2 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO LAZER E SUA TRAJETÓRIA CIENTÍFICA
2.5 A EFETIVIDADE DO DIREITO AO LAZER NO BRASIL
A partir do conhecimento sobre algumas particularidades das políticas públicas, percebe-se que a elaboração das mesmas ainda carece de elementos
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forma, é preciso conhecer algumas dessas necessidades, as quais, mesmo garantidas legalmente, muitas vezes são negligenciadas.
A promulgação do Decreto-lei n. 5.452, em 1943, que dispôs sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), foi recebida como um avanço nas relações sociais brasileiras e um passo decisivo para o desenvolvimento econômico, social e humano da classe trabalhadora. Segundo Pinto (2009), a CLT dispôs sobre um período mínimo de descanso para os trabalhadores (art.
66); intervalo para repouso/alimentação no trabalho (art. 71); remuneração para repouso semanal (do art. 67 ao 69), feriados (art. 70) e férias (do art. 129 ao 153).
Nesse momento histórico, como resultado de uma longa batalha social, a conquista de direitos representou o reconhecimento do indivíduo como cidadão. Ao lado dos direitos civis e políticos, os direitos econômicos, sociais e culturais passam a constar na agenda internacional, sendo considerados como uma prerrogativa essencial de respeito à vida e à dignidade humanas.
Mascarenhas (2005) e Pinto (2009) ressaltam em seus estudos que,
>XY$'«£Y pela Resolução da III Sessão Ordinária da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário, o lazer, assim como a saúde, a educação, a habitação etc., passam a adquirir o status de direitos sociais básicos. Declaração que, atualmente, refere-se aos direitos humanos e, segundo a qual, todo indivíduo tem direito ao lazer, tratado diferentemente do tempo de repouso.
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X }Y que pode ser explicado pelo fato do direito a esse “tempo”, no Brasil, ter
sido criado e sustentado num contexto histórico no qual o capitalismo, para se sedimentar no País, precisava dos aparatos legais e da formação de valores básicos ao novo modo de produção.
[`[Y \K Estado e o mercado sem (na sua gênese) a participação dos trabalhadores, foi usada para disciplinar os corpos, os trabalhos e os tempos cotidianos da classe trabalhadora. Para Pinto (2009), mesmo revestida de caráter de doação, representando uma forma de adaptação ao sistema socioeconômico e político requerido pelo capitalismo, a CLT inaugurou um fato “novo” – ou seja, o reconhecimento legal de um “tempo social” que abriu espaço para experiências [=KY[Y}Y=
sendo reconhecido que o essencial da vida dos atores sociais se desenrola para além do tempo dedicado ao trabalho remunerado.
A implementação da CLT gerou a elaboração e a execução de “políticas de atividades recreativas” de caráter assistencialista e corporativista, privilegiando apenas um grupo social mais organizado, com vistas a ocupar o “tempo de não-trabalho” regulamentado. Isso contribuiu para acentuar as desigualdades sociais relativas ao direito ao tempo de lazer, uma vez que a K>XK>XY tempo, restrito aos trabalhadores assalariados urbanos.
Os estudos de Pinto (2004) demonstram que as “políticas de atividades”, de caráter nacional, promovidas pelo Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Social do Comércio (SESC), criados em 1946, aparentemente tratavam dos problemas relacionados à organização de vivências em um tempo social de
“não trabalho”. Este modelo encontra-se baseado em princípios funcionalistas que tinham como objetivo explícito a promoção da recreação como distração, descanso e recomposição da força de trabalho, mantendo diferenças na posse da vida cultural a ser vivida nesse “tempo” pelos indivíduos das diferentes camadas sociais.
Nos anos de 1980, o setor público continuou a viver os problemas [YY}Y
como o crescimento econômico irregular no país, a pobreza, as desigualdades sociais, a insegurança pessoal. No início desta década, o lazer não era incluído nos dilemas sociais. A apropriação cultural consumista promovia vivências acríticas de lazer. E esse período foi também marcado pelo aumento da participação dos atores sociais nos processos de democratização, gestando \ > \Y [ \
nas políticas de lazer. As grandes mobilizações democráticas marcam um
“novo” momento histórico – como a campanha pelas “diretas já” e o nascer de formas de participação dos cidadãos na formulação e gestão das políticas implementadas a partir da Constituição Federal de 1988.
Assim, depois de longo período de privação de liberdades democráticas, a década de 1980 culminou com a promulgação da Constituição Federal de 1988, avançando-se quanto à ampliação/extensão dos direitos sociais e
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A Constituição Brasileira (BRASIL, 2012), aborda a questão do lazer em diferentes enfoques. No capítulo II – Dos Direitos Sociais, no artigo 6º, ao tratar Dos Direitos e Garantias Fundamentais, inclui o lazer como um desses direitos, juntamente com a saúde, o trabalho, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados.
Também no artigo 7º, ao tratar dos direitos sociais, há referência aos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, no parágrafo IV, sendo que o lazer aparece como uma das necessidades básicas que o salário mínimo deve atender.
No título VIII da Constituição, quando trata da Ordem Social, no capítulo II – Da Educação, Da Cultura e Do Desporto, na seção III do Desporto (art. 217- parágrafo 3º) o incentivo do poder público ao lazer é incluído como forma de promoção social (BRASIL, 2012).
No entanto, a inclusão do lazer nesta Carta Magna, apesar de representar algum avanço, no que se refere ao reconhecimento do lazer no conjunto dos direitos sociais, manteve-se, nessa legislação, com uma conotação estigmatizante e questionada por muitos. Sobre isso, Marcellino (2001) analisa
a inclusão do lazer no Título VIII, Capítulo III, seção III, Do Desporto, art.
217, § 3o e último parágrafo do item IV, que diz: “o Poder Público incentivará o lazer, como forma de promoção social” (BRASIL, 1988, não paginado). Para o autor, a expressão “promoção social” é carregada de vícios assistencialistas, compreendendo o lazer como uma “utilidade”, e não como um dos fatores para o desenvolvimento social e humano.
Numa nova fase de avanços, foram aprovados o Regulamento Geral da Conferência Nacional do Esporte e as normas básicas de sua primeira reunião (BRASIL, 2008), estes embasados pelo art. 87 (parágrafo único, incisos II e IV) da Constituição e no Decreto de 21 de janeiro de 2004.
w ={ democratização e a proposição de princípios e diretrizes para a elaboração da Política Nacional do Esporte e do Lazer, criando assim o Sistema Nacional de Esporte e Lazer (SNDEL), tendo por base o regime de colaboração entre a União, os Estados e Municípios, com ênfase na municipalização do esporte recreativo e do lazer.
[...] consolidando o esporte e o lazer como direitos sociais e guiando-se pelos princípios da democratização e inclusão social, articula, integra, promove e estabelece relações éticas de parcerias entre as entidades da sociedade civil, instituições públicas e privadas, em torno do esporte educacional, de participação e de rendimento, valorizando a acessibilidade, descentralização, intersetorialidade e multidisciplinaridade das ações esportivas e de lazer (BRASIL, 2008, não paginado).
O Sistema Nacional de Esporte e Lazer surge com o objetivo de consolidar a Política Nacional do Esporte, bem como de criar mecanismos que garantam a execução e acessibilidade da mesma em todas as esferas da federação, além de
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Nas diretrizes do Ministério do Esporte (BRASIL, 2008), que é o responsável pela elaboração das Políticas Públicas de Lazer em nível
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esferas estaduais e municipais (Secretarias, Fundações, Autarquias), com >Y } \ de desenvolvimento, para a implementação e a continuidade de políticas de K?YXY prazo máximo para essa criação.
Percebe-se, portanto, que o acesso ao lazer – compreendido como direito social básico, ao lado do trabalho, da educação, da saúde, da habitação etc. – pode ser entendido como pressuposto de cidadania e qualidade de vida;
e é dever do poder público garantir a execução de políticas que, efetivamente, consigam cumprir com este papel. É necessário que seja priorizado o acesso às Políticas Públicas de Lazer, ou seja, a participação do cidadão em programas, projetos e ações de lazer, no exercício de seus direitos, garantidos pela Constituição de 1988. Para Pinto (2009, p. 36, grifo da autora), “[...]
na perspectiva da ‘acessibilidade’, o lazer é tempo/espaço/oportunidade de }Y{k
A questão da acessibilidade às Políticas Públicas de Lazer, portanto, depende de políticas que considerem, como prioridade, o cumprimento dos direitos sociais e o atendimento à inclusão com equidade.
As desigualdades produzem profundas segregações, abalando as bases estratégicas de vida dos excluídos. Por isso, uma política de “inclusão com eqüidade” nos coloca diante do reconhecimento e da valorização das necessidades das pessoas e seu desenvolvimento social e humano, fruto de ações em um conjunto de condições objetivas e subjetivas que proporcionam a qualidade de vida (PINTO, 2009, p. 29).
Mas, o que se percebe é que não há clareza de como o poder público assegurará o cumprimento desses direitos sociais. Até mesmo a população, em meio à rotina extenuante de trabalho, não percebe a importância que o lazer tem em suas vidas e não o relaciona a um direito básico de felicidade, de prazer e K>Xk=¢>Y Magnani (2003), no qual o autor esclarece que a “ressonância social” do lazer é bastante diferente daquela que trata os outros aspectos da vida cotidiana,
ditos como mais sérios e urgentes, como o saneamento, o asfaltamento da rua, a saúde, entre outros.
&wwY <"*Y = [ caracterizar dois aspectos interessantes a serem analisados: um, a discriminação ainda latente sobre o tema lazer; e o outro, é que as pessoas vivenciam o lazer, e este possui importância em suas vidas, mas, muitas vezes, estas não [=KKY=k
De fato, a observação da prática do lazer na sociedade moderna é marcada por fortes componentes de produtividade. Valoriza-se a “performance”, o produto e não o processo de vivência que lhe dá origem; estimula-se a prática compulsória de atividades denotadoras de moda ou “status”.
Além disso, o caráter social17[Y
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férias, ou, mais drasticamente, para a aposentadoria (MARCELLINO, 1987, p. 28).
A possibilidade de vivência do lazer nem sempre faz parte da vida das pessoas, pois algumas barreiras socioculturais, que podem existir entre as diversas classes sociais (interclasses) ou dentro das próprias classes sociais (intraclasses), mostram-se como fatores limitantes a esse acesso.
De acordo com Marcellino (1996b), além das barreiras supracitadas, outras também impedem o acesso amplo e irrestrito das pessoas ao lazer, como o gênero – as mulheres com sua jornada dupla usufruem menos do lazer – e a faixa etária – as crianças e idosos são esquecidos nas formulações de políticas públicas de lazer.
Nem todos têm, por exemplo, a possibilidade de acesso ao lazer, propriamente dito, aos espaços públicos e aos equipamentos de lazer das cidades, seja por falta de condições econômicas, que limitam o próprio deslocamento para ter acesso a estes, seja por falta de políticas públicas de KYY{]\>X sociocultural para os espaços, e de uma democratização cultural.
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grupos (RIESMAN, 1971).
ww>X=>XY =>X \Y [ Y via da educação “para e pelo lazer”, uma compreensão das pessoas em relação a si próprias, ao outro e ao meio ambiente, buscando incentivar a participação coletiva em busca de soluções para os problemas econômicos, sociais e ambientais de sua cidade (ISAYAMA, 2002). Deve estar pautada no compromisso pedagógico de aprofundamento teórico-prático; de engajamento político na sociedade; de sensibilidade para valorizar e respeitar os diferentes olhares sobre a realidade; de compreensão mínima das diversas manifestações/
linguagens culturais como estratégia e objetivo de intervenção, entre outros compromissos.
Nesse sentido, é preciso reconhecer que há diferenças socioculturais e econômicas, e limites de acessibilidade ao lazer de certos indivíduos e grupos sociais, cabendo ao poder público minimizar tais diferenças e barreiras com \ K K oportunidades, buscando a democratização do acesso à vivência cultural do lazer.
[...] a “democratização” (direitos sociais ao alcance de todos) implica
“inclusão” que requer “eqüidade”. Essas, por sua vez, implicam
“acessibilidade” (vivência concreta das oportunidades disponíveis) dos sujeitos e grupos às oportunidades de lazer (PINTO, 2009, p. 32).
No entanto, geralmente há uma verdadeira metamorfose no entendimento da noção de direito, com o direito de propriedade contraditando com os direitos sociais, com o direito do consumidor sobrepondo-se aos chamados direitos de kY|YK\
propriedade, o qual apenas uma minoria pode ter acesso.
Somente de posse deste “direito”, adquirido numa relação de compra e venda, efetuada no mercado nem sempre de modo direto, que o cidadão-consumidor, como proprietário, pode valer-se do direito ao consumo, usufruindo, desfrutando, fruindo ou gozando de um determinado complexo de experiências lúdicas proporcionadas por aquilo que doravante
convencionaremos chamar por mercolazer, forma contemporânea e tendencial de manifestação do lazer como mercadoria (MASCARENHAS, 2005, p. 105-106, grifo do autor).
A cidade contemporânea tem sido lugar de contradições e lutas simbólicas, alicerçadas pelo capitalismo. Nesse cenário, tanto a cidade quanto o lazer acabam virando mercadorias.
Atualmente, a manifestação do lazer é uma característica fundamental na vida urbana, no cotidiano das pessoas e no seu tempo disponível nas k K [ = K cidades, é preciso compreender os processos de urbanização e a dinâmica das cidades, assunto a ser tratado no próximo capítulo.