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3. Do infanticídio aos caminhos da identidade 93 

3.2. A diversidade e o relativismo cultural 95 

A discussão sobre o posicionamento absolutista da diversidade cultural e o próprio relativismo cultural reside na ideia de que os assuntos morais enraízam-se na cultura e, assim, não há possibilidade de avaliação intercultural, não existindo “padrões de medidas comuns” (ROUANET, 1990, p. 126) às culturas avaliadora e avaliada.

Essa tese é fundamental para o relativismo inspirado em Boas. Cada cultura é uma configuração única, resultante da confluência de dois fatores – a difusão, pela qual certos traços culturais se disseminam de um ponto para outro, e a seletividade, pela qual a cultura integra essas contribuições à luz de sua estrutura dominante de valores, rejeitando alguns elementos, acolhendo e re-elaborando outros. (ROUANET, 1990, p. 126)

Tudo isto dentro de um posicionamento absolutista de que as culturas, assim configuradas, não são sujeitas às transformações que poderiam advir da

reelaboração de seus valores. Por esta razão, os dois fatores – a difusão e a seletividade – operariam

[...] em grande parte aleatória, imprevisível, e portanto só por mero acaso uma cultura se parecerá com outra. Cada uma é um universo à parte [...]. (ROUANET, 1990, p. 126)

Mesmos para os funcionalistas, a intervenção externa poderia perturbar o equilíbrio da cultura que se observa. Assim, a tolerância e a coexistência distante e separada se imporiam.

É muito difícil trabalhar com estes conceitos e estruturar a análise nestas ou em outras correntes. Como se observou anteriormente, os significados mudam e nem sempre as variações culturais acompanharam os padrões que procuravam estabelecer que culturas distantes deveriam permanecer em universos impenetráveis ou que culturas originadas da mesma fonte deveriam manter todos os simbolismos e representações fundadoras.

Nesta linha de raciocínio, as religiões monoteístas poderiam produzir este efeito de homogeneização e manutenção da integridade das cosmovisões delas decorrentes. Mas, não é isso que acontece, as refrações são inevitáveis.

A configuração cultural do Islã é um bom exemplo para demonstrar quanto as refrações são inevitáveis, e a comparação de Geertz (2004) entre o Islã na Indonésia e Marrocos, sociedades que foram islamizadas, é apropriada para esta reflexão. Procurou o autor discutir a mudança religiosa nestes dois países,

um país tropical asiático um tanto supercivilizado e rarefeito, salpicado de cultura holandesa; e outro, mediterrâneo, tenso, árido, puritano e com um verniz francês. (2004, p. 18)

Do Marrocos, a análise mostra a origem mulçumana a partir do contato militar. Assim:

[...] penetraram na Espanha muçulmana, absorveram sua cultura e, reformulando-a de acordo com seu próprio ethos mais ativo, reproduziram uma versão simplificada dela do seu lado de Gibraltar. (GEERTZ, 2004, p. 19)

No Marrocos, o islã é o da “adoração aos santos e da severidade moral, do poder mágico e da devoção agressiva (GEERTZ, 2004, p. 24)”.

Na Indonésia, por sua vez, “o islã não construiu uma civilização, ele se apropriou dela” (GEERTZ, 2004, p. 25). Neste país o islamismo é maleável, experimental e sincrético (GEERTZ, 2004, p. 25).

São formas diferentes de um mesmo fenômeno de contato intercultural ou interferência do simbólico nas culturas, o que desafia tanto a ideia do relativismo como a do utilitarismo e não intervenção.

Os valores colocados em jogo, muitas vezes, produzem configurações culturais não imaginadas. Os atores entram neste jogo sem saber bem, muitas vezes, seus objetivos. Essa rigidez das culturas, aliás, é em muito questionável quando se observam situações sincréticas. Assim, o exemplo da Índia muçulmana é pertinente.

A Índia é um país imenso e populoso, onde florescem e coexistem, nem sempre pacificamente, diversas religiões, como o hinduísmo e o próprio Islã. Numa cidade em desenvolvimento da Índia, Hyderabad, é possível observar pessoas com vestimentas diversas, que evidenciavam sua fé, tanto mulçumanos com hinduístas, entre outros, além da diferença clara das diversas castas.

Contudo, ver essas pessoas nas ruas, aeroportos e lojas é diferente de vê-las, juntas – nem sempre numa convivência pacífica – numa grande empresa indiana que tem de se abrir para o mundo dos negócios globalizados. Lá, de alguma forma, mesclam-se, ganham ares uniformes, fruto da ação comum na empresa, guardando respeitosa distância. Esta distância, inclusive, não pode ser quebrada pelo desavisado visitante. Nesta mesma empresa observam-se alguns sinais religiosos, imagens diversas, como elefantes, que é um deus indiano, outros totens e, o que mais chama atenção, uma Madona, que o anfitrião usa para aproximar uma possível fé católica ocidental ao mundo simbólico que lá aparecia – era uma ponte para construir nexos nos horizontes.

É impossível compreender rapidamente a configuração simbólica que lá se produziu. Só se sabe que algo fez com que valores e significados se rearranjassem e buscassem nova conformação. Se ao mesmo tempo existia uma diversidade, a fronteira dela era tão tênue, que se tornava imperceptível.

[...] as culturas, como ‘formas de vida’, apenas construções arbitrárias é condená-las de fato à arbitrariedade do sentido, à imobilidade histórica e à impossibilidade de comunicação simbólica. (GASBARRO, 2006, pp. 101-102)

É temeroso entender que os valores de determinada cultura são inerentes somente a toda coletividade e não ao indivíduo que faz suas escolhas.

Existem esferas do pensamento em que seja impossível conceber uma verdade absoluta independente dos valores e da posição do sujeito, e sem relações com o contexto social. [...], pois o que é inteligível na história somete pode ser formulado com referência a problemas e construções conceptuais que emergem no fluxo da experiência histórica. (MANNHEIM, 1976, p. 105)

É o indivíduo que, na sua história de vida, no fluxo social, busca construir suas concepções sempre repensando e reformulando, se necessário, seus valores.