2 TURISMO GLOBALIZAÇÃO E MODERNIDADE: FORMAÇÃO E
2.9 A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NA NOVA LDB 9.394/96:
As transformações mundiais das últimas décadas produziram mudanças na prática social e no trabalho. A educação, sendo parte inerente das teias sociais, não poderia ficar à margem desse contexto. No Brasil, a educação profissional esteve sempre ligada à capacitação de trabalhadores para atender ao mercado de trabalho, o qual nos últimos anos exige indivíduos cada vez mais qualificados. Desde seus primórdios, a educação profissional era destinada às camadas menos privilegiadas da sociedade, o ensino profissional era reservado para aquelas pessoas que executavam tarefas manuais e dessa maneira a educação profissional era considerada como uma educação de segunda categoria.
Na década de 1970, a formação profissional se configurava no treinamento de trabalhadores para a produção em série e padronizada. A consequência desse tipo de formação era a inserção de operadores para desempenhar tarefas simples, rotineiras. Não havia muita autonomia para os trabalhadores, pois o conhecimento técnico era destinado apenas a níveis gerenciais. O baixo nível de escolaridade dos trabalhadores não era empecilho à expansão econômica.
A partir da década de 1980 houve mudanças significativas no mundo do trabalho, principalmente com o surgimento das novas tecnologias da informação, quando apareceram novas formas de organização e de gestão. Por conta disso, as
empresas passaram a exigir trabalhadores qualificados e capacitados para atenderem às novas exigências do mercado. Novas habilidades e competências passaram a ser demandadas, como, por exemplo, criatividade, inovação, autonomia na tomada de decisão e capacidade para o trabalho em equipe.
A educação profissional não se restringe apenas à preparação do sujeito para a execução de atividades fáceis e rotineiras. A partir da aprovação da constituição de 1988, foram iniciadas as discussões sobre o novo projeto de Lei de Diretrizes e Bases e uma das propostas a tramitar foi o Projeto de Lei no. 1258-A/88. O conteúdo desse documento foi estudado e elaborado pelo pesquisador Dermeval Saviani, em 1988. Portanto, no contexto global, a educação profissional passou a ser modalidade educacional e obtém relevância na LDB.
O disposto no artigo 1º do Decreto 5154/04 de 23 de julho de 2004 estabelece que a educação profissional tem por objetivos:
I. Promover a transição entre a escola e o mundo do trabalho, capacitando jovens e adultos com conhecimentos e habilidades gerais e específicas para o exercício das atividades produtivas; II. Proporcionar a formação de profissionais, aptos a exercerem atividades no trabalho, com escolaridade correspondente aos níveis médio, superior e de pós-graduação;
III. Especializar, aperfeiçoar e atualizar o trabalho em seus conhecimentos tecnológicos;
IV. Qualificar, profissionalizar e atualizar jovens e adultos trabalhadores, com qualquer nível de escolaridade, visando à sua inserção e melhor desempenho no exercício do trabalho.
O artigo 3º da LDB é de fundamental importância para compreender a educação profissional hoje. Para atender aos objetivos da educação profissional a nova LDB estabelece 3 níveis para a educação. São eles: nível básico, que qualifica os trabalhadores independentes de escolaridade prévia; nível técnico, que permite a habilitação profissional a alunos matriculados ou egressos do ensino médio; e o nível tecnológico, que corresponde a cursos superiores de tecnologia, destinados aos egressos de ensino médio e técnico.
Para que as instituições públicas e privadas implantem cursos profissionalizantes de formação técnica em guiamento turístico, faz-se necessário que estes estejam estruturados nas bases legais e nos princípios da LDB, e no
conjunto de leis, decretos, pareceres e referenciais curriculares que normatizam a Educação Profissional. Segundo a LDB, a educação profissional de nível técnico tem organização curricular própria. Assim, esta modalidade de educação profissional será sempre concomitante ou posterior à conclusão do ensino médio. A LDB determina que as habilitações de técnico de nível médio tenham validade nacional, portanto, o Decreto prevê a criação de currículos aprovados pela instituição competente, os quais, após avaliação e aprovação dos resultados pelo MEC, poderão ser reconhecidos. Com relação à certificação, o Decreto regulamenta a criação de mecanismo de certificação pelos sistemas federal e estadual de ensino.
De acordo com o parecer CNE/CEB nº 11/2008, os Cursos Técnicos de Nível Médio em Guia de Turismo no Brasil respondem à Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SETEC/MEC e integram-se à educação de nível médio técnico na área profissionalizante. Conforme o parecer, uma das características desses cursos técnicos é a sua carga horária mínima de 800 horas, o que equivale de 18 meses a 3 anos de curso. Estes cursos visam formar profissionais para atender uma área específica do setor turístico. Segundo o Catálogo Nacional dos Cursos Técnicos, o Guia de Turismo
Orienta, assiste e conduz pessoas ou grupos durante traslados, passeios, visitas, viagens, com ética profissional e respeito ao ambiente, à cultura e à legislação. Informa sobre aspectos socioculturais, históricos, ambientais, geográficos e outros de interesse do turista. Apresenta ao visitante opções de roteiros e itinerários turísticos disponíveis e, quando for o caso, concebe-se considerando as expectativas ou necessidades do visitante. Utiliza instrumentos de comunicação, localização, técnicas de condução, de interpretação ambiental e cultural (BRASIL, 2009).
O MEC, por meio do parecer CNE/CBE no. 11/2008, propõe a organização da oferta da educação profissional em 12 eixos, dentre eles o de Hospitalidade e Lazer, no qual está inserido o Curso Técnico em Guia de Turismo, contendo a descrição do “perfil profissional; possibilidades de temas a serem abordados na formação; possibilidades de atuação e infraestrutura recomendada”, que constam no catálogo da seguinte forma:
Possibilidades de temas a serem desenvolvidos na formação Possibilidade de atuação Infraestrutura recomendada Geografia; -Cartografia; -História e museologia; -Sistemas de informação; -Arte e cultura; Transporte
e hospedagem -Guiamento no contexto regional e nacional -Agências de viagem e operadoras; -Organismos turísticos públicos ou privados; -De forma autônoma
-Biblioteca com acervo específico;
-Laboratório de informática com programas específicos; -Equipamentos de localização e comunicação; -Laboratório didático: agências de viagem e operadoras de turismo; -Mapoteca;
-Meio de transporte para a prática profissional
Quadro 3– Eixo Tecnológico Hospitalidade e Lazer Fonte: Catálogo Nacional do MEC (BRASIL, 2009)
Conforme tal quadro e tais especificidades, os cursos que formam guias de turismo precisam se preocupar
[...] em ampliar a visão do profissional que está sendo capacitado. Que este possa compreender a realidade local e, fundamentalmente, possa conhecer a complexidade das relações que permeiam tal localidade, povo etc. Para tanto é necessário estudo. Mais que treinamento de habilidades, é necessário mergulhar na fundamentação teórica e na reflexão (HINTZE, 2007, p. 44).
Assim, devido às transformações no mundo global e às exigências do setor produtivo, o condutor de visitantes, também denominado guia de turismo, deverá ser um profissional capaz de exercer suas funções em um mercado competitivo. Logo, com base nos conteúdos do eixo acima do quadro 3, as instituições poderão elaborar o projeto pedagógico de seus cursos de acordo com as peculiaridades de cada região. Observando-se o quadro exposto, percebe-se que durante o curso o estudante deverá se apropriar de conteúdos e processos importantes do conhecimento científico, tecnológico, social, histórico, ambiental e cultural, que lhe proporcionarão autonomia intelectual e moral para conduzir o visitante com valores
éticos e morais, conhecimentos culturais e técnicos, além de criatividade. Dessa forma, os componentes curriculares oferecidos no curso deverão integrar-se, assegurando que os saberes científicos e tecnológicos sejam a base da formação do Técnico em Guia de Turismo.