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1.2 Tradição e criação ou garatuja genealógica de orgias clownescas

1.2.4 A dupla de palhaços Clown Branco e Augusto

No final do século XVIII, surgiu no circo moderno europeu a dupla de palhaços “Clown Branco e Augusto”. Até então, os palhaços do circo moderno atuavam solitários ou em várias conjunções, com grande diversidade de modos de caracterização e atuação, sem deterem-se em categorias fixas de tipos de palhaços (como o caso da Commedia italiana). A dupla se definiu a partir dos palhaços Foottit (Tudor Hall58, 1864-1921) e Chocolat (Rafael Padilla59, 1868-1917) que atuavam no circo parisiense Hippodrome Du Champ de Mars, em 1894, tendo sido parceiros regulares de 1890 a 1910.

O Clown Branco (Foottit) atuava como um tipo autoritário e despótico no jogo e na relação com o Augusto (Chocolat), dando-lhe bofetadas e chutes ao bel-prazer, fazendo-o de serviçal, repreendendo-o, corrigindo-o e tratando-o com malvadeza, esperteza e malícia, sempre tentando redimi-lo e ludibriá-lo por artimanhas e pretensa superioridade intelectual. Já o Augusto apresentava-se como figura estúpida, crédula e inapta, sempre atrapalhado, sem conseguir realizar as coisas de forma eficiente e correta (Cf. FABBRI; SALLÉE, 1982, p. 182). Na orquestração desse jogo baseado em conflitos, hierarquias, disputas, especialmente no autoritarismo e na superioridade do Branco em relação à inaptidão, inferioridade e ingenuidade do Augusto, para o sucesso da produção e do efeito cômico, há de se considerar a presença de um traço arraigado da sociedade da época: o racismo colonial europeu e a relação do senhor

58 Tudor Hall nasceu em Manchester (Inglaterra), descendia de família circense, onde recebeu formação em arte equestre,

acrobacias, música e palhaçaria. Seu pai era palhaço e teve seu próprio circo itinerante, onde Foottit estreou como réplica miniatura do pai, aos três anos de idade. Em 1886, Foottit se tornou famoso por sua entrada clownesca que era uma paródia de uma equilibrista em evoluções virtuosas sobre o dorso de um cavalo.

59 Rafael Padilha foi um dos primeiros artistas negros do circo europeu, nascido na condição de escravo em Havana (Cuba),

vendido ainda criança para um rico comerciante espanhol em Bilbao, de onde fugiu quando jovem. Para sobreviver, além de prestar vários serviços, fazia exibições de dança e alongamento nos halls dos cafés, onde foi visto, quando tinha 16 anos, pelo palhaço Tony Grice. Grice encantou-se com Rafael e o convidou para tornar-se seu aprendiz de palhaço e vir a atuar como seu

partner, em troca de moradia, alimentação e um pequeno salário. Além de atuar como partner, Rafael também era serviçal na

casa de família de Grice. A dupla de palhaços Grice e Chocolat acabou por atuar no Cirque Nouveau, onde Foottit também era palhaço. Foottit interessou-se pela figura e potencial cômicos de Chocolat, especialmente diante de acontecimentos fora de cena, em que ele presenciou as reações de Rafael quando era repreendido e maltratado por Grice, vendo graça nas situações de desgraça do colega palhaço.

(branco) e do escravo (negro). Visto que, o palhaço Chocolat (Augusto) era um ator negro e “chocolat” era um insulto racial dirigido aos negros, o que soava como divertido ao público dos tempos coloniais.

Figura 1: Footit e Chocolat: 1) Fonte:<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f4/Footit_and_Chocolat.jpg> e 2)

Fonte: <http://www.circopedia.org/File:Foottit_and_Chocolat.jpeg>.

Chocolat e Footit60 tornaram-se uma dupla de grande sucesso no Cirque Nouveau de Paris, em que os tipos cômicos do “Clown Branco e do Augusto” foram cada vez mais sendo definidos, pautados em um jogo agressivo e violento dentro de uma atmosfera lúdica e hilária, cheia de trapaças, conflitos, crueldade, atrapalhação e dificuldade em fazer as coisas. O desacerto entre a dupla era evidenciado, mas, especialmente, sobrepunha-se um forte elo de complementaridades díspares.

O Clown Branco teve seu apogeu com Antonet (1872-1935), que realizava um jogo ainda mais agressivo, abusivo e autoritário em relação ao Augusto. Antonet era Umberto Guillaume, um italiano, que primeiramente foi palhaço Augusto em uma dupla com o irmão, e depois passou a atuar, sozinho e com outros parceiros, como “Auguste de Soirée61” em circos. Antonet desenvolveu e definiu seu papel de “Clown Branco” ao associar-se ao palhaço Little Walter (Alexandre Urich, 1879- 1937) como Augusto, com quem formou uma dupla de sucesso por vários anos. Os parceiros de Antonet obtinham enorme simpatia e consagração com o público, como o palhaço suíço Grock62 (1880-1959) , também se separou dele e seguiu sua

60 Cf. filme “Chocolate” (2016) de Roschdy Zem, ficção que trata da dupla acima referida, inspirada em fatos históricos, com

o excelente palhaço contemporâneo James Thiérrée (sobrinho de Chaplin) no papel de Footit e Omar Sy no papel de Chocolat.

61 Também conhecido como Tony de Soirée, palhaço que no circo realiza números, enquanto são feitas montagens e preparações

na pista entre uma e outra atração. Deve ser um artista completo, sempre em prontidão para entrar em cena a qualquer momento, devido algum imprevisto, acidente ou desarranjo do espetáculo (Cf. GUINSBURG, 2006, p. 290).

carreira de palhaço, vindo a realizar espetáculos solos e com outros parceiros, tornando-se um dos palhaços mais brilhantes e admirados do mundo. Depois de Antonet a figura tradicional do

Clown Branco do circo moderno europeu entra em declínio.

É atribuído aos Zanni da Commedia dell’arte um possível papel precursor desta dupla de palhaços, a partir dos servos que geralmente atuavam em dupla: o Arlequim e o Briguela (ou Pulcinella). Briguela e Pulcinella apresentam os traços do servo esperto, ardiloso, cagueta e trapaceiro, estando em uma zona intermediária entre os patrões e empregados, sempre movido por interesses próprios, mas quase sempre se dando mal. Arlequim era o crédulo, idiota, tonto, executor dos ardis dos servos espertos e dos patrões. Porém, ele faz tudo de forma errada e atrapalhada, desvia-se das tarefas e ordens por qualquer pedaço de comida, diversão ou transa. Em relação a dupla de servos, o Clown Branco é associado aos servos espertos e ardilosos, porém com maior representatividade de poder e ordem, na relação contra pontual com o Augusto, associado ao Arlequim.

Conforme Remy (2016), primeiramente o Clown Branco atuava no circo com o Mestre de Pista63, sendo o Augusto uma espécie de sucessor desta figura, porém, em inversão de papéis e funções.

Em pouco tempo, o augusto não tem mais nada para aprender com o clown, com quem ele divide as farsas, as alegrias da criação, os contratos, os sucessos e os fracassos. Ele se impõe tão fortemente que o clown, deixado para trás pelo augusto, deve ceder- lhe o lugar de bufão e tomar posição daquele que comanda o jogo; daí em diante, sua única função é valorizar o augusto, como antes o diretor de picadeiro fazia com o

clown (REMY, 2016, p. 25).

Assim, o Augusto64 acaba por conquistar o protagonismo cômico na cena e o apreço do público. Na mesma linha de análise que Remy (op. cit.), Fo (2004, p. 208 et p.215) trata o

Clown Branco (speaker, Branco ou Louis) como sendo essencialmente um Escada do palhaço

63O Mestre de Pista ou de cerimônias tem o papel de condução, comando e orquestração do espetáculo circense, um “diretor-

em-cena” (CASTRO, 2005, p. 61), ele apresenta as atrações circenses, suas falas pontuam, chamam a atenção, evidenciam o clímax, criam tempo dramático e suspense, dão ritmo às atrações apresentadas, sendo capaz de improvisar diante de imprevistos reordenando o espetáculo. Algumas vezes, o próprio dono ou diretor do circo é quem desempenha essa função. O Mestre de Pista é considerado a maior autoridade no picadeiro. Tradicionalmente, apresenta-se com um traje nobre – um desdobramento das figuras militares e aristocráticas da cavalaria dos primórdios do circo equestre ou de cavalinhos, especialmente do domador e diretor dos números equestres (BOLOGNESI, 2003, p. 68).

64 Há uma anedota do surgimento do palhaço “Augusto”, propagada como um fato ocorrido, atribuída ao inglês Tom Belling,

acrobata equestre do Circo Renz, em Berlim, no ano de 1869 (Cf. TOWSEN, 1976, p. 208). Belling teria sido afastado da pista, como punição do diretor do circo, por ter falhado na execução de uma manobra acrobática fácil, caindo do cavalo e se machucado durante seu número equestre de demonstração de habilidades. Confinado aos camarins, sem poder se apresentar, um dia, Belling vestiu roupas estapafúrdias, mesclando figurinos, para divertir seus colegas nos bastidores. O diretor do circo, ao vê-lo naqueles trajes ridículos, se entusiasmou com a figura inusitada e ordenou que Belling entrasse imediatamente em cena montando um cavalo. Assustado com a autoridade e a ordem do diretor, sem entender nada, Belling foi empurrado por ele para dentro da pista, onde acabou caindo e batendo com o rosto no chão, o que causou o riso do público. Ao levantar-se estonteado, um espectador chama Belling de “August!”, que significava “estúpido” na gíria berlinense da época. Belling olha indignado para o espectador, sentindo-se ofendido com a chacota, o que causou mais risos na plateia. Então, as pessoas em coro começaram a provocá-lo, chamando-o de “August! August!”. Belling sai correndo da pista, fugindo atrapalhado e acaba caindo mais uma vez. Mais risos da plateia. Também pelas quedas, Belling teria batido com o nariz no chão que ficou inchado e avermelhado – o que seria um dos motivos para o uso posterior da pequena máscara redonda e vermelha do nariz de palhaço.

Augusto, ou seja, como um partner “de apoio” ao protagonista, o cômico principal, que afinal é quem faz rir.

O Clown Branco se caracteriza como um tipo pretensamente superior, mais bem- sucedido, com maior inteligência e razoabilidade do que o Augusto. Já o Augusto apresenta-se como um “marginal” – sempre à margem, uma figura torpe, de inteligência limitada, ingênuo, inepto, não sabe ou não entende bem as coisas, desajustado ou avesso aos padrões e às ordenações dadas. No entanto, a partir desses defeitos, o Augusto acaba expressando um modo de ser que envolvem interações e interpretações particulares do mundo, calcadas na fantasia, no absurdo, nos impulsos e premência do corpo e na ludicidade infantil, para a produção de comicidade. Para Fellini (1986, p. 106-107), o clown Branco está ao lado das formas moralistas, da repressão, do dever, das situações ideais, das verdades únicas, das divindades indiscutíveis, e o Augusto “é a criança que faz sujeira, se revolta ante tanta pretensa perfeição, se embebeda, rola no chão e na alma, numa rebeldia perpétua”.

Nesse sentido, o Augusto é remetido à criança e ao animal pela manifestação desenfreada dos instintos e impulsos do corpo, com ações genuínas e desenfreadas regidas pelos desejos e necessidades básicas, em um estado lúdico de experimentação e irracionalidade. Ainda, outras figuras são relacionadas ao Augusto, tais como: o bêbado, o vagabundo, o empregado de baixa hierarquia, o desempregado, o miserável, o faminto, o sem-posses e o louco. Sem bens materiais, morais ou qualquer honra ou propriedade a zelar, o Augusto possui a liberdade de ser tudo e nada, vir-a-ser e brincar com o que lhe aprouver, se contrapondo de forma inocente, lúdica e cômica com as ordenações morais, sociais e seus respectivos representantes e figuras de poder.

Conforme explana Bolognesi (2003), o surgimento do palhaço Augusto na Europa, ocorre durante o período da Revolução Industrial, em que houve uma grande migração de campesinos para as cidades, que acabavam sendo explorados e mal renumerados em fábricas, ou desempregados pelas ruas em situação de fome e marginalidade. Em sua caracterização, a figura do Augusto apresenta um corte social de classe, expressa a exclusão dos padrões e sistemas sociais, também, o confronto com a ordem, o poder e o sistema instituídos. Contraditoriamente, apresenta-se como portador da alegria, liberdade e potência daquele que estando à margem, se vira e encontra outras saídas e modos de existência, com uma visão particular de mundo. Segundo Bolognesi (2003, p. 77-78), a partir de 1880, “o Augusto se impôs como estilização da miséria, em meio a um ambiente social que prometia sua erradicação (...). O Branco seria a voz da ordem e o Augusto, o marginal, aquele que não se encaixa no progresso, na máquina e no macacão do operário industrial”.

O Clown Branco acaba sendo relacionado às figuras de poder, opressão, repressão, mando, ordem, cobrança e superioridade vigentes na sociedade. Portanto, o público, que em grande maioria vive aspectos da condição do Augusto, se regozija em ver a caricatura, a estupidez e o fracasso do Branco, assim como, as peripécias, liberdades e transgressões do Augusto em relação àquele. Desse modo, a dupla acaba por conter traços de caricaturização de relações e tipos sociais, que muitas vezes acabam sendo subvertidas, por exemplo, quando o Augusto dá a volta por cima e acaba se saindo bem, como vencedor do jogo com o clown Branco, com saídas surpreendentes, traquinagens, incompreensão e inocência.

Ao fim, ambos são enganadores e enganados, vencedores e vencidos, em um espelho torpe e poético que mostra limitações, fragilidades, erros, imperfeições e pretensões do ser humano sobre a ótica do riso e da brincadeira. Na interpretação de Fellini (1986, p. 106-107), os palhaços da dupla “encarnam um mito que está dentro de cada um de nós – a reconciliação dos opostos, a unidade do ser”, ainda, a eterna contraposição e complementaridade de opostos “o macho e a fêmea, o animal e o homem, o velho e a criança, o yin e o yang”. O conflito, a tensão, o contraste e a disparidade são aspectos que constituem o próprio elo e a interdependência da dupla Clown Branco e Augusto, o jogo e o desenvolvimento da cena, assim como, a caracterização de cada tipo – em que o Branco assim o é e se afirma em relação ao Augusto, e vice-versa.

Por meio de análise da dupla, do jogo e das entradas tradicionais dos palhaços Branco e Augusto, podemos extrair e evidenciar princípios e procedimentos que se estendem aos vários planos da composição clownesca (encenação, dramaturgia do palhaço, produção de comicidade, etc.), tais como: a) jogo, tensão e complementaridade entre características contrastantes e oposições; b) presença de conflitos, problemas e obstáculos em um plano cômico e lúdico; c) hierarquia de papéis e funções; d) desenvolvimento das ações entre harmonia e desarmonia, ordem e caos, erro e êxito, fantasia e realidade; e) ruptura, deformação, falha, desordem, divergência, acidente, subversão e contraste em relação à ordem, ao bom funcionamento das coisas, aos comportamentos, lógicas, valores assentes e majoritários, através do lúdico, da paródia e do humor.

A primeira configuração inovadora e de grande destaque de um trio de palhaços no circo foi a dos irmãos franceses “Fratellini”, com Paul (Augusto, 1877-1940), François (Clown Branco, 1879-1951) e Albert (Contre-pître, 1866-1961), nascidos em família de tradição circense. Seguindo o ofício da família, a neta de Paul, Annie Fratellini (1932-1997) foi a primeira mulher a atuar como palhaço Augusto (travestida de palhaço homem) na história do

circo. Ela fazia dupla com seu marido que atuava como Clown Branco (Pierre Etaix, 1928- 2016), e com ele também fundou a Ecole Nationale de Cirque (1972) na França, em atividade.

Nos trios é comum a presença dos palhaços Branco, Augusto e Contre-pître (ou contra- palhaço), isto é, uma espécie de “Augusto do Augusto” – um segundo Augusto ainda mais tolo, que não entende nada e provoca muitas trapalhadas. O palhaço que se destaca (protagonista ou palhaço principal) como aquele que mais faz rir é denominado como o Augusto do trio.

Cabe ressaltar que a imagem mais comum do palhaço, com peruca e roupas coloridas (cheias de xadrezes, listras e bolas), sapatões e maquiagem carregada (às vezes, com uma bocarra em forma de sorriso estático) é procedente do circo norte-americano. Tal imagem de palhaço foi inicialmente propagada por cartazes de divulgação dos espetáculos do circo norte- americano, com ilustrações de seus palhaços, especialmente de Lou Jacobs. Lou Jacobs (1903- 1992), nascido na Alemanha, obteve enorme sucesso atuando no circo “Ringling Bros and

Barnum & Bailey Circus”, quando sua figura se tornou a ilustração principal dos tradicionais

cartazes, vindo a ser reproduzida pelos palhaços do mundo todo.

Jacobs criou sua maquiagem inspirando-se na maquiagem do palhaço francês Albert Fratellini, do famoso trio “Irmãos Fratellini”, tornando-a ainda mais excessiva, com um prolongamento falso na cabeça, onde punha um pequeno chapéu, aumentando a amplitude de sua máscara clownesca. Albert Fratellini (1886-1961) usava a máscara do nariz vermelho e criou uma maquiagem inumana, excessiva, monstruosa, também como seu figurino, o que destoava dos figurinos utilizados pelos palhaços augustos do circo europeu até então (Cf. FABBRI; SALLÉE, 1982, p. 122-126). Através dos palhaços americanos se propaga esse tipo de caracterização que se tornou emblemática e recorrente.

Figura 2: 1) Albert Fratellini, fonte:<http://images.delcampe.com/img_large/auction/000/098/766/019_001.jpg>; 2) Cartaz do

circo Ringling Bros and Barnum & Bailey Circus com o palhaço Lou Jacobs, fonte: <http://famousclowns.org/wp- content/uploads/2013/01/lou-jacobs-ringling-poster.jpg>

No decorrer do tempo, a dupla clássica “Clown Branco e Augusto” que perdurou no circo até o século XX, foi tomando outras configurações, transformando-se de modo dinâmico e criativo, perpassando diversas concepções, poéticas e estéticas da arte do palhaço. No cinema, por exemplo, Oliver Hardy e Stan Laurel (Gordo e Magro) apresentam um arranjo bastante singular e próprio da dupla cômica e das funções do Branco (Gordo) e do Augusto (Magro).

No campo teatral da palhaçaria é possível observarmos múltiplos rearranjos, adaptações e transformações em torno dos tipos e funções do Branco e Augusto. O palhaço Branco se tornou raro na palhaçaria contemporânea, havendo uma proeminência e abundância de palhaços Augustos que passam a atuar em solo, duplas, trios e outras conjunções. Sendo assim, a maioria dos palhaços atuais possuem caracterizações e modos de atuação correspondentes ao tipo Augusto do circo.

Na cena brasileira contemporânea, poucos palhaços atuam no registro do Branco, destacando-se as palhaças mulheres Brancas, dentre elas: Elizabete The Queen (Bete Dorgam, SP), Mafalda-Mafalda (Andreia Macera, SP) e Margarida (Adelvane Néia, PR).

Na tradição da palhaçaria brasileira no circo, o palhaço é nominado como Augusto, Tony ou Excêntrico. Silva (2003, p. 182) em seu estudo sobre a teatralidade circense, coloca que Augusto ou Tony no circo brasileiro é o “personagem maltrapilho, ao mesmo tempo ingênuo e astuto, não sendo raro que seu nome viesse acompanhado do adjetivo ‘imbecil’”.

Bolognesi (2003, p. 91 et 97) em sua pesquisa sobre os palhaços do circo brasileiro, na década de 1990, não encontrou algum Clown Branco em atividade na cena circense, o que ocorrera nos primórdios do circo no Brasil, influenciado pelos modelos do circo moderno europeu. Geralmente, a figura do apresentador do circo ou Mestre de Pista pode realizar uma função similar ao do Clown Branco no jogo com o palhaço Augusto, realizando o papel de contraponto, contraste e “Escada65” para o desenvolvimento do jogo cômico do palhaço.