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Narrativas Bíblicas

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A partir da segunda metade do século XX, percebeu-se uma nova atitude em relação ao estudo da Bíblia por meio de suas narrativas, em razão de que vários estudiosos chamaram a atenção para a natureza da sofisticação da escrita narrativa hebraica. Essas vozes incluem Brevard Childs, Phyllis Trible, J. P. Fokkelman, Meir Steinberg e Robert Alter 48. As contribuições desses estudiosos

48Brevard Childs, Bíblica! Theology of the Old and New Testaments: Theological Reflection on the Christian Bible

(Minneapolis: Fortress, 1993); Gene M Tucker, David L. Petersen, and Robert R. Wilson, eds., Canon, Theology, and Old Testament Interpretation: Essays in Honor of Brevard S. Chüds (Philadelphia: Fortress, 1988). Phyllis Trible, Rhetorical Criticism: Context, Method, and the Book of Jonah (Minneapolis: Fortress, 1994); and idem, Texts o/Terror: Literary feminist Readings of Bíblica! Narratives (Philadelphia: Fortress, 1984). J. P. Fokkelman, Reading Biblical Narrative: An introductory Guide, trans. Ineke Smit (Louisville, KY: Westminster John Knox, 1999); idem, Narrative Art in Genesis: Specimens of Stylistic and Structural Analysis (Sheffield: JSOT Press, 1991); idem, Narrative Art and Poetry in the Books of Samuel: A Full Interpretation Based on Stylistic and Structural Analyses (Assen, Netherlands: Van Gorcum, 1981); and L. J. De Regt, J. De Waard, and J. P. Fokkelman, eds., Literary Structure and Rhetorical Strategies in the Hebrew Bible {Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1996). Meir Steinberg, The Poetics of Biblical Narrative: Ideological Literature and the Drama of Reading (Bloomington: Indiana University Press, 1987). Robert Alter, The Art of Biblical Narrative (New York: Basic, 1981), ver Alter, p. 200, p. 312.

nas narrativas bíblicas49. Eles sugeriram que as características narrativas, como a repetição de palavras e frases e a inclusão e o comprimento da conversação, são indicativos de pontos de vista teológicos implícitos, em vez de simples evidências de numerosos redatores. Alter escreveu:

Qual o papel da arte literária na formação da narrativa bíblica? Uma questão crucial, devo argumentar, finamente modulada de momento a momento, determinando na maioria dos casos a escolha minuciosa das palavras e os detalhes relatados, o ritmo da narração, os pequenos movimentos do diálogo e toda uma rede de interconexões ramificadas no texto. (...) É um pouco surpreendente que, nesta data tardia, a análise literária da Bíblia do tipo que tentei ilustrar aqui nesta forma preliminar esteja apenas em sua infância. Por meio de uma análise literária, considero múltiplas variedades de atenção minuciosamente discriminatórias ao uso astuto da linguagem, ao jogo cambiante de idéias, convenções, tom, som, imagens, sintaxe, ponto de vista narrativo, unidades de composição e muito mais. (2007, p.312)

Podemos perceber a partir da teoria de Alter que a narrativa da Samaritana (Jo 4) não é o simples relato de uma história para completar a obra, mas sim que essa narrativa contém o uso astuto da linguagem, o jogo cambiante de idéias, convenções, tom, imagens, sintaxe, ponto de vista narrativo, unidades de composição, escolha minuciosa das palavras e detalhes relatados, ritmo da narração, pequenos movimentos do diálogo e toda uma rede de interconexões ramificadas no texto.

P. Joseph Cahill (1982, p. 41) concorda que “o interlúdio samaritano não é apenas uma obra- prima do design narrativo, mas também uma história que reflete características literárias manifestadas nas narrativas do Antigo Testamento da grande antiguidade (...)”. Dessa forma, a análise do relato da Samaritana por meio da análise literária da narrativa do NT pode ampliar a teologia e seu significado e, em segundo lugar, indicar as dimensões da continuidade literária entre a narrativa do Antigo e do Novo Testamento.

Davison (2005, p. 159-168) argumenta que o autor do QE nessa seção faz uso de análise literária, de interpretações dos múltiplos usos artísticos da linguagem para o deslocamento de idéias, convenções, tom, som, imagens, ponto de vista narrativo e unidades de composição baseando-se nos resultados desse novo paradigma literário, Davison examina a narrativa da Samaritana em João 4.

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49 Para um maior estudo ver: BROWN, R. H. Narrative, literary theory, and the self in contemporary society. Poetics Today,

HARVEY, Richard Brown. Narrative, literary theory, and the self in contemporary Society. Poetics Today, Tel Aviv, v. 6, n. 4, p. 573-590, 1985.

PERRY, Menahem; MEIR Sternberg. The king through ironic eyes: biblical narrative and the literary reading process. Poetics Today, Tel Aviv, v. 7, n. 2, p. 275-322, 1986.

No entanto, ele ressalta que não parece irracional sugerir que a narrativa de João 4 exibiu as mesmas propriedades literárias que Alter e outros observaram serem características da escrita narrativa hebraica (DAVISON, 2005, p. 161). Embora haja discussão sobre os eventos históricos do QE, Davison argumenta que a narrativa de João 4 relata um evento histórico real e que não necessariamente precisa haver uma dicotomia entre validade histórica e literária.

Ashton (2007, p. 100), contribui, com a essa visão, afirmando que pouco importa se o evento foi real ou não; desde que se tenha o texto. Trabalha-se apenas com as verdades do texto, “que na melhor das hipóteses é verdadeiro e na pior é falso”, mas o que se tem é tão somente o texto em seu mundo de verdades narrativas. Por isso essa tese, além de explorar as questões exegéticas do texto, tem a intenção de avaliar os materiais narrativos do Evangelho como eles chegaram até nós e demonstrar por meio da análise narrativa a riqueza do texto, bem como a luz que essa análise lança sobre o tema de Jesus como Messias/Revelador no QE.

Entendemos também que qualquer posição interpretativa afeta e informa a hermenêutica, ou como Alister McGrath (1996, p.13) afirma:

podemos resumir nossa análise da relação entre a narrativa bíblica e a doutrina da seguinte maneira. As narrativas precisam ser interpretadas corretamente; A doutrina cristã fornece a estrutura conceitual pela qual a narrativa bíblica é interpretada. As narrativas exigem interpretação. A narrativa bíblica não é exceção... A doutrina articula a interpretação particular ou intervalo de interpretações da narrativa bíblica apropriada para a autocompreensão da comunidade cristã questionando os outros. Assim, a afirmação de que Jesus é o Cristo é uma afirmação doutrinária que permite que a narrativa de Jesus de Nazaré seja vista em uma luz particular. Esta afirmação não é, no entanto, arbitrária: é legítimo à luz dessa narrativa em si. (McGRATH, 1996, p. 13)

Ao que tudo indica como sugere Alter quanto à sequenciação de narrativas hebraicas, a teologia do QE é expressa não apenas pela escolha do vocabulário, mas também pela relação cuidadosa do evangelista e o equilíbrio de uma cena narrativa com outra. Na narrativa de João 4, isso se torna claro como vimos anteriormente nos temas que o ligam com o capítulo 2 e também com a conversa de Jesus com Nicodemos em João 3. Assim, em João 4 a conversa de Jesus com uma divorciada samaritana revela-nos que as diferenças entre as habilidades de Nicodemos e da mulher Samaritana para entender o significado do diálogo de Cristo são sutilmente destacadas.

Para que se possa compreender melhor a riqueza da narrativa literária e como ela nos ajuda a compreender melhor o tema do Messias Revelador presente no capítulo 4 de João, vamos nos valer

narrativa. Veremos também como alguns estudiosos tentaram encaixar a narrativa de João 4 nas cenas-padrão referenciadas por Alter e posteriormente propor outra alternativa, ainda que respeitando as bases das narrativas de cena-padrão de Alter.

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