A tradição da economia antitruste tem-se apoiado, primordialmente, em uma abordagem de cunho estruturalista para a análise dos mercados e proposição de intervenções. O pressuposto baseado na sequência causal “estrutura-conduta-desempenho” é de que a estrutura do mercado é determinante essencial da conduta empresarial e que esta, por sua vez, possui limitados graus de liberdade para fugir às restrições impostas pela estrutura.
A respeito das estruturas de mercado, podem ser consideradas as observações de Pinheiro e Saddi (2005, p. 54):
O mercado é onde demanda e oferta, consumidores e empresas, compradores e vendedores se encontram. Em princípio, nada muito diferente dos mercados medievais, ou dos mercados municipais, que ainda hoje podem ser encontrados em muitas cidades brasileiras de médio e grande porte.
Na Teoria Neoclássica, a principal função do mercado é determinar os preços, que, por sua vez, são a principal informação com que os agentes econômicos trabalham para tomar suas decisões de consumo e produção. O conjunto de
preços é definido como equilíbrio quando leva a decisões individuais de consumo e produção. [...]
Sob esse aspecto, concorrência não é uma racionalidade otimizadora dos agentes e conjunto de informações para o equilíbrio competitivo, nem mesmo um processo de ajustamento a posições de equilíbrio, com eliminação de lucros anormais. É um processo de interação entre unidades econômicas voltadas à apropriação de lucros e à valorização dos ativos de capital.
A obtenção de lucros não pressupõe nem conduz a algum equilíbrio, por exemplo, a igualação entre taxas de retorno do capital; ao contrário, está relacionada a desequilíbrios oriundos do esforço de diferenciação e criação de vantagens competitivas pelas empresas, que se esforçam por retê-las na forma de ganhos monopolistas, ainda que temporários e restritos a segmentos específicos de mercado.
Assim explica Nusdeo (2005, p. 265) sobre o tema da oferta e da procura nos mercados:
[...] percebe-se não haver sentido em certas frases comumente ouvidas ou lidas, quando se afirma ser a oferta menor do que a procura. Isto a rigor não existe, porque a um dado preço haverá sempre um procura para absorver a quantidade oferecida àquele
preço. A frase somente teria sentido caso uma força externa, o Estado, por exemplo, estabelecesse um preço arbitrariamente baixo. [...]
Tem-se, portanto, em sentido rigoroso, que nem os lucros são “normais” em alguma acepção relevante, eles têm mais a natureza de rendas ou quase-rendas marshallianas do que de rendimentos de um fator em equilíbrio, como na tradição neoclássica, nem situações monopolísticas são intrinsecamente anticompetitivas, pois constituem o objetivo mesmo, e muitas vezes o resultado, do processo competitivo, ainda que de forma temporária e restrita; vale dizer, monopólio não é “o contrário” de concorrência.
A defesa da concorrência por proteção ou estímulo, finalidade da legislação antitruste, não pode ser vista, desde essa perspectiva teórica, como intrinsecamente antagônica à existência de posições monopolísticas e particularmente oligopolistas, ou de poder de mercado diferenciado. A criação e a ampliação dos segmentos concorrenciais podem constituir-se numa transformação das estruturas econômicas mediante inovações e reprodutora das desigualdades de poder econômico entre os agentes. Desse modo, uma convenção entre as partes pode gerar o ajustamento e a eliminação de diferenças, porventura existentes nos mercados.
Assim, pode-se citar Cunha (2003, p. 23-24), que aborda o tema da defesa da concorrência internacional e sua finalidade, da seguinte forma:
O surgimento de legislação a fim de proteger a concorrência nasce da necessidade ou do próprio mercado em atingir os mais diferentes fins, que variam de país a país e de região a região. Para o estudo que nos propomos a fazer, dividiremos os objetivos da defesa da concorrência em gerais e integracionistas. Os primeiros podem estar presentes em qualquer lei de defesa da competição e os segundos somente existem em processo de integração econômica. [...]
Partindo de um enfoque dinâmico, a estrutura dos mercados é um dado relevante, mas não único nem imutável. Tanto pode condicionar, com maior ou menor intensidade, as condutas competitivas e as estratégias empresariais como pode ser por estas modificada, de forma deliberada e possivelmente radical. Tais mudanças são inteiramente normais, e não excepcionais, podendo, no entanto, apresentar características evolutivas mais ou menos regulares como nas situações tratadas pelas noções de ciclo industrial e ciclo de produto. O essencial a destacar é que as estruturas de mercado são variáveis, em grande medida endógenas ao processo competitivo, e que sua evolução temporal só pode ser adequadamente
analisada no contexto da interação dinâmica entre estratégia empresarial e
estrutura de mercado.
Nesse sentido vem a lição de Matias-Pereira (2004, p. 44), com as observações a respeito da evolução normativa a partir da percepção do conceito de eficiência econômica:
Na atualidade, a literatura econômica vem dando destaque a uma nova visão, que incorporou em suas análises o conceito de eficiência. Assim, da análise per se, ou seja, restrição a qualquer ato de concentração, evoluiu-se para a utilização da regra da razoabilidade, segundo a qual um ato de concentração pode ser aceito, desde que implique ganhos de eficiência. A partir dessa percepção, buscamos apresentar, a seguir, as proposições normativas mais relevantes desse enfoque, que procura levar em consideração a “eficiência” que pode reduzir os efeitos negativos provocados por configurações de mercado mais concentrado.
É necessária, ainda, uma referência ao âmbito da concorrência e de um de seus atributos principais, a competitividade. Embora ambas tenham como unidade a empresa no nível da ação estratégica, o mercado é de fato, como reconhecido na tradição antitruste, um espaço privilegiado tanto na teoria como na intervenção normativa e reguladora. Do ponto de vista
teórico, não só por ser o locus da concorrência, como já apontado, mas especialmente porque os instrumentos da disputa competitiva são definidos por características técnico-produtivas específicas de cada indústria e por características do produto associadas à demanda, isto é, no âmbito do mercado lato sensu, podendo configurar determinados padrões de concorrência quando apresentem regularidade.
Além disso, aspectos regulatórios, infraestruturais, sociais e mesmo macroeconômicos sistêmicos, em suma, agem de forma decisiva para calibrar a intensidade do processo competitivo.
Com a mesma base para as afirmações acima, Bagnoli (2006, p. 134- 135) elabora os seguintes conceitos de mercado perfeito e imperfeito, do ponto de vista da competição:
Inicialmente, citam-se os mercados perfeitamente competitivos, que dizem respeito ao modelo de concorrência perfeita, sendo assim meramente uma explicação teórica de como os mercados funcionam e como os agentes em regime de concorrência pura neles atuam. [...]
Em sentido oposto existiriam os mercados imperfeitamente competitivos, onde, apesar de a concorrência ocorrer entre produtores e compradores, suas condições não são ideais, pois
faltam os pressupostos dos mercados perfeitamente competitivos. [...]
Preservar e fortalecer a concorrência, nesse quadro, implica a criação/reprodução de um ambiente competitivo. Este compreende estratégias empresariais inovativas e a adoção de critérios de eficiência produtiva, no plano das empresas, e, no plano do mercado, a presença sistemática de pressões competitivas internas e potenciais (ameaça de entrada) e de fatores sistêmicos favoráveis à concorrência e à competitividade, seja oferecendo externalidades positivas (infraestrutura adequada, mão de obra qualificada etc.), seja assegurando condições macroeconômicas favoráveis ao crescimento e ao financiamento, seja mediante legislação adequada e outros instrumentos de defesa da concorrência e da política industrial, com destaque para os instrumentos cambiais e tarifários.
A implicação antitruste mais clara dessas últimas considerações é que a concorrência e a competitividade não brotam espontaneamente, mas dependem, de forma crucial, da adequação das condições ambientais e, por extensão, de medidas deliberadas da política; numa palavra, devem ser
construídas, seja por iniciativa da política econômica e industrial, e com
próprias empresas, sob o acicate da concorrência local e principalmente mundial, num contexto globalizado como o atual.
Nesse sentido, fortalecer a concorrência não implica obrigatoriamente “enfraquecer” (reduzir seu tamanho e/ou sua lucratividade) os concorrentes, como por vezes se depreende do antigo e muito citado slogan segundo o qual “as leis antitruste foram criadas para proteger a concorrência, e não os concorrentes”. No presente enfoque, concorrência fortalecida requer ambiente intensamente competitivo, o qual, por sua vez, supõe competidores fortes, isto é, empresas competitivas por sua capacitação e por sua eficiência técnica, produtiva e organizacional.
Dentro desse dinamismo, pode-se observar a didática lição de Baptista (2011, p. 15-16), ao recorrer a exemplos cotidianos para exemplificar o ambiente econômico e cultural no qual vivemos:
Necessidade no sentido que a economia dá à palavra, de indispensabilidade. Porém a indispensabilidade econômica é fruto não só das leis da natureza, mas também do desejo humano. Daí por que, para alguns, é indispensável um ou mais automóveis, como pode ser a televisão, ou tomar café, ou fumar. Desse modo, o contrato serve também para realizar desejos
humanos, sendo o meio de se obter algo que o sujeito deseja, para a finalidade que pode ser só sua. [...]
Os contratos, em geral, poderiam ser comparados com o vestido que o direito fornece a uma relação econômica. [...]
III.4 – O poder de mercado dentro de uma perspectiva de monopólio e