Capítulo 1. Fundamentos do governo eletrônico
1.3 A e-participação como elemento da e-democracia
Os pontos de vista apresentados, por vezes controversos, alertam para os cuidados no desenvolvimento de estudos no âmbito da e-democracia e da e-participação. Ambas possuem uma estruturação complexa e que impedem a análise sem considerar outros campos de pesquisa relacionados. Por isso existe uma grande crítica por parte de autores como Grönlund (2011) & Lidén (2013) em indicadores, como o desenvolvido pelas Nações Unidas, que apresentam altas percentagens de e-democracia.
Martins (1997) observa que a responsabilidade pela prática da democracia vai além da participação cidadã e depende da aceitação da própria instituição governamental
Os processos de democratização bem como o sucesso da ação política não dependem, em última análise, de um exercício coletivo da cidadania, mas, antes, da institucionalização dos processos e condições da comunicação. A prática democrática e o exercício da cidadania estão condicionados por limites bem definidos que importa respeitar. Há que reconhecer a autonomia própria dos subsistemas econômicos e políticos-administrativos. (Martins, 1997, p. 91)
De acordo com Kolsaker & Lee-Kelley (2006), dois elementos-chave devem ser considerados para decisões colaborativas entre cidadãos e políticos. Primeiro, os cidadãos devem estar cientes das questões sociais e serem capazes de expressarem suas próprias opiniões, assim serão claramente compreendidos pelos seus representantes no governo. O segundo elemento defendido pelas autoras é relativo ao governo, ele precisa proporcionar a todos informações completas respeitando os níveis e o tempo de entendimento dos membros da sociedade, distribuindo esse conteúdo em diferentes canais de comunicação para que todos possam se expressar e participar do debate (Kosalker & Lee-Kelley, 2006).
As autoras destacam que as condições para o sucesso de práticas democráticas online exigem que ambos (cidadãos e políticos) adquiram novas competências, para que possam fazer uso das diversas ferramentas e possibilidades tecnológicas. Este é um grande esforço e que não deve ser desconsiderado já que a cada dia aumentam os acessos e melhoram as condições para que todos tenham possibilidade de participar da tomada de decisão, por meio da internet.
A participação que envolve cidadãos e governo na criação, votação e deliberação de leis e políticas, segundo Chun, Shulman, Sandoval & Hovy (2010), é um "novo paradigma
que torna o governo mais transparente, responsável socialmente e com maior credibilidade" (Chun et al., 2010, p. 5).
Uma consulta realizada pelo governo do Reino Unido, em 2002, resultou num documento que se baseia na ideia de que a e-democracia subdivide-se em participação eletrônica (e-participação) e votação eletrônica (e-votação). O documento forma a maneira de abordagem da e-democracia como uma oportunidade para o incremento de consultas públicas e o engajamento entre governo e cidadãos (Kingdon, 2002).
Ambas, e-participação e e-votação, significam mecanismos de participação cidadã no governo eletrônico, no entanto, a e-votação alcança maiores níveis de dificuldade por envolver questões técnicas de segurança da informação, uma barreira tecnológica que ainda coloca em dúvida questões como a confiança no governo. Por outro lado, a e- participação, que engloba muitos mecanismos diferentes de envolvimento com o cidadão na tomada de decisão, é mais exercitada também na literatura e se aproxima dos objetivos deste estudo.
Macintosh (2004) nos lembra que, em 2001, a Organisation for Economic Co-operation
and Development (OCDE), publicou um relatório onde definiu alguns estágios para a e-
participação, conforme disposto no Quadro 2.
Quadro 2. Estágios de e-participação, de acordo com OECD, 2001 (tradução livre).
Níveis Definição
e-enabling Proporciona àqueles que não possuem acesso à internet, tirar vantagem da grande quantidade de informação disponível.
e-engaging Preocupa-se em consultar uma audiência mais ampla para possibilitar profundas contribuições e deliberações sobre questões políticas.
e-empowerment Preocupa-se com o apoio de uma participação ativa e facilita ideias de baixo para cima para influenciar a agenda política. Fonte: Macintosh (2004). Characterizing E-Participation in Policy-Making.
Tambouris, Liotas, & Tarabanis (2007), baseado na classificação da International
Association for Public Participation, nomearam os estágios em: e-informing, e-consult, e- involve, e-collaborate e e-empower. O Quadro 3 destaca os conceitos apresentados
Quadro 3. Estágios de e-participação de acordo com Tambouris et al., 2007 (tradução livre).
Níveis Definição
e-informing Possibilita um canal online de uma via que proporciona informações cívicas e políticas aos cidadãos.
e-consult Um canal de duas vias, porém limitado, para coletar feedbacks públicos e alternativos.
e-involve Significa trabalhar online com o público para garantir que as preocupações públicas sejam entendidas e levadas em consideração.
e-collaborate Um canal de duas vias aumentado entre cidadãos e governo, onde os cidadão possuem participação ativa no desenvolvimento de alternativas e na identificação de soluções.
e-empower Facilita a transferência da influência, controle e criação de políticas para o público. Fonte: Tambouris et al., 2007. A Framework for Assessing eParticipation Projects and Tools.
Para Panopoulou, Tambouris & Tarabanis (2014), as fronteiras existentes entre e- participação e e-governo não são bem definidas, já que a participação dos cidadãos é parte das ações estratégicas das iniciativas de e-governo. Sendo assim, a e-participação deve ser incentivada com o objetivo de incrementar as oportunidades de participação dos cidadãos na gestão do local onde vivem (Panopoulou et al., 2014).
Em outras palavras, defende-se que promover a participação dos utilizadores requer mais do que a simples oferta de dispositivos de e-participação: o fortalecimento da participação política é uma tarefa complexa e requer a consideração de uma variedade de atividades, circunstâncias, agências e atores políticos. A cultura cívica, a profundidade dos problemas democráticos e as peculiaridades de cada sociedade são elementos fundamentais que influenciam os padrões de envolvimento dos cidadãos com as instituições do Estado. (Marques, 2010, p. 135)
Com esta abordagem é possível considerar a e-participação como fator propulsor da presença ativa do cidadão na governança digital, influenciando o processo político, a tomada de decisões e a fiscalização dos serviços públicos (Sæbø, Rose & Flak, 2008). A subutilização das ferramentas digitais, a temida diminuição do poder dos políticos e gestores e os altos custos de implementação dos projetos de sistemas de participação, são alguns dos aspetos pessimistas destacados para a não adoção de ações de e- democracia. No entanto, a constante valorização de características técnicas no desenho e desenvolvimento de ferramentas ainda é prioridade e a falta de participação dos cidadãos, para quem tudo isto é endereçado, aumentam as hipóteses de insucesso (Marques, 2010).