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A educadora social: entre planejamentos e atravessamentos

6. O CAMINHO SE FAZ AO ANDAR: A PROPOSTA METODOLÓGICA

6.4 A educadora social: entre planejamentos e atravessamentos

Anteriormente afirmei que o campo da Educação Social é marcado pelos dinamismos, que se estabelece a partir dos acontecimentos das vidas dos sujeitos que estão nele, seja esse sujeito educando ou educador. Gohn (2010) afirma que a área da Educação Social ainda está muito carente de pesquisa científica e, talvez, por isso a pesquisa de novas metodologias e conceitos na área se fazem urgentes, para pensar o tempo presente a articular o futuro.

O campo de trabalho de um Educador Social é marcado por inúmeras questões. É uma área com pouquíssima valorização e costuma-se dizer que ninguém escolhe ser educador por conta de um salário atrativo. O que mantém os educadores atuantes na função é a sua identificação com a área e com o compromisso de uma luta por justiça social. Alguns falam em missão. Essa ideia de missão não me agrada porque muito tem a ver com a ideia de caridade.

Por conta da desvalorização, é comum que haja uma rotatividade muito grande dos profissionais dentro da área. Assim, a força da criação e manutenção dos vínculos de uma turma, por exemplo, podem ser muito afetados pela troca constante de educadores.

Ao assumir um grupo ou turma, é preciso levar em conta cada experiência adquirida como educador social, mas é preciso estar atento ao novo grupo, sem preconceitos de entender essa realidade na qual está se inserindo.

O aprendizado do Educador Social numa perspectiva da educação não formal realiza-se numa mão-dupla – ele aprende e ele ensina. O diálogo é o meio de comunicação. Mas a sensibilidade para entender e captar a cultura local, do outro, do diferente, do nativo daquela região, é algo primordial (GOHN, 2010, p. 51).

E nesses movimentos de adentrar territórios, é preciso deixar de lado algumas opiniões tidas como certezas. Esse campo da Assistência que é marcado pelo cristianismo, também carrega consigo profissionais que compactuam e professam suas crenças nesse modelo de atuação.

Tenho conhecimento de inúmeras instituições da Educação Social em Porto Alegre onde a maioria do corpo de funcionários, sobretudo educadores e cordenações pedagógicas são de pessoas brancas. O fato por si só não denuncia que haja práticas racistas, mas a falta de referência de profissionais negros gera uma falta de representatividade para os indivíduos que acessam os serviços de assistência.

Conheço poucos educadores que abertamente professam sua fé em religiões de matriz africana, poucos educadores negros, pouquíssimos coordenadores pedagógicos e integrantes de diretorias negros. Ao passo que já ouvi inúmeras colocações racistas e discriminatórias por parte de funcionários dos mais diferentes níveis e cargos.

Por mais absurdo que soe, já vi casos de educadores se colocando à favor da redução da maioridade penal, sendo que nosso campo deve atuar na prevenção do aliciamento de crianças e adolescentes para o mundo do crime e quando acontece, na socialização destes sem qualquer olhar discriminatório.

Considero pouco provável que um educador com uma mínima caminhada que seja, dentro do campo da Educação Social, mantenha por muito tempo a certeza de que crianças e adolescentes e famílias inteiras sejam aliciadas pelo tráfico por vontade própria ou por “vagabundagem”. Muitas vezes, inclusive, o aliciamento acontece por conta da benevolência dos “patrões” e “chefes” das facções, que assumem responsabilidades que seriam dever do Estado e garantem direitos às famílias, que por gratidão e lealdade passam a trabalhar nesses exércitos do crime.

Diante dessas realidades, o Educador Social deve estar atento, deve se formar e informar sobre a realidade que está inserido como profissional.

Informação, indicadores socioculturais e econômicos da comunidade, contextualização dela no conjunto das redes sociais e temáticas de um município, breves notícias sobre suas memórias e experiências históricas, são parte do acervo de

instrumentos para formar um educador social de e em uma dada região. (GOHN, 2010, p. 53)

É tarefa do Educador, de acordo com Gohn (2010) ajudar a construir espaços de cidadania no seu território. É o Educador que convive mais diretamente com seus educandos. Muitas vezes a família procura a coordenação pedagógica da instituição para relatar algum ocorrido, como morte na família, divórcio, mudança de endereço, encarceramento de alguém próximo, mas é na sala de atividades, nas rotinas cotidianas com os grupos que as crianças e adolescentes performatizam os comportamentos de acordo com os acontecimentos.

Cabe não ao Educador somente, mas uma parceria deste com a coordenação pedagógica, assistentes sociais e psicólogos pensar um plano de ação e desenvolver metodologias que acolham os sujeitos envolvidos, que levem em conta seu sofrimento, que estejam em uma escuta ativa que busque incentivar a expressão dos seus sentimentos, principalmente no caso das crianças e adolescentes.

Assim como a tarefa de descolonizar currículos também passa por estratégias de educadores em parecerias com suas coordenações. Algumas podem ser mais resistentes, tanto por afiliações ideológicas e religiosas, mas também por insistir em algo que se julga estar dando certo. Repensar comportamentos, provocar reflexões que gerem tensões e até embates pode ser e na maioria das vezes é desconfortável.

O caminho é longo, cheio de desafios, mas cheio de potencialidade. Como educadora que está pesquisando novas práticas, percebi nesses 12 meses de trabalho que a potência da performatividade de resistência está no corpo daquelas crianças e adolescentes. Enquanto achava que precisava mostrar um caminho, uma salvação da opressão colonizadora não enxergava “resultados”, sentia que avançava um passo e retrocedia dois.

Só quando me permiti ouvir mais, enxergar com atenção e estar atenta é que percebi que a resistência anti-colonial está ali. Na experiência diária. Ainda que não dita e ainda que não teorizada. Os saberes de resistência operam constantemente, se revelam no corpo para além do corpo espetacular. O pavio já está ali, só esperando que alguém acenda.