Muitas propostas foram feitas para a seção e divisão da narrativa da Samaritana, embora possa ser seguro dizer que a maioria dos atuais estudiosos joaninos atribui unidade literária dos capítulos 2, 3 e 4. Nenhuma proposta para sua estrutura particular recebeu a honra de manter o consenso. Kierspel (2008, p. 526) afirma que essa falta de acordo vai de mãos dadas com uma lacuna na discussão aprofundada das propostas existentes.
No entanto, Moloney36 fez uma interessante proposta do texto, examinando primeiramente por uma investigação crítica da leitura sequencial, seguida por uma estrutura Quiástica sugerida por ele, que
36 A proposta de Moloney é criteriosamente analizada in: LARS KIERSPEL; Religion: reading john 2-4 as a chiasm. Source: Biblica, Vol. 89, No. 4 (2008), pp. 526 - 554 Published by: Peeters Publishers. Stable URL: http://www.jstor.org/stable/42614861.
(MOLONEY, 2008, apud KIERSPEL1978, p. 526).
A proposta de Moloney para João 2- 4 é a de um ciclo de Caná-a-Caná em João 2- 4. Ele também identifica o fio de união dos textos como “abertura radical à palavra de Jesus como critério de fé verdadeira” como o autor leva “ao leitor através de uma série de exemplos de fé”. Moloney alinha os diferentes diálogos e milagres de Jesus como viagens judaicas (2,12- 3,36) e não judaicas (4,1-42) de "nenhuma fé" à "fé parcial" e finalmente à "fé completa", enquadrados por Maria e o oficial como mais dois exemplos judeus e gentios de fé completa.
Dois comentários são interpolados no mesmo lugar em ambas as viagens, o primeiro pelo narrador, criticando a fé baseada em sinais (2,23-25) e o segundo por Jesus elogiando o "trabalho" essencial da missão (4,31 -38). O movimento do texto forma um "paralelismo sintético" (a, b, c / a1, b2, c2), que pode ser traçado da seguinte forma (MOLONEY, 2008, p. 527, apud KIERSPEL1978, p. 527):
Milagre em Caná: Fé completa em um contexto judaico: exemplo da mãe de Jesus (2,1- 11),
1- JUDEUS (2,12-3,36)
A- Judeus sem fé: (2,12-22)
B- Comentário: crítica da fé baseada em sinais (2,23-25) C- Fé parcial: Nicodemos (3,1-21)
D- Fé completa: João Batista (3,22-36) 2- NÃO JUDEUS (4,1-42)
A- Nenhuma fé: Relato da Samaritana {parte 1} (4,1-15) B- Fé parcial: Relato da Samaritana {parte 2} (4,16-26) C- Comentário: recordando o "trabalho" essencial (4,31-38) D- Fé completa: Relato da Samaritana {parte 3} (4,27-30,39-42) 3- Milagre em Caná:
chamado de ciclo Caná-á-Caná., pois, segundo ele, enquanto a inclusão Cana-a-Cana sozinha não exige progressão concêntrica adicional do texto, o primeiro clímax teológico do evangelho em João 3 apresenta um centro literário óbvio que funciona como um equilíbrio estrutural para ambos e fortalece uma percepção espacial da narrativa.
Segundo o autor, a estrutura que ele propõe pode explicar o texto como está sem ter de eliminar textos que são inconvenientes para a proposta. No centro estrutural está um texto que carrega significado teológico primordial para a unidade literária. Finalmente, essa proposta vem nos calcanhares de um crescente uso do quiasma na erudição joanina que convida a ler o Evangelho não como uma coleção diligente de um período individual de significado, mas como uma unidade literária.
Beutler (2016, p. 113)37 divide o capítulo 4 em seis partes: 1º. A chegada de Jesus a Fonte de Jacó: (Jo 4:1-6);
2º. O Diálogo com a Samaritana sobre a água da vida: (Jo 4:7-15);
3º. Diálogo de Jesus e a Samaritana sobre o verdadeiro Culto: (Jo 4:16-26); 4º. A saída da Mulher, a chegada dos discípulos e dos Samaritanos: (Jo 4:27-30)
5º. O Diálogo de Jesus com os Discípulos sobre o seu alimento e a colheita: (Jo 4:31-38) 6º. Muitos Samaritanos passam a crer em Jesus: (Jo 4:39-42).
Brown (1966, p. 166-168) sugere a divisão desse capítulo com uma seção de transição do capítulo anterior, preparatória para o diálogo, seguida de uma introdução ao diálogo e duas cenas, com suas subdivisões e por fim a conclusão.
A) Seção de transição (Jo 4:1-3): Jesus deixa a Judéia. 1º. Cena- (Jo 4:4-26)
2º. Cena 1 (Jo 4:27-38): Conclusão (Jo 4:39-42)
Barrett (1958, p. 190-191) afirma que essa seção está ligada aos capítulos anteriores pelos temas comuns e divide o mesmo capítulo em três partes: 1º. O Diálogo entre Jesus e a Samaritana (Jo 4:1-30); 2º. Diálogo de Jesus com os discípulos (Jo 4”31-38); 3º conclusão do relato (Jo 4:39-4).
Para Schnackenburg (1980, p. 494), o evangelista escreveu o relato do capítulo 4 preocupado com três temas principais: a água viva (Jo 4:10-14), a adoração em espírito e verdade (Jo 4:20-24) e o trabalho da semeadura e a alegria da colheita.
1- Introdução (Jo 4:1-5)
2- Diálogo de Jesus com a Samaritana (Jo 4:6-26) (a) O encontro com a Samaritana (4:6-9) (b) O dom da água viva de Jesus
(c) O Revelador desvenda a vida da Samaritana (Jo 4: 16-19) (d) A adoração a Deus “em espírito e em verdade” (Jo 4:20-24) (e) A revelação de Jesus como Messias (Jo 4:25-26)
3- O Diálogo acidental de Jesus com os discípulos (Jo 4:27-38) 4- Conclusão: A Fé dos samaritanos (Jo 4:39-42)
Rudolf Bultmann (1971, p. 175-176) propôs que o relato da samaritana fosse dividido da seguinte forma:
1- Introdução (Jo 4:1-3)
2- Tensão existente na narrativa (Jo 4: 4-5)
3- O Relato de Jesus e da Samaritana- parte 1 (Jo 4: 6-9) 4- A água viva (Jo 4: 10-15)
5- Jesus prova de sua autoridade como Profeta por seu conhecimento miraculoso. (Jo 4: 16- 19)
6- Conclusão no material original que estava nos vv 28-30 3 40.
Bultmann (1971, p. 176) sugeriu também que os versos 20-26 possivelmente teriam sido acrescentados para colaborar com o motivo descrito nos versos 5-9 e posteriormente o texto teria sido completado com o diálogo entre Jesus e seus discípulos sobre a missão, que foi remodelado na forma de clímax da história.
Westcott (1954, p. 66-67), dividiu o capítulo em 3 partes:
2- Detalhes da conversa entre Jesus e a mulher Samaritana (Jo 4:4-38).
3- O resumo de sua relação com as pessoas (Jo 4:39-42).
Konings sugeriu a seguinte divisão: 1- Jesus e Samaritana (Jo 4:1-26); 2- Jesus e seus discípulos (Jo 4:27-38); 3- Jesus e os Samaritanos (Jo 4:39-42). Carson sugere que o relato da Samaritana pode ser dividido. Já John Drene (2001, p. 170-202) sugeriu que esse capítulo fosse mais esmiuçado dividindo da seguinte forma:
1- Destruindo as barreiras (Jo 4:1-9) 2- A água viva (Jo 4:10-15)
3- Enfrentando a verdade (Jo 4:15-21) 4- O verdadeiro culto (Jo 4;22-26)
5- Compartilhando a maravilha (Jo 4:21-30) 6- O alimento mais satisfatório (Jo 4:31-34)
7- O semeador da colheita e os segadores (Jo 4:35-38) 8- O Salvador do Mundo (Jo 4:39-42)
Mateos e Barreto (1989, p. 207), sugeriram a seguinte divisão:
1- Chegada a Samaria: Dados descritivos (Jo 4:4-6)
2- A Mulher samaritana: O poço de Jacó e a água do Espírito (Jo 4:7-15) 3- Os Cultos do passado e novo culto. O Messias (Jo 4:16-26)
4- Os Discípulos: Anúncio da Mulher aos de sua aldeia (Jo 4:27-30) 5- A Colheita em Perspectiva (Jo 31-38)
6- A Realidade da colheita: a fé dos samaritanos (Jo 4:39-42) 7- Saída de Samaria (Jo 4:43-44)
Embora esta pesquisa reconheça o bloco geral dos capítulos 2- 4 e a unidade literária de 2, 3 e 4, a delimitação, divisão e estudo da perícope será reservada para os versos que compreendem de João 4:1 a 4:42. A razão para tal delimitação no vasto campo de estudo que a perícope oferece firma-
outra vez para a Galiléia” (Jo 4:3) e por estarem presentes novos personagens, tais como a mulher samaritana e o povo de Sicar (Jo 4:5, 7, 29-29).
Após análise das diversas propostas de divisão da perícope, a sugestão desta pesquisa não dista das propostas já expostas por estudiosos do QE, ou seja: a perícope deve ser dividida prestando atenção à seção de transição, que sugere um forte elemento de ligação com a seção, mas também ter em apreço como Jesus é apresentado no relato como o Revelador/Salvador enviado do céu, dessa forma a proposta de divisão da perícope deste trabalho é:
Seção de transição (Jo 4:1-2)
(1) Jesus chega à cidade de Samaria (Jo 4:3-6) (1) O Revelador e a Samaritana (Jo 4:7-26) (2) Mini seção explicativa (Jo 4:27-30) (3) Diálogo com os discípulos (Jo 4: 31-38); (4) Diálogo com o povo de Samaria (Jo 4:39-42).
A perícope também apresenta algumas características estilísticas significativas do QE, as quais muito podem contribuir não só para o estudo do QE como também para a pesquisa sobre o Messias/Revelador e as discussões que giram em torno deste tema. Brown (2004, p. 459-463) faz uma excelente condensação das características literárias do QE, que serão expostas a seguir e apresentadas dentro da perícope em análise.
Formato Poético: este estilo está muito presente no prólogo joanino, que é até mesmo marcado por estrofes. Basta um bom conhecimento do grego e uma breve leitura para se perceber uma estrutura poética no prólogo do QE:
1 VEn avrch/| h=n o` lo,goj( kai. o` lo,goj h=n pro.j to.n qeo,n( kai. qeo.j h=n o` lo,gojÅ 2 ou-toj h=n evn avrch/| pro.j to.n qeo,nÅ
3 pa,nta diV auvtou/ evge,neto( kai. cwri.j auvtou/ evge,neto ouvde. e[nÅ o] ge,gonen 4 evn auvtw/| zwh. h=n( kai. h` zwh. h=n to. fw/j tw/n avnqrw,pwn\
5 kai. to. fw/j evn th/| skoti,a| fai,nei( kai. h` skoti,a auvto. ouv kate,labenÅ 6 VEge,neto a;nqrwpoj( avpestalme,noj para. qeou/( o;noma auvtw/| VIwa,nnhj\
auvtou/Å
8 ouvk h=n evkei/noj to. fw/j( avllV i[na marturh,sh| peri. tou/ fwto,jÅ
Brown (2004, p. 459-461) salienta, porém, que nos discursos joaninos ocorre “o que alguns chamariam de discurso semipoético”, que tem como característica poética não as rimas, nem o paralelismo, mas sim o ritmo, isto é, linhas de extensão aproximada, cada uma delas constituindo uma oração. O autor ainda ressalta que, embora sua teoria seja questionada, os discursos joaninos deveriam ser impressos em formato poético:
Mal-entendido: Os discursos do QE estão repletos de mal-entendidos: no capítulo 4, Jesus revela verdades que a mulher Samaritana e seus discípulos não compreendem: Afirma que pode dar a água da vida (Jo 4:10), mas ela não entende (Jo 4:11-12) e acrescenta detalhes sobre a vida dela, mostrando que sabe antecipadamente sobre detalhes da sua vida (Jo 4:17-18). Mesmo na seção anterior, Nicodemos, ainda que usando um recurso de fuga, diz não compreender como podia um homem nascer de novo (Jo 3:4).
Duplos significados: Brown afirma que os duplos significados levam algumas vezes a mal- entendidos; “em outras, mostram um aspecto multifacetado da revelação”. Para o autor, esse estilo literário revela os níveis temporais da redação do QE – ora o autor fala sobre o contexto histórico de Jesus, ora escreve refletindo a situação da comunidade do QE.
Ironia: este estilo literário apresenta-se no QE ao colocar, na boca dos inimigos de Jesus, frases incrédulas, vexatórias; na perícope macro, a forma como é relatado o episódio mostra uma certa ironia com as purificações judaicas (Jo 2:6). Isso é exposto pelo autor do QE como uma forma de mostrar que os inimigos da comunidade não tinham entendimento das coisas do alto/sagradas (Jo 7:35). Em resposta à aparente má compreensão de Nicodemos, Jesus responde ironicamente- “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? “(Jo 3:10).
Inclusões e transições: formas cuidadosas feitas pelo autor, que insere sua explicação no início e final de cada discurso final de Jesus, ou diálogo, seja para fazer ligação com uma outra seção, seja porque ele conclui o que aconteceu antes ou introduz o que irá acontecer depois; exemplos claros disso são Jo 2:1; 2:12; 2:23; 3:1; 3:22; 4:1-3.
pensamentos e falas de Jesus (Jo 4:9- Por que os Judeus não se davam com os Samaritanos”), e mesmo esclarecendo frases de Jesus de um ponto de vista posterior (Jo 4:31-35). Essas explicações inseridas no texto refletem uma tentativa de firmar sua teologia.
Vidal (1997, p. 23-24) nos ajuda a compreender que nossa perícope surgiu como resposta à busca de definição diante de uma situação conflitiva e plural. Ao analisarmos os capítulos 2, 3 e 4, mesmo que o prólogo seja posto mais para o fim da conclusão do evangelho, revelam uma férvida e radical vontade de definir a verdadeira identidade de Jesus. As palavras endereçadas aos Judeus soam duras aos nossos ouvidos, mas era preciso esse tom para se criar unidade e identidade coesa, em razão da situação de ruptura interna da comunidade joanina. Confirmaremos isso mais adiante, nas considerações no final deste capítulo. Continuaremos a compreender exegeticamente a perícope para reconfirmar o projeto do autor com sua estratégia literária.