Capítulo 4 – A Educação Pré-Escolar no Percurso Escolar da Criança
4.2. A Educação Inter / Multicultural na Infância
Consideramos oportuno no âmbito deste estudo sobre integração da criança cigana na escola de 1º ciclo, olhar para os aspetos de inter e multiculturalismo na infância e o que a literatura nos pode ajudar a melhor compreender como as crianças pequenas se comportam em contextos de diversidade étnica e cultural.
Estamos em presença de dois conceitos, intercultural e multicultural, que é necessário clarificar.
Alguns estudos salientam a necessidade de a educação multicultural se nortear por dois objetivos principais, por um lado apoiar as crianças de diferentes grupos culturais, étnicos, sexuais e sociais a terem acesso a oportunidades educativas iguais e, por outro lado, apoiar todos os alunos a desenvolverem atitudes, perceções e comportamentos transculturais positivos (Banks, 1995 referido por Araújo, 2009).
A prática de uma educação intercultural é entendida como “um percurso agido em que a criação da igualdade de oportunidades supõe o conhecimento/reconhecimento de cada cultura, garantindo, através de uma interacção crescente, o seu enriquecimento mútuo” (Cortesão & Pacheco, 1991, p. 34).
Do que foi referido podemos dizer que a educação inter/multicultural, é aquela que se faz na interação, partilha e comunicação das várias culturas e diferenças em presença, no sentido de uma construção conjunta de novas formas de “ver”, “estar” e “ser com…”. Podemos dizer que educação inter/multicultural é sinónimo de reciprocidade, transformação e democracia.
Este processo que se pretende colaborativo e criativo, torna-se um imperativo que a instituição escolar não pode, e nem deve esquecer, nomeadamente o JI enquanto espaço privilegiado para uma convivência positiva e construtiva de autoestima e autoconceito e no âmbito dos objetivos da educação pré-escolar atrás referidos.
No que respeita à infância, a literatura realça a competência da criança pequena para reconhecer diferenças raciais e étnicas e com tendência natural para se juntar ao seu grupo. Isto é muito evidente dentro da etnia cigana em contexto escolar.
Banks (2009) suporta-se em diversos estudos (Slavin, 1983, 1985; Cohen, 1986; Johnson & Johnson, 1991) para evidenciar a importância que a educação tem, numa sociedade pluralista. A escola deve centrar-se em ajudar os alunos de várias etnias e culturas a desenvolver comportamentos e atitudes multiculturais e não de elevada preferência pelo seu próprio grupo. Este autor refere ainda que estes estudos e trabalhos que investigaram o efeito de atividades de aprendizagem cooperativa nas atitudes raciais e étnicas, escolha de amigos e grau de sucesso dos alunos, concluíram que os efeitos foram positivos nas relações de amizade, nos comportamentos de aceitação e até nos desempenhos escolares As salas de atividades dos JI e de 1º CEB podem ser estruturadas utilizando metodologias que contemplem a aprendizagem cooperativa entre crianças de vários grupos étnicos e culturais.
Podemos dizer que uma educação inter/multicultural implica uma intervenção bem conceptualizada e bem planificada, e é melhor sucedida se tiver um reforço positivo por parte dos adultos, sejam pais educadores ou professores, tendo como postulado que a intervenção junto de crianças pequenas pode alcançar melhores resultados do que com alunos mais velhos ou até mesmo com adultos.
O papel do educador de infância
“Estudos recentes de desenvolvimento neurológico indicam que entre os tipos de experiências mais importantes de que as crianças necessitam, muito antes de tomarem parte de experiências tradicionais na escola primária, estão as interacções alargadas e continuadas com adultos significativos” (Blair, 2002, citado por Katz, 2006, p.12).
De facto, os educadores de infância têm um poder extraordinário na gestão do vivido em sala de aula, partilhado com o poder das crianças. A sua prática, a sua atitude em cada situação
educativa do dia-a-dia carrega em si os seus valores culturais, as suas esperanças, crenças e sonhos. Os seus comportamentos influenciam de forma significativa os comportamentos e até as visões e as perspetivas das suas crianças face ao mundo e à realidade que as rodeia. O educador é modelo e transmite aos seus alunos, pela forma como comunica, como interage, e como emite as suas mensagens, as suas preferências e o seu sistema de valores. (Folque 2012). Esta atitude pode não ser intencional mas sabemos que mais facilmente o educador transmite o que é, e naquilo em que acredita, pelas suas atitudes e comportamentos, do que por aquilo que diz no seu discurso oral.
Estudos apresentados no âmbito do Effective Provision of Preschool Education (Sylvia, Sammons, Melhuish, Siraj-Blatchford e Taggart, 1999, citados por Araújo 2009, p. 235) indicam que a maioria dos contextos de educação pré-escolar proporcionam um ambiente de baixa qualidade no que concerne à educação para a diversidade. De acordo com Siraj-Blatchford (2004), citado por Araújo, 2009, isto deve-se ao facto de pais e educadores de infância não reconhecerem o seu poder e responsabilidade na educação para a diversidade e pelo facto de não reconhecerem que vivemos numa sociedade em que “perpetuamos a posição de desvantagem em que continuam a ser mantidos determinados grupos sociais”. (Siraj-Blatchford, 2004, citado por Araújo, 2009, p.235).
O Educador deve ser capaz de conhecer e entender a teia de interações em que as suas crianças se desenvolvem dentro e fora do JI e pensar a estruturação da sua sala de atividades como um espaço de interações sociais, de recursos e situações de aprendizagem em que cada criança tem o seu lugar e participa com a sua riqueza étnica e cultural para um saber comum e co construído. Trata-se de uma teia de interações na diversidade, em que segundo Vasconcelos (2009) “… o Outro não aparece como uma ameaça, mas como recurso (…) como provocação ao desenvolvimento” (p.55).
Tal como considera Wells (1999), citado por Folque, 2012, “ a educação é um processo dialógico embora (…) as interacções estejam profundamente relacionadas com as acções e os instrumentos (materiais e pedagógicos) que as crianças e os adultos utilizam na sala de aula, sem esquecer que são simultaneamente enquadradas pelo meio socio/institucional em que se encontram (p.89)
A teia de interações inclui também a relação entre adultos, não só entre docentes, mas com todos os que cuidam da criança num contexto de práticas de democracia, de atenção, respeito e escuta, onde sejam desenvolvidas práticas dinâmicas com compromisso ético, integradas no meio local, e que sejam impulsionadoras de atitudes de mudança.
É no entanto determinante que aceitação da diferença, enquanto oportunidade e não como ameaça, aconteça primeiro que tudo na pessoa do educador, que este se consciencialize do poder que possui neste domínio, para que possa efetivamente ser sentido pelas crianças e suas famílias. São necessárias, uma intervenção e uma atenção particular ao nível da formação inicial e contínua dos educadores de infância, no sentido da implementação de programas eficazes no âmbito da educação multicultural na infância. Só assim poderemos fazer face e “dar poder” a estes profissionais para encarar os desafios da diversidade étnica e cultural que se colocam às escolas e jardins-de-infância dos nossos dias. Só assim os espaços da educação formal podem ser espaços que preparam as crianças para uma sociedade mais tolerante e que possam preparar-se para viver em harmonia e em democracia.