Sartre é o autor que se refere muito sobre o tema do amor e de tudo o que foi possível apurar quer de suas obras filosóficas e romances, quer de suas biografias, podemos extrair algumas sugestões de um amor possível, mesmo em meio a todo conflito a ele pertinente.
A condição da insegurança amorosa se concretiza sempre em função do outro que nos escapa inteiramente, porque é “liberdade”, e que sempre será aquele que não “sou eu”. As relações entre as pessoas é assunto abordado por Sartre exaustivamente, pois que é delas que provêm os movimentos: familiares, sociais, etc. E é a partir dos relacionamentos acontecem as idéias coletivas e, é a partir do amor que a história do homem também se constrói.
O foco de Sartre estará no plano ontológico, na “liberdade” e “responsabilidade”; na consciência de si, da História do mundo e dos outros; na construção cotidiana do homem através de suas escolhas e dos “projetos” individuais que, somados, formam um conjunto. Assim, o amor que permeia todos os focos sartrianos é considerado, como risco e, como parte do “projeto”, é fundamental na história das relações do homem, pois é delas (e indiretamente do amor) que se constrói constantemente valores culturais, morais, éticos, religiosos e políticos.
Sartre ressalta em sua obra “O ser e o nada” (1943/1997) que o homem em solidão não tem limitações, não sente vergonha, não teme, não se orgulha, não tem raiva. Sozinho é como se a existência não tivesse sentido nem margens, pois não há pelo que se responsabilizar, não há pelo que cuidar, sequer pelo que esperar. Contudo, não somos mais livres na solidão.
A “liberdade” sempre precisa do outro, tanto como do olhar alheio para termos noção do nosso ser. Sartre diz: “Cada olhar nos faz experimentar concretamente – e na certeza indubitável do cogito – que existimos para todos os homens vivos, ou seja, que
77 há consciências para quem existo.” (1943/1997, p.360). Assim, é partindo do outro que traçamos nosso ser, nossos limites e nossa história. É ele quem nos servirá de fronteira e norteador. É pelo seu olhar que aprendemos a nosso respeito pois, para Sartre: “O outro está sempre presente a mim na medida em que sou-Para-outro” (Id., p.360). Seremos nós quem ditaremos esta participação em função de existir em nosso próprio “nada”.
Nossos “projetos” e escolhas estão impregnados do outro e, na explicação do próprio Sartre:
Portanto, na medida em que tomo consciência de mim como uma de minhas livres possibilidades e me projeto rumo a mim mesmo para realizar esta ipseidade, eis-me responsável pela existência do outro: sou eu, pela afirmação de minha livre espontaneidade que faço com que aja um outro. (1943/1997, p. 367).
O outro é “co-responsável” na nossa existência e isto, no âmbito amoroso, fica mais evidente. No amor os dois devem funcionar em esquema de cooperação e construção conjunta da relação e dos dois “projetos”. É quando elegemos um outro específico que será o exemplar de todo o nosso eixo social para co-existir como par e nos revelar como aparecemos e somos para ele.
O modo de ser que há no amor deve ser o da “liberdade”, pois que foi nossa eleição daquela pessoa para ser nosso par-limitador. Quanto a isso Sartre diz: “O outro é objeto em sua concessão comigo, permanece como realidade humana [...] nossa relação não é uma oposição frente a frente, mas sobre tudo uma interdependência de viés.” (1943/1997, p.318). Numa relação, é preciso que o outro seja considerado como aliado, apesar de representar risco por ser livre. É nosso par na construção ininterrupta do cotidiano.
A aposta amorosa de Sartre não está no encantamento do desejo nem na intensidade da paixão, mas sim na apropriação plena de todas as nossas reações físicas e sentimentais, no assumir para nós mesmos toda situação de enamoramento, de modo
reflexivo, e nos responsabilizar por cada ato em função da relação.
Para Sartre, mesmo sob o passe de mágica do idílio somos o ser que somos e o que queremos fazer com isso. Assim, ele afirma: “sou meu próprio nada, basta que eu próprio seja mediador entre mim e mim mesmo para que toda objetividade desapareça.” (Id., p. 352). Ou seja, se estamos atentos ao ser que somos, ao que queremos fazer de nós, a como escolhemos proceder conosco, mesmo que o outro venha interceder sobre nós com controle, posse, domínio, manipulação como que com um objeto, não haverá eco, pois primeiro e antecipadamente somos consciência de nós, (‘eu sei de mim’).
78 Podemos até escolher um quesito ou exigência do outro, por amor, mas sem abandonar o “projeto” que estamos sendo.
O outro, nestes termos, se torna parte de nossa história, se encaixa nas nossas expectativas. Ele nos vem para participar e atuar – em ação por livre escolha de seu próprio “projeto” e reflexão – junto conosco na trajetória e em equilíbrio de co- participação e co-responsabilidade. Nos convidamos mutuamente a participar de nossas existências.
Deste modo, com efeito, o outro é um eu-mesmo separado de mim apenas por sua “liberdade” e indeterminação de si mesmo, exatamente como o “nada” que também sou.
Neste esquema de parceria concomitante, tudo o que fazemos e esperamos do outro pode lhe servir de instrumento contra nós ou contra a relação, pois ele é tão capaz quanto nós e tem recursos existenciais similares. Não há relação de poder quando esta é compreendida como uma troca entre iguais.
Sartre afirma: “Os amantes permanecem cada um para si em uma subjetividade total, nada vem isentá-los de seu dever de fazer-se existir cada um para si; nada vem suprimir sua contingência de salvá-los da facticidade.” (1943/1997, p.469). Deste modo, mesmo apaixonados, não estamos perdidos de amor, desviados de nós (a não ser em “má-fé”), porque amando estamos tão cientes e participativos quanto em qualquer outra condição.
Nenhum álibi servirá para nos isentar de nós. Não podemos nos refugiar sob os olhos do amor ou sob a tentação da “turvação da consciência” (Id.) durante o desejo; mesmo apaixonados devemos estar atentos a nós, conscientes de nossas escolhas e de tudo que nos revela, expõe, entrega ao olhar do outro. Tudo o que fazemos em prol da relação amorosa deve ser reflexivo e considerando no ser livre que somos, em “responsabilidade” com nossos atos e tendo o “projeto” como norteador cotidiano para a escolha do parceiro, bem como para o tipo de relação que iremos estabelecer, sem desconsiderar que para Sartre, o que podemos chamar de nosso mundo irá sempre requerer que este seja também mundo para o outro (1943/1997), ou seja, num relacionamento os mundos devem ser próximos, os “projetos” devem ser similares, os dois “para-si” não devem ser distantes e estranhos, mas sim indivíduos que cooperem com suas histórias em uma via acessível ao outro, um ao alcance do outro, um próximo do outro para que, unidos em dialética, possam pensar em um “projeto” de amor com a
79 cooperação mútua, acrescendo elementos individuais e somando referências às suas existências.
O casal só conseguirá amar se estiverem em “liberdade” para esta troca. Sartre postula que: “O amante não deseja possuir o amado como se possui uma coisa; exige um tipo especial de apropriação. Quer possuir a liberdade enquanto liberdade.” (1943/1997, p.458). Nestes termos, apenas nos entregando existencialmente a relação ocorre.
Do que foi levantado de sua biografia e obra, podemos afirmar que Sartre revela que o mais verdadeiro do amor é a troca que sabe ceder e que quer a participação do outro, que convida e aceita sem que pareça um intruso, mas sim o aliado que elegemos de acordo com as nossas demandas e necessidades, exatamente como ele deve fazer conosco. Um escolheu pelo outro e devem, refletindo sobre suas ações, refazer esta mesma escolha diariamente, como aliados que constroem uma história juntos e não em controle e competição.
CAPÍTULO 6: ANÁLISE FENOMENOLÓGICA DE UMA EXISTÊNCIA -