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A efetivação de um sonho protestante: o ideal de progresso

4. METODOLOGIA

6.2 A efetivação de um sonho protestante: o ideal de progresso

Quando Samuel Rhea Gammon chegou ao Brasil, ele veio fazer parte de um projeto já em andamento de estabelecer-se uma cultura protestante no país, através de um empreendimento educacional. A missão americana já se encontrava aqui desde 1869 (Gammon chegou em 1889) e pretendia criar uma

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elite protestante no Brasil, que comungasse dos valores luteranos e calvinistas já analisados no capítulo 2. Para conseguirem tal fim, buscaram letrar os jovens brasileiros por meio de uma escola que se pretendia liberal em sua constituição e forma de ensino. A escola não permitia proselitismo, deixando a pregação a cargo da Igreja Presbiteriana, porém via-se, nas próprias palavras de Rhea Gammon, que ele concebia a escola como um meio para se chegar a um fim, isto é, a educação era uma ponte para a instituição de uma cultura protestante.

Assim escrevia em 1904:

Hoje a nossa escola de rapazes foi aberta! Graças a Deus eu vi esta esperança realizada! Mas não era tanto a escola, como os resultados, o que eu mais desejava. A escola, no meu sonho, era apenas um meio para um fim. O fim é a preparação de moços para uma vida útil, para serviço honrado e abençoado, na Igreja de Deus no Brasil e, especialmente, para o bendito ministério do Filho de Deus.Oh! Que Deus não permita que o meu sonho seja realizado somente quanto a seu lado material!

(Diário de Rhea Gammon, 1904, p.56). (Grifo nosso)

Por esta passagem, vêem-se os primeiros valores pretendidos por Gammon, a preparação de pessoas que pudessem converter-se à fé reformada e espalhar os ideais cristãos por estas terras, se não bárbaras, pelo menos exóticas para a cultura protestante, a qual estabelecia uma missão civilizatória para o Brasil apoiando-se no ideal de progresso.

Em 1893, quando retornou de suas férias dos Estados Unidos para Lavras, já havia escrito:

Este é um dia importante na minha vida. Hoje volto ao meu verdadeiro campo de trabalho e estou a pique de encetar a grande obra que tenho

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diante de mim. Na verdade, os campos estão brancos13 - brancos, em razão da grande necessidade que o povo tem do Evangelho; brancos, em razão da prontidão de muitos para ouvir as alegres novas. Mas ao assumir esses árduos e solenes deveres, quão fraco me sinto! Quão inteiramente incapaz de realizar a vasta obra que tenho pela frente! Quanto necessito da divina graça e sabedoria para discernir o que de melhor deve ser feito, sabedoria para conhecer como me conduzir diante de meus irmãos, de modo que não produza atritos, sabedoria para saber como ganhar homens para Cristo! Oh! Como anseio ser um pescador de almas! Essa noite eu me consagrei, de novo, como uma oferta a Deus. Que Ele possa usar-me para realizar a sua vontade, na salvação de pecadores.

(Diário de Rhea Gammon, 1893, p.29). (Grifo nosso).

Claramente, o Reverendo já sonhara em converter pessoas para Cristo – entenda-se para a fé protestante – e, mesmo, sentindo-se incapacitado para isso (é bom lembrar que o protestantismo histórico sempre pregou a falibilidade do homem), oferece-se a Deus como instrumento de uma obra maior, que ele via não sua, mas dele.

Pelo prospecto publicado em 1908, citado no capítulo anterior, já se mapeiam os objetivos e justificativas para a criação de uma escola agrícola no Instituto Evangélico. E pela sua leitura já se percebem alguns dos mais caros elementos da cultura protestante, como a valorização do trabalho, que se viu ser em Calvino uma manifestação da graça obtida, aliados a uma cultura positivista ainda vigente, que exaltava os ideais de Pátria, Ordem e Progresso. Esta constelação de valores protestantes e positivistas, inter-relacionados em um mundo ainda pós-saído da Fisiocracia, que via na terra a fonte de riqueza e, em um país que se considerava determinado por uma “vocação agrária”, resultariam na fundação da Escola Agrícola de Lavras. Trabalho, dignidade

13Aqui, Rhea Gammon faz referência ao Novo Testamento, quando Jesus afirma, em João 4:35: “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa.”, tentando, com esta frase convencer seus discípulos a iniciarem logo o processo de evangelização do mundo.

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moral, valor da terra, ordem, patriotismo e progresso, eis os valores fundantes da Escola Agrícola.

Nas impressões que os visitantes deixavam registradas nos dois “cadernos de visitas” identificados, um retrata as duas primeiras décadas do século XX e o outro as décadas de 50, 60 e 80 do mesmo século, mostrando como estes valores foram institucionalizados na memória coletiva da Escola Agrícola. À medida que os visitantes iam escrevendo suas lembranças e congratulações nas páginas daqueles cadernos, iam-se formando aos poucos, ou pelo menos vindo à tona, os valores que de fato representaram a fundação da Escola Agrícola, ou que foram eleitos por estes visitantes como tais. É importante ressaltar também que as memórias são comuns à Escola Agrícola e ao Instituto Gammon, pois aquela fez parte deste até o ano de 1963. Portanto, entre 1908 e 1938, imergimo-nos em uma temporalidade histórica em que ambas as instituições estavam aglutinadas em uma única, comungando dos mesmos valores e, portanto, da mesma memória.

Ler estas impressões é percorrer os labirintos desta memória. Ora claramente enunciadora dos pressupostos desta pesquisa, ora nem tanto, mas sempre reveladoras de que uma organização não se rege apenas por uma racionalidade restrita à adequação de determinados meios a determinados fins, quase sempre econômicos. Mas existe uma outra realidade que serve de parâmetro para a tomada de decisão que fundamenta-se em valores, normas e comportamentos coletivamente produzidos e aprendidos pela sociedade. Valores que se entranham nas pessoas como plasma, e chegam a deixar parecer imanente e inato o que de fato foi aprendido e institucionalizado.

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