3. MARCO TEÓRICO
3.1 A DUBDH E SEU VALOR COMO INSTRUMENTO NORMATIVO
A aclamação da DUBDH foi antecedida por dois referenciais internacionais que também aludiam à bioética e os direitos humanos como núcleo fundamental das atividades científicas e tecnológicas, particularmente nos tópicos especializados da genômica e genética. Estes documentos foram considerados no preâmbulo da DUBDH.
Em 1997, a Conferência Geral adotou a Declaração Universal do Genoma Humano e os Direitos Humanos, onde foi balizado o princípio do respeito à dignidade humana, como um valor universal. Por sua vez, em 2003 foi
proclamada a Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos, estabelecendo princípios associados à coleção, tratamento, conservação e utilização dos dados genéticos humanos; o documento também objetiva garantir o respeito à dignidade humana. Além, o International Bioethics Commitee (IBC), publicou diversos relatórios sobre campos da bioética como ética e neurociências, células-tronco embrionárias, ética e propriedade intelectual, entre outros temas. Neste sentido, o interesse da UNESCO no desenvolvimento da bioética, não é novo (160).
O valor deste documento proclamado no marco da 33ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO em outubro de 2005 observa-se desde o seu preâmbulo. É conveniente resgatar dois aspectos principalmente; primeiro é reconhecido que a saúde é dependente da integração de múltiplos fatores como os resultados dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos, os fatores psico- sociais e culturais. Por outro lado, reconhece-se o impacto das questões éticas da medicina, ciências da vida e tecnologias associadas em diferentes níveis que englobam desde o indivíduo até a humanidade como um todo. Tal como corroborado por previamente por Beyrer e Kass, em 2002, todos os elementos do processo de revisão ética de um protocolo, podem-se afetar pelo contexto político e pelos antecedentes relacionados com os direitos humanos, do cenário onde a pesquisa for executada (161).
Portanto, observa-se que a partir destas premissas expostas no preâmbulo da Declaração, é adotada a concepção da bioética assentada no referencial dos direitos humanos, recuperando os horizontes de atuação da disciplina, com caráter crítico. Deste modo é evidente, a contribuição da perspectiva preconizada a partir da bioética latino-americana.
A UNESCO adotou a identificação de valores compartilhados e a afirmação de princípios universais, visando orientar aos Estados membros que adolescem de instrumentos normativos adequados para lidar com os dilemas bioéticos, considerando a diversidade cultural de cada sociedade. Em efeito, a DUBDH reconhece o respeito pela diversidade cultural e pelo pluralismo, como um dos seus princípios, avançando além dos tópicos biomédicos e biotecnológicos; igualmente a visibilidade dada às temáticas relacionadas com as gerações futuras, o meio ambiente e a biodiversidade, denota a ampliação do escopo de bioética neste documento, permitindo um aprofundamento das
deliberações e resgatando o sentido da disciplina conferido inicialmente por Potter (160).
Nessa linha, convém destacar que no processo de concepção da DUBDH, foram consideradas as implicações do progresso científico e tecnológico nas mudanças próprias da medicina e das ciências da vida, que por sua vez, repercutem no âmbito da saúde pública e da sociedade em geral, gerando novos dilemas bioéticos, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países não desenvolvidos; de fato o processo de redação da Declaração, foi demarcado pela discussão entre países ricos e pobres sobre a inclusão de questões sociais, políticas e econômicas no campo de reflexão da bioética. Portanto, é defendido que a bioética precisa de uma aproximação de natureza global, tal como é dirigida atualmente a pesquisa pelas indústrias farmacêuticas transnacionais (56), (160).
Neste sentido, a proclamação da DUBDH, é um passo importante na busca de standards globais em bioética. O grande mérito deste instrumento é reunir os princípios éticos e incorporá-los ao marco dos direitos humanos, fornecendo assessoria aos Estados na promoção da responsabilidade na
pesquisa biomédica e na prática clínica. Ainda, ressalta-se que o valor deste
instrumento normativo, também está representado em que constitui-se no primeiro instrumento de caráter legal que lida com a relação entre bioética e direitos humanos (160).
Tendo demarcada a adoção da perspectiva de uma bioética fundamentada nos direitos humanos, a DUBDH torna-se no instrumento normativo ideal para representar esta perspectiva. É necessário lembrar que Colômbia é um país onde a pesquisa de caráter nacional e internacional é articulada ao desenvolvimento social e econômico, portanto é dada especial promoção às atividades que denotem progresso científico e tecnológico; no entanto, o país é detentor de uma grande diversidade cultural, pluralismo e biodiversidade, onde ainda prevalecem questões sociais prementes a serem solucionadas. Neste contexto, a DUBDH facilitará a abordagem destas questões que indubitavelmente estão repercutindo no desenvolvimento ético da ciência e da tecnologia na Colômbia.
Por outro lado, é imprescindível destacar as ações que estão sendo exercidas com vistas a fornecer pontos de reflexão, no que diz respeito aos
princípios da DUBDH –estratégias que contribuem com o seu valor normativo-. Como parte do programa de trabalho 2014-2015 do IBC, foi publicada a nota conceito sobre o Artigo 15 da DUBDH - compartilhamento de benefícios-, dentro do contexto da produção do conhecimento das ciências da vida, deste modo, o artigo estaria associado ao Artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos –direito a compartilhar os avanços científicos e seus benefícios- e ao Artigo 15 do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – direito a desfrutar dos benefícios do progresso científico e suas aplicações- (162).
Neste documento foi solicitado aos Estados membros do Intergovernmental Bioethics Commitee (IGBC) e do United Nations Interagency Commitee on Bioethics (UNIACB), a submissão de sugestões sobre possíveis lacunas e/ou necessidade políticas relacionadas com o Artigo 15, igualmente são expostos potenciais pontos de reflexão sobre o conteúdo e alcances para a aplicabilidade deste princípio. Essas sugestões serão consideradas pelo IBC durante 2014 e 2015 (162).