A dor era o que mais podia remeter Frida a ela mesma, ser o que somente ela podia sentir e, mesmo que tentasse partilhar, sempre seria somente dela. A dor seria o arremate e álibi para sua solidão, ao passo que Diego viria ser seu mediador: era ele a quem ela podia culpar pelo sofrimento que passava, quem podia atingir com seu amor- ódio, na solidão de seus sentimentos mais particulares, em seu amor por ele e pela história que tinham juntos.
A dor será o elemento presente em toda sua vida, real e metafórica, sempre estará acometida de lancinantes arroubos que lhe impulsionarão a ser vítima e heróica. Desde a primeira decepção ao ouvir (com dor) da irmã que era adotada, depois pela poliomielite, pelo abandono do primeiro namorado, o acidente de bonde com suas sequelas, a morte de seus pais, seu amor por Diego, sua dor por Diego, até suas máximas esperanças e frustrações por ter um filho, padecendo de abortos espontâneos; em todas as passagens marcantes de sua vida, este elemento exclusivamente pessoal, constava em sua experiência mais profunda. Será isto, necessariamente presente e recorrente em inúmeras de suas telas. Muitas com referência a gestações, fetos, embriões, maternidade e outras tantas com referências a seu corpo mutilado, cortado, alterado, em características orgânicas, as vezes vegetais, no mais cru de si mesma. Frida se mostrava em tudo o que pintava expondo seu “projeto” em tudo o que fazia, revelando-se como era e o que queria fazer de si, em cada coisa sua, principalmente, na sua pintura. Em suas próprias palavras:''Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e
uma série de outras coisas, que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o “lugar de tudo isso.” (1983, p. 947).
104 Quando passou por mais uma série de cirurgias e um longo período de internação por complicações que culminaram na amputação de sua perna, Frida reagiu bravamente, como “uma paciente alegre que não transparecia seu sofrimento para a
equipe” (Id) e aceitava, estoicamente seu destino mais uma vez e relatou em seu diário: Amputaram-me a perna há 6 meses, deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão. Continuo a querer me matar. O Diego é que me impede de o fazer, pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta. Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida. Vou esperar mais um pouco. (Id., p.347) 21
Em 1953 a Galeria de Arte Contemporânea do México, finalmente realizou o sonho de Frida de expôr suas obras na sua própria cidade e fez uma exposição em sua honra.
Toda sua vida foi permeada de longas internações e cirurgias por conta de reparos das sequelas do acidente, principalmente na coluna e na perna. A dor era a companheira de vida de Frida, quer física ou simbolicamente ela aparecia representada em suas obras, como um espelho de sua existência.
Por conta desta dor que a acompanhava todo o tempo, Frida recorreu ao álcool, a algumas drogas e ao cigarro e, ao fim de sua vida, conforme sua convelescência se agrava, ficava dependente de analgésicos para suportar a dor que lhe acometeu. Em suas próprias palavras: “Eu bebia para afogar minha dor, mas a maldita dor aprendeu a
nadar ...” (1997, p. 96). Ela chegava a beber dois litros de conhaque por dia e isto,
concomitante com os medicamentos que tomava, lhe alteraram características de humor e seus paradoxos afetivos e de insegurança vinham à tona, como no seguinte registro de sua biografia, comentado por uma amiga do casal a escritora Loló de La Torriente: “Durante este último e trágico período, sua relação com Diego era inconsciente. As
vezes tranquila, terna e carinhosa; em outras, tempestuosa e cheia de fúria. Ele recebia com paciência e aguentava sua ira a mimava.” (1983, p.349). Ainda sob o efeito das
químicas que lhe alteravam a lucidez, Frida e Diego mantinham a mesma dinâmica de seu amor: ela lhe dava tudo, intensamente e ele recebia, pacientemente.
105 6.11- A POSSÍVEL CONVERSÃO DO PROJETO DE SOLIDÃO DA FRIDA VÍTIMA- HERÓICA: GRAVIDEZ
Para dar início a este trecho do trabalho precisamos esclarecer o que vem a ser uma conversão do “projeto”. Para isto, partimos do princípio, que a todo momento, Sartre aponta que o “projeto original” que elegemos é uma construção constante e, deste modo, mobilidade incessante. Este caráter de flexibilidade a todo instante, de possibilidade de guinada a cada novo passo, é o fundamento do “projeto” que pode ser outra coisa a qualquer momento, dependendo disto apenas a nossa livre escolha por mudança, pois que esta é sempre vislumbrada uma possibilidade, ao passo que a existência não é estanque. Assim, com efeito, mesmo o “projeto original” pode estar aberto a grandes alterações que ampliarão e modificarão os sentidos de uma existência, de uma história de vida.
Que fique claramente exposto que a conversão é uma possibilidade e não um fato, como o que será tratado neste subcapítulo. No caso de Frida seu maior desejo era o de maternidade. Mais do que pintar e amar Diego, mais do que ser exótica e retraída, mais do que ser mexicana-alemã, Frida queria ser mãe. Este desejo aparece exposto em inúmeras obras, geralmente retratados com paixão de sofrimento pela frustração, pela impossibilidade de realização.
Devido às sequelas da poliomielite e do acidente do bonde, seu corpo não tinha meios de sustentar uma gestação inteira e, por volta do terceiro ou quarto mês ela sofria abortos. A dor se agigantava a cada gravidez, pois em cada uma mais intenso o desejo e o sonho de conseguir se realizar, e em cada um a dor, física, moral e emocional, de ser fraca, insuficiente e continuar sozinha.
Seria uma gravidez que faria cair por terra todo ideal de solidão conhecido e mantido por ela copiosamente ao longo de sua história. Seria com este outro dentro de seu corpo que ela não estaria solitária, integralmente, ineditamente. Seria a este outro que ela anexaria seu “projeto” convertido de solidão à doação (que sempre fez, mas mantendo-se sozinha) de amor, em companherismo, em necessidade de sobrevivência para ela e seu filho. E mais, de “amor incondicional”, amor que nada exige. Seria a maternidade que lhe daria recursos para sua conversão, para a revisão de si, para a auto-
106 avaliação de seu amor, de seu uso, de seu abuso pelos outros, com os outros. A gravidez que ela tanto perseguiu e que a cada aborto mais a esvaziou.
Este tema, recorrente em sua arte, com dor e intensa paixão, as vezes aparece pintado simbolicamente com atributos folclóricos e ícones de fertilidade, fecundidade e maternidade como mãe-terra, seiva da vida, uma mulher-árvore (tal como uma árvore da vida) amamentando, além de fontes, seres semeados e sua própria imagem ramificada, enraizada, florescendo e frutificando. Seria a maternidade sua via de guinada para uma Frida sem antagônicos, unificada a si mesma, sem ser usada e sem ser isolada, mas como fundamental ao outro como ele para ela. Com uma gravidez sua solidão teria companhia e ela se reconstruiria inteira, caso tivesse realizado este sonho que seu corpo, maior limitador, não viabilizou.