Segundo Pérez Tamayo, a tipologia dos temperamentos ―son unas de las clasificaciones más antiguas y seguramente prevaleció tanto tiempo (¡hasta hoy se sigue usando!) porque algo tiene de verdad‖:
20 EARLE, Rebeca. ―‗If you eat their food...‘‖, 2010.
21 Ibid., p. 689-690.
22 Tanto Cañizares-Esguerra como Earle (citados acima), ao enfatizarem sobremaneira uma construção ideológica dos espanhóis ou dos criollos nas visões sobre as influências e as constituições dos ―corpos‖, acabam fechando um circuito que não destaca os contornos políticos e de identidade mais complexos ou intermediários que afloram nas fontes históricas. Para além de ―índios versus espanhóis‖ ou ―espanhóis versus criollos‖ como figuras antagônicas de um sistema de poder ou da exploração social, indicando formações ideológicas compactas de grupos colonizadores, e ademais, numa história das ideias dentro de um contexto que seria precursor das políticas de racismo moderno, teríamos, por outro lado, nos discursos coloniais que usam os saberes dietéticos, autores com interesses particulares e em conflito com outros setores dominantes e com outros escritores. Esses discursos com chaves ―naturais‖ e ―morais‖ indicam também a existência de dispositivos de poder nas práticas e nos sujeitos de todas as ―nações‖. Ainda, as populações e os indivíduos são investidos e podem estar imbuídos de identidades variadas. Nem sempre as representações de corpos das ―nações‖ informam mecanismos de franca subordinação social, ainda que a essencial alteridade seja construída na anteposição entre ―índios‖ e ―espanhóis‖ para a afirmação de superioridades do corpo e da mente (e alma) do colonizador.
Además del sujeto melancólico, en quien predomina la bilis negra y cuyo carácter ciclotímico se asociaba con el genio creador, también se reconoció al colérico, caracterizado por su mal humor y sus accesos de violencia, debidos al predominio de la bilis amarilla; al flemático, cuya tranquilidad y ausencia de pasiones eran debidas a la prevalencia de la flema (cuyo origen se suponía en el cerebro), y al sanguíneo, cuyo temperamento ardoroso y apasionado dependía del predominio de la sangre.23
Sem dúvida a tipologia dos temperamentos prestara para acessar tipos humanos num quadro classificatório que, no entanto, antes de corresponder à realidade psíquica de sujeitos agrupados por características que teriam em comum, mais bem, o esquema deve ter contribuído para formar e introjetar nos indivíduos uma pertença comportamental
―natural‖, a qual, no entanto, é uma construção social, cultural, com implicações morais, políticas.
Vale ainda apontar que as visões medievais tardias, quanto à questão da ―natureza‖
dos corpos (na ordem de termos ou parâmetros aristotélicos)24 não extrapolam tanto sobre a disposição externa ou características de partes ou aspectos aparentes e influências circunstanciais, o que compreenderia o ―acidente‖ do corpo. Trata-se de lidar com uma natureza da ―substância‖ ou essência desse corpo, que induziria o comportamento, as aptidões, até mesmo geraria inclinações, resultados de uma espécie de condição que a
―qualidade‖ subjacente à matéria infere e se manifesta nas ―propriedades‖ ou ―efeitos‖
desse corpo, indicando o porquê das práticas usuais do indivíduo.
Algumas noções fisiognômicas e do caráter (como em Aristóteles e Teofrasto) irão integrar-se às especulações da fisiologia interna do corpo (como em Sextus Empiricus e Galeno), servindo então para construir tipos de indivíduos com naturezas distintas.25 Os humores do corpo e suas qualidades, ainda que para Galeno fossem basicamente causas de enfermidade, também já seriam considerados determinantes para a constituição do homem:
o calor faz o corpo grande, o frio, o faz pequeno, a umidade o torna gordo, e a secura, magro. A ―crase‖ ou equilíbrio dos humores no corpo, quando predominasse o sangue, tornaria os indivíduos mais estúpidos; a cólera criaria a fineza e inteligência do espírito; a bílis negra traria a constância; enquanto a predominância da fleuma não resultaria em
23 PÉREZ TAMAYO, Ruy. El concepto de enfermedad, 1988, p. 118.
24 Cfr. ARISTOTLE, ―Metaphysica‖ (Book V, ―Philosophical lexicon‖), 1941b, p. 752-777.
25 KLIBANSKI, Raymond et. al., Saturne et la mélancolie, 1989, p. 107 e ss., para as menções da evolução da ―doutrina dos temperamentos‖ a seguir e que dão elementos para as avaliações finais deste item.
efeitos comportamentais – ainda segundo Galeno.
Mas estas conclusões do humoralismo seguiriam paralelas e foram aproveitadas mas alteradas, na história dos ―temperamentos‖ na longa evolução medieval dos conceitos fisiológicos e mentais. Entre os séculos II e III da era cristã um esquema cosmológico dos temperamentos se apresentaria num pequeno tratado recuperando os princípios da filosofia antiga, ao associar os quatro elementos (ar, fogo, terra e água) aos respectivos humores do sangue, da cólera, da melancolia e da fleuma. Cada humor tornar-se-ía predominante no curso de uma estação do ano e durante uma das quatro idades do homem: o sangue na primavera e na infância, a bílis amarela ou cólera estaria relacionada à juventude e ao verão, a bílis negra ou melancolia ao outono e maturidade, enquanto a fleuma estaria vinculada ao inverno e à velhice.
Nos tempos de Santo Agostinho, alguns tratados como aqueles de Vindiciano, Beda e Isidoro de Sevilha, já assentavam a perspectiva de que os humores teriam o poder de determinar não apenas a condição de um indivíduo em particular (como era a perspectiva clínica galênica), mas também formar tipos particulares de indivíduos.
Mas só a partir do século XII, com Guilherme de Conches, que a ―doutrina dos temperamentos‖ toma corpo. Será popularizada nos séculos seguintes bem como na era moderna, trazendo, entre outras autoridades, o galenismo de Avicena e os tratados dietéticos da escola médica de Salerno.
Nesse período se estabelece uma hierarquia moral das compleições humanas, quando o tipo sanguíneo é descrito como aquele mais moderado e mais robusto, de compleição naturalmente temperada pela prevalência das condições fisiológicas básicas para a vida humana (as qualidades quente e úmida em moderação).
Enquanto que principalmente as compleições ―frias‖, tanto a fleumática como a melancólica, são tomadas como decadentes na escolástica, no sentido cosmogônico de degradação humana desde a ―queda do paraíso‖. Os temperamentos são então carregados de qualidades fisiognômicas e psicológicas negativas. Na Renascença, estas compleições seguem consideradas inferiores e no âmbito de condição (mas não acima do livre-arbítrio) enfermiças por natureza. Temperamentos desequilibrados e mentalmente enfermos, inclusive com respeito às corretas proporções das qualidades da substância do cérebro. É a herança antiga de filósofos gregos e Aristóteles em particular, numa ciência de três potências físicas do entendimento. O mau temperamento pode, assim, dificultar a plenitude das faculdades mentais na inteligência, memória e imaginação.
A moralização das compleições enfermiças também estabelece aspectos positivos
desses caracteres. Trata-se da prédica para práticas comportamentais consideradas sanas, dignas ou corretas para esses tipos humanos de compleição decadente. Mas o discurso moral também pode operar uma forma de complacência, uma justificativa de certas práticas sociais como se fossem cabalmente determinadas pelo temperamento do corpo. De qualquer forma, tanto o equilíbrio dos humores como as compleições de constituição dos corpos, ambos podem ser mudados ou transformados, provocando sentidos de indeterminação da natureza dos indivíduos (e dos povos), ou provocando sentidos de determinação para os corpos, mas que são estranhos à física interna do indivíduo. Há diferentes elementos conjugados de influências, elas vêm do mundo astral, do ambiente natural, da comunidade humana. Também o juízo do indivíduo poderia transformar a natureza de um sujeito, que é conformado pela atitude moral. Estes elementos irão permear as visões e políticas sobre a ideia de compleições e temperamentos como natureza dos corpos sociais.