de l’homme moderne, Calmman‑Lévy, 1991 (reimpr.), p. 111.

Em que medida as condições impostas pela globalização puderam con‑

tribuir para este facto? Atingidos pela fragmentação e segmentação que o globalismo criou, unindo‑se a solidão dos indivíduos face ao transna‑

cional, pode ter‑se acelerado o atual individualismo. Embora não seja certo que esta é a saída mais cómoda, despreocupada e amoral, em com‑

paração com as respostas possíveis a estes mesmos fenómenos deriva‑

dos dos novos tempos.

Assim, ao lado da permissividade social, do narcisismo e da chamada geração do “Eu”, têm aparecido fenómenos como a potencialização da iniciativa cívica frente ao Estado, a solidariedade e a recuperação da identidade comunitária, respostas de maior compromisso ético que dig‑

nificam o homem.

O referido individualismo está em íntima conexão com o desencan‑

tamento do mundo. Num mundo no qual prima a razão instrumental, o cálculo mais económico dos meios para alcançar um fim desejado, a eficácia máxima converte‑se no objetivo principal das nossas ações, com independência do valor moral e das conseqüências das mesmas para os demais e para o ambiente. Formas do crescimento económico, tais como as inerentes a uma globalização alheia ao homem, encontram uma legiti‑

mação perfeita neste predomínio da razão instrumental. O esquecimento da questão do “porquê” da tecnologia frente ao “como”, a insensibili‑

dade diante das necessidades e o cuidado do meio ambiente, o caráter efémero da produção, são também derivações duma razão instrumental que coloca em segundo plano os valores humanos.

Por último, tal como já tinha acontecido na cultura helenística, o homem perde interesse pela política. Refugiamo‑nos na nossa vida pri‑

vada renunciando a participar na politiquice. O cidadão encontra‑se sozinho diante de um Estado burocrático que considera distante e o seu interesse participativo na construção social diminui. Uma inércia que se vê agravada pela distância das instâncias políticas. Comprovamos a perfeição na diminuição dos índices de participação produzidos nas reuniões do Parlamento Europeu. A progressão seria geométrica se tivés‑

semos que decidir sobre o funcionamento de entidades transnacionais para as quais aponta a nova economia.

Face ao mal estar da cultura moderna, solidificado nos três aspetos mencionados, Taylor propõe a autenticidade como ideal moral. A mora‑

lidade possui uma voz interior, cujos antecedentes filosóficos remetem a Santo Agostinho ou Descartes, entre outros, que agora procuramos recu‑

perar para sermos fiéis a nós mesmos. “Ser fiel a si próprio – escreve Taylor – significa ser fiel à propia originalidade, e isso é qualquer coisa que só eu posso enunciar ou descobrir” (Taylor, p. 29).

Mas às vezes esta autenticidade não desemboca no solipsismo ou no individualismo porque o traço geral da vida humana, que este autor evoca como realização da pessoa, é o do seu caráter fundamentalmente dialógico que nos conduz ao outro. “A nossa identidade é sempre definida em diálogo, e às vezes em luta, com as identidades que querem reconhecer em nós os nossos outros significativos “(taYlor, p. 33). A identidade levaria espontânea e naturalmente ao reconhecimento do outro. Além deste reconhecimento que se estabelece no plano individual, Taylor fala de um reconhecimento social, cujo princípio crucial é o da justiça, da igualdade de oportunidades e do reconhecimento universal da diferença. Este res‑

peito pela diferença, pela diversidade cultural é o eixo da cultura con‑

temporânea da autenticidade, diante das formas egocêntricas e niilistas (Derrida, Foucault) que são geradas pela atual sociedade tecnocrática e burocrática.

A autenticidade teria, portanto, em dobro, a qualidade de ser fiel a si mesmo no que respeita à totalidade que nos serve de ponto de referên‑

cia. O problema é que vivemos numa sociedade fragmentada em que os seus membros não partilham um sentido comunitário. Diante deste problema, que sintetiza em boa medida as dificuldades de encontrar o sentido do homem atual, Taylor propõe uma solução coincidente com o espírito das respostas éticas apresentadas mais em cima: “inverter o rumo da deriva gerada pelo mercado e pelo Estado burocrático”. Curiosamente, também para este autor canadiano, a sociedade na era da globalização

assemelha‑se a essa nave cuja direção foi alterada e quanto mais navega mais se distancia de seu ponto de destino.