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3 PERCURSO TEÓRICO

3.4 A Educação em Saúde e a Educação Nutricional

A educação é um processo de mudança que ocorre, no mínimo, entre duas pessoas: educando e educador (TURANO & ALMEIDA, 1999). Desta forma a educação não é um ato de doação de conhecimento, mas uma troca com o educando (FREIRE, 2003). A relação vertical, onde o educador é superior ao educando deve dar lugar à relação dialógica.

Para Paulo Freire (2003), “não há docência sem discência” e educador não é aquele que apenas educa, mas o que, “enquanto educa, é educado, em

diálogo com o educando, que ao ser educado, também educa”. O saber construído dessa forma percebe a necessidade de transformar o mundo, porque assim os homens se descobrem como seres históricos. Sem respeitar a identidade do educando, sem levar em conta as experiências vividas pelo educando, o educador não terá êxito na sua tarefa, e o processo será inoperante, sem significação real (FREIRE, 2003).

Os educadores progressistas colocam maior ênfase na aprendizagem do que no ensino. Apesar de serem conceitos ligados, o ensino refere-se à instrução, orientação e transmissão de conhecimentos, que colocam o professor como elemento principal do processo. Mas na aprendizagem surgem conceitos como descoberta, apreensão, modificação do comportamento e aquisição de conhecimentos, que se referem diretamente ao aluno. À medida que maior ênfase é colocada sobre a aprendizagem, o papel do professor passa a ser o de ajudar o aluno a aprender (GIL, 2005).

A educação em saúde tem por objetivo capacitar indivíduos e grupos para lidar com os problemas fundamentais do cotidiano, como nutrição, higiene e reprodução (TURANO & ALMEIDA, 1999). Se entendida como processo, busca a capacitação dos indivíduos para agir conscientemente, mas com aproveitamento de experiências anteriores, formais e informais, tendo sempre em vista a integração, continuidade, democratização do conhecimento e o progresso no âmbito social. (LIMA et al, 2000). Para os profissionais de saúde sua finalidade é ajudar as pessoas a descobrirem os princípios, padrões e valores que melhor se adaptem às suas próprias necessidades, visando à qualidade de vida individual e coletiva (LINDEN, 2005).

A relação entre alimentação e qualidade de vida tem sido intensamente comprovada e discutida na literatura. A educação nutricional torna-se assim uma parte essencial da educação para a saúde, uma vez que é fato incontestável a importância da alimentação saudável para a promoção da saúde (TURANO & ALMEIDA, 1999, BOOG, 1999).

Dentro desta perspectiva a educação em saúde, e em particular a educação nutricional, caminham na direção em que o profissional de saúde deixa seu modo tradicional de educar, para ocupar um papel de facilitador do processo de aprendizagem, dentro de um conceito de promoção da saúde (LIMA et al, 2000).

A história da educação nutricional no Brasil tem um estreito vínculo com as políticas de alimentação e nutrição vigentes. Tradicionalmente o objetivo das propostas educativas em nutrição era subsidiar os indivíduos com informações adequadas sobre alimentos e prevenção de problemas nutricionais, sem fornecer auxílio na tomada de decisões. Foi a partir da década de 80 que os conceitos da educação nutricional crítica trouxeram importante contribuição para a discussão sobre novas perspectivas da educação nutricional. Tal concepção identificava haver uma incapacidade da educação alimentar e nutricional em promover alterações em práticas alimentares. A educação nutricional crítica baseava-se nos princípios da pedagogia crítica dos conteúdos, de orientação marxista, considerando que a educação nutricional não é neutra, como também não pode seguir uma metodologia prefixada (BOOG, 1997).

O Brasil apresenta hoje uma situação nutricional caracterizada por dois pólos opostos: em um extremo a fome e em outro os excessos alimentares, mesmo nas camadas de menor renda. A importância da educação nutricional ressurge timidamente, mas as ações desenvolvem-se sobre este panorama de contradições. Além disso, as ações educativas nos serviços públicos de saúde que buscam atender as propostas amplas voltadas à promoção da saúde, com prioridade para as atividades preventivas, contrastam com a realidade dos serviços, onde o cidadão busca prioritariamente tratamento para as doenças (BOOG, 1999).

A Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) aprovada em 1999 destaca que “atenção especial deve ser dada ao desenvolvimento do processo educativo permanente acerca das questões atinentes à alimentação e à nutrição, bem como à promoção de campanhas de comunicação social sistemáticas" (BRASIL, 2003). Mas a PNAN não traz a questão da capacitação em educação, em abordagens educativas apropriadas, apenas em conteúdos técnicos de alimentação e nutrição. Assim, pode-se afirmar que para o governo a centralidade das práticas educativas ainda está na transmissão de mensagens coerentes e claras, utilizando os recursos tecnológicos de comunicação, garantindo o direito ao acesso à informação. As habilidades e competências requeridas são mais de comunicadores do que de educadores, pois os profissionais são vistos como veiculadores de informações, mais do que como sujeitos das ações educativas na promoção das práticas alimentares saudáveis (SANTOS, 2005).

Vários são os inconvenientes apresentados por uma abordagem educativa convencional, fundamentada apenas na transmissão de informações. Este enfoque não é efetivo porque leva o educando a assumir uma atitude passiva no processo de ensino-aprendizagem. Tem-se observado que essa abordagem é insuficiente para motivar mudanças mais significativas das práticas de saúde, por não problematizar estas questões considerando a dimensão integral do educando. Dessa forma, não basta possuir o conhecimento, é preciso levá-lo ao nível da análise crítica do próprio hábito e das próprias representações relativas ao ato da alimentação.

A educação nutricional deve voltar-se para a formação de valores, para o prazer, para a responsabilidade, mas também para o lúdico e a liberdade. As abordagens interdisciplinares surgem como opções que podem oferecer caminhos alternativos para esta prática (BOOG, 2008). É importante reconhecer que “educar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou sua construção” (FREIRE, 1996).

Educação nutricional na adolescência

A educação nutricional tem um papel importante em relação à promoção de hábitos alimentares saudáveis desde a infância. É uma medida de alcance coletivo que objetiva proporcionar os conhecimentos necessários e a motivação para formar atitudes e hábitos de alimentação saudável, adequada e variada (RODRIGUES & BOOG, 2006).

Na adolescência o desenvolvimento cognitivo já se caracteriza pela independência dos dados materiais e concretos para que generalizações e abstrações sejam feitas. Entretanto, esta capacidade somente se estabelece se as etapas anteriores do desenvolvimento cognitivo tiverem sido alcançadas. Ou seja, que o indivíduo tenha tido experiências e oportunidades sociais capazes de promover os estímulos necessários (SAITO & SILVA, 2001).

Atividades de reflexão sobre a realidade alimentar e os fatores externos que influenciam as escolhas alimentares podem ser desenvolvidas com grupos de adolescentes (RODRIGUES & BOOG, 2006). A utilização de atividades que envolvam experiências artísticas tais como teatro, música, dança e artes plásticas são bem aceitas.

A educação nutricional pode promover o desenvolvimento da capacidade de compreender práticas e comportamentos. Os conhecimentos ou as aptidões

resultantes desse processo contribuem para a integração do adolescente com o meio social, proporcionando ao indivíduo condições para que possa tomar decisões para resolução de problemas mediante fatos percebidos (RODRIGUES & BOOG, 2006).