3. A HISTÓRIA DO PERU E SUA EDUCAÇÃO ATÉ O SÉCULO
3.2 A educação e as nuances peruanas que estacarrega
Escrever sobre a educação de outro país que não o Brasil já não é uma tarefa fácil, mais difícil ainda é apresentar o panorama das políticas educacionais e estrutura de ensino desta outra nação, mesmo sendo uma da qual sou natural, visto que não vivo mais lá e que o leitor nunca teve contato com aquela realidade distinta em vários aspectos dabrasileira.
Mariátegui (2010) nos apresenta detalhes desse panorama peruano, a origem dessa educação e quais influências a guiam no processo de sua edificação e consolidação enquanto política:
Três influências se sucedem no processo de educação na república: a influência, ou melhor, dito, a herança espanhola, a influência francesa e a influência estadunidense. Mas só a espanhola alcança, no seu tempo, um domínio completo. As outras duas se inserem de maneira medíocre no quadro espanhol, sem alterar demasiado suas linhasfundamentais.
A história da educação pública no Peru divide-se assim nos três períodos que assinalam essas três influências. Os limites de cada período não são muito precisos. Mas no Peru esse é um defeito comum a quase todos os fenômenos e a quase todas as coisas. Até nos homens é raro se observar um contorno claro, um perfil categórico. Tudo sempre aparece um pouco apagado, um pouco confuso.
No processo de educação pública, como em outros aspectos de nossa vida, constata-se a superposição de elementos estrangeiros combinados, insuficientemente aclimatados. O problema está nas próprias raízes deste Peru filho da conquista. Não somos um povo que assimila as ideias e os homens de outras nacionalidades, impregnando-as de seu sentimento e de seu ambiente, o que desse modo enriquece sem deformar, seu espírito nacional. Somos um povo no qual convivem, no entanto, sem fundir ainda, sem se entender, indígenas e conquistadores. A república se sente e até se confessa solidária com o vice-reinado. Como o vice-reinado, a república é o Peru dos colonizadores, mais que dos nativos, O sentimento e o interesse de quatro quintos da população quase não jogam nenhum papel na formação da nacionalidade e de suasinstituições.
A educação nacional, por conseguinte, não tem um espírito nacional: em vez disso tem um espírito colonial e colonizador. Quando, em seus programas de educação pública, o Estado refere-se aos índios, não se refere a eles como peruanos iguais aos demais. Considera-os como uma raça inferior. Nesse terreno, a república não se diferencia do vice-reinado.
A Espanha nos legou, entretanto, um sentido aristocrático e um conceito eclesiástico e literário do ensino. Dentro desse conceito, que fechava as portas da universidade aos mestiços, a cultura era um privilégio de casta. O povo não tinha direito à instrução. O ensino tinha como objetivo formar clérigos e doutores.
A revolução da independência, alimentada da ideologia jacobina, produziu temporariamente a adoção dos princípios igualitários. Mas esse igualitarismo verbal não tinha em vista, realmente, senão o criollo. Ignorava o índio. A república, além do mais, nascia na miséria. Não podia se permitir o luxo de uma ampla política educacional.
(...) O governo de 1831, que decretou a gratuidade do ensino, fundamentava essa medida, que não chegou a ser aplicada, na notória decadência das fortunas particulares que tinha reduzido inúmeros país de família à amarga situação de não lhes ser possível dar aos seus filhos a educação ilustrada, frustrando-se muitos jovens de talentos.
O que preocupava esse governo não era a necessidade de colocar esse grau de instrução ao alcance do povo. Era, segundo suas próprias palavras, a urgência de resolver um problema das famílias que haviam sofrido uma diminuição em sua fortuna. (MARIÁTEGUI, 2010, p. 115 –117)
A relação entre os índios e o governo peruano, seja no vice-reinado ou na república, sempre é um ponto crucial na análise da realidade peruana. A maneira como foi relegado se faz presente em vários aspectos, inclusive na educação que se constrói na transição dos regimes.
O autor retoma o tema quando trata dos privilégios na educação como reflexo dos privilégios em geral que uma parte minoritária da população tinha em função de sua posição social e da riqueza que acumulava:
A herança espanhola não era exclusivamente uma herança psicológica e intelectual.Era, antes de tudo, uma herança econômica e social. O privilégio da educação persistia pela simples razão de que persistia o privilégio da riqueza e da casta. O conceito aristocrático e literário da educação correspondia integralmente a um regime e a uma economia feudais. A revolução da independência não tinha liquidado esse regime e essa economia no Peru.Não podia, portanto, ter cancelado suas ideias peculiares sobre o ensino. (MARIÁTEGUI, 2010, p. 117)
Mariátegui retoma esse tema do formato feudal persistente na república como catalisador dos interesses e do comportamento das políticas em relação aos índios no que tange aos mais variados aspectos, entre estes a educação excludente e focada em uma parcela restrita dasociedade.
A medida que a república ia se consolidando, ia adquirindo traços capitalistas, buscava diversificação de referências para a construção de uma educação que servisse a esse novo momento. O autor nos apresenta isso:
A república herdou do vice-reinado, isto é, de um regime feudal e aristocrático, suas instituições e métodos de instrução pública, procurou na França os modelos de reforma do ensino tão logo – esboçada a organização de uma economia e de uma classe capitalista – a gestão do Estado adquiriu algum impulso progressista e alguma aptidão ordenadora.
Dessa maneira, aos vícios originais da herança espanhola se acrescentaram os defeitos da influência francesa que, em vez de atenuar e corrigir a conceituação literária e retórica do ensino transmitido à república pelo vice- reinado, veio acomplicá-lo.
(...) A influência francesa ainda não está liquidada. Sobram dela ainda muitos resíduos nos programas e, sobretudo, no espírito do ensino secundário e superior. Mas seu ciclo se concluiu com a adoção de modelos estadunidenses que caracterizam as últimas reformas. Seu balanço, pois, pode ser feito. Já sabemos com antecipação que apresenta um enorme passivo. Deve-se colocar na sua conta a responsabilidade pelo predomínio das profissões liberais. Impotente para preparar uma classe dirigente apta e sã, o ensino teve, no Peru, para um critério rigorosamente histórico, o vício fundamental da sua incongruência com as necessidades da evolução da economia nacional e de seu esquecimento da existência do fator indígena. Ou seja, o mesmo vício que encontramos em quase todo o processo político da república. (MARIÁTEGUI, 2010, p. 122,124)
Sendo assim, a proliferação de fontes em que bebeu a recém-proclamada república não resolveu de imediato os problemas educacionais, mas ao menos sinalizou na busca de um referencial e de uma alternativa educacional viável, ouve a intenção de ir ordenando a partir do que ia se edificando no novo regime a partir da consolidação das bases econômicas e do modelo de naçãocapitalista.
No ano de 2015 o governo peruano estabeleceu novas orientações acerca de sua educação, estas foram sistematizadas enquanto documento e se encontram disponíveis no sítio do Ministério da Educação do Peru.
Há de se destacar a importância de o Ministério fazer a crítica ao formato anterior da educação peruana, de se dispor a analisar de maneira mais profunda a realidade educacional e as consequências disso para sua população:
A nova política curricular busca consolidar um caminho, iniciado de várias décadas, para deixar atrás um ensino memorístico e repetitivo.Se propões avançar ao alcance de oito aprendizagens fundamentais, que exigem o desenvolvimento da capacidade de pensar e atuar sobre distintos campos da realidade. Todos eles demandam competências no âmbito do desenvolvimento pessoal, a cidadania, a comunicação, a matemática, as ciências, a arte e o empreendimento, assim como para o desenvolvimento e o cuidado do corpo. (MINEDU/PERU)
Destacamos também a ênfase dada ao desenvolvimento individual e a cidadania, além de registrar a presença da arte já no texto de abertura do documento, o que mostra uma ampliação da visão das possibilidades educacionais.
A comunicação aparece como chave para educação, o que casa bem com o que propõe Albarracín (2008) referente à cartilha sobre o uso das historias em quadrinhos em sala de aula, quando discute as possibilidades educacionais nas mesmas como meio de comunicação que colabora na viabilização de uma maior expressão do sentimento por parte das crianças e jovens.
As historietas se tornam um mediador da expressão de sentimentos quando os alunos não conseguem expressar plenamente seus pensamentos a través de palavras ou escritos de maior complexidade argumentativa, mas o conseguem de maneira expressiva nos desenhos e textos curtos que compõe uma historia em quadrinhos.
Mais uma vez o Ministério da Educação do Peru destaca a arte, a relação com esta, seja na produção ou na apreciação, e a necessidade da interação com outras pessoas e com a ciência para o desenvolvimento pleno do cidadão desde ainfância:
Da mesma forma, têm que aprender a comunicar-se eficientemente através de distintas linguagens, uma competência indispensável para seu desenvolvimento pessoal e para a convivência social. Não é menos importante que consigam expressar-se artisticamente e aproveitar os produtos da arte, e que saibam usar a ciência e a tecnologia para melhorar a capacidade de vida das pessoas, assim como, na matemática, na vida cotidiana, como também, no trabalho e na própria ciência e tecnologia. (MINEDU/PERU)
Figura 16 – Revista eletrônica de historietas Characato Comics, na capa jovem com indumentária caracterísitca do Peru, 2013.
Ainda quando se trata da infância, o Ministério da Educação Peruano expressa toda a necessidade da relação da arte com o aprendizado, da interpretação da realidade que o cerca a partir de convivência, leitura e cultura, entendendo essa como diversa e interrelacionada:
Do mesmo modo, estimular a expressão artística será tão importante como estimular as suas habilidades comunicativas e matemáticas básicas. Também, será promovido o desenvolvimento e motivação para alcançar metas, assim como, desenvolver a habilidade para interrogar a realidade e elaborar explicações aos fenômenos que despertemcuriosidade.
As crianças podem mostrar maiores progressos nas oitos aprendizagens ao concluir o primeiro grau. Por exemplo, na competência da leitura, eles podem localizar informações em diversos textos com vários elementos complexos na sua estrutura e vocabulário variado, poderão construir organizadores gráficos (mapas conceituais e mapas semânticos) e resumos do conteúdo desses textos, entre outrasconquistas.
Na competência sobre convivência, poderão explicar, por exemplo, a origem dos costumes dos companheiros de diferentes culturas, rejeitar situações onde seus amigos ou ele mesmo tenha feito mal a alguém; e propor ações para recuperar a confiança quando se tenha perdido, entre outras realizações..(MINEDU/PERU)
O Ministério também mostra compreender educação como mudança, como uma alteração na pessoa em função do contato com novas informações, possibilidades e formas queseapresentamnaescolaenoatodeeducar,fazumainteressanteconsideraçãosobreo
porquê vários que convivem num mesmo ambiente podem crescer e ter compreensões diferenciadas:
Em qualquer idade, a aprendizagem é uma mudança relativamente permanente no comportamento, no pensamento de todas as pessoas, a consequência da experiência e de sua interação consciente com o entorno em que vive com outras pessoas. Desde a infância até a maior idade, temos a aptidão de registrar, analisar, raciocinar e valorizar nossas experiências, transformado nossas percepções e deduções em reconhecimento.Crianças, adolescentes, jovens e adultos aprendemos sempre desse modo e o fazemos a partir das nossas próprias possibilidades, dos saberes que temos colhido previamente em nossas experiências do mundo e de nossas emoções. Nossa identidade e nossa colheita representam os filtros através dos quais selecionamos, valorizamos e incorporamos em cada experiência, transformando-a em aprendizagem.Nossa própria trajetória e personalidade, nossos afetos e preferencias, são também filtros importantes, que influenciam na nossa maneira de raciocinar e valorizar nossas experiências. É por isto que dois pessoas que incluso pertencem à mesma família, cultura, grupo social, território e época podem produzir conhecimentos distintos na mesma experiência.(MINEDU/PERU)
Por fim, o governo peruano apresenta nos documentos do Ministério da Educação a importância e sua definição de escola, o faz relacionando isso com o todo que o cerca e defendendo a necessidade de relacionamento entre essas partes:
A escola oferece numerosas oportunidades formais e não formais de aprendizagem que cruzam distintos âmbitos. Na sala de aula, os processos pedagógicos que se desenvolvem ao longo do ano escolar apontam intencionalmente à conquista de determinadas aprendizagens, predefinidos pelo curriculum. Fora da aula ou dentro das atividades acadêmicas, as relações cotidianas que configuram a convivência com outros estudantes, com os docentes e com a equipe de funcionários, são também uma fonte importante de aprendizagem social (MINEDU/PERU)
A educação é apresentada como algo que se realiza na escola, mas não só ela. Bem como é feita a defesa de uma educação formal necessária, mas acompanhada de processos não formais de aprendizagem reconhecidos pelo Ministério como relevante e parte do processo educacional.
Figura 17 – Foto com peruanos lendo historietas.