Nesta avaliação sobre os alimentos para a natureza e o governo dos corpos no Novo Mundo, utilizamos constantemente as palavras-chaves ―discurso‖ e ―representação‖
aludindo aos extratos de textos que significam os veículos deste estudo historiográfico. Na alusão a discursos, podemos situar um debate complexo sobre instâncias como as
―condições de produção‖, a ―ideologia‖, a ―polifonia‖, a ―subjetividade‖, observando textos que mantêm relações de identidade entre si, mas também particularidades além de contradições internas. Também apresentam, afinal, dimensões extratextuais, constituindo o espaço e fluxo de várias instâncias de poder, sempre pela ação ou por intermédio dos sujeitos sociais.44 Devido a essa ambiguidade do que é o poder, por um lado o discurso é momento em que a ―estrutura‖ subjuga o indivíduo, o que por outro lado não deve eliminar a questão da ―agência‖ dos autores de escritos, como de outras falas.
A ferramenta do discurso, apenas considerando perspectivas sugeridas há tempo por Michel Foucault, pode induzir a duas questões fundamentais, como aponta Spiegel num balanço metodológico que revê criticamente a ―virada linguística‖ na história.
Foucault privilegiara, nos trabalhos iniciais, códigos de cultura ou grades mentais,
―epistemes‖ pelas quais os homens submetem-se em determinado contexto histórico e literário. Mas por meio de uma orientação ―genealógica‖ de estudo das práticas materiais e institucionais, o autor observaria também as ―technologies of knowledge‖, o que normalmente incorporamos na linguagem historiográfica pelo binômio saber/poder. Essas tecnologias podem tanto sustentar como contestar as formações discursivas, ―themselves multiple and undergoing constant processes of change‖. Este olhar sobre tais percursos do pensamento do filósofo francês revelam a importância de casar a ideia de estrutura e de agência social na análise histórica.45 Foucault também trataria de buscar não só os poderes que se impõe para o sujeito, pois insistiu igualmente nas margens de reação dos sujeitos, sua condição de liberdade dentro das malhas de anônimos e objetivos poderes da estrutura social.46
Tentar observar ou resolver a tensão entre a prisão e a liberdade dos sujeitos sociais é um esforço constante do ofício historiográfico, sem que possamos encontrar algo mais
44 Cfr. BRANDÃO, Helena. Introdução à análise do discurso, 2004.
45 SPIEGEL, Gabrielle M. Practicing history (introduction), 2005, p. 10. Spiegel reforça essa tensão interpretativa da história pela lição de outros referenciais, como do ―habitus‖ de Bourdieu, que pode ser usado para notar ―relative contexts of freedom and constraint‖ dos sujeitos na história (p. 13).
46 Cfr. DÍAZ, Esther. Michel Foucault, 1992.
que uma descrição da ambiguidade que é o ser humano na história. Indicamos aqui essa tensão no binômio indissociável de ―crenças e políticas‖ – tendo em conta a tradição, mas também como expressão própria deste historiador.
Os saberes da dieta na América acontecem em âmbitos que identificamos com o que Foucault descrevera como espaços de ―doutrina‖ e ―sociedades de discurso‖, pois tenhamos que a dietética pertence aos parâmetros da ―filosofia natural‖ e ―moral‖ e da
―medicina‖ erudita. Podemos identificar a dietética como elemento da doutrina cristã, bem como uma sociedade de autoridade na ciência médica hipocrático-galênica.
Embora funcionem como ―sistemas complexos de restrição‖, as doutrinas e as sociedades de discurso, acentua Foucault, são âmbitos da positividade de trocas de saberes e da comunicação social.47 Vale recuperar a sentença de que a doutrina é um âmbito que
―questiona os enunciados a partir dos sujeitos que falam‖, pois os doutrinados se apoiam nela para manifestar uma ―pertença de classe, de status social ou de raça, de nacionalidade ou de interesse, de luta, de revolta, de resistência ou de aceitação‖. Nas ―sociedades de discurso‖, por sua vez, outro ―regime‖ se delineia, onde os sujeitos que falam (e particularmente que escrevem) se expõem por formas tais como ―de difusão e de circulação do discurso médico‖. Isto pelos rituais que qualificam os sujeitos com papéis fixos para transmitir a eficácia das palavras.48 Essas receitas de Foucault podem e parecem muitas vezes se tocar nas manifestações de representação e prática sociais da dietética no Novo Mundo.
Este estudo também deve ser compreendido como uma ―história do corpo‖. Spiegel observa o problema das ―social practices‖ como “routinized bodily performances, incorporating both a way of ‘knowing how’ – to act, to be an agent, to do something – and a (practical, unreflexive) knowledge of the world‖.49 Uma história das naturezas de corpos e dos cuidados de conduta para os corpos, traz a perspectiva enunciada por Corbin e colaboradores: a história do corpo ―demeure, quoi qu’il en soit, au ‘point frontière’ entre le social et le sujet‖.50
A longa tradição especulativa da historiografia ocidental no século XX sugere o debate sobre o social e o sujeito em termos como ―representação social‖ (da sociologia maussiana e durkheimiana) e ―mentalidades‖ (uma das fases da historiografia francesa,
47 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso, 2004a, p. 38 e ss.
48 Ibid., p. 43, 41 e 3-9
49 Ibid., p. 19.
50 CORBIN, Alain et al., Histoire du corps 1 (Préface), 2005, p. 12.
com nomes como Le Goff e Duby). Num ensaio de teoria da história pela análise desses aportes e outros, Ricoeur aponta para a polissemia de funções que assumem as
―representações‖ para uma ―operação histórica‖ tendo em vista o universo das práticas sociais. De acordo com a síntese que Ricoeur oferece para a questão da ―representação-objeto‖ – que é um dos problemas fundamentais que reter no ofício historiográfico –, haveria três sentidos importantes de relação do social com os sujeitos históricos. Ainda que reticente da inflação do conceito de representação, Ricoeur aponta sua função
―taxinomique‖: se dá ao serem reveladas práticas ―régissant les liens d´appartenance à des lieux, des territoires, des fragments de l´espace social, des communautés d´affiliation‖; já a função ―régulatrice‖ confere ―la mesure d´appréciation, d´estimation des schèmes et valeurs socialement partagés, en même temps qu´elle dessinerait les lignes de fracture qui consacrent la fragilité des allégeances multiples des agents sociaux‖.
Ricoeur aponta ainda para uma dimensão mais ampla da ideia de ―representação‖:
―elle désignerait les trajets multiples du travail de reconnaissance de chacun à chacun et de chacun à tous ; elle rejoindrait alors la notion de ‘visions du monde’ qui, après tout, figure parmi les antécédents de l´idée de ‘mentalité’ ‖.51
Toma especial valor essa última apreensão de usos historiográficos da
―representação‖ ao acentuarmos as categorias e identificações de ―índios‖ e ―espanhóis‖ no Novo Mundo. Sigamos, então, por breve avaliação dos pensamentos de ―alteridade‖ que podem refletir nesta análise sobre ideias e opções de dieta (ou pelo motivo de dieta) na época da invasão espanhola nas terras dos índios.
A construção da diferença cultural como subordinação social na conquista e colonização talvez não possa ter outra baliza maior que a anteposição entre sentidos de
―barbárie‖ nos usos e costumes dos infiéis diante da ―civilidade‖ cristã europeia, como acentua categórica a obra de Pagden.52 Embora não possamos reter nesses imãs de identificação do superior e do inferior, uma ideia de oposição simplória ou essencialista nas representações sociais que identificam corpos índios e espanhóis.
A proposta de ―visão do outro‖ (em Todorov) segue útil para notarmos pensamentos (ou sentimentos) tanto de desconhecimento e de reconhecimento do valor do índio, ou seja, notar, nalguma medida, o que a diferença entre as culturas humanas pode gerar na consciência dos chamados conquistadores.53
51 RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire, l’oubli, 2000, p. 294.
52 Cfr. PAGDEN, Anthony. The fall of natural man, 1982.
53 TODOROV, Tzvetan. A conquista da América, 1988.
De toda forma, basicamente o que encontramos nos discursos e representações literárias, como Todorov já havia apontado, é uma retórica sobre o outro que remete à constituição de si mesmo. Embora lidemos constantemente com visões do homem e da natureza americanos, estas imagens podem aproximar-nos muito mais de práticas e de construção de identidades daqueles que emitem o juízo sobre o outro, um processo de subordinação social que já ocorre pela lógica de uma língua que fala das outras, como realça Hartog.54
Numa abordagem psicossocial das operações de alteridade e identidade, Jodelet concebe que na mente humana ―se fonde une opposition conceptuelle essentielle: celle de l’identique et du différent qui se développe dans une série d’oppositions entre des valeurs concrètes et abstraites‖, dentro do princípio ―d’une logique sociale (...) mise en œuvre pour donner sens à toute expérience humaine‖.55
Entrementes, antes de o sujeito julgar uma cultura entre costumes bons e maus (como se fosse uma segunda natureza), as expressões advindas do outro são retidas como peculiar natureza em si diferente. Mas ao lado do que esses aspectos podem representar como alteridade extrema e mesmo além da ―ambivalência‖ no julgamento do outro, existe uma ―ambiguidade‖ nos mecanismos de percepção da identidade humana em diversas formas de filiação social, cultural, econômica. Ela não é ―intégralement réductible ni à elle-même ni à autrui‖. Pode haver a negação da identidade própria ou da própria alteridade, segundo essas aproximações do antropólogo Augé.56
Junto a tais ideias sobre os mecanismos de afirmação, influência ou contestação dos hábitos nas relações entre os sujeitos históricos, coloquemos o poder da representação e do discurso num ambiente específico. Que perspectivas socioculturais e políticas podemos notar na cisão e reunião entre duas grandes ―nações‖ do Novo Mundo?