2.2 O trágico para além de “O Nascimento da tragédia”
2.2.1 Impulsos artísticos: dionisíaco-e-apolíneo
Em NT, o filósofo descobre o “fenômeno maravilhoso do dionisíaco” (NIETZSCHE, 2003, p. 84)inaugurando a análise do enfrentamento dos impulsos artísticos e da natureza: o dionisíaco e o apolíneo. Uma composição bifronte e paradoxal que se põe em ação em seu estudo da tragédia grega e da concepção do fenômeno do trágico.
O dionisíaco e o apolíneo são forças plásticas e estéticas de composição em permanente jogo agonístico132 de criação. Nietzsche apresenta esta antítese de forças plásticas ou impulsos artísticos como geradoras da tragédia ática – expressão artística e sintoma da vontade de potência dos gregos da época clássica.
As divindades da arte, Apolo e Dionísio, em suas múltiplas oposições e diferenças, são articuladas enquanto tensões complementares, tomadas em suas qualidades e princípios míticos como forças da criação e do vir-a-ser, como co-presenças na gênese do mito trágico.
Apolo-e-Dionísio: sonho-e-embriaguez, formas-e-forças, física-e-metafísica, finito-e- infinito, razão-e-loucura, cidadão-e-estrangeiro, conhecido-e-desconhecido, sagrado-e- profano, divino-e-bestial, contemplação-e-êxtase, distanciamento-e-entusiasmo, consciência-e- inconsciência, resplandecência-e-obscuridade, configuração-e-caos, beleza-e-terror, medida-e- desmedida, exterioridade-e-interioridade, configuração-e-devir, máscara-e-multiplicidade.
130 “[...] há valores eternamente novos, eternamente intempestivos, sempre contemporâneos de sua criação e que, mesmo quando
parecem reconhecidos, assimilados em aparência por uma sociedade, dirigem-se de fato a outras forças e solicitam nessa mesma sociedade potências anárquicas de outra natureza. Somente esses valores novos são trans-históricos, supra-históricos, e dão testemunho de um caos genial, desordem criadora irredutível a toda ordem” (DELEUZE, 2006, p.165).
131 “Superar em si seu tempo, tornar-se ‘atemporal’. Logo, contra o que deve travar o mais duro combate? Contra aquilo que o
faz filho do seu tempo” (NIETZSCHE, 1999a, Caso Wagner, prólogo).
Em NT, Nietzsche desenvolve uma reflexão estética acerca da origem da tragédia a partir do espírito da música, sendo esta a expressão artística mais associada à manifestação e à representação do dionisíaco (tratado aí como o não figurado, o ilimitado universal, espécie de reflexo ou emanação diretos da imanência – um fundo originário dionisíaco).
Apolo corresponde ao princípio de individuação133, à criação de individualidades através da configuração, do dar a ver (thêatron134), da consistência da forma e da aparência. Sendo correlato à configuração formal, organizada e expressiva, por exemplo, de uma personagem ou obra artística, o impulso apolíneo é o que vai em direção ao dar forma, configurar, organizar.
O apolíneo constitui o meio e as condições formais para a manifestação das potências dionisíacas e selvagens que emanam de um fundo vital originário – tratado por Nietzsche como, o uno primordial, “mães do ser”, “coração das coisas” (NIETZSCHE, 1992, p. 97 et 100). Segundo Nietzsche (idem, p. 130): “Dionísio fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, ao fim fala a linguagem de Dionísio: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia grega e da arte em geral”. Assim, apresenta-se uma reconciliação de impulsos díspares que fundam uma espécie de princípio estrutural da arte.
Neste sentido, pelas formas, códigos, convenções e estruturas artísticas que constituem a tragédia grega (e a arte em geral) – quem fala e se expressa é Dionísio, através da composição formal e da configuração apolíneas se expressam as potências dionisíacas, imanentes e incorporais. Através do jogo das tensões complementares e antitéticas– o dionisíaco e o apolíneo – em permanente arranjo, podemos pensar a composição artística como composto intricado de dinâmicas de formas-e-forças. Porém, sem reduzir o dionisíaco às forças e o apolíneo às formas, pois ambos são impulsos múltiplos que cooperam e disputam para a criação e a configuração artística. O dionisíaco implica formas e forças múltiplas de expressão, assim como, o apolíneo. Para Nietzsche, a tragédia grega em sua configuração e forma de expressão, antes de Eurípedes135, chegou a um ápice artístico pela dinâmica equilibrada entre os impulsos artísticos e naturais: dionisíacos e apolíneos. Tais impulsos parecem ser simplesmente contrários, porém, são dinamicamente cooperacionais, complementares e paradoxais. Assim,
133 “Principium indivituationis – apropriação de Nietzsche da expressão que Schopenhauer retirou das escolásticas para
caracterizar o espaço e o tempo como condições formais do objeto” – Cf. MACHADO, 2006, p. 206.
134 Thêatron - lugar de ver.
135 Segundo Nietzsche, Eurípedes (autor de referência da tragédia grega clássica, antecedido por Ésquilo e Sófocles), é
responsável pelo fim da tragédia, devido ao caráter socrático (pautado na lógica e na razão) que este concedeu à tragédia. Por exemplo, com a redução dos traços do herói universal ao indivíduo comum e a suplantação do consolo metafísico da tragédia pela solução deus ex machina – Cf. NIETZSCHE, 1992, p. 106-107.
Dionísio não nega Apolo e Apolo não nega Dionísio – atuam juntos, como aliados e oponentes, como impulsos agonísticos de criação e composição.
No estudo da filosofia do trágico na história, Szondi (2004) coloca que o sentido do trágico, em geral, se funda na unidade dialética de duas forças – uma negativa e outra positiva. Nesta tendência, Machado (2006) contextualiza o NT como uma obra concernente à tradição da filosofia do trágico, no final do século XVIII, na Alemanha, que se caracteriza por pensar o trágico como dualidade de princípios metafísicos ou ontológicos, como produto de oposição de princípios136. Em Nietzsche, na relação entre os impulsos apolíneo e dionisíaco não há uma dialética da negação, pautada em pares binários, em que uma parte necessariamente nega a outra para positivar-se. Visto que, como observa Machado (2006), em o NT há uma produção e oposição de princípios metafísicos ou ontológicos, o apolíneo e o dionisíaco, sem que um seja positivo e o outro negativo.
Nietzsche refuta a dialética de negação fundamentada em identidades e verdades atreladas à moral, à construção de juízos de valor sobre o que é “bom”, “belo”, “verdadeiro”, “positivo”, em negação e detrimento do que se diferencia de um esquadro modelar que define e regula a “identidade” (pela lógica da semelhança e do que é valorado como “bom”, “certo” ou “verdadeiro”). Na dialética de negação, o “outro” ou a outra parte do par binário e dialético é negativada, como algo mau, desviante, errado e de menos-valia a ser combatido.
Em Nietzsche não há uma dialética de negação. Por exemplo, os impulsos apolíneos e dionisíacos, enquanto forças díspares e diferentes, se dão em uma relação paradoxal, complementar e criativa. Mesmo que Nietzsche acabe por evidenciar a necessidade de um retorno e de um levante das forças dionisíacas – o que é consonante com a sua crítica à hipertrofia da razão, à soberba da ciência, à criação de verdades e ideais transcendentes que pretendem tudo explicar e definir.
Nietzsche volta à Grécia, para tempos ainda mais remotos do que o da maturidade da tragédia grega, chegando aos ritos arcaicos dionisíacos, para poder convocar no presente a possibilidade de o homem não se afastar dos mistérios e da aventurosa vizinhança com o desconhecido, as vivências e criações míticas, a experiência das intensidades, a sabedoria das paixões, o exercício da lógica da ambiguidade (suplantada pela lógica da identidade).
Rasgando as redomas das crenças e “verdades”, com as quais cremos nos proteger e nos tornar “homens superiores”, questionando nossos artigos de fé, Nietzsche propõe e defende a possibilidade da invenção do conhecimento, da experimentação e da criação com e a favor da
vida e deste mundo; contra o que pode depreciar a vida e diminuir a vontade de potência. Também, o filósofo problematiza a pretensa imutabilidade, a rigidez e a fixação do Ser, o que é ou o que deve ser – enaltecendo o movimento, a transitoriedade e as multiplicidades do constante vir-a-ser. Para tais embates problemáticos, Nietzsche aporta as forças e os sentidos do páthos dionisíaco, trágico e afirmativo, convocando Dionísio como:
[...] um deus-artista completamente inconsiderado e amoral, que no construir como no destruir, no bom como no ruim, quer aperceber-se de seu idêntico prazer e autocracia, que criando mundos, se desembaraça da necessidade da abundância ou superabundância, do sofrimento das contraposições nele apinhadas. [...] o mundo como a eternamente cambiante, eternamente nova visão do ser mais sofredor, mais antitético, mas contraditório, que só na aparência sabe redimir-se [...] (NIETZSCHE, 1992, p. 18, grifo nosso).137
O dionisíaco é o aspecto que constitui a experiência trágica e o saber trágico da vida. Nietzsche aponta a necessidade de uma arte trágica (o que não diz respeito apenas à tragédia grega) que envolva o saber trágico e dionisíaco, um saber aniquilador atrelado à vida. Uma arte trágica que não sucumba ou atenda à ascensão da lógica, dos paradigmas científicos, da razoabilidade e da conformidade serena do homem teórico e do homem científico – pois, deste modo, a arte torna-se socrática e científica, enfim, antitrágica.
Em NT, Sócrates é tornado um personagem conceitual da operação filosófica nietzschiana, considerado um “herói dialético do drama platônico” (NIETZSCHE, 1992, p. 89), representando o homem teórico ou científico, na investidura da supremacia da razão e da lógica, na desvalorização da força do mito e dos mistérios. Assim, na criação e no jogo com personagens conceituais, muitos dos quais antagonistas e antípodas, como Sócrates138, o filósofo discípulo de Dionísio desenvolve sua crítica à ciência e ao otimismo do conhecimento científico em seu afã em tudo saber, definir e dominar. O conhecimento científico é diagnosticado como vontade de corrigir a vida pelo saber e dominar com “verdades” e “leis”, – sendo que estas não passam de ficções, ou seja, criações humanas demasiado humanas.
Machado (2006) analisa que Nietzsche não se denomina um filósofo apolíneo, pois a visão apolínea apresenta os limites da razão, da lógica e da serenidade do homem teórico ou científico que pode aportar um saber meramente “socrático”. Também, porque através da
137 Podemos interpretar “sofrimento” e “sofredor” com a capacidade de sofrer, ou seja, ser afetado e potencializado pelas
paixões (emoções e ações que recebemos e nos tocam, ações que sofremos e padecemos), sem a marca negativa do sofrimento ou de qualquer penúria, descartando qualquer desejo de “sofrer” com tendência masoquista ou autopunitiva. Nesse sentido, o sofrimento não se restringe à dor, ao negativo, danoso ou maléfico. No sentido espinosiano, a potência de um corpo não se mede apenas por sua capacidade de agir (realizar ações – afetar), mas também pela capacidade de sofrer paixões (receber ações – ser afetado), paixões que podem ser alegres ou tristes.
138 Em NT, Sócrates também é o personagem principal da metafísica, assim como, Platão (considerado por Nietzsche como
uma espécie de pré-cristão). Em outras obras, tais como, “Anticristo” e “Ecce Homo”, escritas em 1888, Nietzsche desenvolve a abominação do cristianismo judaico-cristão, considerado como total fraqueza e rebaixamento humanos, em mais uma de suas batalhas estéticas e éticas é Dionísio contra o Crucificado.
configuração apolínea que permite a ilusão e a bela aparência, se dá um encobrimento, o estender um véu de Maia que protege contra o terrível da dor e da morte. Segundo Machado (2006, p. 211): “A Grécia ensinou a Nietzsche [...] que uma cultura apolínea, ao pretender negar o lado sombrio, tenebroso, da vida pela criação da ilusão do indivíduo heroico é impotente contra um saber aniquilador da vida, tal como se manifesta no culto à Dionísio”. Contudo, é importante salientar que em Nietzsche não há oposição dialética entre o apolíneo e o dionisíaco, onde ambos são impulsos agonísticos de criação e complementaridade paradoxal. A efetiva contraposição e diferenciação na filosofia nietzschiana se dá entre o dionisíaco-e-apolíneo e o socratismo (da lógica e do cientificismo teóricos, moralistas e antitrágicos).