2.3 As alternativas de inclusão digital
2.3.2 A educação digital como melhor ferramenta
A fim de propiciar o acesso à internet de maneira salutar à todos os indivíduos é de extrema importância buscar meios e alternativas capazes de erradicar a exclusão digital e um dos mecanismos que merece destaque neste cenário é a educação digital.
Nesta perspectiva, assim como a alfabetização tornou-se um elemento essencial para a vida moderna a partir da revolução industrial, a alfabetização digital surge também como uma nova necessidade para a vida contemporânea. Não por acaso, boa parte dos projetos autodenominados “de inclusão digital” trabalham em algum nível com a linha educativa, partindo do princípio que o uso de plataformas digitais é parte essencial do aprendizado no século XXI, como aponta a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (RIBEIRO; MERLI; SILVA, 2012, p. 199).
Isso porque “As universidades e, cada vez mais, as escolas primárias e secundárias estão oferecendo aos estudantes as possibilidades de navegar no oceano de informação e de conhecimento acessível pela Internet” (LÉVY, 1999, p. 156).
Como apontado anteriormente, investir na implementação de telecentros e no fortalecimento das cidades digitais é um grande passo ao encontro da cidadania digital. Porém, não é suficiente se não investida paralelamente a práticas de educação digital. Somente quando conciliado com métodos educativos é que o espaço virtual será também um espaço de direitos e deveres para os cidadãos.
Na nova economia, não basta dispor de uma infra-estrutura moderna de comunicação; é preciso competência para transformar informação em conhecimento. É a educação o elemento-chave para a construção de uma sociedade da informação e condição essencial para que pessoas e organizações estejam aptas a lidar com o novo, a criar e, assim, a garantir seu espaço de liberdade e autonomia. A dinâmica da sociedade da informação requer educação continuada ao longo da vida, que permita ao indivíduo não
apenas acompanhar as mudanças tecnológicas, mas, sobretudo inovar. (TAKAHASHI, 2000, p. 7).
Haja vista que a sociedade da informação só tende a se desenvolver ainda mais, é necessário que, agora, as escolas formem cidadãos comprometidos com seus direitos e deveres também no espaço virtual, pois, de acordo com Pierre Lévy (1999, p. 153) os saberes encontram-se, a partir de agora, codificados em bases de dados acessíveis on-line, em mapas alimentados em tempo real pelos fenômenos do mundo e em simulações interativas. A modernidade vem ensejando que os professores, além de todas as suas atribuições já existentes, preparem os alunos para desenvolver várias funções da vida cotidiana por meio da rede. Sob pena de aqueles que permanecerem alheios às novas ferramentas conectadas à internet sejam excluídos da sociedade que vive a era digital.
Assim, ao se falar em inclusão digital na escola está se falando de conteúdos digitais educacionais multimídia desenvolvidos em cooperação entre professor e aluno, está se falando em direito à informação, também no ambiente escolar. A escola precisa ir em busca de “cidadãos digitais”, assegurando-lhes a formação indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes meios para progredir em suas vidas, como a utilização das tecnologias de informação. (SILVA; MARQUES; DONADEL, 2013, p. 7).
Esta proposta de educação digital é um desafio para o país. Sobretudo, em tempos de alta conexão à internet, a qual se cogita continuar sendo a tendência do mundo, é preciso ensinar o homem desde criança a usar os benefícios do espaço on-line, para que quando adultos não sejam vítimas da exclusão digital que afeta a sociedade da informação.
É sabido que educar não é uma tarefa fácil, pelo contrário, é uma tarefa extremamente complexa. Por isso, muitos profissionais da educação procuram trabalhar métodos que auxiliam da melhor forma possível quem está vivendo a fase do “aprender”. A partir dos meios digitais de divulgação da informação como blogs, comunidades, redes sociais, animações, vídeo e áudio digital os alunos aprendem na escola a usar as tecnologias e, ao mesmo tempo, refletem e conversam sobre os meios de usá-las para planejarem e construírem, juntos, uma nova realidade. (SILVA; MARQUES; DONADEL, 2013, p. 9).
Desenvolver esta ideia de educação digital no país é um longo caminho, mas, nota-se que os primeiros passos já estão sendo dados. Exemplo disso é a Escola Estadual de Ensino Fundamental Roque Gonzales, situada na localidade de Três Pedras, no Município de Novo Machado, integrante da região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
A Escola fica localizada na zona rural do Município, onde poucas famílias possuem computador e acesso à internet. Por isso, muitos alunos têm o seu primeiro contato com o espaço virtual na Escola, a qual possui um laboratório de informática.
Este fato impulsionou o corpo docente da Escola a buscar especializações na área. Os professores cursaram qualificações em informática ministradas pelo NTE – Núcleo Tecnológico Educacional.
Desse modo, aptos a manusear computadores conectados à internet, os professores repassaram os conhecimentos para os alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, os quais passaram a desfrutar dos benefícios trazidos pela ferramenta on-line através de atividades educativas.
Assim, preparados para usar o computador como auxiliar de atividades cotidianas, cada aluno recebeu um laptop através do Programa Província de São Pedro do governo estadual gaúcho. Segundo a Secretaria de Educação do Estado (2014), o referido programa organiza o planejamento pedagógico com um computador (netbook) para cada aluno e professor (1:1) distribuídos no Ensino Fundamental, em escolas estaduais nos municípios que fazem fronteira com o Uruguai, em algumas escolas localizadas nos Territórios da Paz na região metropolitana e em instituições que já utilizavam a tipologia 1:1 em seus projetos.
O objetivo, de acordo com as informações da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (2014), é proporcionar a formação em serviço para os professores da rede estadual, propiciando a vivência dos alunos e dos
professores na linguagem da tecnologia digital, sendo o principal instrumento de modernização tecnológica da rede estadual. A Secretaria acrescenta que, a introdução do computador no processo educativo não visa substituir o professor, mas sim, ser um parceiro no trabalho pedagógico desenvolvido pelos docentes.
A partir de então, sob termo de responsabilidade, as crianças foram autorizadas a levar o laptop para casa a fim de que pudessem aprimorar os conhecimentos recebidos em sala de aula.
Insta destacar que através desta iniciativa muitas famílias tiveram o primeiro contato com a realidade digital. Por esta razão, a referida Escola abriu suas portas para a comunidade local e disponibilizou seu laboratório para que elas fizessem curso de informática ofertado gratuitamente pelo Senar, durante as férias escolares.
Neste sentido de aprendizagem que engloba alunos, escola e comunidade, Melo e Boll (2014, p. 2) salientam:
Com a Cultura Digital chegando às escolas brasileiras através destes programas governamentais, pesquisas, estudos e discussões sobre novas possibilidades educativas ampliam os espaços de convergências midiáticas para esse fim pois que a base propulsora da aprendizagem escolar se apresenta agora em toda uma comunidade.
É possível verificar o início da caminhada de construção da cidadania digital, sob a ótica de que para combater a exclusão digital não basta apenas o acesso às ferramentas on-line, mas sim um acesso alicerçado na educação virtual dos seres humanos. Neste prisma Silva, Marques e Donadel (2013, p. 9) afirmam:
Há que se pensar a inclusão digital para além do simples acesso a uma tecnologia de informação e comunicação, mas da capacidade do individuo de transformação da sociedade em que vive, tornando-se um cidadão digital. Por esse motivo, a inclusão digital, como necessidade histórica, possui um valor que deve ser transformado em direito a ser utilizado pelo ser
humano contra esta exclusão. A inclusão digital como direito fundamental deve ser incorporada pelo ser humano para combater as práticas exclusivas.
No mesmo sentido, Almeida e Paula (2005. p. 60) referem “Não basta mostrar às pessoas as tecnologias, é necessário fazê-las entender de que forma as mesmas podem contribuir para a execução de tarefas, atividades e incrementarem o capital intelectual”.
Posto isso, observa-se que continuar investindo na implementação de telecentros e no fortalecimento das cidades digitais são ótimas ferramentas para erradicar os atuais grupos de excluídos digitais. Para tanto, a fim de incluir estes grupos na sociedade da informação e para prevenir que as gerações futuras sejam vítimas deste mesmo problema de exclusão é de extrema importância investir em projetos de educação digital onde além de ofertar as tecnologias virtuais, os indivíduos sejam educados no sentido de usar os benefícios da internet a seu favor, bem como em prol da sociedade.
Desta forma, o acesso à internet reconhecido como direito humano realmente fará jus a sua principal característica – a universalidade. Ademais, a culminância não poderá ser outra, se não o progresso da sociedade da informação que preza por maneiras mais práticas e céleres de desenvolvimento.
CONCLUSÃO
Ao término do trabalho se confirma que sociedade contemporânea caminha na direção do mundo digital. A comunicação virtual entre as pessoas, através de programas e aplicativos sofisticados, ocupa cada vez mais espaço na atualidade. Da mesma forma, órgãos públicos e privados utilizam a internet para facilitar os atendimentos, cadastros e serviços disponibilizados ao cidadão.
Por isso, a rede mundial de computadores se apresenta como uma ferramenta múltipla que agrega os mais variados segmentos da coletividade. Logo, é imprescindível que o acesso cibernético livre deva contemplar todas as pessoas, sob pena de que os cidadãos excluídos digitalmente afetem ainda mais a exclusão social vivida no país.
Ocorre que, embora o acesso à internet tenha sido consolidado como direito humano, e por tal característica deveria ser natural seu alcance por todas as pessoas pelo simples fato de ocupar a condição de humana, na prática isso não ocorre. Portanto, surge a necessidade de investir em alternativas de inclusão digital, como continuar implementando telecentros e terminais de acesso com a finalidade de fortalecer as chamadas cidades digitais.
Estes mecanismos deverão ser coordenados por profissionais aptos para orientar as pessoas, agora na condição de internautas, sobre como manusear as ferramentas disponíveis no computador e para que elas servem. Porque não basta disponibilizar os meios, para ampliar a educação digital do
país é imprescindível ensinar às pessoas como desfrutar dos benefícios trazidos pelas tecnologias.
Ressalta-se que projetos de implementação de telecentros, terminais de acesso e cidades digitais já estão em prática em vários municípios brasileiros, nos quais estão sendo alcançados os objetivos de inclusão traçados. Neste sentido, o presente estudo depreende que o sucesso destes projetos depende do trabalho em conjunto com a educação digital das pessoas de todas as idades, pois é inegável o caráter transformador das escolas.
Pois, salienta-se, que não é suficiente conceder o computador conectado à internet para as pessoas. É de extrema importância que elas sejam inseridas em um processo de educação digital para que se solidifiquem instruções de acesso ético na internet, haja vista que a culminância desta prática educacional será a geração de benefícios para a sociedade.
Portanto, tendo em vista a declaração da ONU que prevê o acesso à internet como direito humano e priorizando os princípios estabelecidos no ordenamento jurídico, conclui-se que, estas medidas de acessibilidade digital pública devem ser aplicadas nos demais municípios do país como forma de erradicar a exclusão digital, e paralelamente aprimorar os conhecimentos de toda a população: crianças, jovens, adultos e idosos.
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