5 O CORPO EM MOVIMENTO: um olhar sobre a educação do corpo de
5.1 A educação física institucionalizada nas escolas-parque
Fundamentado na experiência de educação integral desenvolvida no Centro Educacional Carneiro Ribeiro, Anísio Teixeira concebeu para Brasília um sistema educacional audacioso, como já observamos anteriormente. Consta desse sistema denominado Plano de Construções Escolares de Brasília referência a um conjunto de escolas que se apresentariam a partir de um projeto educativo com vistas a uma formação integral das crianças “com maior ênfase nas atividades artístico- socializantes” (MARTINS, 2011, p. 246).
No referido Plano o incentivo à prática de uma educação física aparece de maneira explícita, conforme nota-se no trecho a seguir. A redação em síntese apresenta que a escola-parque destinava-se a atender crianças
[...] em atividades de iniciação ao trabalho (para meninos de 7 a 14 anos) nas pequenas "oficinas de artes industriais" (tecelagem, tapeçaria, encadernação, cerâmica, cartonagem, costura, bordado e trabalhos em couro, lã, madeira, metal, etc.), além da participação dirigida dos alunos de 7 a 14 anos em atividades artísticas, sociais e de recreação (música, dança, teatro, pintura, exposições, grêmios, educação física) (TEIXEIRA, 1961, p. 196, grifo nosso).
Dessa forma, considerando que as escolas-parque anunciaram uma proposta pedagógica e projetos arquitetônicos diferenciados, os quais viabilizariam condições essenciais para uma educação do corpo fundamentada em significações históricas, sociais, culturais e biopsicológicas do ser humano, bem como a educação física como uma disciplina curricular da educação básica, que apresenta tempos e espaços
capazes de forjar diversos modos de educação do corpo, vamos tecer particularidades dessa relação.
Aqui a caminhada será construída aos poucos, isto é, primeiramente vamos
visitar momentos que envolveram as aulas de Educação Física e a educação do corpo que pôde ser reconhecida na primeira escola-parque de Brasília. Para esse primeiro momento nos amparamos em pesquisas já realizadas por outros pesquisadores, como Wiggers (2011). Em seguida, direcionamos o texto a fim de refletirmos sobre a educação do corpo de crianças nas aulas de educação física da escola-parque 210/211Sul. É importante salientar que optamos por sistematizar o diálogo dessa maneira, posto que julgamos relevante mencionar as análises antes empreendidas retratando a educação física ou mesmo a temática educação do corpo nesse espaço educacional.
À vista disso, evidenciamos que a escola-parque 307/308 Sul foi a primeira a ser inaugurada, e a única que, por muito tempo, contemplou integralmente a proposta idealizada por Anísio Teixeira. Ao consultarmos Wiggers (2011), em sua publicação decorrente de pesquisa realizada no acervo fotográfico dessa escola-parque sobre as atividades de educação física vivenciadas nas décadas de 1960 a 1972, identificamos que a educação física promovida e realizada pelas crianças era concebida por atividades diversificadas que corroboravam o currículo proposto por Anísio Teixeira, o qual destacava que a educação física deveria ser composta de ginástica de solo, ginástica moderna, atletismo, grandes e pequenos jogos recreativos e competitivos, aulas de natação e desfiles cívicos.
Entretanto, de acordo com essa pesquisadora, as brincadeiras foram as primeiras atividades a serem desenvolvidas, tendo em vista que a escola ainda estava em construção e equipada somente com mobiliário improvisado. Essas atividades eram realizadas no pátio e em salas fechadas com a presença ou não de professores, como se observa nas imagens abaixo (figura 14). Wiggers (2011) destaca que naquele momento, e por muito tempo, dentro dessa escola, as brincadeiras fizeram parte do planejamento pedagógico diário dos professores, confirmando a formação de uma cultura escolar diferenciada da maior parte das que identificamos durante a constituição e consolidação da educação física formal brasileira.
Figura 14 - Crianças brincando na pérgula do prédio principal da escola-parque 307/308 Sul – Fotografia das décadas de 1960 a 1972
Fonte: Wiggers (2011).
Sobre as brincadeiras, Fonseca e Faria (2012) as compreendem como artefatos culturais que apresentam um conjunto de regras e significações que proporcionam o desenvolvimento e enriquecimento da criança. Assim, de imediato, podemos apontar que a escola-parque adotou a brincadeira como conteúdo pedagógico não por acaso, mas assumindo que pelo brincar a criança experimenta a sua relação com o outro e com o mundo. Além disso, não é um simples gesto mecânico, envolve processos de construção e de negociação entre os pares. É um movimento que contribui para a construção das identidades e culturas.
Essa dinâmica associada à escola-parque representa um marco para dicotomizar a condição básica mantida para a aprendizagem com relação a uma postura estática e quieta, na qual se valorizava apenas o movimento mecânico e sistemático com o objetivo de aprimorar a coordenação motora, para garantir a aquisição da leitura e da escrita ou, ainda, o movimento ligado à prática esportiva competitiva.
Por outro lado, analisando a figura 15, verificamos que na escola-parque 307/308 Sul a prática educativa da natação apareceu arraigada a procedimentos
adotados na gênese dos métodos ginásticos europeus, como a realização de exercícios preparatórios, denominados aquecimento, antes de entrar na piscina. Percebe-se que as crianças estão alinhadas em fileiras e devem realizar movimentos de flexão do tronco, seguindo a demonstração feita pela professora. Inicialmente poderíamos criticar e enquadrar tal atividade aos moldes das ginásticas empreendidas pelas instituições escolares do início do século XIX, em que os exercícios se constituíam de uma série de posições corporais, estabelecendo a formação de fileiras, abrir e fechar distâncias entre um sujeito e outro, e aprendiam a alinhar-se e a mudar de direção de forma ordenada (PUCHTA, 2015).
Figura 15 - Crianças durante a aula de Educação Física. Aquecimento para a aula de natação, na escola-parque 307/308 Sul – Fotografia das décadas de 1960 a 1972
Fonte: Wiggers (2011).
O que podemos distinguir desses modelos tange à aparente desobrigação de manter um sincronismo durante a execução. Além disso, a presença de uma criança auxiliando a professora no andamento da aula remete a uma dinâmica mais fundamentada no diálogo, no qual todos podem se expressar de forma mais livre e criativa.
Essa anotação nos permite refletir sobre o protagonismo de uma educação física praticada nas escolas-parque, caminhando para uma reconfiguração a partir de
diretrizes menos autoritárias, comprometida com a formação de um homem mais sensível, capaz de problematizar seus direitos e deveres, bem como construir seu conhecimento de forma crítica e autônoma. Logo mais, na figura 16, observamos as crianças deleitando-se com a aula dentro da piscina. Sobre essa imagem, Wiggers (2011, p. 147) descreve com clareza o sentimento das crianças: “A concentração e o cansaço foram substituídos pela alegria e por uma expressão facial de contentamento e prazer, provocado pelo contato das crianças com o meio líquido”. Revela ainda que as aulas de natação figuravam na terceira posição de atividade predileta das crianças. Ainda podem ser incluídas nas atividades decorrentes das aulas de educação física os jogos e as competições escolares, assim como os desfiles de abertura desses eventos e desfiles cívicos. As imagens analisadas pela pesquisadora Wiggers (2011) revelaram que essas atividades ocorriam repetidas vezes, sendo um acontecimento de grande importância para a comunidade escolar, assim como para a cultura da cidade.
Figura 16 - Crianças durante a Educação Física, na aula de natação, na escola- parque 307/308 Sul – Fotografia das décadas de 1960 a 197
Fonte: Wiggers (2011).
salientamos que, no Brasil, tiveram origem durante a Ditadura Militar, como já mencionamos. Originalmente o modelo adotado pautava-se no ideal de competição de alto rendimento, apresentando um caráter seletivo, conservador e reprodutor da ideologia liberal. Nesse caso, utilizava a competição como forma de avaliação e não como conteúdo de ensino e parte de um processo planejado e gradual. De acordo com Anjos (2015), os desfiles também apresentavam simbologia de valorização à pátria, bem como ao papel social da escola. Elementos de ordem e disciplina caracterizavam essas expressões culturais.
Na proposta educacional das escolas-parque dessa época, como uma “comunidade socialmente integrada” (WIGGERS, 2011, p. 151), todas as manifestações da cultura corporal de movimento, como o esporte, a competição esportiva, a estética corporal, a saúde, o lazer, a formação para o trabalho, a formação humana eram vozes recorrentes no cotidiano da escola e também presentes nas fotografias. Em relação a essas evidências, interpretamos que havia uma preocupação de que fosse incorporado, nas aulas de educação física, um conjunto de práticas que rompesse com a centralidade instrumental antes atribuída à educação do corpo.