1. Do acontecimento ao discurso 20
1.5. Outros atores 53
Outros atores estão presentes no drama do pertencimento e não estão diretamente situados na Chácara Atini. Eles também são importantes para a apropriada interpretação das reflexões. Eles também produzem seus discursos. A diversidade cultural como personagem
A diversidade cultural também é um personagem presente neste drama. Provavelmente, não a diversidade cultural como delineada por seus teóricos, mas com uma visão absolutista e radical. Ela está em todas as vozes que reflexionam os fatos relacionados ao infanticídio, surgindo aqui com a FUNAI, ali com os antropólogos e em outro momento com missionários católicos. Ela está ideologicamente sempre presente para dizer, desse modo, que a cultura há de ser respeitada e preservada com todas as forças, independentemente e a despeito de qualquer outro valor.
Não é a diversidade cultural tal como colocada pelo Deputado citado no filme (HAKANI, 2008), que muito a deturpou, mas é a diversidade cultural que diz aos brancos que o infanticídio não deve ser combatido, pois é intrínseco à cultura daquele povo, logo, a morte, assim, deve ser respeitada e não é passível de punição ou combate.
Esse personagem está presente na própria chácara, quando antropólogos da FUNAI procuraram a Muwadi, única indígena da tribo Suruwahá longe de seu povo, tentando persuadi-la a voltar para sua tribo, como foi narrado.
Esse personagem está presente no trabalho de Vaz (2008) com o título de: Missão. O veneno lento e letal dos Suruwahá.
O trabalho de Vaz traz uma compilação de diversos documentos e processos existentes na FUNAI referentes aos Suruwahá, com o intuito de agregar informações que possibilitassem conceber “um quadro da real contribuição das missões junto à etnia em questão (VAZ, 2008, p. 4)”. Apesar deste objetivo declarado, destaca, em nota de rodapé, o principal objetivo: “tem como perspectiva a preservação física e cultural dos Suruwahá (VAZ, 2008, p. 4, grifos nossos).
No trabalho citado, o personagem diversidade cultural está nesta manifestação do Ministério da Educação:
Os índios, como cidadãos, têm o direito a receber uma educação de qualidade ofertada pelo poder público: eles não devem ser forçados ou seduzidos a aderirem uma nova religião e a abandonarem práticas tradicionais e seculares para terem acesso a programas de alfabetização e letramento. Protege-se nesse sentido, as manifestações culturais das sociedades indígenas, reconhecendo aos índios o direito de permanecerem índios, e rompendo com uma longa tradição jurídica que sempre procurou assimilar os índios, fazendo com que abandonassem suas línguas e práticas culturais (VAZ, 2008). Citando trechos do processo 08620-0000022/2003, da FUNAI, destaca o autor, na intenção de combater a ação dos missionários na tribo Suruwahá,:
Neste sentido, o etnocentrismo, o preconceito, a imposição de outros valores culturais, e sobretudo, o proselitismo religioso, não só, são extremamente prejudiciais como também exercem ação desintegradora no universo mítico e simbólico do grupo indígena objeto de nefasta ação, acima referida (VAZ, 2008).
Em outro trecho, fala sobre a cosmologia religiosa e cita novamente um texto extraído do mesmo processo:
A preservação da autonomia religiosa e cultural do povo Suruwahá confronta-se agora com uma proposta missionária de tipo fundamentalista. Consciente da importância do universo mitológico e simbólico para a sobrevivência dos Suruwahá, visando a garantia da sua identidade histórica, protestamos energicamente contra a interferência catequizadora realizada pelos missionários da Jocum (VAZ, 2008, p. 40).
A diversidade cultural se apresenta:
A análise documental e os depoimentos dos missionários apontam para uma interferência pragmática e criminosa junto aos Suruwahá. Os dados oferecidos pela própria JOCUM e instituições correlatas, amigas de confissão, demonstram de forma cabal, que os missionários são doutrinados para, forjados com roupas de educadores, agentes de saúde e pesquisadores, imporem o pensamento cristão. Trocam favores por conversões. Impedem que os Suruwahá exerçam seus direitos de determinarem e darem continuidade a sua cultura milenar. Preterem-nos de transformações autônomas e desrespeitam a diversidade ao imporem as idéias cristã e ocidental (VAZ, 2008, p. 47)
Holanda (2008), em sua tese na Universidade de Brasília, fala exatamente sobre o infanticídio indígena e cita especificamente o caso dos índios Suruwahá, a Hakani e os missionários, personagens já citados. A despeito de outros comentários que, de sua argumentação, podem ser trazidos a esta pesquisa, suas assertivas contribuem para mostrar uma outra faceta deste personagem denominado diversidade cultural.
Aborda a citada autora que, muitas vezes, o infanticídio é uma estratégia reprodutiva, tal como a prevenção e o aborto, destacando o caso da tribo Kadiwéu, entre outras, que limitava a população considerando que um filho era um número ideal, assim, estabeleciam que não se devia procriar antes dos 30 anos e, se algo acontecesse, matava-se o filho nascido (HOLANDA, 2008, pp. 48-49). Diz:
Estamos falando de estratégias reprodutivas que dizem respeito ao processo de fabricação humana, negando e afirmando parentes. Estas estratégias incorrem tanto no conhecimento e utilização de ervas para evitar ou facilitar a
concepção, como nos abortos e interditos de vida. Além disso, a evitação 11, ou a negação ou a foraclusão 12 de filhos está relacionada a uma gama de circunstâncias relacionadas à cosmologia e à fabricação da humanidade (HOLANDA, 2008, p. 63, grifos nossos)
Considerando como cultura e cosmovisão, sem citar ou abordar o conceito de diversidade, a referida autora se contrapõe à criminalização do infanticídio, compreendendo que o tema só se equacionaria quando se reconhecesse o direito à livre determinação dos povos indígenas (HOLANDA, 2008, p. 143), como para a autora se apresenta a diversidade cultural. Assim
os direitos humanos universais só podem se exercer quando se reconhece o direito das comunidades a decidir, a partir de sua sócio-lógicas, seus modos de viver e de projetar seu futuro. Somente isso é livre determinação. Ela pressupõe que os Povos indígenas podem negociar suas formas de relação com a sociedade envolvente, o que implica que podem inclusive negá-la – como fazem os diversos povos isolados no Brasil. Portanto, estas relações podem, e vão, variar. (HOLANDA, 2008, p. 143, grifos nossos)
Como apresentadas, sem a devida reflexão, estas assertivas despertariam o agudo comentarista que é exatamente isto que se poderia defender, o poder da autodeterminação. Contudo, para que isto acontecesse, os povos isolados deveriam não estar isolados, para que os seus simbolismos pudessem ser confrontados com tantos outros. Mas a autora diz que “o discurso político-jurídico do ocidente cristão” (HOLANDA, 2008, p. 3) impede a livre autodeterminação, logo, se poderia concluir que se trata da diversidade cultural levada ao seu absolutismo.
Os aviões da Asas do Socorro
É importante destacar, por fim, outro ator neste drama, que embora não tenha sido citado por nenhum dos outros atores, participou indiretamente dos fatos descritos e sua prática de ação ajuda a compreender o simbólico presente em todas as representações e práticas evocadas.
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Redação original
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Trata-se da Missão Asas do Socorro, entidade que com aviões provê infraestrutura logística aérea para o deslocamento de missionários e suprimentos entre povos avançados do Brasil. É uma entidade evangélica internacional fundada por pessoas que utilizavam aviões para atingir tribos isoladas na América do Norte.
Conta em entrevista o presidente desta organização no Brasil que eles já se envolveram em diversas situações de salvamento de doentes indígenas e diretamente ajudaram os missionários da JOCUM a trazer para São Paulo uma mãe Suruwahá com sua filha, o que teria ocasionado uma grande confusão jurídico-institucional, a mesma mencionada.
Em outro caso, de uma tribo cujo nome por ele não foi revelado, aconteceu situação similar. Apesar de não ser objetivo e estratégia de ação intervir na cultura, contrariando esta prática, optaram por trazer um índio doente, em estado terminal, para tratamento numa cidade grande. A ação provocou uma revolta entre os membros da tribo, que não aceitavam tal intromissão, pois entendiam que o indígena deveria ficar e ser tratado por seus pajés ou que a morte era inevitável e lá o indígena deveria ser enterrado. Na saída do avião, houve tumulto e ameaças, com os indígenas com facas e até um tiro teria sido dado. O indígena transladado morreu num hospital da cidade grande e a Missão Asas do Socorro optou por trazer de volta o corpo para sua tribo, para a devida cerimonia fúnebre. Narra que apesar de toda a tensão do retorno nenhum incidente teria acontecido e o indígena foi enterrado conforme os costumes ou cultura daquele povo.