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A Educação Especial no governo Itamar Franco

No documento Educação e inclusão no Brasil (1985-2010) (páginas 120-131)

CAPÍTULO 3 – As atuações dos governos José Sarney (1985-1990), Fernando

3.8. A Educação Especial no governo Itamar Franco

No que diz respeito à Educação Especial, o governo Itamar Franco iniciou sua atuação ao reestruturar o setor em nível governamental e reinserir na estrutura

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organizacional do MEC a Secretaria de Educação Especial, cujas ações se caracterizariam pela “[…] centralização do poder de decisão e execução, por uma atuação marcadamente terapêutica e assistencial ao invés de educacional, dando ênfase ao atendimento segregado realizado por instituições especializadas particulares” (MAZZOTTA, 1990, p. 107 apud MENDES, 2010, p. 102). Assim, pautado nos princípios da integração, reabilitação e normalização, o ministério se voltou à manutenção das ações promovidas pelas gestões anteriores ao centrar esforços na promoção de programas de formação de profissionais para a área; incentivar, por meio da transferência de recursos financeiros, o trabalho das instituições privadas; e implantar novas instituições especializadas, sobretudo em localidades onde não as havia. Porém, mesmo anunciando a intenção de melhorar a implementação desses programas, o governo acabou dando maior ênfase à elaboração de dois novos marcos: a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, de 1993, e a Política Nacional de Educação Especial, de 1994.

Embora a Lei n.7853/89, a Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente também dispusessem sobre a prestação de serviços às pessoas com deficiência, o governo Itamar Franco optou pela formulação de uma nova política — a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (de 1993) —, consoante ao princípio da integração e, portanto, promotora da inclusão parcial, fato que não eliminava a histórica lógica excludente, que desrespeita o direito à diferença e reafirma a necessidade dos indivíduos se adaptarem ao sistema ao invés de promover o contrário.

Essa política se notabilizou, inicialmente, pelo caráter generalista em relação ao seu poder de intervenção no campo educacional, pois se afirmava que a pessoa com deficiência — então denominada “portadora de deficiência”, um conceito no mínimo retrógado, para não mencionar sua desumanidade — deveria ter acesso a todos os serviços prestados pelo Estado, entre eles a educação. Para isso, o aparelho estatal se incumbiria de garantir a qualificação dos profissionais que viessem a atendê-las, além de auxiliar, conjuntamente com a sociedade civil, a promoção de sua integração no “contexto socioeconômico e cultural” (BRASIL, 1993b);36 estimular a criação de empregos; atrair a participação dos

movimentos sociais de pessoas com deficiência na implantação da política; e, finalmente,

ϯϲNa linha da integração à vida em sociedade, o governo também promulgou a Lei n. 8.859 de 23 de março de

1994, que estenderia aos alunos de “ensino especial” o direito à participação em atividades de estágio (Cf. BRASIL, 1994e).

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mas não menos importante, prover a “articulação entre instituições governamentais e não governamentais […] visando garantir a efetividade dos programas de prevenção, de atendimento especializado e de integração social […] evitando ações paralelas e dispersão de esforços e recursos” (IDEM).

Incentivavam-se mais uma vez, portanto, duas perigosas prerrogativas: a de transferir serviços e responsabilidades estatais para a iniciativa privada e, finalmente, a de fortalecer o assistencialismo, característica marcante na história das políticas públicas voltadas à pessoa com deficiência.

Por sua vez, a Política Nacional de Educação Especial (de 1994) tinha como principal meta garantir o atendimento educacional ao aluno com deficiência. Estipulava como meta expandir em 25 por cento, até o final do século XX, o número de indivíduos atendidos pelos serviços educacionais, “o que ainda [podia] ser considerado muito pouco, tendo em vista a […] demanda, estimada em torno de 10 por cento da população, os quais apenas cerca de 1 por cento recebe […] atendimento educacional” (BRASIL, 1994b). Como objetivos específicos essa política elencava, entre outras coisas, o “desenvolvimento global das potencialidades dos alunos”; a aquisição, por parte dos alunos, de “hábitos intelectuais, de trabalho individual e em grupos” e do “saber” e “saber fazer”; a preparação dos alunos para participarem ativamente da vida social; o ingresso dos alunos na escola comum; a defesa da estimulação essencial; a preparação para o mercado de trabalho; e a promoção de ações articuladas entre saúde, educação, ação social e trabalho (IDEM, IBIDEM).

Para satisfazer as metas, essa política de 1994 determinava ao Estado uma série de diretrizes, dentre as quais apareciam como as mais importantes o incentivo à formação de recursos humanos e à promoção de estudos e pesquisas em Educação Especial através de parcerias com as instituições de Ensino Superior; o apoio aos programas de prevenção da deficiência e geração de empregos; a melhoria da rede física; e, por último, mas não menos importante, a realização de parcerias com ONGs especializadas.

Como se pode apreender de seu conteúdo, a Política Nacional de Educação Especial apenas referendou o que havia sido feito pelos governos nas décadas anteriores. Seus objetivos e diretrizes não iam além de um protocolo de intenções que seria completamente ignorado pelas gestões posteriores, dado o fato de não serem associados, por exemplo, a

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metas e mecanismos de financiamento. Seus fundamentos axiológicos também não eram nada transformadores: falava-se em respeito às diferenças individuais, legitimação da participação, atribuição de entendimento das pessoas com deficiência como “seres integrais”, mas se mantinha a integração, em suas diferentes formas — temporal, instrucional e social — como princípio. Nada existia de inclusivo em seus propósitos, pois permanecia a diferenciação entre os sujeitos ditos “normais” e os deficientes, ao negar a escola comum como um espaço necessário para a formação destes indivíduos.

Sendo assim,não se reconhecia o caráter múltiplo da diferença, tal qual preconizaram Derrida (1991) e Deleuze (2006), mas se reafirmava uma concepção de diferença negativa, pautada em oposições binárias, e geradora de sistemas classificatórios perversos, multiplicadores da discriminação, do preconceito e da exclusão.

Concomitante ao lançamento dessa política, o governo relançou uma série de documentos, elaborados pelo antigo CENESP em 1984, intitulados “Subsídios para Organização e Funcionamento de Serviços de Educação Especial”, cuja finalidade era a de “fornecer subsídios aos sistemas de ensino para a organização e o funcionamento de serviços educacionais prestados aos portadores de necessidades educativas especiais” (BRASIL, 1995b).Em seu conteúdo havia não só a atualização de conceitos e a reafirmação de princípios, mas também diretrizes para o atendimento das pessoas com deficiência nos diferentes tipos de estabelecimentos educacionais. Lamentavelmente, o texto (BRASIL, 1995b), ao

identificar as pessoas que precisam receber educação diferenciada em virtude de sua condição de portador de deficiência auditiva, visual, mental, múltipla, física […]; portador de altas habilidades (superdotado) e portador de condutas típicas (portador de problemas de conduta),

denunciava uma histórica prática estatal: fragmentar as ações educacionais, de modo a atender parcialmente as demandas reprimidas de grupos sociais marginalizados, para não ter que transformar a totalidade do sistema e romper o status quo.

Isto posto, em meio a inúmeros problemas conceituais,37 abria-se caminho para a

multiplicação de instituições de Educação Especiais voltadas ao atendimento específico de

ϯϳUm dos maiores problemas dessa política foi a determinação daquilo que se denominou “condutas típicas”.

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cada deficiência, fato que enfraqueceria o movimento social pró-inclusão construído no início dos anos 1980, pois recrudesceria a disputa entre os grupos de pessoas com diferentes tipos de deficiência pela legitimação de variados projetos educacionais e ia na contramão da construção de uma escola inclusiva no país,cujas primeiras bases a Declaração de Salamanca38 — elaborada pela ONU em 1994, e logo reconhecida pelo

Brasil — já trazia em seu conteúdo:

Princípio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade a todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recurso e parceria com as comunidades. Na verdade, deveria existir uma continuidade de serviços e apoio proporcional ao contínuo de necessidades especiais encontradas dentro da escola. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1994, s/p)

Na esteira dessas ações, o Plano Decenal de Educação Para Todos também veio a incorporar a Educação Especial em suas disposições. Seu conteúdo apenas reafirmou a importância de o governo oferecer atenção especial às “necessidades básicas de aprendizagem das pessoas portadoras de deficiências”, de modo a garantir a “[…] igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer tipo de deficiência, como parte integrante do sistema educativo” (BRASIL, 1993c, p. 75), sem estipular, porém, metas, objetivos ou fontes de financiamento para tal. Mesmo assim, acabou por influenciar na elaboração do documento “Expansão e Melhoria da Educação Especial nos

e quadros psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos que ocasionam atrasos no desenvolvimento e prejuízos no relacionamento social, em grau que requeira atendimento educacional especializado”, BRASIL, 1994b, pp. 13-14), qualquer indivíduo que não se adequasse aos padrões de “normalidade” impostos pela instituição escolar poderia ser encaminhado, sem a necessidade de diagnósticos precisos, a classes especiais ou mesmo instituições de Educação Especial.

ϯϴNão se pode afirmar que a Declaração de Salamanca fosse fundamentada somente na perspectiva da

inclusão. Ao contrário, em algumas disposições reafirmava-se a integração como princípio, como se pode apreender do seguinte excerto: “Nas escolas integradoras, crianças com necessidades educativas especiais

devem receber todo apoio adicional necessário para garantir uma educação eficaz. A escolarização integradora é um meio mais eficaz para fomentar a solidariedade entre as crianças com necessidades especiais e seus colegas. A escolarização de crianças em escolas especiais — ou classes especiais na escola de caráter permanente — deveria ser uma exceção, só recomendável naqueles casos, pouco frequentes, nos quais se demonstre que a educação nas classes comuns não pode satisfazer às necessidades educativas ou sociais da criança, ou quando necessário para o bem-estar da criança ou das outras crianças”

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Municípios Brasileiros”, responsável pela definição — consoante à lógica da descentralização defendida pelo Banco Mundial — de estratégias para a municipalização da Educação Especial.

O documento reconhecia que na grande parte das cidades brasileiras, o atendimento educacional às pessoas com deficiência era “bastante precário em termos de quantidade e qualidade” (BRASIL, 1994c, p. 8), devido à “falta de compromisso político com o alunado, resultante do desconhecimento quanto ao papel da Educação Especial e de seus objetivos” (BRASIL, 1994c, p. 11). O governo portanto aproveitou o movimento favorável à municipalização e à universalização do acesso ao Ensino Fundamental para sugerir aos administradores municipais a realização de parcerias junto ao MEC com o objetivo de expandir a Educação Especial. No entanto, ao invés de garantir as condições necessárias para que isso ocorresse, estabelecendo metas,mecanismos de financiamento, programas de formação de recursos humanos, diretrizes para a adequação física das redes escolares, etc., apenas se falava genericamente em celebrar alianças e parcerias entre os órgãos governamentais e cumprir sistematicamente tanto as disposições legais quanto os dispositivos orçamentários em vigor. Desta maneira, a municipalização da Educação Especial resultaria inviável, permanecendo apenas no plano do discurso governamental.

O governo Itamar Franco chegaria ao fim sem conseguir implementar programas de relevo na área da Educação Especial. Contudo, mesmo diante da recente promulgação de dois importantes marcos legais para a inclusão — a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente —, ficaria marcado por retroceder ao lançar duas políticas com forte cunho integracionista e dar continuidade à agenda neoliberal, proposta pelo antecessor, no campo educacional.

Por consequência, o Estado permaneceu adotando ações excludentes, ao “isolar os indivíduos em ambientes educacionais segregados, rotulando-os de deficientes e tratando- os como crianças pré-escolares” e fortalecer “o rótulo e estigma da deficiência com a consequente exclusão social, além da minimização de suas potencialidades […]” (MENDES, 2010, p. 104), frustrando as expectativas dos movimentos sociais pró-inclusão, ansiosos pelo pleno cumprimento de suas demandas e a construção de uma sociedade mais justa.

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3.9. O fim de governo e a eleição de Fernando Henrique Cardoso

O governo Itamar Franco chegaria ao seu final reconhecido não somente pela superação da crise do impeachment, mas principalmente pela formulação de um plano econômico — o Plano Real — responsável pelo exitoso combate inicial à inflação e pela introdução do Brasil na rota da estabilização econômica, e de ações no campo social que serviriam de base para futuras atuações governamentais, como a criação do CONSEA, por exemplo. Com isso, o presidente reunia os componentes necessários para lançar um candidato situacionista à sucessão em condições de obter um bom desempenho eleitoral, e a escolha acabou recaindo sobre o nome de Fernando Henrique Cardoso.

O Plano Real havia posto o então ministro da Fazenda em evidência no cenário político. Muitas das medidas do plano fizeram com que o sociólogo se notabilizasse pela sua obstinação para que o plano econômico lograsse êxito e permanecesse cotidianamente sob os holofotes midiáticos — como, por exemplo, a criação da nova moeda, os ajustes fiscais e monetários, a aceleração das privatizações, os incentivos à abertura econômica e as relações tanto com os organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, etc.) como com os diferentes setores da sociedade (partidos políticos, sindicatos, empresariado, entre outros). Sobre isso, afirma Ianoni (2009, pp. 166-167):

A obstinação de FHC, seu empenho na persuasão da opinião pública e demais atores foram fundamentais. Ele constituiu, enfrentando resistências e receios, uma equipe de elite de assessores econômicos e políticos e administrou divergências em seu interior. Enfrentou obstáculos no Congresso, em outras esferas do sistema político e na sociedade civil, como os que ocorreram durante a votação da política salarial, em meados de 1993, e noutros momentos da implementação do Plano Real. O apoio da mídia ao plano de estabilização foi fundamental, como o foi também a estratégia de comunicação adotada pelos formuladores do plano de estabilização. (IANONI, 2009, pp. 166-167)

Desta forma, o plano econômico acabou por provocar a interação dos diferentes poderes, “partidos políticos, entes federativos subnacionais, diversos agentes econômicos, grande mídia e outros atores da sociedade civil” (IANONI, 2009, p. 163) e, consequentemente, colher resultados iniciais satisfatórios como, por exemplo, a acentuada

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queda da inflação no decorrer do segundo semestre de 1994. Assim, o Estado brasileiro avançava não só rumo à estabilização econômica, mas à adoção de teses neoliberais que subsidiariam o futuro rompimento do governo Fernando Henrique com o nacional- desenvolvimentismo da Era Vargas (Cf. SALLUM JR., 1999).

À medida que essa construção avançava, o governo granjeava melhores índices de aprovação junto à opinião pública. Esse fator seria decisivo para alavancar a candidatura de FHC, tornando-a capaz de fazer frente ao favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato do Partido dos Trabalhadores. Dono dos melhores índices nas primeiras sondagens eleitorais devido ao fato de ter obtido grande desempenho no pleito anterior (ele fora o segundo colocado contra Collor) e, em função disso, ter alcançado a condição de principal líder oposicionista do país, Lula se encontrava em pré-campanha, divulgando suas propostas por todo o território nacional com a realização da “Caravana da Cidadania”, recebendo razoável cobertura da imprensa e aglutinando em torno de sua candidatura os insatisfeitos com a crise socioeconômica que afligia grande parte dos brasileiros.

Além de Lula, Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, também se colocava como candidato pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista), mas já não apresentava mais o mesmo apelo popular de outrora (havia sido terceiro colocado nas eleições de 1989), pois sua gestão no governo carioca fora alvo de inúmeras críticas e avaliações negativas. No PMDB— uma das principais forças governistas —cogitaram-se vários nomes, inclusive os do então ministro da Previdência Social, Antônio Britto, e do ex- presidente José Sarney, mas prevaleceu o interesse de Orestes Quércia, ex-governador de São Paulo, que há pouco tempo havia sido alvo de graves denúncias de corrupção relativas à privatização da VASP (Viação Aérea São Paulo) e, em decorrência disso, enfrentava alta rejeição popular. Mais à direita no espectro político, existia a possibilidade de Paulo Maluf, então prefeito de São Paulo, abandonar a prefeitura e se candidatar à Presidência pelo seu partido, o PPR (Partido Progressista Reformador). No entanto, Maluf acabou desistindo da ambição e cedendo a vez ao então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin.

O PSDB havia sido um dos últimos partidos a definir seu presidenciável. Uma aliança com o PT foi cogitada pelas lideranças dos dois partidos no início dos anos 1990 (Cf. DIMENSTEIN e SOUZA, 1994), após terem se aliado no segundo turno das eleições presidenciais de 1989 e feito oposição a Collor. Houve, ainda pouco tempo antes do

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lançamento do Plano Real, em 1993, uma nova tentativa de aproximação, desta vez capitaneada pelo empresário Oded Grajew, ligado ao PT, e pelo economista e ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira, filiado ao PSDB (Cf. SUASSUNA e NOVAES, 1994). No entanto, a permanência do PT na oposição ao governo Itamar Franco e a rejeição do partido ao Plano Real frustraram os planos de aliança. A partir de então, o PSDB passou a trabalhar em função da candidatura do empresário e político cearense Tasso Jereissatti, favorito dos dirigentes partidários, mas uma opção fraca eleitoralmente (Cf. LEONI, 1997). Sem conseguir viabilizar a solução Tasso, o partido acabou investindo em Fernando Henrique Cardoso, nome fortalecido pelo apoio presidencial. Era, portanto, o momento em que virtú e fortuna, conceitos formulados por Nicolau Maquiavel, se encontrariam no governo Itamar, tal qual afirma Sallum Jr. (2000, p. 11):

Essas condições e alavancas deram especificidade à fortuna encontrada por algumas lideranças políticas que, bem situadas no seio do Estado, tiveram virtú suficiente para negociar a associação entre partidos de centro e de direita em torno da continuidade das reformas liberais, da estabilização da economia e da tomada do poder político central, corporificando tudo isso no lançamento bem-sucedido do Plano Real e na candidatura, afinal vitoriosa, à Presidência da República do seu articulador, o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. A candidatura Fernando Henrique foi lançada oficialmente após a construção de uma aliança de centro-direita, envolvendo, oficialmente, PSDB, PTB e PFL. O acordo com este último, especialmente, causou polêmica e gerou críticas ao presidenciável por parte dos setores progressistas da sociedade, pois grande parte dos pefelistas construiu carreira apoiando a Ditadura Militar — a começar pelo candidato a vice-presidente, Marco Maciel — e defendendo pautas conservadoras. No entanto, era o partido capaz de assegurar a FHC razoável quantidade de tempo no horário eleitoral gratuito e visibilidade na região Nordeste, onde o candidato ainda não era suficientemente conhecido e apoiado. Era o início de uma forte aproximação com a direita, que seria potencializada no decorrer da campanha eleitoral — devido ao crescimento da candidatura nas pesquisas de intenção de voto — e atrairia outros apoiadores fortemente vinculados a esse espectro político. Sobre esta “reengenharia político-eleitoral” feita por Cardoso, afirma Amaral (1995, p. 51):

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Para realizar a proeza antes confiada a Tancredo, o senador e ex-ministro Fernando Henrique Cardoso reuniu em torno de si — além dos militares e do que generalizadamente os textos acadêmicos, inclusive os seus, identificam como “sistema” — um arco de apoios que incluiu desde o multiforme PSDB, ao que poderíamos chamar de extrema-direita, o ruralismo atrasado, meliante, de Caiado e quejandos, passando pelo PTB (da “tropa de choque”de Collor), o PMDB de Sarney, o PFL de sempre, Antônio Carlos Magalhães, o PMDB não quercista, Roberto Campos, os liberais, os neoliberais, os não liberais, os falsos liberais, e os conservadores com matizes e sem matizes. E, nas vésperas do pleito, o PL e, indiretamente, o PRN. Ao lado dessas forças claramente partidárias, o grande empresariado, a FIESP [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e a CNI [Confederação Nacional da Indústria] à frente, a unanimidade dos grandes meios de comunicação de massas, a simpatia dos credores internacionais, o sorriso do capital estrangeiro e o aplauso colaborador do FMI e do Clube de Paris. Reuniu todo o Brasil do status

quo […]

A campanha peessedebista apostou na apresentação do seu candidato como o “pai do Real”, um político “realizador”, cujo “desempenho passado dava credibilidade para o candidato propor futuras realizações” (Cf. BALBACHEVSKY & HOLZHACKER, 2004). Para tanto, construiu um plano de governo intitulado “Mãos à Obra, Brasil”, no qual denunciava a “desorganização do Estado” e o esgotamento do “modelo de desenvolvimento baseado na industrialização produtiva” (CARDOSO, 1994, p. 14) e afirmava a necessidade da elaboração de um novo modelo de atuação estatal, que melhor se adequasse às exigências da globalização e combinasse crescimento econômico com o combate às desigualdades sociais.

Seu plano elencava, ainda, cinco metas prioritárias — emprego, saúde, agricultura, segurança e educação —, afora três setores complementares — habitação, saneamento e turismo. Defendia a privatização e a reforma do Estado; estimulava a realização de parcerias entre o Estado e a sociedade, sobretudo no tocante às ações de combate à fome e à

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