• Nenhum resultado encontrado

2.4. Educomunicação: bases e legado

2.4.2 A educomunicação gerando frutos

O professor Ismar de Oliveira Soares também compartilha da compreensão de Freire no que se refere à relação entre a Comunicação e a Educação. Mais uma vez é o diálogo a base que fundamenta essa ligação. Para ele, a inter-relação entre a comunicação e a educação funciona a partir de algo em comum: a ação comunicativa no espaço educacional, quer dizer, a comunicação entre pessoas, em grupos, nas organizações e de massa feita para a produção e o desenvolvimento de ecossistemas comunicativos a partir da atividade educativa (SOARES, 2002).

No artigo As armadilhas do uso acrítico das mídias de Maria de Fátima Garcia e João Vilhete Viegas d‟Abreu, do Núcleo de Informática Aplicada à Educação – NIED da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) - os autores discutem um projeto no qual, crianças do ensino fundamental I, apropriam-se do uso das mídias e

6

tecnologias da informação para registrar e veicular o currículo que vivenciam, agregando pais e comunidade. Desta experiência deles, a relação entre educação e comunicação também é discutida com base no que pensa Ismar de Oliveira Soares:

O elo entre educação e comunicação se materializa ao questionar não apenas o compromisso político pedagógico da mensagem, forma e conteúdo e interação explícita de comunicar. Mas também, ao questionar o potencial dos ambientes criados a partir de tecnologias educacionais informatizadas em sua capacidade de promover a integração e a participação democrática de todos os indivíduos aos benefícios que produzem (SOARES, 2006, p. 15).

Pesquisar o TV Solidária e sua dinâmica de produção, ou seja, sua mensagem, formato e conteúdos além da interação comunicacional é trazer luz ao entendimento sobre o papel da Televisão no que se refere aos seus pressupostos legais e sociais. Raros trabalhos acadêmicos se debruçaram sobre o tema. O congresso da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) de 2007, realizada em Santos, apresentou um interessante trabalho que analisava o papel educomunicador de um jornalista em específico: Gilberto Dimenstein. O exercício da educomunicação e da cidadania no jornalismo: o

trabalho de Gilberto Dimenstein de Fernanda de Freitas Rodrigues Neves; Isabela

D‟Azevedo Leite; Márcio Alexandre Brambilla; Roberta Parrão Accardo, alunos de conclusão do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, é um dos poucos estudos em que o papel da mídia massiva é analisado sobre o prisma da Educomunicação.

O artigo faz um mapeamento cronológico das principais experiências de pesquisas que reforçaram a existência do campo da Educomunicação como espaço de intervenção social.

No mundo contemporâneo, já estão em operação espaços transdisciplinares que aproximam, tanto técnica quanto programaticamente, os campos da Comunicação e da Educação. Tais espaços foram se constituindo, ao longo do século XX, por estudos teóricos emanados por autores como Skinner (através da teoria do reforço e da recompensa); Freinet (a partir da concepção de educação como sinônimo de expressão); Paulo Freire (ao reafirmar a concepção da “educação para os meios” como atividade inerente aos programas de alfabetização e de educação popular); Martín-Barbero (com a sistematização da teoria das mediações) e Kaplún (com o conceito de comunicador educativo (NEVES; LEITE; BRAMBLIA; ACCARDO, 2007, p. 6).

7

O texto leva à compreensão de um novo ator social identificado no campo da Educomunicação. No final dos anos 90, quando Soares, consolida o levantamento sobre as práticas integradas da educação e da comunicação na América Latina e apresenta a definição de Educomunicação como toda ação comunicativa no espaço educativo e realizada com o objetivo de produzir e desenvolver ecossistemas educomunicativos, ele também reconhece e legitima a figura do educomunicador como o profissional que atua nas áreas do novo campo.

No artigo intitulado “Ética e Educomunicação pelo fortalecimento do Quinto Poder” apresentado por Ana Paula de Moraes Teixeira, do Centro Universitário de Votuporanga – UNIFEV, ao Núcleo de Comunicação Educativa, no XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação, em Belo Horizonte/2003, a autora traz a comparação feita por Bacegga para refletir sobre o espaço de intersecção entre as áreas da Comunicação e da Educação tomando como base o diálogo e a participação social quando Bacegga define o mundo como mostrado nos veículos de comunicação como algo editado pelos meios de comunicação, redesenhado, de onde emerge um novo espaço com a formação de sujeitos conscientes da difícil tarefa de reconhecer os meios como outro lugar do saber junto com a escola. Para a autora,

a Comunicação pela e para Educação é uma preocupação crescente em resposta aos desafios e disparates da pós-modernidade. O problema que devemos refletir a priori – é que os pouquíssimos fins educativos de que dispúnhamos nos meios audiovisuais de difusão aberta, não só saíram do palco midiático como também puderam presenciar a exploração do grotesco como alternativa à guerra pela audiência (BACCEGA, 1999, p. 177-178).

Sabe-se que a efetivação dos direitos humanos de um modo geral, e entre eles o Direito Humano à Comunicação, como condição essencial à dignidade das pessoas, têm um grande adversário no Brasil: a falta, ainda, de políticas públicas de comunicação capazes de garantir que as normas jurídicas (nacionais e internacionais) sejam efetivadas, possibilitando, assim, que os direitos previstos por lei sejam experimentados por todos os brasileiros. Retomando o questionamento inicial deste texto: a Educomunicação para os Direitos Humanos na TV aberta é possível? Vale mencionar que apesar de importantes experiências na área, ainda

8

não há registros documentados sobre projetos voltados para a Educomunicação onde o papel da TV aberta brasileira seja investigado.

Muitos estudiosos, sejam comunicadores ou educadores, estudam a relação entre a comunicação e a educação no ambiente escolar, mas não há estudos específicos sobre o papel educativo da programação oficial da televisão aberta brasileira e sua relação com a educação. Muitos estudam o papel do educomunicador na perspectiva do professor que faz uso das mídias eletrônicas, entre elas, a televisão, para educar na escola/sala de aula, mas poucos usam o conceito de educomunicador como o comunicador social que vai utilizar a comunicação social dentro do papel educativo dos meios de comunicação destinados a um ambiente de aprendizagem que não seja apenas a sala de aula, mas, a sala das residências, como um novo espaço de aprendizagem também neste novo contexto educacional.

Por que há poucos estudos sobre a falta de participação da sociedade, sobre a participação social na televisão, nem na aberta sendo essa privada, pública ou estatal; sendo essa uma concessão pública? Esse “público” são os cidadãos, telespectadores, professores, comunicadores como também o é o aluno. Há que se admitir que há uma carência de pesquisas com o propósito de permitir que a Educomunicação seja efetivada, através dos meios, e assim, possibilite que a TV, de fato, cumpra seu papel social de educar previsto na legislação brasileira, contribuindo para o que Gomes (2007) defende como o Direito Humano à Comunicação. Ainda há muito que se pensar sobre isso.

Nelson Hoineff, jornalista, professor, crítico de TV e produtor independente, em seu artigo A gênese da televisão pública, defende o papel social deste formato de televisão:

A televisão pública deve ter, de saída, dois compromissos essenciais: primeiro com a qualidade, e segundo, com a autonomia, com a liberdade de criar e de se expressar (...) Quanto aos compromissos fundamentais, autonomia e qualidade, estão umbilicalmente ligadas. (...) Uma televisão de qualidade é aquela capaz de abrigar novas formas de experimentar linguagens e desenvolver os próprios modelos narrativos. E isso só é possível num ambiente plural, onde a criação seja livre e diversificada, onde a criação passe por uma qualidade expressiva. A idéia da televisão plural é mais ou menos aceita como um dos padrões essenciais para que se avalie a sua qualidade, e esse é um predicado essencial e completamente intransferível da tv pública (HOINEFF apud CARMONA, 2003).

9

Nesse contexto, o TV Solidária, objeto deste estudo, não é um programa da própria grade da TVU/Recife. Ele é um programa independente dentro de um canal de TV aberta, pública e educativa, ou seja, é produzido totalmente fora da emissora. Todo o material é feito por uma equipe externa e entregue pronto apenas para ser exibido. É feito pela e para a sociedade, com participação social. Pode-se afirmar que tal fato ocorre porque, no Brasil, ainda não há políticas públicas voltadas especificamente para a comunicação/educação/informação. O que leva, muitas vezes, a sociedade civil aos processos de produção de conteúdos pouco vistos na programação das emissoras de Tv ou Rádio, como bem exemplifica o TV Solidária.

Muitos autores endossam o papel social da TV de forma global e não específica, pontual. Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo, jornalista, professor da Escola de Comunicação, Artes da USP, fundador e diretor da ONG TVer, tem sua linha de estudos voltada para a comunicação pública e, em um dos seus conhecidos artigos Por uma rede nacional de TV pública, ele fala das funções e peculiaridades do sistema público de TV:

Abrir para a experimentação e a criatividade deve ser a missão central da televisão pública. A ela se associa o papel crítico da própria televisão que só uma emissora não-comercial pode fazer, fenômeno já registrado várias vezes na programação da TV Cultura de São Paulo e finalmente, o mais importante: oferecer ao público programas de qualidade em toda a sua grade horária, e não só em alguns momentos como fazem esporadicamente algumas redes comerciais (LEAL FILHO apud CARMONA, 2003).

Mais uma vez, verifica-se que no campo da pesquisa há reflexões que levam, inevitavelmente, a questionamentos e cobranças sobre o cumprimento do papel social da televisão, independente de seu caráter público ou privado, já que todas são concessões do Governo Federal. Neste contexto, o TV Solidária pode ser considerado um programa experimental, já que surge de uma experiência que difere dos moldes da programação formal das TVs, sobretudo no que diz respeito à sua concepção e produção. Ele também é provido de papel crítico, como defende Lalo Leal, papel esse representado pelas inúmeras vozes que o compõem e, às vezes, até divergem. No entanto, o que parece divergir mesmo do pensamento do autor é o fato de que o programa se configura como parte dos “momentos esporádicos” e não

0

integrante da grade de programação, o qual o autor critica na TV pública porque considera este um vício da TV comercial.

Mas, se a Comunicação, a Educação, o diálogo e a participação social se encontram em algum local da vasta programação da TV brasileira, é bem provável que este ponto seja o Programa TV Solidária. Há pistas que leva a isso. É cada vez mais frequente observarmos os públicos reivindicando serem ouvidos, sejam na seção Cartas ao Leitor dos jornais impressos, sejam nos programas de rádio através de telefonemas ou painéis interativos da internet. Esse processo de reivindicação de participação nos meios é crescente. A demanda por interatividade na Era da Informação está levando o telespectador, leitor, ouvinte a responder mais aos meios de uma maneira ainda tímida, é verdade, mas certamente mais ativa. O que o público espera é reconhecer-se nos meios. A inclusão de grupos diferenciados na esfera pública garante o discurso heterogêneo dos cidadãos, da sociedade, no qual as identidades sociais podem ser afirmadas e os interesses coletivos expressos. A ausência dos públicos nos meios pode gerar distorções como exemplifica Husband,

A falta de reconhecimento de tais identidades na comunicação pública pode conduzir a uma “proliferação de guetos comunicativos em que audiências relativamente homogêneas consomem uma dieta estreita da informação, entretenimento e valores” (HUSBAND, 1998, p. 143).

E é justamente isso a que essa pesquisa se propõe: identificar se esta experiência se configura em algo de fato participativo, dialógico, múltiplo, educomunicativo – com suas nuances e especificidades. É sabido que, para tanto, vamos precisar lançar mão de abordagens metodológicas eficientes que nos levem a investigar as especificidades do programa e dos sujeitos envolvidos com o processo e a fim de que diversas possibilidades sejam checadas e validadas. Quando se alcançar tais objetivos, vamos ter desvendado uma experiência que, certamente, será de grande valia para o campo da pesquisa em Educomunicação no Brasil.

1 3 METODOLOGIA

O objetivo da pesquisa apresentada não pretende explicar o fenômeno analisado, apenas visa entender as relações entre os fatores e/ou elementos que a envolvem, por isso, pode-se categorizá-la com uma tipologia descritiva com o método de procedimento de estudo de caso.

O estudo de caso é o método de pesquisa apropriado para investigação de fenômenos sociais complexos quando há uma grande variedade de fatores e relacionamentos, e que não existem leis básicas para determinar quais fatores e relacionamentos são mais relevantes e quando os fatores e relacionamentos podem ser diretamente observados. Sendo uma categoria de pesquisa em que o objeto é uma unidade que se pretende analisar de forma mais profunda, ele pode ser entendido como um estudo de uma entidade bem definida, como um programa, uma instituição, um sistema educativo, uma pessoa ou uma unidade social. O estudo de caso tem o objetivo de conhecer o seu como e os seus porquês, evidenciando a sua unidade e identidade próprias. É uma investigação que se assume como particularística, debruçando-se sobre uma situação específica, procurando descobrir o que há nela de mais essencial e característico (CARVALHO, 2005).

Com essa escolha, apropriada para analisar um programa de televisão, o controle que o investigador tem sobre os eventos é reduzido. O foco está nos fenômenos contemporâneos dentro do contexto de vida real. No caso, ora em estudo, são as dinâmicas de relacionamento para a elaboração e produção de um programa de TV que têm uma rotina própria no dia a dia de sua execução. A partir disso, investiga-se um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real compreendendo que os acontecimentos não podem ser manipulados. No entanto, é possível fazer observações diretas e entrevistas sistemáticas (PRADO et al., 2009).

Sabendo que numa abordagem desse tipo deve-se procurar representar os diferentes e às vezes conflitantes pontos de vista presentes numa situação social, o relatório do estudo de caso utiliza-se de uma linguagem acessível e, para tanto, elegeu-se este método de pesquisa para que se possa ser visto de forma clara e direta por outros estudantes, pesquisadores e pessoas interessadas em Educomunicação, ávidos por melhor compreender este objeto em específico e a temática de forma mais abrangente.

2

Nesse tipo de abordagem metodológica, vale lembrar que o pesquisador deve primar pelo rigor de seu trabalho, estar vigilante quanto à sua influência no desenrolar do processo para garantir a credibilidade dos resultados da pesquisa. Enquanto método de pesquisa, o estudo de caso revela as muitas facetas de um mesmo objeto de pesquisa, facilitando a compreensão e a construção de análises interpretativas dos fatos, levando em consideração, o contexto em que cada objeto de pesquisa está inserido, assim como as diversas variáveis que interferem em cada fenômeno.

Corroborando com esta descrição dos métodos de procedimentos adotados destaca-se Chizzotti, quando de seu pronunciamento conceitual sobre tal questão:

O estudo de caso é uma caracterização abrangente para designar uma diversidade de pesquisas que coletam e registram dados de um caso particular ou de vários casos a fim de organizar um relatório ordenado e crítico de uma experiência, ou avaliá-la analiticamente, objetivando tomar decisões a seu respeito ou propor uma ação transformadora (1998, p.102).

Tal método de pesquisa seguiu o raciocínio indutivo, ou seja, partiu do particular ao geral. Nesta perspectiva, Cervo e Bervian (2002, p. 32) assinalam:

O argumento indutivo baseia-se na generalização de propriedades comuns a certo número de casos, até agora observados, a todas as ocorrências de fatos similares que se verificam no futuro. O grau de confirmação dos enunciados traduzidos depende das evidências ocorrentes.

Neste método, entende-se de que se as premissas do argumento indutivo forem verdadeiras, não se pode garantir, mas há quase a certeza de que as suas conclusões também poderão ser legítimas. Assim, portanto, por se tratar de um fenômeno interdisciplinar elegeu-se a adoção de um processo de interpretação qualitativa, que se torna fundamental para a correta análise da atividade. Nestes termos, apoia-se em Acevedo e Nohara (2007) quando defendem que o procedimento qualitativo pretende interpretar com profundidade as unidades pesquisadas e os fatos que podem se tornar típicos e generalizá-los a casos similares.

Foi eleito esse método por atender às necessidades e objetivos do estudo de caso do TV Solidária em sua análise de suas práticas educomunicativas e,

3

obviamente, por se tratar a situação em um determinado corte espaço-temporal (programas do TV Solidária exibido pela TV Universitária/Recife entre os anos 2005- 2007) em relação ao tempo, e a pesquisa de campo foi desenvolvida no ano de 2010.

Contudo, deve-se compreender que para sua realização o alicerce necessário é obtido através de dados primários e secundários. Em relação a esses dados, Cervo e Bervian (2002, p. 9) afirmam que

Dados primários são aqueles coletados em primeira mão, como pesquisa de campo, testemunho oral, depoimentos, entrevistas, questionários, laboratórios [...] dados secundários são os colhidos em relatórios, livros, revistas, jornais e outras fontes impressas, magnéticas ou eletrônicas.

Para a coleta de dados secundários foi lançado mão de um referencial teórico robusto sustentado por grandes nomes de estudiosos das ciências da educação, comunicação e educomunicação, utilizando múltiplas fontes, construindo, assim, ao longo do estudo, uma base de dados com o objetivo de formar uma cadeia de evidências. Porém, é inegável que a proposta que foi posta em prática utilizou fortemente o dialogismo de Paulo Freire para confrontar os elementos verificados durante a produção do objeto em análise, o TV Solidária.

Por sua vez, no tocante aos dados primários o universo pesquisado, como afirmado anteriormente foram os programas exibidos pelo TV Solidária durante os últimos 06 anos de exibição, sendo que a amostra correspondeu à parcela de 28 programas que realmente compuseram os propósitos da pesquisa.

Colaborando com esse posicionamento, Marconi e Lakatos (2002, p. 41) afirmam que

o universo ou população de uma pesquisa depende do assunto a ser investigado, e a amostra, porção ou parcela do universo, que realmente será submetida à verificação, é obtida ou determinada por uma técnica específica de amostragem.

No tocante à amostra referida, foi utilizado o processo de amostra não- probabilística por julgamento, segundo Acevedo e Nohara (2007, p. 56):

4 os sujeitos são selecionados segundo um critério específico de julgamento do investigador, que baseia sua decisão em suas crenças sobre o que o elemento selecionado possa oferecer ao estudo.

Duas técnicas para a coleta dos dados foram utilizadas nesta pesquisa para identificar aspectos específicos. A primeira delas foi a análise documental e a segunda o grupo focal, como será exposto a seguir.