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A exclusão digital como afronta aos direitos humanos

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DANIELLI REGINA SCARANTTI

A EXCLUSÃO DIGITAL COMO AFRONTA AOS DIREITOS HUMANOS

Santa Rosa (RS) 2014

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DANIELLI REGINA SCARANTTI

A EXCLUSÃO DIGITAL COMO AFRONTA AOS DIREITOS HUMANOS

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientadora: MSc. Lurdes Aparecida Grossmann

Santa Rosa (RS) 2014

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Dedico este trabalho aos meus pais, que me deram todo o suporte necessário para a realização deste momento.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus por ter me dado força e coragem para superar as dificuldades encontradas nesta trajetória acadêmica.

Com muita gratidão e amor, agradeço aos meus pais – Jorlei e Maria Regina - e ao meu irmão – Jorlei Júnior - pela capacidade de acreditar em mim e pelo apoio recebido de vocês que nunca mediram esforços para possibilitar o alcance dos meus objetivos.

À minha orientadora - Lurdes Aparecida Grossmann - eu agradeço os ensinamentos, o incentivo e a confiança que sempre depositou em mim. Ademais, não posso deixar de mencionar o orgulho e o privilégio que sinto por ter tido a oportunidade de trabalhar ao seu lado durante 4 anos no Projeto de Extensão Cidadania para Todos, o qual foi o propulsor desta pesquisa monográfica. Com certeza, a minha formação, inclusive pessoal, não teria sido а mesma sem а sua pessoa.

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RESUMO

O presente trabalho de pesquisa monográfica é dedicado à análise da exclusão digital como uma afronta aos direitos humanos. Composta de uma visão retrospectiva do curso da internet, desde a sua origem e importância no Brasil, através da descoberta dos direitos através do uso da internet na sociedade da informação, com o reconhecimento de acesso como um direito humano, feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011. Sob a luz dessas considerações, observa-se que muitos brasileiros são excluídos digitais deste processo de modernização, que se torna um desafio para a construção da cidadania digital. A pesquisa foi feita procurando as principais causas e consequências deste cenário de exclusão. E a partir dessa perspectiva, as medidas estudadas apontaram algumas soluções para a falta de inclusão digital, como a implantação de novos telecentros e fortalecimento das cidades digitais, juntamente com a consolidação da educação digital, que vai evitar a recorrência, desta exclusão para as gerações futuras.

Palavras-chave: Internet. Direitos Humanos. Exclusão Digital. Cidadania. Educação.

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ABSTRACT

This monographic research work is dedicated to the analysis of the digital divide as an affront of the human rights. Composed of hindsight of course of internet, since its origin and importance in Brazil, through discovery of rights through the use of internet in the information society, to the recognition of access as a human right, made by the United Nations (UN) in 2011. Under the light of these considerations, it is observed that many Brazilians are digitally excluded of this modernization process, which becomes a challenge for the construction of digital citizenship. The research was made looking for the main causes and consequences of this exclusion scenario. And from that perspective, the studied measures pointed some solutions for lack of the digital inclusion, as the implementing new telecentres and strengthening of digital cities alongside the consolidation of digital education, which will avoid the recorrence of this exclusion for future generations.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 7

1 A TRAJETÓRIA DA INTERNET: DA ORIGEM ATÉ O RECONHECIMENTO COMO DIREITO HUMANO ... 9

1.1 Origem da internet no Brasil e sua importância ... 10

1.2 A descoberta de direitos com o uso da internet na sociedade da informação ... 15

1.3 O acesso à internet como direito humano ... 21

1.3.1 Considerações gerais sobre a evolução dos direitos humanos ... 22

1.3.2 O acesso digital ... 25

2 OS DESAFIOS PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA CIDADANIA DIGITAL ... 30

2.1 A exclusão digital e suas consequências ... 30

2.2 O uso da internet a partir da análise de pesquisa produzida pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil ... 38

2.3 As alternativas de inclusão digital ... 43

2.3.1 Considerações gerais acerca da inclusão digital ... 44

2.3.2 A educação digital como melhor ferramenta ... 48

CONCLUSÃO ... 53

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho de pesquisa monográfica é desenvolvido com a pretensão de estudar o acesso de informações na internet como um direito humano e de delimitar mecanismos de inclusão digital à luz dos direitos consolidados no ordenamento jurídico, a partir de pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico.

Inicialmente, o tema foi escolhido em razão do acelerado processo de modernização da atual sociedade da informação, que ocorre através das novas tecnologias, em especial o acesso à internet.

Dentre os objetivos da pesquisa estão: estudar a retrospectiva da internet e a emergência dos direitos humanos sobre este tema, principalmente no que se refere ao acesso à informação; analisar a exclusão digital, suas causas e consequências; observar a construção da cidadania digital e buscar possíveis alternativas de inclusão.

Nesse sentido, o problema da pesquisa se concentra na análise das dimensões que a exclusão digital assume diante dos direitos humanos e que perspectiva de soluções se tem para este problema social.

A primeira hipótese observada é que a sociedade criou um novo grupo de excluídos, os digitais, e para reduzir esta desigualdade surge a necessidade de inclusão que poderá ser feita através do uso de telecentros e processos de educação digital. Sendo assim, para melhor entendimento o trabalho foi dividido em dois capítulos.

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O primeiro capítulo faz uma abordagem da trajetória da internet, desde a sua origem e importância no Brasil, passando pela descoberta de direitos advindos do uso da internet na atual sociedade da informação e até ao reconhecimento do acesso à internet como direito humano, feito pela Organização das Nações Unidas – ONU.

Na sequencia, o segundo capítulo destaca que apesar do acesso à internet ser reconhecido como direito humano, e por isso direito de todos, grande parte da população ainda não alcançou este avanço virtual. Como consequência disso, um novo grupo de excluídos se formou na sociedade contemporânea. Para erradicar esta exclusão digital é preciso investir em práticas de inclusão.

Desse modo, ao final do trabalho são buscadas alternativas que possam garantir a acessibilidade às novas tecnologias para todas as pessoas. Logo, serão sugeridos como meios de inclusão digital a continuidade dos investimentos em telecentros e no fortalecimento das cidades digitais. Paralelamente a esses mecanismos, será apresentada a necessidade de fomentar ações baseadas na educação digital das pessoas para a concretização da cidadania na atual sociedade, com o devido respeito aos direitos humanos.

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1 A TRAJETÓRIA DA INTERNET: DA ORIGEM ATÉ O RECONHECIMENTO COMO DIREITO HUMANO

O presente capítulo objetiva resgatar a história da internet, traçando alguns aspectos desde a sua origem até o seu reconhecimento como direito humano. Para tanto, primeiramente, é importante apresentar uma definição do termo em tela.

A internet é, portanto, uma rede mundial de computadores ou terminais ligados entre si, que tem em comum um conjunto de protocolos e serviços, de uma forma que os usuários conectados possam usufruir de serviços de informação e comunicação de alcance mundial através de linhas telefônicas comuns, linhas de comunicação privadas, satélites e outros serviços de telecomunicações. (MORAIS; LIMA; FRANCO, 2012, p. 42).

A rede mundial de computadores, desde seu surgimento na década de 1960, vem aprimorando suas utilidades. Seu conteúdo, antigamente composto apenas por textos, hoje possibilita a inserção de sons, imagens e vídeos em tempo real. Ademais, com capacidade de comunicação em via dupla, a internet ocupa cada vez mais espaço na vida dos homens, pois possibilita o uso tanto na vida pessoal quanto na profissional, seja para o simples fato de trocar ideias ou até para a comercialização eletrônica.

Neste sentido, Fernando Pritsch Winck (2012, p. 11) explica:

Há alguns anos a grande rede de computadores conhecida como internet era considerada apenas como um novo meio de comunicação, alcançando no decorrer dos últimos anos um novo patamar de necessidade social. Transpondo barreiras

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espaciais, a comunicação provida pela internet é algo impensável fora de ambiente virtual, devido às características seja da rapidez, da impessoalidade ou do anonimato na troca de informações.

Este avanço tecnológico, repleto de vantagens para o cotidiano das pessoas, ensejou a chamada era da informação ou era digital, onde em um clique qualquer informação pode ser encontrada, qualquer produto, bem ou serviço pode ser ofertado e contratado por qualquer indivíduo munido de um computador com acesso à internet.

No decorrer da realização desta pesquisa, torna-se possível averiguar que os benefícios gerados através destas soluções digitais são de grande valia para a sociedade. Entretanto, grande parte da população ainda está às margens das novas técnicas disponibilizadas, seja por não saber utilizar a ferramenta ou por não ter acesso a ela em razão da falta de recursos.

Por conseguinte, observa-se que na medida em que as vantagens de desenvolver tarefas comuns a todos e a facilidade de buscar conhecimento através dos mecanismos da era da informação não alcançam todas as pessoas, aumentam as chances de disparar, ainda mais, as desigualdades sociais entre ricos e pobres. Pois, como refere Winck (2012, p. 13) “possuir informação permite vantagens no mundo globalizado”.

Desse modo, considerando os benefícios oferecidos pela intensa utilização do computador conectado à rede na sociedade moderna, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu o acesso à internet como direito humano, no ano de 2011, com o objetivo de tornar este acesso possível para toda a população, sem distinção de classe econômica, raça, cor, religião ou qualquer outra diferença.

1.1 Origem da internet no Brasil e sua importância

O sociólogo espanhol Manuel Castells (2003, p. 13) explica que a história da criação e do desenvolvimento da internet é a história de uma

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aventura humana extraordinária. O mesmo autor ainda acrescenta que, a grande rede põe em relevo a capacidade que têm as pessoas de transcender metas institucionais, superar barreiras burocráticas e subverter valores estabelecidos no processo de inaugurar um mundo novo. Sendo assim, será apresentada uma breve análise da origem da referida ferramenta.

Em âmbito internacional, a internet surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, no período da Guerra Fria, como “sistema de apoio a uma eventual reação militar em caso de ataque soviético ao território americano” (JAMIL; NEVES, 2000, p. 4), na base da Agência de Pesquisas Avançadas do Departamento de Defesa – DARPA. O objetivo era consolidar uma rede de informações militares capaz de permitir uma comunicação eficaz entre os centros de comando e de pesquisa bélica.

O site educacional Brasil Escola explana a história da rede mundial de computadores referindo que isso que hoje se conhece como internet teve origem através do sistema ARPANET, o qual, após ter dado os primeiros passos nas chefias beligerantes, passou a possibilitar a comunicação entre quatro instituições de ensino: Universidade da Califórnia, LA e Santa Bárbara; Instituto de Pesquisa Stanford e Universidade de Utah. (BRASIL ESCOLA, 2014).

Patrícia Peck Pinheiro (2010, p. 59) explica exatamente este sistema de transição do uso da internet de fins militares para fins civis, principalmente, em âmbito acadêmico:

Posteriormente, esse sistema passou a ser usado para fins civis, inicialmente em algumas universidades americanas, sendo utilizado pelos professores e alunos como um canal de divulgação, troca e propagação de conhecimento acadêmico-científico. Esse ambiente menos controlado possibilitou o desenvolvimento da internet nos moldes os quais a conhecemos atualmente.

No que se refere ao uso da internet pelos pesquisadores nas universidades, Pierre Lévy (1999, p. 208) aponta que é correto que a internet

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nasceu de uma decisão do exército americano. Segundo ele, o sistema foi inicialmente concebido para permitir que laboratórios dispersos pelo território americano pudessem acessar os supercomputadores concentrados em alguns locais e esse projeto foi imediatamente desviado já que, desde seus primórdios, o principal uso da internet foi a correspondência entre os pesquisadores.

Quanto ao uso da internet no Brasil, segundo Eduardo Vieira (2003, p. 8), a internet teve sua origem em meados de 1988, através de uma conexão realizada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a qual estava adstrita à Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. Para esta realização, o país recebeu o apoio do centro de pesquisa científica dos Estados Unidos – Fermilab, um dos mais importantes centros de pesquisa científica dos Estados Unidos. O autor continua referindo que a façanha coube aos professores Oscar Sala e Flávio Fava de Moraes, da Universidade de São Paulo (USP), que tocaram o projeto em conjunto e inauguraram a conexão oficialmente no ano seguinte. Segundo ele, na mesma época, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis (RJ), também se conectaram a internet através de links com universidades americanas.

Naquela época inicial, o uso da internet estava restrito aos professores, funcionários e alunos das faculdades. Por conseguinte, logo no ano de 1992 o governo federal criou a Rede Nacional de Pesquisa e através dela, novos pontos de conexão foram estruturados em demais universidades, fundações de pesquisa e órgãos governamentais. Por onde era instalada, a aceitação que recebia das pessoas era perceptível, assim como o crescimento da nova tecnologia. (VIEIRA, 2003, p. 9).

Segundo o mesmo autor, em meados de 1995 os Ministérios das Comunicações e da Ciência e Tecnologia reconheceram que os benefícios trazidos por esta ferramenta poderiam ser úteis, também, para os demais indivíduos que não estavam incluídos naqueles locais estruturados para o uso dos mecanismos digitais. Por isso, o uso comercial da internet foi autorizado e,

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desse modo, possibilitou-se o acesso a serviços prestados através da web para qualquer pessoa munida de um computador conectado à grande rede.

Observa-se que, naquela época, a expectativa da mídia em receber um novo meio de comunicação era grande, tanto é que o jornal Folha de S. Paulo reservou sua edição especial de domingo para tratar a internet como a superinfovia do futuro. E declarou “nasce uma nova forma de comunicação que ligará por computador milhões de pessoas em escala planetária” (MÜLLER, 2008).

A partir de então, os avanços tecnológicos aumentaram em grandes proporções. Logo, no ano de 1996 a internet atingiu um de seus ápices entre os brasileiros. Ocorreram melhorias no serviço prestado e a propagação acelerada do meio virtual entre os indivíduos, deixando vários internautas satisfeitos com os materiais inovadores disponibilizados pela rede. Nicolas Müller (2008) narra esta ocasião:

O grande boom da rede aconteceu ao longo do ano de 1996. Um pouco pela melhoria nos serviços prestados pela Embratel, mas principalmente pelo crescimento natural do mercado, a Internet brasileira crescia vertiginosamente, tanto em número de usuários quanto de provedores e de serviços prestados através da rede. Uma das provas de que a Internet realmente havia decolado no Brasil veio no dia 14 de dezembro de 1996, quando Gilberto Gil fez o lançamento de sua música Pela Internet através da própria rede, cantando uma versão acústica da música ao vivo e conversando com internautas sobre sua relação com a Internet.

Neste sentido, ocorreram mudanças inéditas. Principalmente entre as relações estabelecidas pelos homens, pois a internet proporcionava a conexão em tempo real com qualquer parte do mundo conectada na web, bem como uma facilidade jamais vista na troca de informações. Assim, ao final do século XX, as vantagens proporcionadas pela internet já eram plenamente visíveis na sociedade. Leonardo Zanatta (2010, p. 3) destaca este momento da trajetória digital no país:

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A popularização do computador pessoal, no final do século XX, e a sua utilização como ferramenta de acesso à Internet proporcionaram uma revolução nas relações sociais, da troca de informações e das facilidades de acesso, em tempo real, entre computadores localizados em qualquer lugar do mundo. Atualmente, com o advento dos smartphones e dos tablets, expandiu-se exponencialmente a possibilidade de acesso à informação, ao entendimento e ao conhecimento.

Patrícia P. Pinheiro e Cristina M. Sleiman (2008, p. 10) explanam a evolução do meio digital referindo que há pouco tempo atrás, a internet enquanto projeto, buscava um espaço livre de trocas e interação, e incrivelmente em poucos anos tomou uma proporção imaginável por nossos antepassados que nem mesmo sonhavam em ver algo assim.

Muito além de fornecer extrema facilidade na comunicação e troca de dados, notícias e conhecimento, a internet passou a ocupar um papel marcante e revolucionário na vida dos indivíduos. Tornou-se forma de entretenimento, prestação de serviços e comércio variado, dentre tantas outras ferramentas e utilidades em que se apresenta. Como aponta Pierre Lévy (1999, p. 110) “Por meio dos computadores e das redes, as pessoas mais diversas podem entrar em contato, dar as mãos ao redor do mundo”.

Posto isso, o Procurador do Estado da Bahia, Antônio Lago Júnior (apud ZANATTA, 2010, p. 4) descreveu a importância do uso da internet para os seres humanos.

A internet, portanto, nada mais é do que uma grande rede mundial de computadores, na qual pessoas de diversas partes do mundo, com hábitos e culturas diferentes, se comunicam e trocam informações. Ou, em uma só frase, é a mais nova e maravilhosa forma de comunicação existente entre os homens. Pinheiro e Sleiman (2008) também traçaram suas contribuições nesta seara digital.

A internet não é um lugar, não é um território a parte, mas sim a extensão de nossas vidas, tudo o que fazemos no ambiente virtual geram efeitos na vida real, além disso, atualmente a internet não é utilizada apenas para troca de informações entre

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pessoas, mas para estabelecer relações de consumo, para transações bancárias, para progresso e desenvolvimento, entre outros.

Portanto, observa-se que o avanço tecnológico causado pela internet impulsionou uma série de mudanças e alterações na conjuntura da sociedade contemporânea. Neste sentido, Pierre Lévy (1999, p. 102) destaca que a cada minuto que passa, novas pessoas passam a acessar a internet, novos computadores são interconectados, novas informações são injetadas na rede. Para melhor compreensão, algumas transformações serão apresentadas na sequência deste capítulo.

1.2 A descoberta de direitos com o uso da internet na sociedade da informação

O século XXI se revela como o século da era digital. Embora este período de mudanças on-line, também conhecido como era da informação e era virtual, tenha se iniciado um pouco antes do atual século, é neste momento em que as transformações advindas dele estão sendo sentidas pelo homem, atingindo, assim, um de seus ápices na história.

Observa-se que a humanidade se direciona para o fortalecimento desta chamada sociedade da informação, e, indubitavelmente, o acesso à internet foi um dos elementos que deu causa a este novo período. Neste sentido, George Leal Jamil e Jorge Tadeu de Ramos Neves (2010, p. 9) afirmam “A rede Internet é instrumento básico para a construção desse novo cenário de organizações e comunicações virtuais, por si só, preconizam a mudança que se institui na palavra de diversos autores sobre a revolução do momento atual”.

Isto é, os avanços tecnológicos proporcionados pela utilização da internet no sistema capitalista ensejaram uma série de transformações da sociedade em seus diversos segmentos, sendo sentidas mudanças nas relações de comunicação e de consumo entre os indivíduos da família e do trabalho, do espaço público e do espaço privado. Como refere Manuel Castells (2003, p. 34) “a cultura dos produtores da Internet moldou o meio”.

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Ademais, é possível notar que as ofertas de utilidades na web aumentaram para todos os setores da sociedade e, em virtude disso a internet está ocupando cada vez mais espaço na vida dos indivíduos. De simples meio de comunicação, ela passou a se apresentar como uma múltipla ferramenta.

Na medida em que oferece uma infinidade de músicas, jogos, imagens, vídeos, notícias e leituras variadas, a internet se revela como forma de entretenimento. Paralelamente, a mesma ferramenta também se apresenta como prestadora de serviços bancários on-line, cadastros em diversos órgãos públicos e privados, acesso aos serviços públicos, procura de emprego, compra de ingressos para várias festividades, reservas de hotel e demais locais necessários. Além disso, percebe-se que a internet vem aprimorando seus serviços também no comércio eletrônico no que tange a negócios, comercialização de bens, produtos e serviços.

Quanto aos serviços disponibilizados na web, Elisabeth Gomes, quando assessora da Presidência da Anatel em 2002 (p. 6), referiu:

São diversos os serviços oferecidos aos cidadãos, como por exemplo, a obtenção de certidões e inscrições de concursos via Internet, requerimento de benefícios previdenciários, cartão bancário para recebimento de benefícios capilarizando a rede de pagamentos e suprimindo as filas, pagamento eletrônico de impostos, taxas e contribuições, consultas públicas sobre propostas de leis, decretos e atos normativos, o cartão do Sistema Único de Saúde que condensará a memória da vida médica do usuário dos serviços, enfim, um vasto elenco de iniciativas e programas de governo eletrônico.

Em relação ao universo jurídico não é diferente. A internet vem moldando sua estrutura e, de maneira geral, é possível destacar algumas alterações: os documentos impressos em folhas de papel, aos poucos, estão sendo substituídos por arquivos digitais, um reflexo deste exemplo é na Justiça do Trabalho e na Justiça Federal onde houve a instalação do processo eletrônico; o correio já não é o único meio disponível para os operadores do Direito enviarem seus documentos e; principalmente, o acompanhamento processual mudou, sendo atualmente possível acompanhar virtualmente todos

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os movimentos praticados nos autos de qualquer demanda judicial. Alexandre Atheniense (apud ZANATTA, 2010, p. 5) pontua alguns dos benefícios oferecidos pela ferramenta on-line na área do Direito:

O poder de comunicação da Internet para os advogados possibilitará o aperfeiçoamento das seguintes atividades:

- Aprimorar a comunicação com os clientes, com outros advogados e tribunais.

- Poderosa ferramenta de pesquisa de temas jurídicos (doutrina, legislação e jurisprudência).

- Acesso a informações processuais em tempo real.

- Redução dos custos de comunicação (interurbanos, correios); redução dos custos na compra de livros e periódicos.

Pinheiro (2010, p. 43) confirma este entendimento, no qual é imprescindível admitir as mudanças advindas da era digital:

O cotidiano do mundo jurídico resumia-se a papéis, burocracia e prazos. Com as mudanças ocorridas desde então, ingressamos na era do tempo real, do deslocamento virtual dos negócios, da quebra de paradigmas. Essa nova era traz transformações em vários segmentos da sociedade – não apenas transformações tecnológicas, mas mudanças de conceitos, métodos de trabalho e estruturas. O Direito também é influenciado por essa nova realidade. A dinâmica da era da informação exige uma mudança mais profunda na própria forma como o Direito é exercido e pensado em sua prática cotidiana.

Ocorre que muitas destas vantagens proporcionadas pelos meios digitais estão se tornando “obrigatoriedade”, no sentido de que, aqueles que não sabem ou não possuem acesso à rede virtual ficam prejudicados. Nesta seara, Juvimário Adrelino Moreira (2012) explica:

Foi-se o tempo em que o conhecimento ficava engessado nas prateleiras dos escritórios e bibliotecas. Hoje, tudo transita pelas linhas da internet, sabendo-se que quem não tentar acompanhar as evoluções tecnológicas estará fadado ao fracasso. Como já mencionado, estamos na era do conhecimento; da informação automática, da informática. O operador do Direito assume uma responsabilidade dupla: a necessidade/obrigatoriedade de acompanhar os avanços da tecnologia e sua aplicação social; e as céleres modificações no ordenamento jurídico. Pode-se afirmar que com o advento da internet o acompanhamento das modificações no sistema jurídico brasileiro e, caso o interesse, mundial fica ao passo de alguns cliques. Um computador conectado a internet possibilita

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ao jurista viajar pelo mundo e explorar o universo positivo do Direito.

Nesta perspectiva, Ivar Alberto Martins Hartmann (2007, p. 22) afirma “O Judiciário dependerá cada vez mais da Internet, enquanto esforçar-se para prestar da melhor maneira seu serviço à população”.

Ainda na seara jurídica, acrescenta-se:

O profissional de qualquer área, em especial da área jurídica, tem a obrigação de estar em sintonia com as transformações que ocorrem na sociedade. Tais mudanças se dão principalmente pelo advento da Internet e torna-se fundamental, neste momento, entender que esses avanços não são fruto de uma realidade fria, exclusivamente tecnológica, dissociada do mundo cotidiano. Em breve análise pode-se dizer que a Internet é mais que um simples meio de comunicação eletrônica, não se trata apenas de uma rede de computadores, mas, também, de uma rede mundial de pessoas. Indivíduos conectados, que interagem e estabelecem relações jurídicas a cada clique. (PINHEIRO; SLEIMAN, 2008). Nesta senda, Armando Cuesta Santos (2001, p. 1) complementa que essa era do conhecimento é, igualmente, a era da maior produtividade do trabalho, e quem não assimilar tal fato não poderá competir, o que equivale a dizer que não sobreviverá no início deste século XXI.

Neste sentido, aponta-se:

Vemos que a Internet e o processo de Globalização permitem colocar à disposição de qualquer cidadão do mundo diversas informações e facilidades, porém este cidadão necessita ter conhecimentos (para saber fazer uso deste instrumento) e recursos (financeiros) disponíveis para fazer uso desta tecnologia, podemos constatar assim, que nos dias atuais, quem tem acesso à Internet tem um grande poder em suas mãos, pois pode se considerar parte da “sociedade em rede”. (PORTAL EDUCAÇÃO, 2013).

Isto configura exatamente a afirmação de Angela Maria Barreto (2005, p. 5), a qual não tem dúvidas que a sociedade da informação desencadeou “transformações tecnológicas, organizacionais, geopolíticas, comercias e financeiras, institucionais, culturais e sociais” na vida do homem moderno.

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Desse modo, nota-se que todos os segmentos da sociedade, de uma forma ou outra, foram atingidos pelas utilidades ofertadas pela internet. É notório que grande parte dos serviços disponibilizados hoje, tanto pelo órgão privado quanto pelo órgão público, são informatizados e exigem pelo menos um mínimo de habilidades na área da informática.

Já pensou como seria passar 1 mês sem celular e sem acesso à internet? Você conseguiria? Estas perguntas, quando refletidas criticamente, mostram a importância que o acesso às informações automáticas ganhou na época em que vivemos. De fato, a informática mudou substancialmente todos os ambientes da esfera social, as formas de se relacionarmos, trabalharmos, enfim, toda a nossa forma de viver. (MOREIRA, 2012).

Entre esta gama de mudanças impulsionadas pela era digital, ocupam espaço os direitos políticos e a teledemocracia. Pode-se verificar claramente os benefícios gerados através dos sistemas computadorizados de voto, onde o resultado das eleições pode ser conhecido em poucas horas em todas as regiões do país. Só não há, ainda, a possibilidade de votar pelo computador de casa porque este acesso não está ao alcance de todos os indivíduos e por ainda não se considerar o processo seguro o bastante para isentar oportunidades de cerceamento da liberdade de escolha do eleitor, pois em termos práticos de tecnologia seria possível criar um sistema de voto on-line. (HARTMANN, 2007).

Além disso, destaca-se o direito à liberdade informática. Assim como existe o direito de informação e liberdade de expressão na vida real é essencial que estas prerrogativas sejam alcançadas e protegidas também na esfera virtual, bem como a proteção do direito à privacidade. (HARTMANN, 2007). Para tanto, nota-se que os Tribunais de Justiça já estão resolvendo conflitos nesta seara, conforme se depreende de um julgado do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.

Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PRIVADO NÃO

ESPECIFICADO. AÇÃO CAUTELAR DE EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS. PEDIDO DE DIVULGAÇÃO DE NOME DE

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USUÁRIO DE INTERNET PROTOCOL. Dever de exibir o nome dos usuários do IP que invadiram o sistema do autor em razão do disposto no artigo 5º, incisos IV e X, da Constituição Federal. Colisão entre os princípios da proteção à privacidade e o da inviolabilidade das comunicações telegráficas, cuja ponderação, no caso concreto, pende em favor daquele, máxime quando reconhecida necessidade de apuração de ilícito. APELO DESPROVIDO. UNÂNIME. (Apelação Cível Nº 70055656953, Décima Primeira Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Antônio Maria Rodrigues de Freitas Iserhard, Julgado em 25/09/2013).

Outra abordagem relevante é no que tange ao direito administrativo e a teleadministração. A internet pode propiciar a participação do cidadão de maneira ágil, eficiente e transparente. Exemplificando o ponto, denota-se que os atos administrativos eletrônicos poderiam ser programados pelo servidor público, e após este processo seria automático seu preenchimento pelo cidadão, assim, evitando que o agente permaneça por diversas vezes acompanhando o procedimento burocrático. Diante de um atendimento on-line reduzirá as diferenças de tratamento e o cidadão poderá acompanhar virtualmente, minuto a minuto, o andamento dado ao seu processo, dentre muitas outras possibilidades. (HARTMANN, 2007).

Hartmann (2007, p. 20) aponta que o acesso do cidadão brasileiro à internet é um requisito para a eficiência da Administração. Segundo ele, é também pressuposto para a concretização de direitos a prestações fáticas como o direito a saúde, a educação e a seguridade social, entre outros. Ainda, é essencial para a realização do direito de prestação jurisdicional.

Nesta seara que abrange os benefícios oriundos do acesso à internet, Néstor García Canclini (2005, p. 219) traz suas contribuições:

Nas ciências exatas, o uso de modems tem possibilitado o desenvolvimento de fluidas comunicações internacionais, permitindo que pesquisadores maduros e jovens tenham acesso a novas teorias, com baixos custos, frequentemente pagos por suas instituições. Nas ciências sociais, o processo é mais lento e talvez não existam tantas possibilidades de se formar um espaço público científico, em que possam ser absorvidas e transmitidas as informações qualitativas, sem reduzir as particularidades socioculturais de cada país, nem

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seus efeitos nas divergências e nos debates teóricos. Parece-me que estas condições indicam as oportunidades e os limites das tentativas feitas para se estabelecer em espaço público

sociopolítico alternativo. Evidentemente, as ONG’s e outros

centros de ação internacional se beneficiam da possibilidade de se informarem rapidamente, sem a censura das grandes agências de informação, sobre conflitos como os da Iuguslávia e Chiapas, mas ainda há muito tempo para se decidir a respeito do que fazer com as centenas de “páginas” de informação não hierarquizada que o correio eletrônico deposita diariamente na tela de qualquer assinante.

Em vista dos aspectos observados, entende-se que a internet está ampliando aquela ideia de múltipla ferramenta. Ela está se configurando em um novo espaço social e público da sociedade moderna. Para tanto, é necessário que os atos praticados neste ambiente recebam a mesma garantia jurídica que se encontra na vida real.

Desse modo, dando sequencia ao presente capítulo, serão delineadas algumas considerações acerca do reconhecimento do acesso à internet como direito humano e, portanto, a necessidade de seu alcance e proteção para todas as pessoas.

1.3 O acesso à internet como direito humano

A história do reconhecimento dos direitos humanos na sociedade é longa e dotada de autores renomados com discussões sólidas referentes ao tema. Todavia, discorrer acerca do acesso à internet como direito humano é um desafio, em razão de se tratar de um assunto recente na história moderna.

De imediato, essa questão faz lembrar os ensinamentos de Norberto Bobbio (1992) ao explicar que os direitos humanos não nascem todos de uma vez e nem de uma vez por todas. Tal constatação é plenamente aplicável ao tema, pois há mais de seis décadas após a consolidação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, ela é retificada para se incluir o acesso digital entre suas garantias.

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Assim, apresentar-se-á na sequência uma brevíssima análise da história dos direitos humanos, até o reconhecimento do acesso à internet como um deles.

1.3.1 Considerações gerais sobre a evolução dos direitos humanos

A trajetória de proteção aos direitos humanos iniciou há muito tempo e constantemente passa por transições. Isso porque, de acordo com Darcísio Correa (2002), os direitos do homem, embora apregoados como naturais em seu discurso de origem, são direitos históricos, surgidos na idade moderna a partir das lutas contra o Estado absoluto. Desse modo, segundo o autor, a historicidade datada nos permite estabelecer fases diferenciadas de seu desenvolvimento.

Para Gilmar A. Bedin (1998, p. 99) a humanidade vivenciou quatro principais gerações de direitos:

[...] eles surgiram, no século XVIII, como direitos civis, ampliaram-se, no século XIX, como direitos políticos, desenvolveram-se, no início do presente século, como direitos econômicos e sociais e consolidaram-se, no final da primeira metade do presente século, como direitos de solidariedade ou direitos do homem no âmbito internacional.

Durante esta trajetória vários documentos foram importantes para a construção dos direitos humanos. Dentre os principais, Bedin (2003, p. 124) elenca a declaração de direitos de 1776, conhecida como Declaração da Virgínia; a declaração de 1789, conhecida como Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão; a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, e a Declaração e o Plano de Ação de Viena de 1993.

Nesta seara, a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 ocupou um papel crucial e de destaque após a Segunda Guerra Mundial, em razão de trazer uma ideia de universalidade em torno dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional.

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Os direitos humanos são orientados por um sistema global de proteção, sob a coordenação da ONU – Organização das Nações Unidas, que tem a função de, a partir de tratados e organismos internacionais, manter em vigor uma ordem jurídica internacional, válida para todos os países. Desse modo, a ONU tenta assegurar o respeito à pessoa humana. Dentre os documentos mais importantes está a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, por meio da qual se estabeleceu um conjunto de direitos aplicáveis a todos os povos. (RADDATZ, 2013, p. 6).

A referida Declaração foi um dos documentos mais importantes desta caminhada. Flávia Piovesan (2006, p. 38) explica que ela confere lastro axiológico e unidade valorativa a esse campo do direito, com ênfase na universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos.

Logo, observa-se que o objetivo principal desse documento era alcançar todos os indivíduos do mundo, sem nenhuma distinção. Pois, “a condição de pessoa é o requisito único para a titularidade de direitos, considerando o ser humano com um ser essencialmente moral, dotado de unicidade existencial e dignidade” (PIOVESAN, 2006, p. 38).

Sendo assim, compreende-se que a primeira característica desta Declaração, a qual consiste tecnicamente em uma resolução, é a universalidade. Ou seja, são direitos para todos, livre de qualquer distinção. A segunda característica é indivisibilidade, a qual significa que não é possível fracionar estes direitos, como havia antigamente a divisão entre direitos civis e políticos e direitos econômicos, sociais e culturais. Assim, todos os direitos devem ser concedidos para todas as pessoas. Em decorrência destes, a terceira característica é a interdependência e a complementaridade entre eles, os quais são explicados pela Declaração e Programa de Ação de Viena (PGE, 1993):

Todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global, justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase. Embora particularidades nacionais e regionais devam ser levadas em consideração, assim como diversos contextos históricos, culturais e religiosos é dever dos Estados promover

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e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, sejam quais forem seus sistemas políticos, econômicos e culturais.

É importante salientar que este direito internacional de proteção aos indivíduos não se restringe à Declaração Universal dos Direitos do Homem, como explica Bobbio (1992, p. 33):

Os direitos elencados na Declaração não são os únicos e possíveis direitos do homem: são os direitos do homem histórico, tal como este se configurava na mente dos redatores da Declaração após a tragédia da Segunda Guerra Mundial, numa época que tivera início com a Revolução Francesa e desembocara na Revolução Soviética.

Desde 1948, são feitas retificações na referida Declaração, bem como Convenções e Pactos são aprovados a fim de complementar o referido documento de acordo com as alterações impulsionadas pela sociedade contemporânea.

Considerando esse conjunto de transições, Hannah Arendt (1989) explica que os direitos humanos são um construído, uma invenção humana, em constante processo de construção e reconstrução. Da mesma forma, Bobbio (1992, p. 32) aponta “os direitos ditos humanos são o produto não da natureza, mas da civilização humana; enquanto direitos históricos, eles são mutáveis, ou seja, suscetíveis de transformação e de ampliação”. Logo, ressalta dizer que os direitos humanos são uma construção social e por tal, não estanque. Um produto social que acompanha o desenvolvimento individual e coletivo do homem, sujeito, cidadão.

O jurista brasileiro, atual membro do Tribunal Internacional de Justiça, Antonio Augusto Cançado Trindade (1999), complementa afirmando que a proteção dos direitos humanos ocupa uma posição central na agenda internacional da passagem do século XX para a atualidade. Portanto, depreende-se, novamente, que os direitos humanos admitem mudanças de acordo com as transformações das relações da sociedade e são de extrema

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importância para a coletividade, sendo neste sentido analisado o acesso digital no próximo item.

1.3.2 O acesso digital

Como já citado anteriormente, a atual sociedade se encontra na quarta geração de direitos. Para tanto, insta salientar os ensinamentos de Darcísio Corrêa (2010, p. 441) sobre este momento:

Esses direitos, hoje postos como condição de sobrevivência planetária e cuja titularidade não é mais constituída apenas pela singularidade dos indivíduos, podem ser exemplificados pelos direitos à autodeterminação dos povos, à paz internacional, ao desenvolvimento (por um diálogo Norte/Sul), a um meio ambiente equilibrado e saudável, à comunicação, além dos direitos das coletividades regionais ou étnicas culturalmente diferenciadas.

Spengler, Bedin e Lucas (2012, p. 37) continuam:

Estes são todos de interesse coletivo e sinalizam para os limites territoriais do Estado moderno e para o enfraquecimento do conceito de soberania, e indicam a necessidade de se olhar cada vez mais para o cenário internacional para entender as novas configurações da realidade deste início do século XXI e suas possibilidades.

Assim, considerando o direito à comunicação e os demais expostos pelos autores, bem como as vantagens já apresentadas neste trabalho e de outras tantas concedidas pela conexão digital, além do progresso e as melhorias das tecnologias de informação e comunicação no mundo globalizado, o acesso à internet foi considerado, pela ONU, como um direito humano no ordenamento jurídico internacional.

Em 2011, a Organização das Nações Unidas (ONU), reconhecendo a importância do fluxo de informação e comunicação gerado pela internet, relatório que analisa as tendências e desafios através da internet decretou “ser direito de todos os indivíduos procurar, receber e transmitir informações e ideias de todos os tipos através da Internet.” (CONCEIÇÃO, 2012, p. 5).

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Se há liberdade de expressão, liberdade política, cultural, econômica e social e se essas liberdades são para as pessoas que vivem em sociedade, natural que o exercício desses direitos sejam, também, externados no mundo virtual, enquanto este seja reflexo da sociedade atual.

A inserção do acesso à internet como direito humano está protegida no ordenamento jurídico brasileiro a partir da Constituição Federal de 1988, em especial no artigo 1°, incisos II e III, os quais garantem cidadania e dignidade da pessoa humana. Ademais, a adição deste direito está amparada pelo artigo 5º, § 2º da Carta Magna “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. (PLANALTO, 2014).

Eduardo Moreth refere que a internet passa a ser cada vez mais importante, numa ideia de flexibilização de fronteiras, de uma soberania mais democratizada. Segundo Moreth, a internet deve ser concebida como um instrumento de se fazer preservar direitos humanos, direitos fundamentais e de acesso a estas informações para que todas as pessoas do mundo saibam o que está acontecendo. A título de exemplificação, Moreth fala sobre o Oriente Médio, o qual em 2011 passava por uma crise frente a substituição do governo. Ele explica que, os regimes opressores tendem a fazer com que a informação não seja muito divulgada, controlando os meios tradicionais de comunicação, e nestas ocasiões o acesso à internet é fundamental para que todos saibam do que acontecendo, bem como possam usar mecanismos que ela dispõe, caso sejam necessários. (STF, 2011).

Neste sentido, Vera L. S. Raddatz (2013, p. 7) explica:

A mídia, especialmente as novas mídias, tem sido um dos espaços de maior visibilidade para as questões dos direitos humanos pelo mundo, embora ainda esta pauta não seja a mais importante nas redações de rádios, televisões e outros meios.

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A fim de contribuir no debate acerca do reconhecimento do acesso à internet como direito humano, ocorreram discussões no evento Conexões Globais realizado em maio de 2013 pelas secretarias de Comunicação e Inclusão Digital (Secom) e da Cultura (Sedac) do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Participou do evento o diretor de Inclusão Digital da Secom, Gerson Barrey, o qual explica que o acesso à internet foi declarado pela ONU como direito humano não apenas por questões técnicas, mas por ser um poderoso meio de comunicação, o qual possibilita o direito de expressão. (CONEXÕES GLOBAIS, 2013).

O mesmo diretor explica que, em fevereiro de 2013, a ONU afirmou novamente, em outro relatório recente, o acesso à internet como direito humano. Essa reafirmação, desta vez foi em razão da criação de leis na França e na Inglaterra onde pessoas condenadas pelo mau uso da internet eram banidas da rede. A ONU relata que, independente do conflito e a decorrente condenação aplicada, todos tem direito ao acesso à internet. E, por isso, pede que esses países revejam suas ações. (CONEXÕES GLOBAIS, 2013).

Gerson Barrey ainda acrescenta no debate que, casos como este, onde o governo desliga a internet do cotidiano das pessoas, já ocorreram em outros países que tiveram manifestações através da rede mundial de computadores. Todavia, com base no art. 19, parágrafo 3 do Pacto Internacional de direitos civis e políticos, firmado em 1996, a ONU pede a revisão destas atitudes que violam os direitos humanos do homem. (CONEXÕES GLOBAIS, 2013).

Ademais, com o intuito de estabelecer algumas colaborações à reflexão, o referido diretor reforça que a ONU influencia diretamente em vários legislativos do mundo. Exemplo deste reflexo é o debate gerado acerca do marco civil no Brasil que pretende impulsionar o acesso digital à todos cidadãos. Segundo ele, todos nós temos de ser vigilantes para que os direitos inerentes ao acesso à internet, bem como a livre expressão dos brasileiros sejam mantidos. (CONEXÕES GLOBAIS, 2013).

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Nesta senda, o acesso à internet é confirmado na legislação brasileira, no artigo 2º, inciso II da Lei número 12.965 de 2014 – conhecida como Marco Civil da Internet. O referido dispositivo garante que a disciplina do uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de expressão, bem como os direitos humanos, o desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais. (PLANALTO, 2014).

Denota-se que esse reconhecimento do acesso à internet como direito humano é um reflexo da globalização da sociedade. Neste sentido,

[...] pode-se dizer que a globalização é um fenômeno que já constitui a realidade e a percepção dos indivíduos dos cinco continentes, desafiando um grande número de pessoas em todo o Planeta com seus problemas e com suas possibilidades. (BEDIN, 2001, p. 330).

Portanto, em virtude desta transformação cultural que a rede mundial de computadores provocou no cotidiano, as pessoas, agora na condição de internautas, passaram a interagir, compartilhar e produzir conteúdo. Daí a necessidade de buscar mecanismos que fortaleçam este debate, a fim de que o acesso à internet torne-se, realmente, um direito humano efetivo na vida de cada indivíduo.

Pierre Lévy (1999, p. 201) destaca que o meio virtual não veio para substituir nenhuma relação na vida cotidiana, mas sim para agregar vantagens e benefícios nas atividades humanas, por isso a necessidade de estender o direito para todos:

O desenvolvimento do ciberespaço não vai “mudar a vida” milagrosamente nem resolver os problemas econômicos e sociais contemporâneos. Abre, contudo, novos planos de existência:

- nos modos de relação: comunicação interativa e comunitária de todos com todos no centro de espaços informacionais coletivamente e continuamente reconstruídos,

- nos modos de conhecimento, de aprendizagem e de

pensamento: simulações, navegações transversais em

espaços de informação abertos, inteligência coletiva,

- nos gêneros literários e artísticos: hiperdocumentos, obras interativas, ambientes virtuais, criação coletiva distribuída.

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Nem os dispositivos de comunicação, nem os modos de conhecimentos, nem os gêneros característicos da cibercultura irão pura e simplesmente substituir os modos e gêneros anteriores.

Ante o exposto, o próximo capítulo abordará os problemas advindos do grupo de pessoas que não está acompanhando este desenvolvimento da internet, ou seja, da exclusão digital e quais os mecanismos possíveis para solucionar este problema.

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2 OS DESAFIOS PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA CIDADANIA DIGITAL

O reconhecimento do acesso à internet como direito humano é um grande marco neste século XXI, pois além de sua importância para os diversos segmentos da sociedade, verifica-se uma era de transições profundas na vida dos indivíduos.

Com o crescente processo de globalização e mundialização, estamos acompanhando um rearranjo da sociedade, principalmente no que tange à disponibilização e acesso à tecnologia. Acontece que, devido diferenciação e a desigualdade gerada por esse processo de globalização, muitos ficam à margem do processo de tomada de decisão, tornando-se refém de seu próprio destino. (CONCEIÇÃO, 2012, p. 13).

Dentre os efeitos gerados por este avanço tecnológico, resultado das transformações sofridas pela nova sociedade da informação, está a exclusão digital, a qual será abordada especificadamente neste capítulo. De imediato, será analisado o atual cenário do alcance da internet no país através da análise da pesquisa realizada em 2013 pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil e na sequência, possíveis ações afirmativas para concretizar o almejado quadro de cidadania digital.

2.1 A exclusão digital e suas consequências

Embora os benefícios da internet recebam destaque neste contexto digital, por outro lado é possível afirmar que o progresso acelerado da comunidade cibernética deixou fendas para o desenvolvimento de problemas sociais na sociedade contemporânea.

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Apesar de ser causadora de diversos benefícios para a sociedade, essa informática e a internet trouxeram pontos positivos e pontos negativos. Se por um lado tais tecnologias promoveram quantidade e, dependendo, qualidade de acesso a informações; por outro lado, a informática e, principalmente a internet, podem ser fatores cruciais no aumento da exclusão social. (CONCEIÇÃO, 2012, p. 2).

Na sequência a mesma autora (2012, p. 3) explica os motivos deste atual cenário de exclusão no país referindo que a informática e a internet pode se tornar um divisor de águas, como relata a partir do momento em que por um lado se tem um leque de informações por parte dos que detém as técnicas de operacionalização do computador e da web, e por outro, tende a aumentar o distanciamento por aqueles que não têm conhecimento e se negam a usufruir devido à aversão ao desconhecido.

Desse modo, contata-se que apesar de a rede mundial de computadores ter se expandido em grande escala, muitos indivíduos ainda estão distantes deste contato direto com as novas tecnologias.

Atualmente existe um número considerável de pessoas que nunca se aproximaram de um computador e nem imaginam as potencialidades e benefícios que ele pode proporcionar. A maioria da população brasileira faz parte deste grande grupo chamado de “excluídos digitais”, que estão à margem da sociedade em rede. (BOTTENTUIT JUNIOR; FIRMO, 2004, p. 1).

Cicilia M. Krohling Peruzzo (2011) também concorda com esta constatação que apesar do aumento progressivo do acesso à internet, grandes contingentes populacionais na América Latina ainda estão à margem dos benefícios desse ambiente comunicacional que vem contribuindo para mudanças culturais, bem como no modo de gerar e difundir informações.

Conceição (2012, p. 6) confirma este entendimento de avanço da web, mas, sobretudo, de exclusão:

A internet popularizou-se, sobretudo, a partir da redução dos custos tanto de acesso quanto de aparato tecnológico

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necessário, e, desde então, tem-se observado um boom de informação e acessos jamais imagináveis no âmbito da possibilidade de comunicação em tempo real. Porém, em certa medida, certos índices podem estar ludibriando a sociedade passando a falsa impressão que, devido ao aumento do número de aquisição, o acesso do computador está abrangendo a população brasileira como um todo. Acontece que, ao se analisar os números, pode-se perceber que a realidade não é bem assim.

Uma pesquisa, realizada na Faculdade de Direito da USP, divulgou em 2013 que 80% da população sofre exclusão digital. Victor Hugo Pereira Gonçalves, autor do estudo, referiu que o direito à internet e às novas tecnologias digitais deve estar acima de todos os outros pois, nos dias atuais, é cada vez mais comum que seja por meio dele que os outros direitos funcionem adequadamente. (DIAS, 2013).

No que tange a exclusão digital como consequência da evolução no acesso à internet, Pierre Lévy (1999, p. 218) afirma que cada novo sistema de comunicação fabrica seus excluídos. Não havia iletrados antes da invenção da escrita. A impressão e a televisão introduziram a divisão entre aqueles que publicam ou estão na mídia e os outros. Segundo a referida publicação, estima-se que apenas pouco mais de 20% dos estima-seres humanos possui um telefone. Nenhum desses fatos constitui um argumento sério contra a escrita, a impressão, a televisão ou o telefone. O fato de que haja analfabetos ou pessoas sem telefone não nos leva a condenar a escrita ou as telecomunicações – pelo contrário, somos estimulados a desenvolver a educação primária e a estender as redes telefônicas. Deveria ocorrer o mesmo com o ciberespaço, conclui o autor.

Nota-se, portanto, que a sociedade contemporânea está criando um novo grupo de excluídos, e que estes enfrentam barreiras na sociedade do século XXI, em razão da desigualdade formada entre aqueles que possuem acesso à internet e aqueles que estão privados deste acesso, das vantagens e dos benefícios trazidos pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Paulo Roberto Feldmann (2001) explica:

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Já temos em nosso país várias categorias de excluídos: os da terra, os da educação, os do emprego, os da saúde e os da moradia, entre outros. Agora estamos passando a conviver com um novo tipo de exclusão. Trata-se da exclusão digital. Ela é tão ou mais grave que as outras, pois já se torna obstáculo para as pessoas obterem empregos dignos. A exclusão digital é o lado ruim da sociedade do conhecimento - esse termo vem sendo usado para designar uma nova forma de sociedade pós-capitalista, na qual o recurso econômico básico deixou de ser o capital, as matérias-primas e até mesmo a mão-de-obra. Nessa sociedade, o que vale para conseguir emprego é o capital intelectual.

Elisabeth Gomes (2002, p. 1), acrescenta que o problema da exclusão digital se apresenta como um dos maiores desafios deste início de século, com implicações diretas e indiretas sobre os mais variados aspectos da moderna sociedade, a sociedade do conhecimento. Segundo ela, a já conhecida desigualdade registrada entre pobres e ricos entra agora na era digital e ameaça se expandir com a mesma rapidez das tecnologias de comunicação. Para a autora, nesta nova sociedade, o conhecimento é um “driver” fundamental para aumentar a produtividade e a competição global. Continua, referindo que, é fundamental para a invenção, para a inovação e para a geração de riqueza. As tecnologias de informação e comunicação – TIC, provêem uma fundação para a construção e aplicação do conhecimento nos setores públicos e privados. O crescimento do uso das TICs, em países em desenvolvimento, durante os anos 90, foi impressionante, tanto entre, quanto dentro dos países. Ademais, Gomes acredita que enquanto a lacuna na telefona fixa e móvel diminui, uma enorme desigualdade digital emergiu e continua crescendo. O recente colapso do mercado de telecomunicações e de tecnologia, um encolhimento dos investimentos globais para inovação e um grande esforço nas privatizações induziram baixas tolerâncias ao risco e reduziram os investimentos do setor privado em infra-estrutura. Assim, concluiu seu pensamento expondo que é neste contexto que se aplica o termo exclusão digital, seja por motivos sociais, econômicos, políticos e/ou culturais, o acesso às vantagens e aos benefícios trazidos por essas novas TIC.

Hoje a internet é meio de comunicação essencial, assim como o rádio e a televisão foram no século passado. O grande problema é que o acesso ao

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ambiente digital não atinge a maior parte da população em razão do custo e do manuseio que exige alguns conhecimentos específicos, e esses fatores impulsionam ainda mais o desenvolvimento de desigualdades sociais. Assim, conforme Conceição (2012, p. 14) “o desafio, portanto, é evitar que a internet seja mais um fator para aumentar a desigualdade e a exclusão social”. Neste sentido, mais autores apresentam suas contribuições:

Apesar do aumento progressivo do número de indivíduos com acesso à Internet em diversos continentes, a exclusão digital ainda é um problema concreto e real neste início de século. As desigualdades entre os contingentes de cidadãos com pleno acesso e aqueles que enfrentam dificuldades em obter este serviço ocorrem em todos os países, em menor ou maior grau. Porém, essa assimetria é bem mais acentuada em nações subdesenvolvidas ou emergentes, como o Brasil. (RIBEIRO; MERLI; SILVA, 2012, p. 197).

Do mesmo modo, a socióloga Magdalena Claro (2011, p. 7 apud RIBEIRO; MERLI; SILVA, 2012, p. 198) relata a preocupação afirmando que a situação de exclusão digital associada à crescente importância das TICs no desenvolvimento econômico dos países torna crescente o risco de marginalizar ainda mais grupos excluídos das práticas educativas. Para ela, nesse cenário surge uma nova dimensão da exclusão social, que é a incapacidade de participar da sociedade da informação, onde é necessário não só ter acesso às novas tecnologias como desenvolver habilidades necessárias para usá-las de forma efetiva.

Portanto, observa-se que a exclusão digital é mais um dos reflexos da exclusão social vivida pelo país.

A exclusão social, que nada mais é do que a negação da cidadania do indivíduo, pois ser incluído digitalmente não é simplesmente ter acesso as tecnologias da informação, mas aquele que usufrui desse suporte para melhorar as suas condições de vida. (SILVA; MARQUES; DONADEL, 2013, p. 6).

Lília Bilati de Almeida e Luiza Gonçalves de Paula (2005, p. 59) complementam este debate relatando que a exclusão social e a exclusão digital

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são mutuamente causa e conseqüência, cidadãos que se enquadram em um ou mais tipos de exclusão social, podem ser inibidos de acompanharem a evolução tecnológica, passando a condição de integrantes da exclusão digital. Em contrapartida, para elas, os cidadãos excluídos digitalmente por falta de empenho ou por opção própria, passam a fazer parte de um ou mais tipos de exclusão social.

Insta salientar que a condição de excluído digital se dá a partir daquele ser humano que não possui uma máquina conectada à internet. E daquele que mesmo tendo o acesso virtual disponível não o sabe manusear, assim, provocando prejuízos nas atividades inerentes ao cidadão, deixando-o isolado da sociedade. Nesta seara, Almeida e Paula (2005, p. 56) explicam:

Exclusão digital pode ser vista por diferentes ângulos, tanto pelo fato de não ter um computador, ou por não saber utilizá-lo (saber ler) ou ainda por falta de um conhecimento mínimo para manipular a tecnologia com a qual convive-se no dia-a-dia. [...] a exclusão digital estará sendo conceituada como um estado no qual um indivíduo é privado da utilização das tecnologias de informação, seja pela insuficiência de meios de acesso, seja pela carência de conhecimento ou por falta de interesse.

Não há dúvidas que o primeiro intuito do desenvolvimento da internet foi estabelecer uma melhor comunicação e troca de informações entre as pessoas. Todavia, os prejuízos causados na vida de quem não aprendeu a usar o computador conectado à grande rede são inevitáveis, e entre eles, está a dificuldade na obtenção de empregos, conforme menciona Paulo Roberto Feldmann (2001):

É inegável que ela traz ganhos imensos de produtividade para as empresas e para as pessoas físicas. Diagnósticos médicos podem ser feitos à distância, com o paciente em um país e o médico em outro; novos métodos de aprendizagem revolucionam a educação; e novas profissões têm sido criadas. No entanto existe o outro lado. Já temos em nosso país várias categorias de excluídos: os da terra, os da educação, os do emprego, os da saúde e os da moradia, entre outros. Agora estamos passando a conviver com um novo tipo de exclusão. Trata-se da exclusão digital. Ela é tão ou mais grave que as outras, pois já se torna obstáculo para as pessoas obterem empregos dignos. A exclusão digital é o lado ruim da sociedade

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do conhecimento - esse termo vem sendo usado para designar uma nova forma de sociedade pós-capitalista, na qual o recurso econômico básico deixou de ser o capital, as matérias-primas e até mesmo a mão-de-obra. Nessa sociedade, o que vale para conseguir emprego é o capital intelectual.

No que tange à empregabilidade, nota-se que atualmente muitas provas de concursos, inclusive para provimento de cargos que requerem formação completa apenas do ensino fundamental, exigem conhecimentos em internet. A título de exemplificação se pode citar o concurso público para auxiliar em administração para o quadro de pessoal do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, onde o edital pleiteava dentre os conhecimentos em informática, noções de internet e intranet: conceitos, modo de utilização, ferramentas, serviços e uso de navegadores da web1.

Logo, observa-se que o domínio na área da informática é fundamental para a sobrevivência humana nesta era moderna. Almeida e Paula (2005, p. 59) delinearam suas conclusões referentes a este tema da empregabilidade dizendo que na sociedade em que vivemos atualmente, uma pessoa sem conhecimentos em informática, muitas vezes é tida como desqualificada para trabalhar, visto que mesmo nas pequenas empresas ou escritórios os sistemas de informação estão presentes. Para elas, em conseqüência, gera-se baixa renda e desemprego. Com isso, as autoras entendem que o ciclo de pobreza e fome se torna mais intenso, havendo então, o desaquecimento da economia e os conseqüentes abalos diante dos mercados exteriores concorrentes, sem falar nos agravantes internos, como a proliferação de favelas, o aumento da violência e a elevação dos preços de mercado.

Ocorre que, a dificuldade na obtenção de empregos é apenas um reflexo da exclusão digital, dentre os vários existentes. Analisando o ser humano privado do acesso à internet, conclui-se que ele não terá condições de alcançar o desenvolvimento da sociedade da informação, que caminha cada vez mais em direção aos serviços on-line.

1 Maiores informações sobre o edital para o provimento do cargo de auxiliar em administração

disponíveis em: <http://www.faurgsconcursos.ufrgs.br/IFRS0512/Edital%2005_2012%20-%20IFRS.pdf>.

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Neste contexto, enfatiza-se que a exclusão digital influencia diretamente no desenvolvimento da sociedade da informação no Brasil, visto que priva os excluídos digitalmente de interagirem com as informações. Medidas de inclusão digital são necessárias para possibilitarem a esses cidadãos agregarem cada vez mais conhecimento e desenvolverem o capital intelectual, colaborando para a evolução social, cultural e econômica de nosso país e caminhando para extinguir a divisão entre ricos e pobres de informação. (ALMEIDA; PAULA, 2005, p. 61).

O indivíduo moderno que não possui acesso à internet não terá as mesmas oportunidades que a pessoa conectada à rede mundial de computadores, seja por não obter o mesmo leque de notícias que permeiam o mundo inteiro ou por ter conhecimento das informações de interesse geral disponibilizadas pela web ou, em suma, por não poder desfrutar dos benefícios desenvolvidos pela tecnologia de alta qualidade que proporcionam facilidade, comodidade e rapidez ao internauta.

O professor Bernardo Sorj e o pesquisador Luís Eduardo Guedes (p. 3) explanam a necessidade de avaliação aprofundada deste fenômeno moderno denominado de exclusão digital.

A exclusão digital não se refere a um fenômeno simples, não se limita ao universo daqueles que têm versus ao daqueles que não têm acesso a computador e Internet, dos incluídos e dos excluídos, polaridade real mas que por vezes mascara os múltiplos aspectos da exclusão digital. A razão é simples: a oposição acesso/não-acesso é uma generalização razoável somente em relação a certos serviços públicos (como, por exemplo, eletricidade, água, esgoto) e bens tradicionais de consumo intermediário (a relevância do tipo/qualidade de TV, geladeira, telefone ou carro é secundaria, embora para a população pobre o custo da ligação limite sobremaneira o uso de telefone ou o custo da gasolina, o uso do carro). No caso da telemática a situação é diferente. O número de proprietários de computador ou pessoas com acesso à Internet é uma medida primitiva demais para medir a exclusão digital. Por quê? a) porque o tempo disponível e a qualidade do acesso afetam decisivamente o uso da Internet, b) porque as tecnologias da informação e comunicação (daqui em diante usaremos o termo telemática) são muito dinâmicas e obrigam a uma atualização constante de hardware e software e dos sistemas de acesso, que, para não ficarem obsoletos, exigem um investimento regular por parte do usuário, c) porque o seu potencial de

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utilização depende da capacidade de leitura e de interpretação da informação por parte do usuário (no caso da Internet) e de sua rede social (no caso do e-mail).

Gomes (2002, p.7) acrescenta:

O problema da exclusão digital vem acompanhado por outros tipos de problemas de ordem econômica, social, cultural, interesses políticos, entre outros. Deve ficar claro que esse movimento de estender acesso à informática e à Internet representa um caminho no qual não há retorno e que provavelmente mudará, a longo prazo, a relação entre o cidadão e o Estado, municipal, estadual e federal. Daqui a diante será mais fácil para grupos de cidadãos com interesses específicos se organizarem para agir de forma a ter o maior impacto possível

Posto isso, denota-se a necessidade de, na continuação deste capítulo, delinear o atual cenário brasileiro de uso e acesso à internet. Pois, a partir desta observação se torna possível a busca por alternativas de inclusão digital.

2.2 O uso da internet a partir da análise de pesquisa produzida pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil

No presente item será apresentada uma análise dos dados da pesquisa sobre o uso das Tecnologias e Comunicação no Brasil – TIC Domicílios e Empresas 2013, produzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil.

Segundo a referida publicação, nota-se uma manutenção da tendência de crescimento na proporção de domicílios com computador – seja ele de mesa, portátil ou tablet. Em números absolutos, a pesquisa estima que 30,6 milhões de domicílios brasileiros possuam computador, o equivalente a 49% dos domicílios. (COMITÊ GESTOR DE INTERNET NO BRASIL, 2014, p. 164).

O estudo apresentou, também, quais os fatores que influenciam o acesso às TIC com base nos domicílios que ainda não têm acesso ao computador. Dentre eles foram elencados três fatores principais: primeiramente está o fator social, haja vista que o computador está mais presente nos domicílios brasileiros de classes sociais mais altas. Frisa-se que esta

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constatação se mantém desde o ano de 2005, quando ocorreu a primeira edição da pesquisa. Na sequência está o fator renda, o qual foi pontuado como de grande relevância para a presença de computador nos domicílios, bem como na formação da exclusão digital. Nesta seara, a pesquisa estima que 22,6 milhões dos domicílios brasileiros com renda familiar de até dois salários mínimos não tenham computador. Por fim, foi indicado o fator localização, pois o crescimento na área rural não segue o da área urbana. A pesquisa assinala que em 2013, havia computador em 53% dos domicílios da área urbana, enquanto, na área rural, essa proporção foi de 21%. (COMITÊ GESTOR DE INTERNET NO BRASIL, 2014, p. 166).

Segundo a pesquisa, merece destaque o crescimento da presença de

tablets. Em 2011 apenas 2% dos domicílios possuíam a máquina, já no ano de

2013 esta porcentagem passou para 12%. Isso representa que, em 2012, 1,3 milhões de domicílios tinham tablet, e logo no ano de 2012, esse número passou para 3,8 milhões. (COMITÊ GESTOR DE INTERNET NO BRASIL, 2014, p. 167).

Após a análise da presença de computador nos domicílios foi explorado o percentual de domicílios com acesso à internet. A pesquisa verificou que este quesito está crescendo nos últimos anos. Em 2013, 43% dos domicílios estavam conectados à internet. Isto corresponde à 27,2 milhões de residências conectadas ao mundo digital. (COMITÊ GESTOR DE INTERNET NO BRASIL, 2014, p. 169).

Na sequência está definido o fator socioeconômico como componente importante nesta análise. Enquanto que a classe A da sociedade tem 98% dos domicílios conectados à rede mundial de computadores, a classe D e E possui apenas 8%. Entre elas, está a classe C com 39% e a classe B com 80%. Novamente o fator localização é determinante. No que tange o acesso à internet recebem destaque as diferenças entre a área urbana e rural. Segundo a pesquisa. O crescimento do número de domicílios com internet, nos últimos anos, foi menor nas áreas rurais. As áreas urbanas apresentaram em 2013 uma proporção de 48% de domicílios com internet – crescimento de 28 pontos

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