• Nenhum resultado encontrado

Capítulo IV – Comparação e Avaliação das normas de propriedade intelectual entre as Universidades

4.5. A Divisão dos Benefícios e os Procedimentos Internos

A divisão dos benefícios pecuniários advindos da proteção à propriedade intelectual repartidos entre as Universidades e os autores/inventores, tem se caracterizado pela diferenciação adotada pelas normas de cada instituição. Esta divisão é entendida e tratada como sendo um prêmio ou incentivo dados aos autores/inventores pertencentes aos quadros das Universidades. Isto, porque promove ou incentiva a proteção dos conhecimentos gerados por aquelas pessoas, que são responsáveis pela criação, invenção e autoria destes conhecimentos. Este incentivo ou prêmio é o escopo do art.93 da Lei 9279/96 e que é consubstanciado também na Lei de Proteção de Cultivares, no que tange as instituições públicas. Mas para CARVALHO (1996), citado por CHAMAS (2001), em relação às invenções realizadas por professores e pesquisadores de instituições públicas de ensino universitário, as disposições do art. 93 só oferecem novidade quanto ao critério estabelecido. A exigência de remuneração já era prevista na Lei 6.182 de 11 de dezembro de 1974, regulamentada pelo Decreto 76924, de 29 de dezembro de 1975, o que designava incentivo para produção técnica relevante expressa sob a forma de “patentes e licenças registradas”. O que discordamos, pois conforme verificado no Cap II, item 2.4, a instituição pública só poderia exercer sua atividade de proteção e destinação de benefícios pecuniários após o estabelecimento em lei, o que veio ocorrer com o advento da lei 9279/96 e a obrigatoriedade do Decreto 2553/98.

Ao destinar parcela dos benefícios pecuniários advindos da proteção, as Universidades retribuem de forma institucionalizada o trabalho desenvolvido pelo pesquisador. Assim o estabelecimento das percentagens por meio das normas é determinado pela legislação federal e obrigatório, no caso das instituições públicas de pesquisa (Decreto 2553/98). No entanto, a disformidade destes percentuais, como verificados na TABELA 2, revela a autonomia de cada instituição ao tratar deste mecanismo.

A diferença encontrada na divisão referente à UFMG e a UFV, que dispõem em ser até 1/3 o percentual para os inventores, para a UNICAMP e UFRJ que prevêem em 1/3 integralmente, está basicamente na interpretação

da norma federal citada. O Decreto 2553/98 dispõe ser de até 1/3 o prêmio ou incentivo dado ao autor/inventor, porém o estabelecimento integral também encontra aparato legal. Pode-se considerar assim que ao estabelecer o percentual de até 1/3 para os autores/inventores, as Universidades citadas poderiam aplicar uma percentagem menor ou igual ao dispositivo legal dependendo do caso.

De forma isolada a USP, por meio de sua norma referente à propriedade intelectual, estabelece que a percentagem de 50% na divisão destes benefícios entre a Universidade e o autor/inventor. Desta forma a norma desta Universidade não encontra parâmetro na legislação federal, como demonstrado acima. Neste sentido, a USP diferencia-se, e muito, das outras instituições, até mesmo porque sua norma data do ano de 1988. No entanto, segundo Hernan Chaimovich, Pró-reitor de Pesquisa desta Universidade, em artigo publicado em 2001, passados alguns anos e com o advento da nova legislação, é natural que a Universidade esteja reformulando estruturalmente o gerenciamento externo e interno deste processo.

Já em relação à divisão interna dos benefícios pecuniários, propriamente dita, entre os órgãos da administração universitária, encontra-se mais uma vez a distinção deste critério de divisão entre as Universidades estudadas, conforme se evidencia na Tabela 2. Verifica-se, no que tange a divisão interna entre os órgãos administrativos, a UFMG destina 1/6 para a Pró- Reitoria de Pesquisa; 1/6 para a Unidade Acadêmica que está vinculado o Departamento; 1/6 para o Departamento que está vinculado o inventor os outros 1/3 vão para manutenção das despesas com a proteção. Descontadas as despesas com a proteção e a parte que cabe ao invento, a UNICAMP distribuirá em partes iguais o restante dos recursos entre o Fundo de Apoio à Pesquisa e a Unidade onde se desenvolveu o invento. Por sua vez, a UFRJ determina a repartição dos dividendos através de contrato. Já a USP destina 25% para Unidade acadêmica e 25% para o Departamento que está vinculado o inventor. A UFV determina que após o pagamento de todos os custos com o processo de patenteamento e feita a repartição com a empresa que participar do desenvolvimento das pesquisas objeto de proteção, se houver a co- titularidade, da parte dos dividendos líquidos que couber a Universidade, 50%

vão para a Pró-Reitoria de Pesquisa e 50% para o Departamento ou programa de pesquisa ao qual está ligado o inventor.

TABELA 2 – Repartição dos benefícios e transferência

Nome da instituição

Divisão Inventores

Divisão Órgãos Órgão

Responsável

Transferência Terceirização

1. UNICAMP 1/3 Fundo de Pesquisa/ Unidade Pró-Reitoria de Pesquisa SIM SIM 2. UFRJ 1/3 Administração / Unidade

Reitoria SIM SIM

3. UFMG Até 1/3 1/6 Pro-Reitoria; 1/6 Uni, Academca; 1/6 Depto. 1/3 Manutenção Pró-Reitoria de Pesquisa NÃO NÃO 4. UFV Até 1/3 1/3 Pro-Reitoria

1/3 Departamento Pró-Reitoria de Pesquisa SIM NAO 5. USP 50% 25% Unidade 25% Departamento

Reitoria SIM SIM

A análise que se faz com relação a esta distinção, neste período de implantação da proteção à propriedade intelectual, indica a pulverização dos recursos dos benefícios pecuniários entre os órgãos da administração, uma vez que se pode considerar que o volume dos mesmos não é tão significativo. Por outro lado, ao não destinar ou dividir os recursos pelos Departamentos ou Unidades, que são responsáveis pelo conhecimento gerado e protegido estes estariam sendo desprivilegiados, em detrimento dos órgãos da administração. Pois, os recursos advindos das pesquisas que deram origem a proteção deveriam ser reintroduzidos nestes mesmos departamentos/unidades que desenvolvem programas de pesquisas e que geram, a priori, o conhecimento a ser protegido. No caso da destinação de uma parcela ao órgão ou núcleo responsável pela proteção à propriedade intelectual, esta estaria estritamente ligada à manutenção dos custos e mecanismos de proteção.

No que tange a responsabilidade interna pelas diretrizes e definição de normas referentes à propriedade intelectual, no caso da UFMG, UFV e UNICAMP, é a Pró-Reitoria de Pesquisa. No caso da UFRJ e da USP o órgão responsável pela instrução normativa e ao núcleo é a própria Reitoria. As Resoluções e Portarias explicitam esta responsabilidade em cada caso:

UFMG – Art. 4o A Pró-Reitoria de Pesquisa é o órgão responsável tanto pela tramitação do processo junto aos órgãos encarregados da concessão do direito de proteção, como pela fiscalização, consulta e assistência da UFMG, no que diz respeito aos pedidos de proteção dos direitos de propriedade industrial, dos direitos autorais e dos direitos relativos a programas de computadores.

UFV - Art. 8º - Estabelecer que compete à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós- Graduação prescrever as normas referentes ao pagamento de taxas, anuidades e demais encargos, previstos nas legislações específicas, referentes à concessão e à manutenção dos diretos relativos à propriedade intelectual, bem como requerer a proteção da propriedade intelectual perante as entidades competentes e, ainda, a elaboração, averbação, formalização e registro dos contratos e convênios que envolvam as partes interessadas.

UNICAMP - Artigo 1º - Fica instituída na Reitoria a Comissão Permanente de

Propriedade Industrial.

USP - GADI observará as diretrizes fixadas pela Pró-Reitoria de Pesquisa e

terá a coadjuvação, no que se fizer necessário, conveniente ou oportuno, da Consultoria Jurídica.

A UFRJ não contempla em sua norma interna este tipo de disposição, no entanto a CAPI se encontra na parte física da Reitoria da Universidade, entendendo-se, assim, que esteja ligada a este órgão. Porém ao ser questionada sobre esta vinculação a responsável pela CAPI afirmou que este núcleo está subordinado a Pró-Reitoria de Extensão.

Entende-se que no tocante a vinculação aos órgãos superiores da universidade, a questão é evidenciada mais pela estrutura organizacional de cada instituição do que efetivamente pela diferenciação peculiar que venha a influenciar em algum aspecto relativo à proteção da propriedade intelectual.

Outra questão relativa ao conteúdo desta tabela é sobre a terceirização dos serviços de proteção. Interessante notar que com relação aos procedimentos de depósitos de pedidos de patentes nacionais, a UFMG e a UFV utilizam seu próprio núcleo para encaminhar e acompanhar estes pedidos no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Já a UNICAMP, a USP e a UFRJ utilizam escritórios particulares especializados para dar o devido

procedimento à proteção de seus inventos. Mais recentemente, a USP tem encaminhado parte de seus pedidos de depósitos para a FAPESP, que cuida destes trâmites No tocante a este aspecto, é importante frisar que ao estabelecer a terceirização dos processos e procedimentos de proteção, as Universidades estão aumentando os custos de todo o processo e também o distanciamento entre o pedido de proteção e sua efetivação. Isto pode gerar dificuldades ao pesquisador que optar por este tipo de proteção, haja vista que há um terceiro para realizar esta atividade. Pode-se considerar, nesta análise, a questão dos recursos humanos disponíveis pelas universidades que não são suficientes, uma vez que as instituições não possuem nos seus quadros internos de pessoal, indivíduos especializados para realizar este tipo de atividade. Seria interessante promover mecanismos de treinamento para os técnicos administrativos ou buscarem na iniciativa privada pessoas que possam compor os quadros da instituição no sentido de compor os núcleos com pessoas qualificadas para realização desta atividade.

Por fim, um dos conteúdos da Tabela 2 revela a existência da transferência de tecnologia dos conhecimentos passíveis de proteção. Considerando-se as prescrições das normas estudadas, está delimitado que em todas as instituições é possível a existência da transferência de tecnologia para o setor produtivo dos inventos, processos e produtos protegidos. Por transferência de tecnologia, entende-se que a realização, por meio de licenciamento, ou pelos vários tipos de concessão, da transferência dos direitos e da tecnologia, objeto de proteção interna. A transferência de tecnologia geralmente é feita por meio de contratos ou convênios onde constam às obrigações de cada parte na utilização desta tecnologia e a forma utilizada pela instituição. Na maioria dos casos, este tipo de transferência de tecnologia é de competência dos núcleos de propriedade intelectual.

4.6. Aspectos Gerais